Neolinguagem: pensamentos sobre as neoflexões

Utilizarei aqui o termo neoflexão para me referir a toda nova flexão de gênero que não esteja prevista dentro da língua padrão.

Como foi explicado na página sobre neolinguagem, a proposta não é perfeita. Quando destrinchamos as infinitas possibilidades que ela abre, nos deparamos com nuances que mostram opções e também limitações e questões sem uma resposta.

Embora quase tudo que for colocado aqui ainda se encontra num campo muito hipotético, o que pode ser usado para desconsiderar tal discussão, o fato de que essa proposta e seus horizontes ainda estarem muito na teoria nos dá uma liberdade maior de expandir as ideias, mesmo que fiquem para um futuro distante ou mesmo que nem venham a ser aplicadas.

1- Casos em que a neoflexão –e pode não ser suficiente

Apesar de –e ser uma neoflexão muito aderida e muito provavelmente será a oficializada, ela sozinha não garante uma neutralidade real e absoluta para todas as palavras e situações.

Há uma quantidade considerável de palavras que não evidencia um determinado gênero só por uma letra ou mesmo sílaba em seu final, mas também pela pronúncia de uma parte da palavra.

Vejamos os seguintes exemplos:

Sogro / Sogra

Curioso / Curiosa

Novo / Nova

Apenas na escrita podemos reparar na mudança de flexão. Só se muda uma letra. Agora, lendo as palavras, percebemos que a letra que antecede à desinência de gênero também possui sons diferentes. Em palavras flexionadas com –o, seu tom é fechado (ô). Em palavras flexionadas com –a, seu tom é aberto (ó). No plural das palavras flexionadas com –o, quase sempre o tom é aberto.

Então vamos à questão principal aqui: colocar apenas –e no fim dessas palavras realmente as torna “neutras”? Isso é suficiente? Isso rompe mesmo com o binarismo presente em nossa língua? São apenas reflexões.

Talvez haja pessoas que não se importem e optem por um tom de o, ou mesmo alternem entre ambos os sons. Mas é possível que a sonoridade da letra, que continua tendo em si uma carga de gênero binário, possa incomodar ou não deixar todas as pessoas satisfeitas.

Como resolver isso, sendo que só conseguimos pronunciar esses dois tons da letra o?

Uma solução possível seria a letra u, que é muito próxima de o e possui só um tom.

Então, talvez, poderíamos propor para palavras terminadas em “o tonalizado” + consoante(s) + e a alternativa u-(x)-e. Então teríamos nesses casos: sugre, curiuse, nuve. Entendo que possam soar estranhas, mas toda novidade soará assim. Entendo também que essa proposta não seja para logo, pois no momento o mais prático é ensinar alternativas mais fáceis de se lembrar e praticar.

Um par de palavras que evidencia a sonoridade com acentos é avô e avó. Indo pela lógica aplicada aqui, uma alternativa possível para esse par seria avu; muito embora avo, mudando o som átono de a e dando uma segunda função a essa palavra no plural (pois avos é uma descrição numérica de frações), possa ser uma opção válida.

Melhor do que impor uma única opção alternativa é abrir possibilidades. Embora avô-avó tenham um peso social maior, as demais palavras deveriam estar abertas aos gostos de sues falantes e usuáries. Seja pronunciando um tom, ambos os tons de o, ou usando u.

Pode haver casos em que as pessoas vão preferir um som de o para não se confundir com outra palavra, como em morte (no caso, adjetivo alternativo de morto/morta) ou o próprio exemplo do número nove.

2- Mais de uma proposta de neoflexões neutras universais

Tratando-se de propostas de alternativas de flexões, há pouquíssimas opções propostas. As alternativas ensinadas aqui no blogue são em sua maioria as mesmas que têm maior aderência por todes que optam por uma neolinguagem inclusiva (digo isso por experiência e pesquisa nos meios virtuais).

No caso do par –ão e –ã, a alternativa mais comum e aceita é –ane quando se trata da neoflexão neutra. Porém, não deveria ser proibido ou barrado o uso de –ãe, por mais que muites achem estranho o som de irmãe ou capitãe. Inclusive, eu mesme havia pensado em adotar essa neoflexão como neutra universal. Acabei optando pela outra mais por causa de sua aderência maior nos espaços virtuais.

Ocasionalmente vejo por aí pessoas sugerindo a neoflexão –us em vez de –ies, no caso de palavras em que o plural “masculino” é –es. No entanto, vejo pouquíssima gente a usando, e parece que “trabalhadorus” e “professorus” não soam nada agradável para uma maioria. De novo, nada deveria ser impedido. Porém, não confio que essa neoflexão passará adiante.

Embora um assunto pouco discutido, as flexões –eu e –eia também possuem mais de uma proposta. Aqui propus –ei. Em outros lugares é possível achar –eie. Qual é a mais aderida? Sinceramente, nem sei, pois quase nem vejo essas flexões sendo faladas por aí. Tópicos deixados assim em aberto também são um problema.

3- Muitas opções de neoflexões individuais

E aqui entramos num território mais complicado: linguagens individuais.

Está certo que a grande maioria das pessoas que usam neolinguagem pra si usa exclusivamente a neoflexão –e, que também é praticamente aceita como “neutra universal”. Ela funciona muito bem e sua aderência é muito positiva.

Agora, considerando que outras pessoas queiram usar para si outras neoflexões, temos algumas complicações. Por enquanto vou focar nas vogais e semivogais. Além de O, A, E, temos também I e U; e também Y e W. Na página sobre neolinguagem tem as regras de mudanças pensando na neoflexão –e. Vou usá-las como parâmetros.

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –i.

  • –go/–ga, alternativa –gui.
  • –co/–ca, alternativa –qui.
  • –ão/–ã, alternativa –ani.

Até aqui essas terminações funcionam igual a com neoflexão –e. Mas então chegamos às divergências:

  • –eo/–ea: alternativa com –i? Teríamos então gêmi, contemparâni?
  • –e/–a: alternativa com –i? Teríamos então parenti, presidenti?
  • –eu/–eia: alternativa com –ei? Igual –e?

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –u.

  • –go/–ga, alternativa –gu.
  • –co/–ca, alternativa –cu.

Até aqui, possível. Mas então chegamos às divergências:

  • –ão/–ã, alternativa com –ãu?
  • –eo/–ea: alternativa com –eu? Teríamos então gêmeu, contemparâneu?

Bem, até aqui parece funcionar bem, pois a estrutura é como a do gênero gramatical masculino, apenas trocando o por u. E quanto a esses casos abaixo?

  • –e/–a: alternativa com –u? Teríamos então parentu, presidentu?
  • –eu/–eia: alternativa com…?

As questões que seriam geradas pelo uso de Y e W são praticamente as mesmas de I e U, respectivamente, apenas mudando as letras finais.

Concluindo, tudo que foi colocado aqui só reforça que precisamos discutir mais a fundo sobre a neolinguagem, tanto para formular uma proposta de neutralidade padrão quanto considerar outras possibilidades. Estamos expandindo a língua de uma forma que até então nem havia sido pensada ou ao menos exposta dessa maneira. Até lá, essas questões continuam sem respostas.

Outerinidade

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Este é outro conceito formulado por mim em meio a pesquisas e reflexões minhas sobre gênero. Isso foi em 2018, e a postagem onde citei o termo pela primeira vez é essa.

Dentro desse tema, existem quatro grandes projeções/arquétipos/essências/qualidades usades para explicar e/ou definir identidades de gênero, expressões de gênero, e experiências relacionadas a gênero. Elus são: feminine, masculine, neutre e andrógine. Ou seja, aqui temos quatro conceitos: feminilidade, masculinidade, neutralidade e androginidade. Além desses, podemos incluir a nulidade (a ausência de gênero) e a xeninidade (concepções de gênero totalmente fora de lógicas e ideias humanas ou convencionais).

Pois bem. Apesar disso tudo, dentro do que sei e entendo, percebi que faltava ainda mais um conceito, um conceito que pudesse englobar o que não era feminine, masculine, neutre, andrógine, mas que não era também nule, nem xenine.

Já existe na anglosfera esse mesmo conceito, mas com um nome derivado de duas identidades de gênero: maverique e aporagênero. Eu quis cunhar um novo nome e conceito por motivos de: não queria algo que remetesse a essas identidades específicas e suas definições, não queria algo que implicasse ter relação com identidades criadas num contexto ocidental, e queria uma palavra nova e mais abrangente sem controvérsias.

Pensei e pensei, e me veio outerine; consequentemente, o adjetivo outerinidade.

Antes de tudo, ressalto que outerine não é xenine, pois ainda é uma concepção que existe dentro de lógicas e ideias humanas e convencionais. É apenas tudo que preenche um vácuo deixado entre os quatro conceitos “principais”, e que também é algo presente (ou seja, não é nule). E não é apenas ume quinte (ou sétime) projeção/arquétipo/essência/qualidade. Outerine engloba tudo que ainda não tem um nome, e que não pode ser explicado apenas pelos conceitos que já existem.

Costumo fazer analogias com cores quando vou falar desses assuntos. Vou colocar dessa forma: se feminine é rosa, masculine é azul, neutre é cinza, andrógine é roxo, e nule é transparente, outerine seria amarelo, verde, laranja, etc. Poderia até ser as cores que humanes não conseguem ver, como infravermelho e ultravioleta. E xenine? Bem, pode até ter todas as cores possíveis, mas é um conceito que vai muito além disso.

Tudo isso é extremamente subjetivo, mas ainda coisas que podemos imaginar, mentalizar, experienciar, ou sentir de alguma forma. Portanto, outerinidade fará mais sentido para quem consegue se encaixar de alguma forma nesse conceito.

Enfim. Explicando com exemplos mais concretos, outerine pode ser algo:

  • totalmente único e sem relação nenhuma com os conceitos anteriores; ou
  • que, embora seja único, pode ainda ser comparado com os conceitos anteriores; ou
  • novo que surge de combinações entre dois ou todos os conceitos anteriores.

Vou dar exemplos de identidades que são ou podem ser outerinas e explicar cada um:

Maverique: dentro de seu conceito, outerine faz todo sentido.

Aporagênero: dentro de seu conceito, outerine faz sentido, embora pessoas não precisem se encaixar estritamente na definição.

Egogênero: um gênero único e exclusivo da própria pessoa pode ser outerino.

Antigênero: a “qualidade oposta” de um gênero pode ser outerina, visto que a ideia de oposto aqui não é algo como “feminine-masculine”.

Intergênero: um gênero influenciado por intersexualidade pode ser outerino, se qualquer outro conceito não se aplicar aqui.

Neurogênero: um gênero influenciado por neurodivergência pode ser outerino, se não for xenino e não puder ser explicado por nenhum outro conceito.

– Qualquer identidade indefinida/desconhecida/incompreensível: se nada do que já existe consegue descrevê-la, talvez outerine consiga ou possa servir.

– Qualquer identidade com definições muito amplas: alguém que se define apenas como não-binárie, ou genderqueer, ou homem não-binárie/mulher não-binárie, e etc pode talvez explicar sua identidade como outerina.

Identidades culturalmente restritas: se e somente se a pessoa acreditar que todos os conceitos já mencionados não se aplicam à sua identidade, e deseja um conceito para se descrever.

Com certeza poderia haver outros exemplos, mas acredito que até aqui está evidente quais identidades de gênero são ou podem ser outerinas por natureza.

Ressaltando que outerine não é algo apenas para identidades. Pessoas também podem definir sua expressão de gênero como outerina, ou dizer que seu gênero tem alguma conexão com outerinidade, enfim.

Ah, e só de curiosidade, um ano depois de eu formular esse conceito acabei descobrindo que o mesmo serve para descrever minha própria identidade de gênero. Coisas da vida, né?

Acredito que isso é tudo que eu poderia explicar sobre o conceito de outerinidade.

Não-conformidade de linguagem

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Não-conformidade de linguagem é um conceito que formulei em 2018. Aqui, nesta postagem, explorarei melhor as implicações e os usos desse conceito. Mas quem tiver curiosidade pode ver a postagem original aqui.

Em termos gerais, uma pessoa não-conformista de linguagem (NCL) é toda pessoa que não usa uma linguagem de gênero aceita dentro de um idioma, ou imposta de acordo com determinada identidade de gênero.

Portanto, as pessoas inclusas nesse conceito são:

– pessoas binárias que usam exclusivamente a outra linguagem não associada a seu gênero;

– pessoas não-binárias que usam exclusivamente a outra linguagem que não lhes foi designada;

– pessoas que usam exclusivamente ou não uma sintaxe neutra possível;

– pessoas que usam ambas as linguagens validadas num idioma binarista;

– pessoas que usam uma linguagem validada dentro do idioma, mas não prevista para ser usada por alguém;

– pessoas que usam neolinguagens e outras opções fora das normas;

– e pessoas que usam qualquer ou todas as linguagens possíveis.

O conceito foi pensado mais no contexto da língua portuguesa, que tem vários elementos que compõem uma linguagem pessoal (artigos, pronomes, desinências, etc). Dependendo do país e seu idioma, o nome pode ser adaptado para “não-conformidade de pronome” (ex: inglês) ou alguma outra opção. A ideia continua a mesma.

Pensei nesse conceito tendo como inspiração o conceito de não-conformidade de gênero (NCG), que é toda pessoa com uma expressão de gênero fora das normas sociais. Tecnicamente, NCLs estão dentro de NCG, pois a linguagem pessoal é parte da expressão de gênero.

O conceito foi formulado considerando a questão específica do exorsexismo linguístico ou do binarismo de gênero refletidos em idiomas e suas culturas.

Logo, não é uma questão que atinge pessoas binárias (cis, trans, ipso, etc) que estão de acordo com a linguagem atribuída a seus gêneros, e que usam exclusivamente essa linguagem. Pessoas cis têm o respeito a sua linguagem garantido, enquanto pessoas cisdissidentes terão a linguagem respeitada ao terem seu gênero reconhecido (o desrespeito nessa situação envolveria cissexismo, mas sem exorsexismo).

Essa questão talvez não atinja também pessoas fora do binário de gênero que usem exclusivamente a linguagem designada e que estão confortáveis ou em harmonia com ela (mas ainda sejam alvos das demais formas de exorsexismo). Dou ênfase nisso, pois nem toda pessoa que usa apenas a linguagem designada a usa por livre e espontânea vontade, como nos casos de pessoas que desconhecem neolinguagem ou que são nativas de um idioma sem uma alternativa proposta (ex: japonês). Confesso que isso não foi algo que considerei quando formulei o conceito.

E, falando no contexto latino-americano, esse conceito pode ou não fazer sentido para travestis. O consenso atual é que travesti é uma identidade transfeminina, e que o uso de a/ela/a é padrão para esse grupo, da mesma forma que é para mulheres. No entanto, temos as seguintes duas questões: a) travesti não é um gênero reconhecido pelo sistema vigente, ao contrário de mulher; e b) há travestis que ainda usam o/ele/o e/ou neolinguagens. Acredito que o melhor é deixar a pessoa decidir se o conceito vale ou não para ela e sua realidade.

Caso o quinto item sobre pessoas inclusas no conceito não tenha ficado compreensível, esse conceito engloba pronomes neutros aceitos ou em processo de aceitação em idiomas com uma estrutura binarista, o que inclui o they singular no inglês e o hen no sueco. E também pronomes usados para tudo que não for humano sendo reclamados por humanes, como o pronome it do inglês.

Esse conceito pode não fazer sentido em idiomas com apenas uma opção de linguagem pessoal (ex: cantonês tem só um pronome pessoal) ou sem marcadores de gênero (ex: coreano, ainda que possua marcadores opcionais), ou em culturas com mais de duas identidades de gêneros reconhecidas e que possuem linguagens atribuídas a elas (ex: pessoas hijra). No entanto, esse conceito pode fazer algum sentido em culturas com idiomas originalmente mais neutros ou sem gênero que sofreram ou ainda sofrem influências ocidentais de colonização.

Segue abaixo uma bandeira de orgulho feita para NCLs:

Uma bandeira composta por cinco faixas. A primeira e a última faixas são maiores e do mesmo tamanho, enquanto as três do meio são menores e do mesmo tamanho. As cores são, de cima para baixo, violeta, bege, branca, violeta, bege.

Créditos a arco-pluris pela bandeira. A postagem original (em inglês) está aqui.

Concluindo, é um conceito que pode ser útil. Pode ser apenas um descritor, ou pode ser também uma identidade de orgulho; assim como NCG. Sintam-se à vontade para usar!

A orientação hétero inclui pessoas não-binárias?

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Esta questão aparece ocasionalmente por aí nas redes sociais, seguida de respostas duvidosas ou mesmo absurdas.

Já vi pessoas definindo hétero como “atração por diferentes gêneros”. Faz até sentido se formos pela raiz do termo. Porém, temos inúmeras palavras aí, e isso inclui a orientação bi, pra mostrar que muitas vezes existe um abismo entre raízes e o contexto social das palavras.

Já vi pessoas não-binárias se dizendo hétero, seguindo uma lógica de que “foram designadas de tal gênero binário, e se atraem apenas por pessoas do outro gênero binário”. Isso é praticamente o mesmo que “sou de tal sexo e me atraio por tal sexo”, e definir orientações por atração por sexo é muito problemático.

E, por fim, a parte mais polêmica desse artigo e o que me motivou a escrevê-lo: já vi pessoas por aí afirmando que hétero inclui pessoas não-binárias, porque “pessoas não-binárias podem ser alinhadas ao masculino ou feminino”.

Quem conhece o conceito de alinhamento de gênero pode ver sentido nisso. O problema é que quem espalha essa explicação tem outro conceito de alinhamento, e vou explorar isso mais abaixo.

Eu poderia ter começado o texto dando a resposta da pergunta. Mas acredito que possa ser mais produtivo analisar camada por camada antes disso, embora eu já tenha rebatido algumas ideias.

Primeiro de tudo, o que define nossa orientação?

Precisamos separar, antes de tudo, nossa identidade e de nossa atração. Cada pessoa no mundo tem sua própria atração, pois não há como alguém ter exatamente as mesmas experiências por toda a vida que outra pessoa.

Agora, o mundo atual exige que coloquemos um rótulo (isso não é uma crítica) em nossas atrações. Muitas delas conseguem ser encaixadas em certos rótulos, que são descritores de experiências e também da posição social das pessoas. Vivemos num mundo onde pessoas são ou privilegiadas ou oprimidas por isso, e esses rótulos demonstram bem isso.

O único rótulo de atração privilegiado até então é a orientação hétero. Nenhuma pessoa é oprimida pelo simples fato de ser hétero. E aqui ainda devemos fazer os devidos recortes, pois a dinâmica de pessoas cis e hétero* é bem diferente de pessoas trans/intersexo/a-espectrais e hétero.

*Obs: e aqui eu falo de pessoas que podem ser descritas apenas como hétero, que com certeza são heterossexuais e heterorromânticas, e demonstram qualquer outro tipo de atração de acordo com a ideia de hétero.

Quero fazer uma ressalva sobre pessoas hétero da comunidade LGBTQIAPN+ antes de continuar: existe uma carência enorme de conteúdo (teoria, relatos, etc) de como é a dinâmica dessas pessoas com a heteronorma e sociedade. É uma questão importante e que deveria ser mais considerada, pois esses grupos têm suas particularidades (ex: a validação da orientação de pessoas trans binárias depende da validação de seus gêneros).

Continuando, a identidade que adotamos para descrever nossa atração nem sempre é algo tão estrito quanto parece ser. Um exemplo mais prático: dois homens que se atraíram a vida toda por mulheres. Um teve uma atração exclusiva, o outro apenas uma vez na vida se atraiu por outro homem. Ambos vão se identificar como héteros. Um por se encaixar estritamente no que se entende por hétero, e o outro por não considerar uma única experiência momentânea como algo que lhe tira totalmente do que se entende por hétero. Atrações diferentes, orientações iguais. Assim funcionam as identidades, ao menos no contexto atual.

Segundo, o que se entende por hétero?

Bem, hétero é uma identidade como as demais. Porém, ao contrário delas, hétero é uma norma. Hétero é um ideal, um status de poder, e serve sistematicamente como um molde para o que seria uma orientação correta, aceitável, e possível de existir. Há pessoas que se encaixam nessa norma, e tudo bem. Isso não invalida suas experiências de vida.

E o que essa norma sempre pregou desde sua fundação? Que para ser hétero, você precisa ser homem ou mulher, deve se atrair unicamente pelo outro gênero binário, e deve ter uma atração frequente e constante.

A partir daí formou-se o molde de uma orientação normal. Ou seja, esse molde não inclui e nunca incluiu: pessoas não-binárias ou atração por pessoas não-binárias, e nem atração exclusiva pelo mesmo gênero binário, atração por mais de um gênero, atração fluida ou indefinida, e nem atração ausente/parcial/condicional/circunstancial.

Heterossexismo engloba toda discriminação contra orientações não-hétero e pessoas heterodissidentes. Por isso que monossexismo e alossexismo, embora sejam sistemas próprios, ainda estão dentro do heterossexismo e são outras facetas dele. Por isso que toda discriminação contra qualquer orientação não-hétero devido a alguma característica legítima (uma atração exclusiva por um gênero não-binário, uma atração por personalidade, uma atração influenciada por neurodivergência, etc) são apenas reproduções de heterossexismo (e possivelmente outras opressões), mesmo quando não se está pregando a orientação hétero como normal.

Vamos retomar o conceito de alinhamento de gênero. Esse conceito foi formulado na anglosfera para se falar de uma proximidade de pessoas não-binárias com determinado gênero, sem que elas sejam desse gênero. Essa proximidade se refere a experiências. É muito comum haver pessoas não-binárias alinhadas a um ou ambos gêneros binários; afinal, para muita gente, são as maiores referências (lembrem-se que vivemos num mundo binarista). Ser alinhade a homem e/ou mulher não é ser desses gêneros, e não necessariamente ser: de uma identidade próxima ou relacionada, e/ou ter uma aparência social típica desses gêneros. Ponto.

E o que pessoas no meio virtual brasileiro estão entendendo por “alinhade a homem/mulher ou masculino/feminino” (não sei até que ponto foi desinformação ou uma distorção proposital do conceito) é “pessoa lida como homem/mulher”. E, dentro desse pensamento, é totalmente aceitável ler todas as pessoas não-binárias como de um gênero binário que te atrai, continuar com determinada identidade, e se relacionar com essas pessoas. O nome disso é reducionismo de gênero, aliás.

Você se atrair pelo que leu da pessoa não é a mesma coisa que se atrair se baseando na identidade de gênero dela. Sinceramente, é muito bizarro como essa ideia de “atração por leitura” (que, aliás, é retórica de feminismo radical) se espalhou na comunidade não-binária brasileira com tanta tranquilidade. Até então muita gente estava pregando que é errado pessoas hétero, gays e lésbicas se atraírem por pessoas trans binárias por as lerem como do gênero designado (e isso inclui pessoas pré-transição ou que não desejam transicionar), ou se relacionar com elas por esse motivo e permanecerem nessas identidades. Por que a mesma lógica não é aplicada para pessoas não-binárias? Dois pesos, duas medidas?

Numa sociedade dominada por um sistema ocidental de sexo-gênero, somos ensinades desde sempre a separar as pessoas apenas em ou homens ou mulheres, e se baseando em aparências ou genitálias. Isso é extremamente nocivo para toda pessoa cisdissidente. Devemos combater esse sistema, desconstruir o que nos foi imposto como realidade, e ampliarmos nossas perspectivas e ideias de atração. Vamos mesmo jogar no lixo um ativismo de anos e anos em prol das pessoas trans e voltar a aceitar atração por aparências/genitálias?

Contudo, há de se considerar que a não-binariedade é muito ampla e cheia de nuances. Pensando nisso, temos uma questão particular com as identidades gay e lésbica.

As orientações gay e lésbica incluem pessoas não-binárias?

Sim, atualmente essas identidades foram flexibilizadas para tanto serem adotadas por pessoas não-binárias quanto incluir atração por gêneros não-binários similares aos binários. Ou seja, a identidade gay pode incluir gêneros similares a homem, a identidade lésbica pode incluir gêneros similares a mulher.

Essas identidades já estão fora da norma, então podem ser maleáveis. E essas identidades têm uma longa história, portanto são muito importantes para muita gente que se firmou nelas desde sempre.

A não-binariedade é muito diversa, como já foi dito. Pessoas não-binárias podem ser: parcialmente homem/mulher, periodicamente homem/mulher, de gêneros próximos ou relacionados a homem/mulher, ou mesmo de qualquer identidade e alinhadas aos gêneros binários. Portanto, dependendo do caso, há pessoas dentro dessas condições que podem ver sentido nas identidades gay e lésbica, até então pensadas para pessoas binárias. E, da mesma forma, também ver sentido em serem inclusas nessas orientações.

O que é necessário se fazer aqui, se tratando de pessoas binárias com pessoas não-binárias, é conversar e analisar a situação toda. A atração de uma parte pode incluir a outra? A outra parte se sente contemplada por tal identidade? Mesmo pessoas nas condições mencionadas anteriormente podem querer priorizar sua não-binariedade, e quem é gay ou lésbica precisa respeitar isso.

Lembrando que nem toda pessoa gay ou lésbica pode se atrair por gêneros não-binários. E não há problema nisso, pois nenhuma orientação que não inclua determinado gênero é problemática (se fosse assim, qualquer orientação mono ou a-espectral seria errada). Ou seja, ainda existem gays com atração exclusiva por homens e lésbicas com atração exclusiva por mulheres.

Ah, e mesmo gays e lésbicas com atração por pessoas não-binárias podem adotar junto outras identidades, como min e fin. Ou, dependendo da ocasião e se considerarem ideal, podem mudar para essas identidades. Cada caso é um caso, e não há uma resposta definitiva para todos os casos.

Afinal, hétero inclui ou não pessoas não-binárias?

A resposta é não. Definitivamente, não.

Hétero não é apenas uma identidade. É uma norma. Não há como flexibilizar uma norma; caso contrário, ela deixa de ser norma. Da mesma forma que não há pessoas “parcialmente cis”. Da mesma forma que não há pessoas “meio perissexo”.

Dentro de tudo que já foi dito, mesmo com toda a diversidade de pessoas não-binárias, a heteronorma não considera ou valida atrações e relações diamóricas.

Se há pessoas hétero se atraindo e se relacionando com pessoas não-binárias porque está as lendo como de tal gênero binário, isso é exorsexismo. Se hétero é o que faz sentido para elas, bom, que tenham a decência de não se relacionarem com pessoas não-binárias. Agora, se uma pessoa que até então se diz hétero tem uma atração de longa data por pessoas não-binárias, e a tem estando ciente da não-binariedade delas, essa pessoa deveria considerar que está fora da norma e que deveria assumir sua dissidência e adotar outra identidade. Não lhe faltam opções, e aqui posso citar como exemplos bi, poli, penúlti, toren e trixen.

Afinal, por que tem gente defendendo essa flexibilização? Existem razões legítimas, algum sentido nisso? Ou é apenas por conveniência (ex: a pessoa não quer terminar o namoro com hétero) e exorsexismo internalizado (“tudo bem pessoas não-binárias serem resumidas a homem/mulher”)? Não acreditem em tudo que é falado por aí. Não é porque uma pessoa não-binária está defendendo tal ideia que ela esteja certa. E as comunidades trans e não-binária estão muito impregnadas de ideias cissexistas (incluindo retórica radfem).

E outra coisa, essa ideia entra numa grande e perigosa contradição. Até então muita gente da comunidade LGBTQIAPN+ defende que pessoas perissexo-cisgênero-hétero* não fazem parte dela, e que podem ser apenas aliadas. Muito bem, faz sentido. Agora, se insistirmos em incluir pessoas não-binárias nessa orientação, caímos no seguinte abismo lógico: ou assumimos que hétero ainda é uma identidade privilegiada e com isso dizemos que atração não-binária não tem relevância alguma, ou que então essus héteros atraídes por pessoas não-binárias também podem ser alvo de discriminação e portanto têm lugar na comunidade. E aí? Como fica essa questão? Quem está disposte a admitir que é exorsexista ou aceitar héteros* como parte da comunidade?

Creio que está na hora de pararmos de tentar se encaixar na norma ou fazer malabarismos nocivos pra chamar a norma de nossa, e começarmos a nos posicionarmos contra ela. Afinal, a norma nunca esteve e nunca estará ao nosso favor.

Um grande texto sobre termos, expressões, atitudes e conceitos capacitistas

Aviso de conteúdo: listagem e menções de muitas terminologias, ideias e ações capacitistas em todos os graus.

Capacitismo engloba toda opressão e discriminação cometidas contra pessoas com deficiência (PCDs) e neurodivergentes (NDs). Esses dois grupos têm um longo histórico de serem associados com características negativas – e isso está muito bem expresso na quantidade de palavras que usamos para xingar ou descrever coisas ridículas, absurdas, etc.

Quando se fala em palavras, sempre há pessoas para protestar, mostrando resistência em rever seu vocabulário. Porém, não podemos ignorar que a grande maioria das palavras usadas constantemente para atacar e criticar tem algum viés capacitista.

Ressignificação – que é dar um valor positivo à palavra, e não apenas retirar sua conotação negativa por conveniência – é um ato válido. Mas aqui só pessoas com deficiência e neurodivergentes poderiam ressignificar alguma coisa. Falando por experiência, só vi gente neurotípica ou que aparentemente não se afeta com essa questão defendendo a continuação do uso de vocabulários capacitistas, o que me parece mais uma desculpa para não largar um hábito.

Esse texto, como o próprio título diz, tem a intenção de apontar termos, expressões e atitudes que cometem e reforçam capacitismo num geral. Aqui explico o motivo do por que cada coisa listada tem um viés capacitista, e também sugiro alternativas melhores. Não quero me ater ao que é mais grave ou mais leve, e acredito que as explicações podem deixar isso evidente. Meu foco aqui é no capacitismo em si apenas.

Ressalto que não estou dizendo que pessoas que dizem e fazem essas coisas são ruins, pois tudo isso é naturalizado e capacitismo não é nada discutido na sociedade. Agora, no momento em que lerem o conteúdo daqui, não haverá mais a desculpa da ignorância. Fica na consciência de cada ume.

  • Termos

A maioria dos termos capacitistas define estados ou condições referentes à saúde mental ou desenvolvimento das funções mentais.

As palavras louque e insane, assim como os sinônimos maluque e doide, foram desde sempre palavras usadas para descrever pessoas com pensamentos ilógicos, perturbações, ou sofrendo de delírios e alucinações. Psicose é um termo médico e mais preciso. Portanto nenhuma dessas palavras é recomendada.

E aqui já aproveito para não recomendar delírio/delirante ou alucinação/alucinante como descritores de situações incomuns, extraordinárias, e similares. Condições clínicas não descrevem a realidade ou improbabilidades.

Lunátique é algo usado para falar de alguém que divaga, que sai da realidade, que fica fantasiando ou “sonhando acordade”. Essas situações remetem facilmente a alucinações e delírios, e também a devaneios excessivos, assim como atitudes presentes em casos de esquizofrenia, mania, e depressão psicótica.

Casos de oligofrenia, que é um termo amplo que caracteriza graus diferentes de dificuldades cognitivas e intelectuais, são também usados como ofensas frequentes; o que inclui: débil, imbecil, idiota, e retardade. Constantemente estúpide é usado como sinônimo dessas palavras. Outra palavra que pode ser citada aqui é babaca, que também tem sua origem como um termo vulgar para a genitália vaginal.

Cretine descreve a condição de cretinismo, que é a baixa atividade congênita da tireoide. Esse hipotireoidismo interfere no desenvolvimento físico e mental da pessoa.

Maníaque define alguém num estado de humor extremamente elevado (seja eufórico ou irritável), não qualquer criminose, perseguidore, etc. Assim como a mania não é apenas um comportamento repetitivo.

Mongol não é apenas capacitista, como também é racista. Primeiro, por se referir a pessoas da Mongólia num contexto de depreciação, não de etnia. Segundo, por ter sido usado para associar características físicas de pessoas com síndrome de Down a etnias do leste asiático e ameríndias, que, dentro de um pensamento eugenista, colocava todos esses grupos como uma raça inferior. Mongol pode ser usado para se referir a pessoas da etnia e só.

Histérique não é apenas capacitista, como também é misógino. A histeria foi fundada na ideia de que mulheres que não aceitavam os papeis sociais impostos (portanto, sua “condição de mulher”) sofriam desse distúrbio – pois, hipoteticamente, tinha alguma relação com o útero. Isso inclui reações de insatisfação e revolta, vistas como “excesso de emoção”.

Demente é a condição daquelu que desenvolve diminuição da capacidade de raciocínio e memória, algo que pode ocorrer na fase de velhice ou por causa de doenças neurológicas degenerativas.

Anencéfale é um bebê com subdesenvolvimento do cérebro e do crânio. Além do capacitismo, é muito insensível usar de uma condição que resulta em morte de bebês.

E claro que tudo isso também se aplica aos substantivos derivados desses adjetivos: loucura, insanidade, maluquice, doideira, idiotice, imbecilidade, estupidez, etc. E outras derivações óbvias ou que remetem a outros estigmas, como as terminações -tardade, -loide, -pata.

Algumas palavras capacitistas que se referem a condições físicas costumam remeter a coisas incompletas, imperfeitas, dispensáveis, e similares. Capenga é um sinônimo de uma pessoa manca, com alguma dificuldade motora nas pernas. Deformade, que descreve condições estéticas ou anatômicas incomuns (muitas vezes consideradas feias ou indesejáveis), é outro exemplo.

Pra finalizar, temos as fobias. No âmbito psicológico, fobias são quadros clínicos de medo e aversão irracionais e sem uma causa aparente, que geram, entre outras coisas, ataques de pânico e ansiedade nas pessoas. Mundialmente se usam palavras com sufixo -fobia para descrever ações e sentimentos opressives e discriminações. Isso não deixa de ser uma forma de associar ódio e intolerância às neurodivergências, aos estados mentais diversos. O próprio termo homofobia foi cunhado intencionalmente para ser ligado com as fobias clínicas. Alternativas sugeridas incluem os nomes dos sistemas opressivos (heterossexismo, cissexismo, etc) ou substituir o sufixo por –misia.

Posso estar esquecendo alguns termos, mas acredito que até aqui é possível desenvolver um senso crítico sobre o que torna uma palavra capacitista. Na dúvida, recomendo uma busca sobre sua origem e/ou seus sinônimos.

  • Expressões

Existem também algumas expressões que envolvem condições físicas ou mentais para descreverem ou sendo associadas a coisas que não são relacionadas a esses aspectos.

Cegue de [insira emoção/sentimento]. Uma expressão um tanto comum. Mas cegueira é uma condição física, não emocional de qualquer forma. O mesmo vale para louque e qualquer outra palavra mencionada.

Algumas neurodivergências são usadas para descreverem estados emocionais e sentimentos totalmente fora do âmbito clínico. Depressão não se resume a tristeza ou desânimo, muito menos quando são momentânies. Bipolaridade não é apenas uma mudança de humor, ou sentimentos conflituosos/contraditórios com alguma coisa. Ansiedade não é uma expectativa, nem a emoção de estar esperando por um acontecimento. Multiplicidade (antes conhecida como “múltiplas personalidades”) não retrata mudanças súbitas ou rápidas de pensamento, ou conversas internas que podemos ter numa autorreflexão ou introspecção. Narcisismo não define uma pessoa que é apenas vaidosa, convencida, ou que valoriza muito sua imagem. Paranoia não é apenas um estado de suspeita (mesmo que seja exagerada ou infundada). TOC não é apenas a mera preferência por coisas ordenadas ou padronizadas, ou alguns comportamentos aleatórios repetitivos/do cotidiano.

Trauma acabou sendo uma palavra banalizada e usada para definir apenas memórias de situações ruins. Um trauma envolve muito estresse, dificuldade de lidar com um ocorrido, e crises emocionais.

“Virar um hospício” retrata lugares bagunçados, sem ordem, ou também com pessoas estressadas ou irresponsáveis ou similares. Além da péssima associação, hospícios são e sempre foram basicamente prisões e matadouros para pessoas neurodivergentes e aquelas rotuladas como tal para assim serem descartadas do meio social.

Outras expressões acabam caindo em ideias equivocadas ou mesmo em desumanização.

A expressão surde-mude é muito equivocada. Dizer que pessoas surdas são automaticamente mudas é muito incoerente, pois muitas podem desenvolver a oralidade. A ideia de mudez também implica uma ausência de comunicação, e língua de sinais existe pra isso.

Cadeirante ainda é um termo usado por aí. Não é adequado para falar de pessoas que utilizam cadeira de rodas por dois motivos básicos: por reduzir as pessoas a uma cadeira, e porque pessoas com deficiências físicas e motoras podem fazer uso de outros recursos além da cadeira.

Pessoas especiais ou pessoas com necessidades é uma expressão de eufemismo para PCDs e NDs num geral, embora costuma se referir muito a pessoas com dificuldades cognitivas ou motoras. Acaba sendo uma forma de infantilizar esses grupos, e colocá-los como pessoas incapazes (necessitam sempre de ajuda, sem qualquer autonomia).

  • Atitudes

Atitudes capacitistas, além de dizer tudo que foi listado acima, incluem ações mais “evidentes” como estereotipar ou retratar PCDs e NDs como caricaturas, instrumentalizar esses grupos pra defender argumentos e ou falar por eles, e tratar as pessoas como se precisassem sempre de ajuda ou como se fossem menos capazes de tudo.

Outras ações menos evidentes, e que envolvem características ou elementos presentes na vida de PCDs e NDs, incluem:

– fazer piadas com gestos e expressões faciais usades em línguas de sinais;

– zombar de gatilhos alheios ou usar a ideia de gatilho como piada e deboche;

– criticar ou debochar de interesses especiais, hiperfocos, ou assuntos sobre os quais alguém fala muito;

– falar sobre “idade mental”, relacionar coisas a isso, e criticar ou debochar de pessoas por não terem amizades ou contatos;

– exigir das pessoas certas características sociais e emocionais exaltadas como qualidades, como no caso de sociabilidade e empatia;

– exigir das pessoas compreensão total ou imediata de linguagem figurada, informações vagas, coisas subliminares ou sugestivas, e ironias e sarcasmos;

– e exigir das pessoas que falem ou se expressem de determinadas maneiras, geralmente consideradas mais “fáceis” ou “acessíveis” a uma maioria.

Outras coisas incluem “memes” e chacotas usades com frequência, como “ur dur” e imitação de “vozes de gente [insira termo capacitista]”, “probleminha na cabeça”, “tomar remédios/[insira qualquer medicamento psicotrópico]”, “fonte: vozes da minha cabeça”, escrever alternando entre letras maiúsculas e minúsculas, e imagens de pessoas ou personagens com expressões faciais tortas e/ou gestos disformes.

Uma atitude agressiva e estressante com pessoas NDs é quando ficam questionando o diagnóstico delas, perguntando por detalhes como sintomas ou “graus” (que são em si questionáveis), tudo afim de validar o que são ou acreditar que elas são o que afirmam ser, e ficar comparando com pessoas com o mesmo diagnóstico que parecem “sofrer mais/de verdade”.

A simples falta de acessibilidade, ou o quanto acessibilidade não é considerada para tudo, pode estar aqui também.

Muitas construções e arquiteturas não são planejadas com rampas e/ou recursos táteis. Muitas palestras não pensam na possibilidade de ume tradutore de língua de sinais. Muitos símbolos e caracteres especiais não são lidos em leitores de tela. Emojis são lidos da forma como são escritos, o que pode ser desagradável numa postagem repleta de emojis (ainda mais em sequência). Muitas postagens visuais são feitas sem considerar pessoas com baixa visão e certas neurodivergências – e aqui falo de fonte e tamanho das letras, das cores usadas, e outros detalhes. Muitos vídeos não possuem ao menos uma legenda. Muitas imagens não são descritas; o que, às vezes, é culpa da própria plataforma, mas há meios de contornar isso. Muitos conteúdos não se prestam a colocar avisos de conteúdo/gatilho quando são necessários. Isso tudo são coisas a se pensar.

Tratar acessibilidade como um favor ou um anexo à “normalidade” é puro capacitismo.

  • Conceitos

Existem conceitos problemáticos que envolvem capacitismo e outras opressões, mas que acabaram sendo normalizados pela sociedade como aceitáveis e inquestionáveis, por mais que possam ser subjetivos, por mais que sejam furados ou mesmo obsoletos. Segue abaixo três grandes exemplos.

  1. Inteligência

Um conceito questionável. Muitas vezes pessoas são consideradas inteligentes por demonstrarem dois aspectos: terem raciocínio lógico rápido e serem bem informadas sobre diversos assuntos. Há teorias sobre possuirmos “tipos de inteligências”, que descrevem bem aptidões relevantes (ter noção de espaço físico, saber identificar frequências de som, fazer autorreflexão, etc).

No entanto, o conceito de inteligência foi fundado numa teoria eugenista de que havia uma raça superior – logo, inteligente; e que o resto era inferior. Por muito tempo também, homens foram representações e portadores da inteligência enquanto dominavam o saber, a academia, e toda produção de conhecimento. E, por fim, considerando o quanto inteligência é medida ou julgada com base em informações ou conhecimentos prévies (e aqui está inclusa a própria alfabetização), é bem evidente que acaba sendo inacessível para determinadas classes socioeconômicas e grupos marginalizados.

Focando agora na subjetividade, a ideia do que seria inteligência está mais para uma construção social que muda de cultura em cultura e de tempos em tempos do que algo concreto, algo universal e atemporal. Muitas pessoas interpretam inteligência de várias formas. Dicionários acabam dando definições variadas, combinando com habilidades comuns a muita gente. Tais habilidades podem ser influenciadas por outros fatores (a falta de sono, uso de medicamentos, etc). Os famosos testes de Q.I., ainda superestimados, são testes muito padronizados que não contemplam muitas pessoas. Enfim, não é um conceito realmente bem construído.

Inteligência é algo constantemente mencionado em discussões sobre ética e direitos de pessoas com deficiência, como se fosse um fator que de alguma determina o valor de alguém numa sociedade. De fato, isso acontece; pessoas consideradas inteligentes são muito valorizadas, colocadas como desejáveis e exemplos a ser seguidos. Tudo isso alimenta um estigma imenso contra pessoas com dificuldades cognitivas, colocando-as como menos capazes de serem “pessoas comuns” pela “falta de inteligência”, como pessoas que sempre dependerão de alguém “mais capaz”, como falhas e fardos na sociedade.

E, além disso, inteligência é até hoje usada como uma prova da superioridade des humanes sobre as demais espécies. Já foi também usada como defesa da integridade de algumas espécies, e também como critério para determinar quais espécies podem ser consideradas “indivíduos” (como macaques e golfinhos).

Está na hora de revermos nossas ideias sobre as capacidades mentais, e talvez formular um conceito que não seja problemático e que englobe devidamente a neurodiversidade.

  1. Psicopatia

Existe uma grande ideia no imaginário coletivo sobre o que seria ume psicopata. O que vem na cabeça costuma ser alguém com tendências assassinas, sádica, misantrópica, isolada, egoísta, e similares.

O termo costuma ser usado para descrever o que seria pessoas com o diagnóstico de “desordem de personalidade antissocial”. Pois é, psicopatia sequer é um diagnóstico ou está incluída em catálogos de saúde mental. Mas o ponto não é esse, e nem quero ficar dando crédito a tais catálogos.

Esse diagnóstico é muito definido pela falta de complacência – a inclinação a concordar com as pessoas e obedecer regras e códigos de conduta. E tal exigência sempre pesou e desfavoreceu muito mais grupos marginalizados pelo próprio sistema, em especial pessoas pobres, racializadas, com deficiência e neurodivergentes. Complacência é muito mais um mecanismo de modelar e controlar os comportamentos a favor de um sistema do que uma qualidade concreta e necessária na vida humana. E é muito fácil rotular pessoas desses grupos com esse e outros diagnósticos.

Tudo isso implica que muitas pessoas são apenas taxadas de “psicopatas” para a conveniência de um sistema que as exclui, e isso não apenas recai naquelus com deficiência ou neurodivergência, mas também em outras camadas sociais também marginalizadas, em situações de desigualdade. É essa carga que traz o termo psicopata do mundo das ideias até o mundo material.

  1. Empatia

Vou começar dizendo que empatia existe e há pessoas que a sentem. O real problema é o quanto associam essa característica como algo inteiramente benéfico e imprescindível para que uma pessoa seja realmente boa, decente, etc. O que é a empatia? É apenas a habilidade de entender e deduzir emoções alheias, resumidamente falando.

O fato de você entender e deduzir emoções não te pré-dispõe a se importar com essas emoções, não te confere a capacidade de amar e gostar de alguém ou algo, e não é algo necessário para compreender conceitos como injustiça e opressão. É bobagem ficar atribuindo preconceito e ódio a coisas inerentemente causadas por falta de empatia, sendo que muitas dessas pessoas vão demonstrar alguma empatia com suas famílias e amizades, e mais quem for considerade “normal” para elas. Empatia pode ser seletiva.

Agora, vamos considerar que existem neurodivergências que afetam a capacidade de ter empatia, como alguns casos de autismo. E que pessoas, por exemplo, sobreviventes de abuso podem desenvolver traumas que também interferem na empatia. Considerando que fatores intrínsecos ou externos podem também definir a capacidade ou não de ter empatia, deveríamos rever nossa concepção disso para não cairmos em pensamentos deterministas de que “algumas pessoas já nascem defeituosas ou más”, algo que não condiz com a realidade e complexidade humana.

E não sentir empatia por alguém não te impede de entender que discriminação pode lhe causar mal, que pessoas sofrem ou sentem dor, nem de comemorar a felicidade de alguém, ou de fazer coisas que façam bem às pessoas. E não é por um acaso que profissões da saúde exigem pouca empatia, ou mesmo que pessoas reprimam a empatia, para assim poder lidar emocionalmente melhor com toda a carga que essas áreas trazem.

Enfim, o que estou dizendo é que a empatia é uma característica relativa, pode ser desenvolvida ou reprimida, e não é em si algo capacitista. O que é capacitista é a ideia social que gira em torno dela, essa noção toda de altruísmo e moralidade que lhe jogam, e que não cabe nela como pensamos ou fantasiamos.

  • Alternativas

Bem, com todas as explicações dadas, acredito que há alternativas que sejam intuitivas ou possíveis de serem pensadas. Mesmo assim, entendo que todas as palavras e expressões mencionadas são usadas para diversas finalidades, até mesmo de forma positiva.

Por isso deixarei logo abaixo listas de algumas palavras de acordo com uma finalidade. Algumas podem ser usadas pra outra finalidade dependendo do contexto.

– Palavras que descrevem coisas ou pessoas em contextos negativos variados: deplorável, escrote, extremista, imature, insensate, insignificante, irresponsável, radical, ridícule, vergonhose.

– Palavras que descrevem coisas ou situações que saem do senso comum: absurde, disparatade, fantástique, imprevisível, imprudente, inacreditável, incomum, incrível, inesperade, mirabolante.

– Palavras que descrevem pessoas com pouco conhecimento ou que não entendem a realidade: alienade, bobe, desinformade, ignorante, néscie, obtuse, simplórie, tole.

– Palavras que descrevem pessoas ou ideias sem sentido ou coerência: confuse, ilógique, incoerente, inconstante, indecise.

– Expressões que descrevem emoções e sentimentos em excesso ou desmedides: perdide (de…), movide (por…), cheie (de…), (…) imensamente/de forma demasiada.

Enfim, creio que coloquei exemplos suficientes. Para mais exemplos, recomendo um dicionário ou pesquisa.

Entendo que muitas dessas coisas acabam sendo ditas ou feitas sem intenção, passam despercebidas, enfim. O que todes nós podemos fazer é nos policiarmos, cortarmos essas palavras e ações do nosso cotidiano, repensar e procurar alternativas. Isso exige esforço e tempo. Capacitismo é muito enraizado, e por isso precisamos refletir sobre a extensão dele e o quanto o praticamos. Incluam as pessoas, excluam o capacitismo.

Links adicionais:

Sobre deslizamentos semânticos e as contribuições das teorias de gênero para uma nova abordagem do conceito de deficiência intelectual

Wikipédia – Oligofrenia (pode conter informações obsoletas)

Medium – “Precisamos falar sobre Capacitismo”

Amplifi.casa – Algumas dicas básicas sobre evitar vocabulário e retórica capacitista

Colorides – capacitismo, lembrete, interesses especiais

Racismo: Por que “mongol” se tornou um termo pejorativo, como sinônimo de Síndrome de Down

Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas

Autistic Hoya – Capacitismo/Linguagem (conteúdo em inglês)

Inteligência é um conceito capacitista (conteúdo em inglês)

ANDES-SN debate capacitismo nas instituições de ensino

Por que o termo ‘psicopata’ é racista e capacitista (conteúdo em inglês)

Empatia é a pior base possível para moralidade (conteúdo em inglês)

Qual a diferença entre empatia, piedade e compaixão (conteúdo em inglês)

Os argumentos contra a neolinguagem

Aviso de conteúdo: discursos anti-neolinguagem, cissexismo e exorsexismo, elitismo, capacitismo, contém ironias, contém links externos.

O título é uma pegadinha. Vocês jamais me verão argumentando contra a neolinguagem. Não. O que postarei aqui são respostas para os supostos argumentos contrários a ela.

Praticamente todas as vezes em que vi esse assunto bombando e tendo repercussão foram por postagens de pessoas contrárias a ele (principalmente e quase sempre feministas radicais) (pois elas parecem ser muito desocupadas). E os “argumentos” são sempre os mesmos.

Caso não tenha ficado evidente, esse texto é direcionado para pessoas a favor da neolinguagem e que desejam embasar melhor sua defesa do tema, pessoas que gostariam de entender melhor os motivos da existência dela e por que ela é válida, ou pessoas que até então estão contra ou resistentes a ela mas abertas a entender “o outro lado da história”.

Colocarei aqui os principais “contra-argumentos” à neolinguagem que, como falei, são sempre repetidos por opositories, e explicarei por que cada um deles não tem validade. Focarei em argumentações mais elaboradas, não em opiniões simplórias como “isso não vai pegar” ou “apenas acho desnecessário”.

Para ler sobre neolinguagem, clique aqui.

Para ver listas de termos usados no texto, clique aqui e aqui.

  • Inacessibilidade

É nesse momento que um monte de gente na Internet decide se preocupar com populações periféricas, com o analfabetismo, e com as necessidades de PCDs e neurodivergentes.

E nesse monte de gente vamos encontrar pessoas que: escrevem palavras abreviadas, palavras estrangeiras, usam caracteres especiais, não pontuam postagens, não descrevem qualquer imagem que postam, entre muitas outras ações que tornam a Internet um lugar excludente, difícil ou intolerável para qualquer um desses grupos.

Muito bem, hipocrisias à parte, vamos focar na ideia: “A neolinguagem é inacessível para essas pessoas, portanto é elitista e capacitista. Ela não chega na periferia, não pode ser aplicada num país com tanta gente analfabeta, não pode ser adaptada para pessoas cegas ou surdas, e não consegue ser aprendida ou entendida por quem tem dislexia ou autismo.” É tudo isso que é dito e repetido pela oposição.

Instrumentalizar pessoas periféricas, analfabetas, com deficiência e neurodivergentes tem apenas dois nomes: elitismo e capacitismo. E não se surpreendam ao reparar que a grande maioria das pessoas que invoca esses grupos na contra-argumentação sequer pertence a um ou mais desses grupos; e aqui temos um agravante, que é o roubo do local de fala.

Tratar pessoas periféricas como incapazes de aprender novas informações, julgar o que é ou não é necessário nas periferias, e tratar as periferias como uma grande entidade homogênea (tanto que falam sempre no singular, “a periferia”) é elitismo.

Utilizar-se de um problema estrutural na educação para justificar não haver mudanças válidas na linguagem é hipócrita, contraditório e elitista também.

Essa preocupação falsa ou superficial com pessoas cegas e surdas, além de condescendente e ridículo, é capacitista. O braile pode ser facilmente adaptado e libras é uma língua em que marcadores de gênero são mais opcionais que inevitáveis (na maior parte sequer existem).

Usar as pessoas disléxicas e autistas é subestimar as capacidades dessas pessoas e ignora que as mesmas barreiras e dificuldades que elas poderiam ter com o assunto podem ter com muitos outros assuntos (como a própria língua padrão, matemática, etc); ou seja, capacitismo de novo, além da homogeneização desses grupos.

Felizmente, muitas pessoas de regiões periféricas e neurodivergentes se pronunciaram contra esses posicionamentos e a instrumentalização cometida contra elas (embora nem todas fossem totalmente a favor da neolinguagem). E são elas que deveriam estar mesmo opinando sobre esses aspectos de acessibilidade.

Uma coisa cômica nesses argumentos é a insistência dessas pessoas (quase sempre cis) de que ainda há gente propondo o uso de xis e arroba (de fato, inacessíveis). Se é para contra-argumentar, ao menos se atualizem; já faz anos que muitas pessoas trans/n-b estão falando contra o uso desses caracteres e tentando difundir uma neolinguagem mais acessível e possível de ser aderida (que, no caso, é exatamente essa que utilizo aqui no blogue).

Há gente que afirmou que até mesmo a flexão –e não é reconhecida por leitores de tela. Ou isso é uma mentira deliberada, ou é apenas desinformação. A preocupação com leitores de tela é pertinente, pois precisariam ser configurados para ler corretamente palavras modificadas e neologismos. É um problema simples de se resolver. Mas, sim, leitores de tela já são capazes de entender muitas palavras flexionadas com –e.

Gente querendo usar braile, libras e leitores de tela num argumento, mas evidentemente sem nem conhecer a fundo como essas coisas funcionam… Preciso mesmo levar isso a sério?

“Mas o analfabetismo não é um problema para tudo isso?”

Com certeza traz dificuldades, mas pessoas não apenas leem e escrevem como também falam. E mais, se uma nova linguagem não pode existir por causa desse problema estrutural, então que cancelemos novos acordos ortográficos, a própria norma culta da língua, ou mesmo dialetos como o pajubá e regionalismos. Ou melhor, vamos cancelar todos os ativismos sociais devido ao tanto de gente ignorante ou sem contato com eles.

Ah, e mais coisa: se recusar a respeitar a linguagem de gênero de alguém porque há pessoas ignorantes sobre ela não faz sentido e só comprova seu preconceito.

  • Morfologia

“O latim perdeu o gênero neutro, que se assimilou ao gênero masculino; ‘o’ indica a ausência de gênero, portanto o masculino já é neutro.”

Quem usa a morfologia do gênero gramatical como defesa é tão incoerente quanto quem justifica significados literais de certas palavras por causa de prefixos e sufixos (como quem defende que atração bi deve se referir a apenas dois gêneros por causa do prefixo bi). A sociedade faz a linguagem. A linguagem reflete uma realidade; ela não existe antes para então moldar a realidade.

Primeiro de tudo, ninguém está desconsiderando o processo da transformação do latim para o português atual. Inclusive, esse processo foi e está sendo considerado em estudos acadêmicos sobre neolinguagem. É um tanto cômico ver isso sendo usado contra a proposta, pois vejo esse fato como mais um ponto favorável à existência de um gênero gramatical neutro.

Agora, existe uma coisinha chamada sociolinguística. É uma área que estuda a relação entre uma língua com a sociedade. Isso é o que estudos feministas e de gênero estão discutindo há muito tempo. A morfologia é a morfologia, e só gente com um acesso amplo à informação saberá disso. Mas ninguém ensina essa morfologia à sociedade num geral.

Desconsiderar a influência de uma língua numa sociedade ou é muita alienação ou é uma falácia descarada. De repente a sociedade se desconstruiu e parou de associar a linguagem o/ele/o com homens, exclusiva ou primariamente? Quando isso aconteceu?

E não me venham com “a língua não precisa ser inclusiva” ou “a língua não é opressiva”. São as línguas que devem se adequar aos indivíduos, e não o contrário. E se a língua não pudesse ser opressiva, termos pejorativos ou segregacionistas não existiriam.

Estamos falando de uma estrutura que parte de três princípios: que o gênero masculino é universal e padrão, que só podem existir dois gêneros, e que gênero e sexo são a mesma coisa. Temos aqui um combo de machismo e cissexismo-exorsexismo. E a neolinguagem procura romper exatamente com tudo isso; o que é inevitável, pois está tudo junto e misturado.

Mesmo se a linguagem o/ele/o fosse mantida como neutra universal e uma terceira opção gramatical fosse inclusa, não faria sentido usá-la para se referir a um grupo de pessoas que usam a/ela/a e essa terceira opção (ex: ela + elu = eles?).

Haverá mais elaboração disso no próximo tópico, pois é quase uma continuação das ideias.

  • Gênero ≠ Sexo

“Gênero gramatical não tem a ver com sexo. É só como a língua se estruturou.” E, de repente, a língua deixou de ter qualquer influência sobre o meio social! Que milagre, né?

Ora, se gênero gramatical não tem absolutamente nenhuma relação com sexos, então por que não criamos todas as pessoas com qualquer linguagem de gênero? Por que insistimos em tratar animais machos por o/ele/o e animais fêmeas por a/ela/a?

Ninguém cria bebês de qualquer sexo por o/ele/o por ser “o bebê”, ninguém trata uma pessoa barbuda e musculosa por a/ela/a por ser “a pessoa”. Não sei que sociedade desconstruída é essa, mas com certeza não é a nossa.

E esse argumento absurdamente furado desconsidera também a sociolinguística, como já foi explicado no tópico anterior.

Já que os gêneros gramaticais nunca foram impostos a pessoas (e seres) por seus sexos, então que todas as pessoas adotem e sejam desde sempre criadas e tratadas por qualquer linguagem de gênero. Isso é o mais coerente de ser feito, não? Por que isso nunca foi feito?

Não, vamos dar um passinho para trás e voltar à questão da neutralidade padrão. Supondo então que não há nada de errado com a norma de se referir a todos os gêneros por o/ele/o. Por que então não falamos “os gestantes”, já que homens trans existem e há aqueles que engravidam? Por que não fazemos propagandas de conscientização ao câncer de mama e convocamos a “todos” para fazer o exame, já que homens trans existem e há aqueles que possuem seios?

Com exceção dos objetos, há uma estrutura que associa gênero gramatical com sexo, sim. Se chama cissexismo, e não é novidade para pessoas cisdissidentes. E ainda é uma estrutura exorsexista, pois, caso não fosse, haveria um gênero gramatical para pessoas intersexo (ao menos aquelas com genitálias atípicas) ou para seres hermafroditas e assexuados. Esse argumento todo deveria ganhar um prêmio de “negação absurda e arbitrária da realidade”.

Bônus: feministas radicais adoram falar numa abolição de gênero, mas não aceitam ser referidas por o/ele/o (neutralidade padrão) e nem aceitam a proposta de um gênero neutro universal pela neolinguagem. Lógica? Não existe.

  • Estrangeirismo

Muito bem, esse pseudoargumento tem um pontinho de justificativa para existir. E isso, infelizmente, é culpa da comunidade trans/não-binária brasileira. Porque a comunidade importou, literalmente e de forma impensada, o modelo de linguagem anglófono.

Na língua inglesa, a linguagem pessoal se resume a pronomes (e adjetivos possessivos). Na língua inglesa, faz sentido alguém descrever sua linguagem como, por exemplo; pronome pessoal, pronome de objeto e pronome possessivo.

Na língua portuguesa, não. Porque na língua portuguesa existem os artigos e as flexões de gênero, pronomes são uma parte da linguagem, e, com todo respeito, descrever sua linguagem como “pronome pessoal/contração do pronome com a preposição de” é ridiculamente redundante nesse idioma (curiosidade: dele, dela, delu, etc nem são pronomes de acordo com a gramática). A importação foi tão forte que muitíssima gente reduz linguagem pessoal a “pronomes”; isso, gramaticalmente, é muito errado e sem sentido.

Mas, continuando, a merda está feita e percebo que ainda vai demorar que haja aderência ao sistema APF (artigo/pronome/flexão). Mesmo assim, isso não sustenta o argumento em si. A importação da linguagem foi feita de maneira ruim, mas os motivos por trás disso são legítimos; afinal não existe pessoas não-binárias e/ou não-conformistas de linguagem apenas na anglosfera.

Não duvido que os pronomes neutros do inglês tenham sido inspiração para a formulação e implementação da neolinguagem. Podem até ter sido o estopim (não tenho informação suficiente para afirmar ou negar isso).

Só que, independentemente da resposta, o pensamento de que “isso não é válido porque veio de fora” é muito ridículo de tão simplista e raso. Mais ridículo que isso é acusar a neolinguagem de estar impondo um estrangeirismo à língua portuguesa, sendo que ela está sendo construída totalmente dentro da gramática do idioma e se adequando a suas particularidades.

E, como já falei, línguas que devem se adequar ao indivíduo. E a língua padrão atual é incapaz de se adequar a pessoas de outros países que utilizam uma linguagem pessoal que não seja associada aos gêneros binários. Não é justo com elas. Nem justo com outras pessoas daqui, da lusosfera, que existem e que também são excluídas da própria língua, e agora estão tendo voz para falar e demandar que sua individualidade seja respeitada. E foda-se que se inspiraram em algo de fora, se isso as fez enxergar possibilidades melhores.

“Estrangeirizar” a língua seria, no máximo, utilizar palavras de outras línguas de forma indiscriminada, coisa que ainda fazemos muito e deveríamos parar quando possível. Entendo que há palavras muito difíceis de traduzir ou adaptar, mas termos como “deadname” (nome morto) ou “misgender” (maldenominação) possuem tradução e adaptação possíveis.

Ah, é até possível que palavras modificadas ou novas acabem ficando muito parecidas ou idênticas com palavras de outras línguas latinas, o que também pode parecer estrangeirismo. Porém, não vejo por que isso deveria ser um problema, pois as línguas latinas são muito próximas e não é absurdo línguas diferentes terem palavras iguais.

Se o problema aqui é importar, vamos então criticar outras importações? Muito raramente alguém adapta a palavra gay para algo mais “aportugueisado” (guei). As identidades lésbica, bissexual e transexual/transgênero são traduções de palavras cunhadas na anglosfera. Que tal devolvermos essas palavras à língua original e cunharmos nossas próprias ou usarmos o que já existe aqui (viado, bicha, sapatão, etc)? Que tal usarmos uma sigla cunhada aqui mesmo? Porque usar isso só contra neolinguagem ou termos como queer é bem desonesto e hipócrita.

Conclusão:

Todas essas argumentações não são e nunca foram fundamentadas em análises críticas ou preocupações reais. Acredito que existe um fortíssimo viés exorsexista por trás disso, mas também deve incluir uns conformismos (preguiça de aprender uma linguagem nova) e um sexismo básico (não querer que “o masculino” perca seu posto de universal e padrão).

Outras constatações furadas incluem gente afirmando que “as pessoas não-binárias querem obrigar todo mundo a usar neolinguagem”, que “querem que isso seja aprendido de um dia pro outro”, e que “idoses não vão entender”. Tudo isso é mais exageros e invenções descaradas que fazem para reforçar a oposição.

Pessoas não-binárias não têm qualquer mínimo poder de obrigar alguém a usar uma linguagem diferente, ninguém com bom senso espera que a língua vai se modificar em tão pouco tempo (nunca nem vi alguém achando isso), e, por fim, instrumentalizar idoses se chama etarismo (além de que ninguém necessita da validação de um grupo etário).

Enfim. Continuo aguardando argumentos legítimos contra a neolinguagem.

Links adicionais:

Em defesa da neolinguagem

Neolinguagem: um futuro inclusivo e contra o cistema

O “X” da questão: gênero na escrita | Papo de linguista | Jana Viscardi (aviso de conteúdo: contém palavras capacitistas.)

Linguagem neutra: principais críticas

A não-binariedade de bichas e sapatonas

Aviso de conteúdo: cisheterossexismo, desgenerização, termos pejorativos ressignificados, menciona assimilacionismo e colonialismo.

Muita gente deve ter na cabeça alguma ideia do que é bicha ou sapatão. O senso comum reconhece esses termos apenas como sinônimos (ainda pejorativos) de gay e lésbica.

Assim como ocorreu com queer nos Estados Unidos, corpos dissidentes com alguma consciência ou politizados o suficiente pegaram os termos para si e os ressignificaram; de ofensas a palavras que carregam orgulho e resistência.

Para algumas pessoas continuam sendo sinônimos do que já são; gays ou lésbicas. Contudo, há pessoas multi que também fazem uso dessas palavras, ampliando seu significado.

Para outras pessoas, essas palavras são mais do que isso: são identidades!

Enquanto há homens e mulheres se reafirmando gays/lésbicas ou multi, há outros corpos se reafirmando apenas como bichas e sapatonas. E só.

O que pode causar estranheza e atrair opiniões discordantes, visto que, em meio a esse turbilhão de novas informações e formulações de conceitos, muita gente dos movimentos sociais se empenhou muito em colocar gênero e orientação como aspectos separados, e não está disposta a aceitar identidades que os misturem.

Como tudo na vida, nada é absoluto. Nem todos os corpos desejam manter esse separatismo tão estrito; pois, para eles, não serve e não faz sentido.

Existem contextos sociais diferentes, recortes diferentes, experiências de vida diferentes. Não é por um acaso que essas identidades são tão presentes nas regiões periféricas; locais onde tanta informação e tão lindamente catalogada muitas vezes nem chega em sua totalidade, ou não consegue ter o mesmo valor e impacto.

Para muita gente desde sempre dissidente, desde sempre dando sinais de estar fora das (cis)(hetero)normas,” homem” e “mulher” devem ter perdido o sentido à medida que tais termos foram negados a esses corpos. Muitos desses corpos nunca foram tratados como homem ou mulher, apenas como “coisas”, como só bicha e sapatão. Muitos desses corpos não puderem se dizer homem ou mulher, apesar da designação de gênero.

Em meio a contextos em que concepções formuladas pela academia não chegam, e onde as pessoas não são nem permitidas de ser homem ou mulher, não é nada absurdo que os corpos procurem outras palavras para se nomear e assim ter uma posição na sociedade, no mundo; dar um sentido ao que são, a sua existência. E os nomes surgiram: bicha e sapatão.

E o que tudo isso tem a ver com a tal da não-binariedade de gênero? Bem, acredito que até aqui é um pouco evidente. Mas me explicarei melhor.

As identidades bicha e sapatão sempre estiveram mais próximas da não-binariedade do que do binômio de gênero. Afirmar-se homem ou mulher heterodissidente é diferente de ser bicha ou sapatão. Afirmar-se ainda homem e mulher fora da heteronorma têm suas lutas e demandas, com certeza; mas, ainda assim, estão se posicionando dentro de um binário imposto e vigente. E ser binárie tem seus privilégios.

Mas afirmar-se bicha e sapatão é negar até mesmo uma posição dentro desse binário. É colocar-se fora da própria cisnorma.

Existe uma força incrível e uma beleza incomparável numa identidade que combina gênero e orientação, que torna essas características unas; ambas unidas contra a cisnorma e a heteronorma (ou melhor, a cisheteronorma). É uma pena que assimilacionistas não percebam isso.

Muitas pessoas bichas e sapatonas avançaram com suas demandas e seus posicionamentos políticos dentro do território da não-binariedade sem nem saberem sobre esse conceito. E a não-binariedade sempre esteve e continua estando aqui para acolher e fortalecer esses corpos fora das caixinhas homem-mulher.

E eles não precisam tanto assim se encaixar numa das consagradas letrinhas de alguma sigla do movimento. Não é necessário outro B ou um S (que não é mais de simpatizante). O identitarismo dessas dissidências vai mais além disso, trazendo junto marcas fortes de raça e classe. Sua movimentação sempre seguiu por fora de movimentos convencionais. E assim continuará, se necessário (tem muita gente fora dos movimentos convencionais, acreditem).

Ainda faço uma ressalva especial aos corpos racializados que são bichas/sapatonas; que, mesmo sem saber, estão fazendo um resgate histórico; pois o binômio de gênero é um regime de origem eurocêntrica, e como tal foi imposto a todas as culturas ameríndias, asiáticas e africanas que aceitavam mais de dois gêneros ou outros gêneros além de homem e mulher (que também possuíam concepções diferentes das atuais).

Embora não tenhamos um equivalente próprio de queer no país, bichas e sapatonas têm muito de uma essência queer em si; desde a autoidentificação até suas ações.

Se queer for “gringo” demais e se espaços G e L falharem em incluir esses corpos, o meio não-binário ao menos estará sempre aqui para apoiá-los. No meio não-binário não somos e nunca seremos hétero; e muites de nós já somos (total ou parcialmente) ou um dia fomos apenas bichas e sapatões. Assim como também transviades, fanchas, travesti-macho, e mais.

E concluo dizendo que bichas e sapatonas e pessoas não-binárias num geral têm muito em comum e deveriam somar forças. E uma união assim é algo que podemos muito bem dizer que se compara ao que queer trouxe na anglosfera: uma filosofia antiassimilacionista e permanentemente contra-normativa, indo na contracorrente até dos próprios movimentos convencionais com suas novas imposições de ser e agir.

Texto: O Manifesto Bissexual

Aviso de conteúdo: monossexismo, concepção moralista sobre “promiscuidade”, mononormatividade.

Tradução minha do texto “O Manifesto Bissexual”.

Nós estamos cansades de sermos analisades, definides e representades por outras pessoas que não nós mesmes, ou pior ainda, não considerades em absoluto. Nós somos frustrades pelo isolamento imposto e pela invisibilidade que vêm de nos dizerem ou esperarem que escolhemos ou uma identidade homossexual ou heterossexual.

Monossexualidade é um ditame heterossexista usado para oprimir homossexuais e para negar a validade da bissexualidade.

Bissexualidade é uma identidade completa e fluida. Não presuma que bissexualidade seja binária ou duogâmica por natureza: que temos “dois” lados ou que devemos nos envolver simultaneamente com ambos os gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não presuma que só existem dois gêneros. Não confunda nossa fluidez com confusão, irresponsabilidade, ou incapacidade de ter compromisso. Não iguale promiscuidade, infidelidade, ou comportamento sexual inseguro com bissexualidade. Esses são traços humanos que cruzam todas as orientações sexuais. Nada deveria ser presumido sobre a sexualidade de qualquer ume, incluindo a sua.

Nós nos zangamos com aquelus que se recusam a aceitar nossa existência; nossas questões; nossas contribuições; nossas alianças; nossa voz. É hora de a voz bissexual ser ouvida.

O texto foi publicado em 1990 numa revista da época direcionada ao público bissexual, a Anything That Moves (tradução: “Qualquer Coisa Que Se Mova”).

Percebe-se que o ativismo bi já encontrava suas dificuldades desde essa década, e que monossexismo já se manifestava desde sempre junto com moralismos e a estigmatização da não-monogamia .

Curiosidade: encontrei que “duogamia” se refere a quando uma pessoa bi tem simultaneamente dues parceires, homem e mulher.

Desde essa publicação instaurou-se oficialmente bi como um termo guarda-chuva para toda forma de atração por mais de um gênero, e ainda abrindo espaço para o uso de outros rótulos. Essa definição ampla esteve sendo resgatada por pessoas e grupos bi/multi engajades num ativismo mais inclusivo e unificador, visto que o senso comum e muitas fontes ainda espalham que bi é apenas atração exclusiva pelos gêneros binários.

Em meio a tantas brigas internas (como bi v.s. pan) e muitos discursos de policiamento e segregação, devemos resgatar essa consciência, pregada pela comunidade bi em seus primórdios, e promover acolhimento e empoderamento mútuos de todas as pessoas multi. Olhar para trás e saber a história da comunidade é uma forma de fazer isso. E por isso compartilhei esse registro histórico da comunidade bi, que desde sempre abriu espaço para muitas identidades e expressões e considerou a existência de gêneros não-binários.

Lembrando que esse mês, setembro, é o mês da visibilidade bi. Então nada mais apropriado do que contar uma parte da história da comunidade.

A bandeira de orgulho bi. Uma bandeira de três faixas horizontais, duas grandes e uma mais fina entre elas. De cima para baixo, as cores são magenta, roxa e azul.

Referências bibliográficas (em inglês):

https://bialogue-group.tumblr.com/post/17532147836/atm1990-bisexualmanifesto

https://muse.jhu.edu/article/575374/summary