Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?

Aviso de conteúdo: pedofilia, campanhas anti-LGBTQIAPN+, retóricas falaciosas contra a comunidade e grupos dela, exclusionismos, contém links externos.

De tempos em tempos as redes sociais se agitam diante da mesma coisa que surge e ressurge da terra das bizarrices inesquecíveis: pedossexuais. Esse é só um nome bonitinho para pedófiles, colocando a pedofilia como uma “orientação sexual” – logo como uma atração tão válida quanto qualquer outra.

Se você não conhece essa polêmica, sinta-se privilegiade. E, sinto dizer: agora você vai conhecer. Mas se você conhece, tenho duas perguntas:

  1. você sabe de onde veio isso?
  2. você acredita que seja mesmo possível pedófiles terem um espaço na comunidade?

Pra quem é mais politizade e engajade nas questões dissidentes, pode até achar de prontidão que pedossexuais é uma grande “zoeira” infeliz de trolls da Internet, ou uma mentira descarada de gente diciseterossexista pra manchar a comunidade.

Porém, muitas pessoas, mesmo aquelas que estão há anos em movimentos sociais, ainda ficam na dúvida sobre a legitimidade desse grupo. E uma onda de pessoas acaba acreditando nessa legitimidade, mesmo gente da comunidade e aliada. E é exatamente isso que mais me incomoda nessa polêmica toda.

Bem, se for necessário mesmo fazer esse esforço (até pra quem quer falar sobre isso, mas não tem argumentos concretos), eu vou explicar brevemente o motivo de pedofilia não ser uma orientação:

  1. é uma atração que envolve especificamente um grupo de indivíduos que são incapazes de consentir em tais relações.
  2. é uma condição mental que causa danos ao individuo e a outros indivíduos (com ênfase nas vítimas, as próprias crianças).
  3. seu conceito está totalmente fora das concepções atuais de orientação, que é atração por gêneros e/ou atração que depende de fatores ou situações específiques (como vínculo, personalidade, etc).

E antes que alguém venha com discursos exclusionistas por causa do item 3, não, orientações influenciadas por neurodivergências não são equiparáveis a esse distúrbio, e nem validam uma orientação “influenciada” por ele, pois as definições delas não justificam a busca por relações sem consentimento.

  • Pedossexuais, MAPs, e afins

Falando des pedossexuais, onde tudo isso começou? Ao que tudo indica, buscando em fontes de investigações, essa palavra foi vista numa imagem compartilhada no saite 4chan (lugar famoso por ter todo tipo de bizarrice feita contra grupos dissidentes). Não se sabe de onde ela é, mas não há registro nenhum de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento feito pela comunidade que tenha usado uma sigla incluindo um P para pedossexuais. Ao que tudo indica isso foi ou uma montagem ou uma fabricação real feita por uma campanha “anti-gay”, tentando associar homossexualidade com pedofilia (uma tática que existe há décadas). Por mais que essa campanha seja absurda e esteja desmentida, o fantasma dela continua aí até hoje. Infelizmente, as fontes que tenho estão em inglês, mas as deixarei no final do texto.

Outra campanha famosa que surge e ressurge das cinzas periodicamente é de um grupo chamado MAP, do inglês minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores”. Há também um outro grupo, NOMAP, do inglês non offensive minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores não ofensivas”; que, aparentemente, define um grupo de pessoas com desejos pedófilos, mas que não querem contato com crianças. Não tenho informações suficientes sobre esse grupo pra determinar se é um grupo “inofensivo” ou não; porém, existem sim grupos de pedófiles que advogam contra a pornografia e abuso infantis.

Bem, “menores” é um grupo amplo e relativo que engloba adolescentes e crianças. Existem legislações diferentes pelo mundo que demarcam tanto a maioridade (18 anos, 21 anos, etc) quanto as idades de consentimento (aqui no Brasil, por exemplo, é 14). Fiz essa ressalva exatamente porque “atração por menores” inclui a pedofilia propriamente dita, mas também inclui atração por adolescentes, a qual não cabe no escopo do que a ciência e leis consideram como pedofilia ou abuso de criança (embora ainda seja um tópico controverso). Assim começa o problema com MAPs, pois relações com crianças seguem sendo classificadas como distúrbio mental (pela ciência) e crime (pela lei). Logo, conteúdos e grupos MAPs não são legítimos, não devem ser incentivados, e devem ser denunciados e levados à justiça. E o que acontece nessa terra de ninguém chamada Internet são campanhas nocivas de “positividade”, seja através de hashtags, de postagens incentivando ou defendendo, de montagens de “bandeiras de orgulho” para esse grupo, e outras atividades similares.

Eu diria que MAPs são apenas um subproduto do que se tornou a campanha de pedossexuais. Por isso achei pertinente essa menção, afinal, daqui a um tempo, provavelmente veremos mais citações escandalosas de MAPs no lugar de pedossexuais. No fim, é o mesmo lixo de sempre: ataques para manchar, desmoralizar e desarticular a comunidade.

Existem outros grupos por aí sem nomes específicos que “defendem” a pedofilia fazendo paralelos com discursos positivos a favor de relações dissidentes e teorias de gênero, dizendo coisas como “amor não tem idade”, ou que “idade é uma construção social”, enfim. E outras montagens que implicam que a comunidade aceita pedofilia. Mesma coisa pra tudo que eu disse sobre MAPs e pedossexuais.

  • Pedos na comunidade

Mas, afinal, o que me incomoda nessa polêmica toda? Exatamente as diversas reações que vejo de ativistas e outras pessoas da comunidade quando esse assunto bomba de repente nas redes sociais. Tem gente que acredita mesmo que tem pessoas da comunidade querendo aprovar a inclusão de pedos, tem gente que surta pra defender o quanto a comunidade não aprova isso e faz um esforço imenso para convencer es outres disso. E fico me perguntando como pessoas que estão há anos no movimento caem nisso, ou pra quem as pessoas estão se defendendo com tanta agitação?

Aqui estão explicações do por que pedossexuais ou MAPs (e qualquer outro nome que inventem) não têm como se infiltrar na comunidade e muito menos serem incluídes como um segmento próprio e legítimo:

Primeiro, qualquer apoio a desejos ou práticas de pedofilia vindo de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento referentes à comunidade com certeza receberá uma resposta totalmente negativa de imediato. Não haverá diálogo, porque isso não está para debate. Abuso de criança não é um debate. Pedofilia não é uma mera discussão de “a favor ou contra”. Ninguém aceitará isso (com exceção de quem quer abusar de crianças, né), e existe toda forte rejeição pública e de instituições legais e científicas.

Segundo, pedófiles precisariam antes se organizar enquanto movimento político, e se consolidarem numa identidade política, para assim talvez se articular como parte também da comunidade. Isso não vai acontecer. Mesmo que haja movimentos na Internet, em nenhum lugar do mundo atual esse movimento será aceito como político. Esse movimento não terá como abrir discussões sociais, lutar por direitos e demandas, exigir políticas públicas, enfim. Nenhum governo ou país aceitará isso, e qualquer tentativa de algo assim (que duvido que ocorra) também receberá uma reação imediata negativa.

Já existiu um ativismo pedófilo mais forte e presente nas décadas passadas, mas, atualmente, com o avanço das legislações e por causa da opinião pública geral, o pouco “ativismo” que existe se limita a espaços e postagens execráveis na Internet.

  • As reações da comunidade

Afinal, precisamos tanto assim nos defender de quem? Quem está acreditando que a comunidade quer aprovar pedofilia? Quem estamos precisando convencer disso? Sinceramente, além daquelus que já odeiam a comunidade, quem acredita nisso tem que ser alguém ou muito alienade sobre a comunidade ou com tendências reacionárias contra ela. E, com tendências reacionárias, me refiro a pessoas da comunidade que absorveram ideias e discursos contra outros grupos dissidentes (pode ser o caso de pessoas queermísicas, exclusionistas de assexuais, quem é contra microcomunidades, etc).

O desespero das pessoas chega ao ponto de afirmar que “não existe gente pedófila na comunidade”. É uma tentativa fútil colocar a comunidade toda como seres puros e divinos e que não existe gente pedófila nela. Com certeza existe. E são esses casos, quando públicos, que serão usados por reaças como mantras para dizer que “tinham razão”. E não importa os dados que apontam que a grande maioria dos casos de pedofilia é de pessoas cis hétero e dentro de conjuntos familiares. Não importa os muitos casos de pedofilia dentro de igrejas, ou de gente declaradamente cristã. Nossa defesa não deveria ser “ninguém aqui é pedófile”, e sim “a comunidade não reconhece isso como parte dela”.

E vou dizer também que rechaçar pessoas pedófilas da comunidade como “uma vergonha”, como “aquelas que realmente estragam a comunidade”, ou qualquer outra coisa similar, é apenas um punitivismo que serve pra agradar, antes de tudo, nosses inimigues, o sistema. Es pedófiles da comunidade são tão “hereges” quanto pessoas da comunidade que já assassinaram alguém a sangue frio, que já agrediram uma pessoa vulnerável, que são supremacistas branques, que são reaças de direita, enfim. Não precisamos ou devemos fazer votos de perfeição aqui. A comunidade é feita por pessoas, pessoas são falhas, e seus atos devem ser respondidos pelo que são. Fazer essas coisas e ser da comunidade é um agravante só pra quem quer uma desculpa para odiá-la e generalizá-la.

Seria bom se acabasse por aí, porém, nesse saco são jogadas também as pessoas indesejáveis à parcela da comunidade que é higienizada e praticante das respeitabilidades (como fetichistas e não-monogâmiques), aquelas que não se submetem a assimilacionismos ou atendem a critérios des porteires da comunidade (microcomunidades num geral), e várias pessoas queers que são “dissidentes demais” para os movimentos popularzinhos. Já vi muitas vezes orientações mais específicas – tanto a-espectrais quanto indefinidas – serem acusadas de “darem abertura” para pedofilia/abuso. E já vi reacionáries da comunidade acusando MOGAI ou microcomunidades da existência de grupos nocivos, como MAPs ou trolls adultes se dizendo crianças porque “se identificam com tal idade e querem ser respeitades por isso”. Incrível como os discursos parecem tanto com aqueles de reaças de direita, dizendo coisas como “primeiro aprovam homem com homem e mulher com mulher, depois chegam nos bichos, e aí nas crianças”.

E esse grande saco, onde são jogadas as pessoas nocivas e problemáticas e as pessoas legítimas e inocentes, só serve para dizer aes de fora da comunidade que somos seres puros e divinos, que merecemos viver e ser “normais”, e que em troca do perdão do Deus Normativo oferecemos esses sacrifícios. E adivinhem: aquelus de fora não se importam, e vão continuar com suas mentiras e falácias e seus ataques, como fazem há décadas, como sempre fizeram. Já associavam corpos dissidentes à pedofilia muito antes da primeira notícia de um caso confirmado de pedofilia vindo de alguém da comunidade. Por isso também digo que esse apelo não serve pra nada.

  • O que a comunidade pode fazer?

A comunidade faz muito bem em se posicionar contra a pedofilia, e não deixa de ser uma pauta importante (tanto pelas difamações quanto pelas muitas crianças dissidentes que sofrem abuso). Contudo, deve estar preparada para campanhas difamatórias como essas, e que vão continuar não importa o que ela faça. E que sempre serão mais impulsionadas quando a comunidade tocar em assuntos sobre as crianças, como quando falam das crianças não-normativas, ou das crianças que desde sempre se entendem como trans, enfim. E não são assuntos que devem ser deixados de fora em prol de respeitabilidades, ou para evitar ou diminuir acusações infundadas. Crianças dissidentes existem, e uma parcela enorme da comunidade se percebe dissidente desde cedo.

Apesar de tudo que falei, pedófiles continuam sendo um grande problema, e os conteúdos dos quais falei continuam causando caos e medo. O que podemos fazer contra tudo isso, até então, é denunciar para as redes sociais e autoridades competentes e entidades, evitar dar engajamento a tais conteúdos e pessoas, e tomar as possíveis medidas de segurança (como privar perfis).

A mensagem final desse texto é apenas mais uma vez que as pessoas parem de acreditar em tudo que leem na Internet, e comecem a investigar melhor as coisas. Estão, novamente, mordendo isca de invenções conservadoras.

Enfim, depois de tudo isso, você agora não precisa mais se contorcer no chão e dar saltos para defender a comunidade, acreditando que pedos são um grupo político legítimo e que possuem um movimento capaz de adentrar na comunidade. Ao menos isso não é mais um problema. De nada.

Links adicionais:

‘LGBT’ Está Adicionando um ‘P’ para Pedossexuais?

Checagem de fato: A comunidade LGBTQ não está adicionando “P” em sua sigla

E-Farsas: Grupos querem inserir o “P” de “pedossexual” na sigla LGBT?

BuzzFeed: A história da pedofilia entrar para a sigla LGBT desenha como funcionam as fake news

Identidades controversas, reacionarismos, e atrações múltiplas

Aviso de conteúdo: monossexismo (internalizado e reproduzido), assimilacionismo, policiamento de identidades e experiências, exclusionismo.

Pra quem não gosta de surpresa e talvez queira “poupar seu tempo”, já vou estragar: sim, esse texto vai defender heteroflexível e lésbica bi.

Bem, as orientações flexíveis são conhecidas há muito, enquanto gays/lésbicas multi é um fenômeno que ganhou atenção recentemente na anglosfera, mas que já chegou aqui no Brasil (junto com discursos contrários e um ódio importado também). Aqui, gostaria de explicar e discutir sobre essas identidades, e outras identidades fluidas, explorando mais sobre nossas ideias e concepções do que é a multiatratividade.

Acho que são discussões necessárias devido a muitas pessoas e comunidades multi estarem vendo uma ameaça que não existe nessas identidades, e no quanto essas ações podem afetar negativamente as comunidades e muitas pessoas multi. Senso crítico é importante, mas precisamos começar a separá-lo de nossos reacionarismos com o que não entendemos ou interpretamentos de forma negativa.

Vamos pensar mais nessas coisas antes de ficar pulando e exaltando com arco-íris e flores a tal da diversidade humana.

  • Orientações flexíveis

O conceito ainda obsoleto de pessoas homoflexíveis e heteroflexíveis é que são pessoas atraídas por determinado gênero binário, mas ocasionalmente se atraem pelo outro gênero binário – isso, claro, num contexto binário. É o que ainda se espalha por aí.

Embora sejam as orientações mais “famosas”, o sufixo -flexível acompanha qualquer orientação que descreva atração por um gênero ou que não descreva atração por todos os gêneros. Logo, não há apenas homoflexível e heteroflexível. Francamente, não sei o quanto orientações como virflexível ou trixenflexível ou neuflexível são também alvos de ataques e críticas assim como essas duas. Mas o que deve justificar isso é o fato de ambas estarem tanto “deturpando” uma identidade consagrada (homo – gay/lésbica) e “dando abertura” pra invasão de opressories (héteros), enquanto as outras citadas foram cunhadas fora do contexto LG.

O conceito mais atual de uma orientação flexível é atração por um gênero ou determinados gêneros, mas que possui exceções na atração. Essas exceções costumam ser fracas e/ou raras e/ou aleatórias. Pessoas flexíveis costumam relatar que possuem uma atração fixa e definida por longos períodos, e então percebem exceções em certas ocasiões. Essa é uma característica importante que faz com que muitas delas não sintam que faz sentido assumir identidades multi (como bi, poli, toren, trixen, etc), ou sintam que não se encaixam (totalmente) nessas comunidades. Porém, já existe um consenso em espaços mais inclusivos e comunidades flexíveis que elas estão dentro do guarda-chuva da multiatração – e isso é muito importante.

Sim, pessoas flexíveis são multi, assim como pessoas bi, poli, pan, oni, paro, toren, trixen, etc. Pessoas flexíveis se reconhecem assim, podem ser alvos de monossexismo também.

O ponto que gera controvérsias entre homoflexível e heteroflexível com pessoas multi, com ênfase nas pessoas bi, é que existe um histórico de pessoas mono usando essas identidades para zombar das atrações multi e querer invalidá-las. Questão complicada? Sim. Porém, não acho que pessoas flexíveis legítimas devam pagar por isso, quando pessoas nocivas assim sequer vão frequentar espaços multi e construir algo pelas comunidades multi, e muito menos se afirmar nessas identidades.

Agora também pergunto: quantos espaços multi, com ênfase em espaços bi, realmente sabem lidar criticamente com essa questão quando aparece uma pessoa que se diz flexível? Quantos desses espaços focam num diálogo e acolhimento em vez de cair em zoeiras e/ou acusações? Quantos se prestam a explicar seu ponto de vista sobre orientações flexíveis sem ataques e constrangimentos e fazer a pessoa se sentir mal?

Acho válido o esforço de um diálogo para apontar se aquela identidade é a mais adequada, ou se de repente a pessoa se encaixa melhor numa orientação multi como bi, poli, etc. Mas quantas pessoas fazem isso? Na hora de fazer piada e chacota com orientações flexíveis, várias pessoas multi se juntam com pessoas mono. Talvez até por isso também que aparece pessoas “sem rótulos” por aí, que na verdade são flexíveis, mas preferem esconder isso por medo e receio.

Também percebo que discursos contra orientações flexíveis caem numa imensa contradição, pois é fácil acusar de monossexismo identidades que descrevem, a princípio, atração por apenas um gênero. E identidades que descrevem atração por um número de gêneros? Por que essas exceções podem ou não ter um nome? Estariam elas “manchando” também as pessoas multi? São pessoas pan com panmisia internalizada (ignorando que mesmo a exceção pode não englobar todos os gêneros)? Nunca vi esses discursos, embora eu consiga imaginá-los.

Aliás, podemos até fazer um paralelo nessa questão das exceções com atrações a-espectrais, visto que nesses espectros existem também atrações que podem ser fracas e/ou raras, que podem ser condicionais ou circunstanciais. Invalidar essas exceções não seria algo paralelamente alossexista? Não sei responder. Mas é muito contraditório invalidá-las enquanto valida experiências a-espectrais.

Acredito que posso resumir meus pontos a: orientações flexíveis são válidas porque são multi, são alvo de monossexismo, podem ser experiências tanto de pessoas (a princípio) mono quanto de outras pessoas multi, são experiências paralelas a outros tipos de orientações, e pessoas que as adotam legitimamente não têm o que ganhar com isso sistematicamente nem com as próprias comunidades multi em geral.

Afinal, espaços multi deveriam se fechar assim para pessoas flexíveis, quando as mesmas também possuem experiências negativas como vácuo identitário, policiamento de sua atração, e hostilidade de pessoas mono quando relatam atração/relação com pessoas de determinado(s) gênero(s)? Espaços multi deveriam dar toda essa importância a essas identificações quando nesses espaços se prega tanto que não importa como ocorre a atração, a frequência dela, com quais e quantas pessoas de determinado(s) gênero(s) a pessoa se relacionou? Fica aí a reflexão.

  • Gays/Lésbicas multi

Aqui focarei em gays/lésbicas multi, embora haja possibilidade desse “cruzamento” de identidades também com outras orientações mono (hétero, vir, femina, etc). Existem também contextos específicos, exclusivos das identidades gay e lésbica, que justificam a presença e difusão de gays multi e lésbicas multi e não de outras possibilidades.

Vou começar colocando aqui as principais razões que levam pessoas a se identificarem assim:

  1. pessoas multi com preferência por homens/mulheres;
  2. pessoas multi que sentem atração por homens/mulheres;
  3. pessoas multi que sentem atração por um gênero binário e pessoas não-binárias;
  4. pessoas multi atraídas por pessoas binárias e não-binárias, e querem dar ênfase nas não-binárias;
  5. pessoas multi resgatando gay/lésbica como termos guarda-chuva;
  6. pessoas variorientadas que são multi numa atração e gay/lésbica em outra;
  7. pessoas atraídas por um gênero, mas não descartam se relacionar com outro(s).

Falando de uma perspectiva histórica, lesbianismo inicialmente não definia uma orientação específica, e sim um comportamento, que englobava toda mulher sáfica. Muitas mulheres bi se firmaram (também) na identidade lésbica, até haver a influência das feministas radicais e o separatismo lésbico. Algumas mulheres que tiveram essa vivência seguiram usando, enquanto há outras pessoas que querem resgatar pra si esse uso mais amplo. Então, mulheres se afirmando lésbica e bi não é um fenômeno recente, advindo com a Internet. Isso acontece há décadas.

Sobre gays multi, achei pouquíssima coisa, mas acredito que haja sim pessoas querendo resgatar pra si um uso mais amplo de gay, dependendo de suas experiências, de sua geração, enfim.

Li muitas postagens contrárias a essas identidades e, embora algumas parecessem convincentes nos argumentos, percebi que quase todas pareciam ter interpretado gay/lésbica multi como quisessem (sem nem ler as razões de pessoas se identificarem), e focavam no quanto esses grupos iriam “confundir as definições” e dar aval para ataques de grupos nocivos (assediadories, gente lesbomísica/bísimica, etc). Isso me soa aquela tática clássica de reacionáries de culpar um grupo por fenômenos que já existem e vão continuar existindo com ou sem esse grupo. E ninguém também está impondo o uso dessas identidades, pois elas servem a quem vê sentido nelas.

Acusar gays e lésbicas multi disso e de desrespeitar ou manchar as comunidades multi faz tanto sentido quanto dizer o mesmo de: pessoas que primeiro se assumiram gay/lésbica e depois se assumiram multi, pessoas que primeiro se assumiram multi e depois se assumiram mono, e pessoas fluidas que transitam entre identidades mono e multi (e o discurso pode até se estender para identidades como abro ou duo).

Esse ódio todo a gays e lésbicas multi chegou a ponto de haver mobilizações contra e criadore da bandeira pan por elu ter apoiado esses grupos, e ter listas de bloqueios de pessoas gays/lésbicas multi e apoiadories, para terem ideia da dimensão que chegou.

E gays e lésbicas multi são o que, afinal? Bem, antes de tudo, são multi. São pessoas atraídas por mais de um gênero, em qualquer uma das possíveis situações, e que podem acessar comunidades das identidades que usam. São tão multi quanto qualquer outra pessoa multi, e que também merecem um espaço em comunidades gays/lésbicas.

A própria ideia de pessoas gays e lésbicas serem multi nem é realmente absurda ou longe da realidade, considerando que:

  1. enquanto há aquelus atraídes apenas pelos gêneros binários, existem aquelus atraídes pelos binários e gêneros similares. Dependendo da experiência e perspectiva, a pessoa pode se considerar atraída por mais de um gênero, mesmo que sejam gêneros dentro de um mesmo espectro (masculino/feminino).
  2. existem pessoas atraídas sexualmente por um gênero e romanticamente por outro (ex: gay heterorromântico), e isso, tecnicamente, as coloca como multi devido a suas experiências se cruzarem com de outras pessoas multi (mas é possível que nem todas se considerem multi mesmo assim).

Nossa própria ideia do que é ser multi precisa sair de caixinhas.

Entendo que a informação aqui na lusosfera, ainda mais no Brasil, é precária, muitas dessas discussões não chegam aqui, mas acredito que criaram um monstro desproporcional em cima de gays e lésbicas multi, sendo que: pessoas variorientadas nem são tão desconhecidas assim, os termos gay e lésbica têm um histórico conhecido de terem sido amplos, e parece que nem houve esforços pra entender esses grupos ou dialogar.

Muito desse reacionarismo todo remete a valores assimilacionistas e essencialistas criados para “unificar e proteger” as comunidades. Isso é um grande problema, pois caímos em policiamento de identidades e experiências alheias, coerção (“se identifique assim, ou você é inválide”), e afastamento de pessoas de espaços seguros e ativismos. Onde isso tudo ajuda pessoas multiatraídas?

  • Identidades fluidas

Se fôssemos separar orientações em categorias específicas, além de mono e multi teríamos a categoria fluida. Apesar de ser uma categoria mais próxima de multi do que das demais, pessoas fluidas possuem experiências que podem transitar entre experiências tipicamente multi e mono e também a-espectrais.

É tragicômico ver o tanto gente da comunidade e (supostes) aliades que repetem o mantra da “sexualidade é fluida” e o quanto fluidez é muitas vezes colocada como parte das atrações multi, mas, porém, contudo, pessoas de todos os lugares, sejam mono ou multi, aparecem para vomitar ódio em cima de qualquer orientação fluida. Aliás, esse tipo de coisa já me fez escrever um texto de defesa da orientação abro, e eu recomendo essa leitura porque as ideias necessárias já estão nele.

Eu acredito que esse posicionamento contra identidades fluidas, quando vem de pessoas multi, é mais por reacionarismo e assimilacionismo (“é melhor usar tal identidade”, “vamos todes nos dizer apenas bi”, etc) do que puro monossexismo. Muitos dos discursos que já vi em ondas de ataque focavam no quanto pessoas fluidas eram apenas bi (ou multi) que não queriam assumir isso e tinham monossexismo internalizado. E, de novo, vejo nas redes sociais mais esforços pra condenar alguém do que acolher – o que me faz temer por qualquer pessoa de microcomunidades que queira se expressar ou buscar solidariedade nas redes populares.

Sobre pessoas fluidas, muitas se consideram multi, e existe consenso em discussões sobre monossexismo de que essa opressão também atinge pessoas fluidas. A própria fluidez coloca a pessoa numa posição simultânea de “pessoa que não se atrai por apenas um gênero o tempo todo” e “pessoa atraída por mais de um gênero”, e tal pessoa não é poupada mesmo que haja um período em que sua atração possa ser descrita como hétero (caso alguém já pense em soltar essa pérola). Isso me lembra aquela mesma velha “discussão” de que pessoas a-espectrais hétero (assexuais heterorromântiques, heterossexuais arromântiques, etc) são ou não são beneficiadas pelo heterossexismo (e não, não são).

Agora pergunto novamente sobre como espaços multi lidam com pessoas fluidas. Suas definições de bi, poli, etc – que, aliás, já são muito abertas – conseguem englobar experiências fluidas? Podemos apenas jogar pessoas fluidas numa dessas identidades, contudo e apesar de tudo? Podemos fazer isso com: uma pessoa ora atraída apenas por homens, ora atraída apenas por mulheres; ou uma pessoa que num período se atrai por muitos gêneros, e em outro se atrai por apenas um; ou uma pessoa que muda constantemente entre atração por um gênero, poucos gêneros, muitos gêneros, todos os gêneros, e nenhum gênero?

Sinceramente? Passou do momento de perceber que pessoas fluidas estão lado a lado com pessoas multi, ainda mais na luta contra o monossexismo, e que esse monte de policiamento e ataques faz de tudo, menos unir ou ajudar alguém. E nem é incomum pessoas fluidas adotarem também identidades multi. Espero que pessoas fluidas possam se organizar melhor e produzir seus conteúdos, para assim trazer mais visibilidade a essas questões.

Outras orientações fluidas que podem ser citadas: duo, acefluide, bifluxo, novo, onique, adfectu, morfe.

  • Então… tudo é válido?

Tudo que foi citado acima são identidades válidas, experiências reais, e que precisam ser melhor consideradas. Mas, claro, nem tudo que aparece por aí é válido. Isso parece frase de reaça, porém não deixa de ser verdade.

Contudo e apesar de tudo, precisamos ainda manter um senso crítico com certas coisas que são divulgadas por aí. Isso inclui identidades como semibissexual, que é obviamente falsa e criada pra zoar (sim, vou usar a palavra obviamente, porque se você acreditou nisso, você tem o mesmo senso crítico de quem acredita em fake news absurdas). E pra quem não sabe, semibissexual é “uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”. Sim, essa é a definição. Sim, teve gente que levou a sério.

Adendo: essa identidade também pode atingir pessoas a-espectrais que usam alguma orientação com prefixo semi- e que também são bi, e que podem se apresentar como “semibi”, por exemplo. Cuidado com essa confusão!

Outro grupo muito problemático que teve atenção há uns anos são os goys (pra quem não sabe, são homens que se dizem héteros, mas se relacionam sexualmente com outros homens – sem serem passivos – e não se apaixonam por eles). Na prática, vejo goys como homens bi/multissexuais heterorromânticos. O problema com esse grupo são os princípios que giram em torno deles, que são basicamente misóginos, fememísicos, e (ironicamente) heterossexistas.

Nada do que foi defendido nos outros tópicos pode ser comparado a uma identidade troll e um grupo muito problemático sem credibilidade. E nem com outras coisas que aparecem ocasionalmente, como highsexuais (que acho mais problemático pela circunstância do que pela definição), ou qualquer outro grupo que mostra comportamento multissexual e não usa qualquer termo que remeta a isso.

Monossexismo é estrutural, e tudo isso não deixa de ser manifestações dele. Porém, precisamos tomar cuidado para não cair em reacionarismos e colocar grupos legítimos junto com esses mencionados agora. E, principalmente, ampliar o que entendemos por multiatratividade, para também não cairmos em críticas alheias que, no fim, também possuem raízes monossexistas.

Links adicionais:

Lésbica Bi (conteúdo em inglês)

O Que Heteroflexível Significa E Como Saber Se Se Aplica A Você (conteúdo em inglês) (aviso de conteúdo: definição obsoleta, linguagem exorsexista)

Vamos falar dos direitos dos homens

Aviso de conteúdo: misoginia, menciona violências e suicídio, referências às realidades de muitos grupos marginalizados, contém links externos.

Homens têm direitos? Homens têm privilégios? Homens são oprimidos? Homens necessitam lutar por direitos?

Parecem perguntas ridículas. Ao menos para muitas feministas e pessoas de um ou mais grupos marginalizados. Mas peço que não as vejam dessa forma. Não existem perguntas ridículas, e são perguntas mais interessantes do que aparentam ser.

Faz um tempo que vi um vídeo de uma conversa entre uma feminista e um “ativista dos direitos dos homens”. Decidi ver o vídeo, achando que ele proporcionaria mais momentos de raiva ou escárnio que qualquer outra coisa. Bem, até teve isso. Mas decidi analisar com mais calma tudo aquilo. E então tive a ideia de escrever esse texto. Diretos dos homens.

Uma retrospectiva da História antes. Revolução Francesa, um período que durou de 1789 a 1799. Tendo inspirações no pensamento iluminista, formulou-se um documento que decretava os direitos individuais e coletivos “dos homens”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um marco importante na história dos direitos humanos. Inclusive, esse documento foi base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Muites dizem por aí que a palavra “homem” se referia ao ser humano como um todo. Mas, porém, entretanto, contudo… na prática, a Declaração apenas servia aos homens mesmo, enquanto as mulheres foram esquecidas dos ilustres princípios de liberdade, igualdade e brotheragem… ops, digo, fraternidade. Tanto que, um tempo depois, formulou-se a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; que foi rejeitada pela Convenção francesa. Mulheres exigindo os mesmos direitos que os homens ainda era algo inconcebível naquela época de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Na segunda onda do feminismo, década de 1960, surgiu o feminismo radical, que trouxe uma série de discussões sobre patriarcado e a origem da opressão das mulheres – que, segundo a vertente, está na existência do gênero dentro dos moldes patriarcais que conhecemos. Não vou discutir sobre o feminismo radical aqui. Vou puxar justamente a ideia do patriarcado.

A ideia de patriarcado surgiu para explicar, a princípio, como funciona a opressão dos homens sobre as mulheres. Os homens são um grupo antagônico e que possuem privilégios, enquanto mulheres são o grupo oprimido. E essa visão dicotômica já um pouco ultrapassada de “homem, privilégio; mulher, opressão” perdura até hoje.

Não é de se estranhar que vários homens, e aqui incluo reaças e antifeministas, já pontuaram várias vezes as “generalizações” que feministas fazem de homens. Não apenas discursos colocando homens como um grupo todo privilegiado, mas afirmações mais controversas como “todo homem é um estuprador em potencial”, e ideias que reafirmam alguma maldade inerente ao gênero homem.

Os feminismos trouxeram uma abertura importante para homens poderem falar de si também e dos efeitos negativos do patriarcado sobre eles. Por isso é possível encontrar grupos e espaços de homens feministas/pró-feminismo/antipatriarcado – e aqui acho válido citar o movimento Homens Libertem-Se e o saite Papo de Homem. Além disso, os feminismos trouxeram o que todo movimento social traz no mundo atual: reacionarismo. Principalmente de grupos alinhados ao direitismo e conservadorismo. Grupos antifeministas são sempre desse espectro político, muito embora antifeminismo possa existir até mesmo em grupos (ditos) progressistas e revolucionários.

Outro fenômeno que surgiu com tudo isso e o avanço da Internet foi o masculinismo, que possui diversos significados (às vezes positivos, às vezes negativos), mas aqui focarei num principal ponto: masculinistas são homens buscando lutar por “seus direitos”. Há grupos e grupos, como aqueles que reivindicam tópicos específicos – como a quebra de estereótipos nocivos ou a abolição do alistamento militar obrigatório, e aqueles que buscam “igualdade” com as mulheres em certas situações sem ter o mínimo de senso crítico ou mesmo atribuindo culpas às mulheres que as mesmas sequer têm. E, infelizmente, foram esses últimos grupos, essencialmente antifeministas, que culminaram nos ditos movimentos pelos direitos dos homens.

O que são os movimentos de direitos dos homens? Bem, são apenas isso. Movimentos pelos direitos dos homens. E o que os movimentos em prol dos direitos dos homens afirmam? Resumidamente que a classe homem tornou-se a mais oprimida ou negligenciada em detrimento da classe mulher, e que, por isso, busca reunir os homens para lutar contra isso. Os homens desses movimentos afirmam sofrer opressões, inclusive, das próprias mulheres e da sociedade atual (que agora “favorece mais as mulheres”).

Afinal, que opressões são essas que esses homens estão dizendo por aí que sofrem? Bem, num geral, são praticamente as mesmas pontuações misturadas com diversas falácias, dados falsos/duvidosos, e premissas equivocadas/distorcidas. Acredito que posso resumi-las em: cobranças sociais, taxas de expectativa de vida e suicídio, funções e direitos paternais, liberdade de expressão, e discursos generalistas negativos. Muito bem, vou falar de cada item.

As cobranças sociais. Sim, são um grande problema mesmo. E estão envolvidas nas taxas de violência e suicídio dos homens. Não é por um acaso que estão surgindo grupos de apoio de homens formados para discutir a masculinidade tóxica. Porque essas cobranças têm uma relação íntima com esse conceito. E para quem conhece a masculinidade tóxica sabe que ela é um produto do patriarcado. Mulheres podem ser sustentadoras disso tanto quanto qualquer outra pessoa, e isso não apaga o fato de que elas continuam presentes em estatísticas de violência doméstica, estupro, e feminicídio; e nem o fato de que o grupo atuante que predomina nessas estatísticas são homens.

Acontece que vejo tentativas desses movimentos em jogar a culpa das cobranças sociais na conta das mulheres, o que é, no mínimo, absurdamente desonesto. Até parece que foram as mulheres que sempre estiveram no comando da lei, religião e ciência, e criaram uma série de normas sobre ser homem e ser mulher.

As taxas. Sim, precisamos urgentemente falar delas. Realmente, homens morrem mais e se suicidam mais. Pois são outras consequências das cobranças sociais, da masculinidade tóxica, do molde nocivo que o patriarcado constrói e impõe aos homens. Apesar de ainda haver pouca visibilidade nessas questões, existem estudos e preocupações com esses fenômenos. Homens precisam urgentemente discutir sobre sentimentos e masculinidades. E isso precisa obrigatoriamente levar em conta fatores interseccionais, como raça e modalidade de gênero, visto que existem altos índices de suicídio entre homens negros e homens trans. E discutir essas questões indo nas verdadeiras raízes, nas reais causas das violências com homens e entre homens.

Não encontrei em minhas pesquisas quaisquer respostas ou ações efetivas dos tais movimentos dos homens sobre essas questões, que já são bem neglicenciadas.

Paternidade. Vamos lá, tópico polêmico. Nossa sociedade prega um modelo tradicional de família que coloca o pai como provedor e a mãe como cuidadora. Embora ambes possam participar na criação, é socialmente aceito, quase num acordo invisível, de que a criação des filhes é responsabilidade da mãe. Isso sobrecarrega qualquer pessoa, ainda mais num lar onde ambas figuras têm empregos. E com certeza deve influenciar em decisões jurídicas de guarda. Se existe uma preocupação legítima com a paternidade, os homens deveriam então focar em dividir as tarefas domésticas e de criação. Em relação aos direitos dos homens nessa questão da paternidade, já existem esses direitos (ao menos no Brasil). Não vou ficar pesquisando sobre os outros países do mundo, mas caso não haja esses direitos em algum país, esses homens precisam se mobilizar por isso sim. Sobre guarda, bom, cada caso é um caso, não sou especialista e nem juíze. Mas já existem mecanismos atuando em prol dos homens. Por isso, sim, exijam seus direitos, pois já são garantidos. E se ainda assim algum homem achar que a decisão jurídica não foi justa, ele deve proceder dentro do âmbito legal.

Agora, também pergunto aos tais movimentos dos homens: o que acham sobre os altos índices de abandono paterno e das milhares de crianças sem o nome do pai nos RGs? Também não achei opiniões e posicionamentos sobre isso, apenas acusações infundadas de que mulheres são “privilegiadas” por cuidarem des filhes e “sempre” ficarem com a guarda.

Em relação a tal liberdade de expressão, sinceramente, é difícil levar a sério. Porque aqui caímos naquela questão clássica de um grupo privilegiado de pessoas querendo fazer qualquer discurso nocivo contra um grupo marginalizado, e sentindo-se ameaçado conforme esse outro grupo ganha alguma visibilidade e voz para denunciar toda opressão que passa. Aquela falsa simetria básica, onde um grupo está lutando pela vida, enquanto o outro chora por não poder fazer mais aquelas “piadinhas” preconceituosas de sempre. E o que mais pesa aqui são declarações misóginas e retóricas sexistas.

Falando nos discursos generalistas, bem, eu vou ceder um pouquinho e dizer que eles têm um lado problemático e improdutivo. A raiz desses discursos é sem dúvida o feminismo radical, que muitas vezes coloca homens como indivíduos naturalmente ruins e opressivos. Já deveríamos ter superado isso, mesmo que seja em forma de meme ou piada. Esse tipo de atitude, mesmo sendo contra um grupo privilegiado, não ajuda e não acrescenta em nada. E, além disso, antagonizar homens é uma atitude extremamente irresponsável e mostra ignorância ou descaso com as possíveis intersecções que atravessam homens: raça, orientação, modalidade de gênero, classe, corporalidade, entre outras.

Se você acha ridícula a ideia de que é possível mulheres oprimirem homens ou fala de homens como se fossem toda uma categoria homogênea dotada de “todos os privilégios”, você precisa urgentemente rever se não está contaminade com retóricas radfem e mais do que nunca estudar interseccionalidades. Sim, mulher pode oprimir homem. E não, não é nenhum dos casos que os tais movimentos pró-homem falam por aí (até porque, nem intersecção de raça fazem).

Ah, interseccionalidades! Vamos falar sobre elas? Vamos falar sobre os muitos grupos de homens sujeitos a opressões específicas?

Homens negros e indígenas são alvos de muita violência do Estado. Homens trans ainda lutam por reconhecimento social e direitos básicos como moradia e saúde. Homens gays estão no topo das estatísticas de violência e morte por discriminação heterossexista. Homens bi/multi são invisibilizados até nas políticas públicas “LGBT”. Homens intersexo são vítimas de mutilação genital e falta de autonomia sobre seus próprios corpos. Homens gordos são patologizados e ridicularizados. Homens com deficiência possuem uma série de demandas pela inacessibilidade e são vistos como fardos. Homens da classe trabalhadora enfrentam exploração e têm seus direitos ameaçados constantemente. E eu poderia ficar aqui me estendendo com mais e mais exemplos, mas o resto e muito mais pode ser encontrado com uma pesquisa feita na boa vontade.

Não há como discutir realmente os direitos dos homens sem levar em conta toda construção patriarcal e ocidental de gênero, e sem incluir as pautas raciais, heterodissidentes, cisdissidentes, trabalhistas, das PCDs e des neurodivergentes, etc etc etc. Enquanto há questões inerentes ao patriarcado e que podem atingir homens em geral, há questões mais específicas de outras estruturas opressivas (que podem piorar as questões gerais).

Agora eu vos pergunto: esses tais movimentos a favor dos “direitos dos homens” estão falando dessas questões? Quantos estão abordando as questões gerais da maneira mais adequada, com olhar crítico, sem praticar falsas simetrias, sem tirar a culpa do patriarcado, e sem jogar alguma culpa desmedida em mulheres? Se as questões que atingem os homens não estão considerando o patriarcado e todas as possíveis interseccionalidades, afinal, o que exatamente esses grupos estão fazem em prol dos homens?

Se não há nada disso, a única coisa que podemos concluir é que esses grupos são apenas aglomerados de machistas sem práxis, articulação política, demandas válidas, nada que proponha mudanças sociais ou que seja capaz de realizá-las. Não apenas isso, como também são apenas mais uma forma do antifeminismo, e isso fica evidente considerando o quanto focam em atacar os movimentos feministas, se utilizando também de sexismo e misoginia, dados falsos ou inventados ou sem nenhuma fonte, e negação do gênero como um fator que incentiva violências específicas contra a mulher.

Por isso temos movimentos antifeministas como A Voice for Men (tradução literal: Uma Voz para Os Homens), que dizem lutar pelos “direitos dos homens”, mas acabam sendo apenas redutos sexistas que legitimam a imensa misoginia e as visões distorcidas do mundo de homens obscurantistas e negacionistas, que de bônus odeiam também outros grupos marginalizados. Basta analisar os discursos de seus membros e ver suas postagens e entrevistas.

Gênero é um assunto complexo e não pode ser resumido a “todos os homens têm privilégio e oprimem todas as mulheres.” É coerente dizer que o patriarcado por si só, a princípio, tende a conferir privilégios aos indivíduos homens. Mas vivemos numa sociedade que não é apenas patriarcal, mas também é racista, diciseterossexista, capacitista, entre outras opressões. Uma luta a favor dos homens deve ser uma luta a favor de todos os homens. Muitos direitos sociais estão garantidos, na teoria. Na prática, nota-se quais homens são mais privilegiados e quais são menos. Pra haver igualdade, estruturas hegemônicas de poder precisam ser derrubadas. E é esse comprometimento que se espera dos homens envolvidos em suas respectivas causas sociais, assim como os homens aliados dessas, e assim como os grupos de homens que estão se reinventando e buscando a verdadeira libertação do gênero homem.

Um movimento a favor dos direitos dos homens só faz sentido se for um movimento essencialmente antipatriarcal e interseccional. Somente assim, seguindo esses vieses, que podem ir até a raiz dos problemas, de tudo que falta aos homens, de toda opressão possível de atingir os homens. É esse movimento que podemos e devemos construir.

Links adicionais:

Documentário: The Mask You Live In (Legendado)

Colocamos uma feminista e um ativista dos direitos dos homens para conversar (sem que eles soubessem) (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Mulheres são privilegiadas. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Homens são privilegiados. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: essencialismo de gênero, argumentações liberais e religiosas, discursos antifeminismo.)

Fetichismo: conceito, ideias, questionamentos

Aviso de conteúdo: sexualidade, referências sexuais, menções a fetiches, discriminação anti-fetichista, contém links externos.

Hoje o assunto é polêmico. Então, putinhes e puritanes, se preparem para uma jatada de rompimento de moralismos na cara.

Vocês sabem o que são fetiches? Bem, talvez saibam. Ou acham que sabem. Fetiches possuem uma visão muito negativa, e até hoje espalham por aí ideias equivocadas sobre isso, chamando muita coisa que sequer é fetiche de fetiche.

Pois bem, basicamente, fetiches são quando se atribui um valor sexual a partes corporais, objetos, situações e fantasias que, a princípio, não possuem nada de sexual. Aqui poderia citar então fetiche por pés, por roupas de couro, em transar numa floresta, ou em simular uma cena erótica.

Não faz sentido dizer ter fetiche por órgãos genitais, pois já são partes associadas com sexualidade. O mesmo pode ser dito sobre partes que nem são genitais, mas possuem valores sexuais atribuídos socialmente, como bunda e seios.

Dentro do que foi dito, pessoas em si não podem ser fetiche por terem determinadas características. Isso é algo que pesa muito para grupos marginalizados, pois essas atitudes refletem outras facetas de suas respectivas opressões. Não, mulheres não são fetiche, pessoas negras não são fetiche, pessoas trans não são fetiche, pessoas gordas não são fetiche, e por aí vai. Não são porque não podem ser. O que acontece com esses grupos pode ser chamado de objetificação ou hipersexualização (não sei se existem diferenças práticas entre esses termos).

“Ah, mas eu vi a pessoa dizendo que tinha fetiche por [insira grupo marginalizado]!”

Pois bem, essa pessoa não sabe do que está falando. Ela está apenas reproduzindo uma ideia equivocada e negativa que é espalhada em torno da palavra fetiche. E, aliás, fazer isso não apenas cai na objetificação ou hipersexualização, como também contribui com o ódio e o preconceito contra fetiches e fetichistas. Para facilitar, eu vou usar o termo “fetichização” pra falar dessa ação errônea de tornar alguém ou um grupo num fetiche.

Ninguém diz ter fetiche em pessoas cis ou brancas. Engraçado, né? Porque elas são mais que isso: são “preferências”, são exaltadas como objetivos de vida, são colocadas como padrão de beleza e desejo. Isso é bem mais problemático do que quando esses corpos são, de certo modo, sexualizados em propagandas, na mídia, enfim. Daí, entramos no tópico da compulsão sexual que passamos na sociedade, onde somos bombardeades frequentemente com imagens e mensagens sexuais, que só reforçam as narrativas de que sexo é fundamental e deve ser presente em nossas vidas. Isso é um grande problema, mas não algo que deve ser colocado na conta dos fetiches.

A única “fetichização” que conheço de um grupo privilegiado é aquela cometida por muitos homens cis gays com homens cis héteros. Não que isso afete esse grupo de alguma maneira. O mais problemático mesmo é que essa exaltação do hétero parte de premissas normativas, de que o homem que se relaciona com mulheres é “mais homem”, logo, mais atraente e sexualmente cobiçável. Às vezes isso até se estende para homens multissexuais pelo mesmo motivo. Às vezes, não – o que evidencia o monossexismo.

Isso foi apenas para exemplificar que grupos privilegiados ainda podem sair intactos de objetificação e hipersexualização, e essas atitudes ainda terem por base opressões que não os afetam.

“Ah, mas até que ponto é fetiche e não distúrbio ou transtorno?”

Hm, qual o limite do fetiche? Isso me lembra perguntas como “qual o limite da arte?”.

O limite é não ter limite, desde que exista dois grandes pilares fundamentais que sustentam essa porra: consentimento e prazer. Se todas as partes estão concordando e estão curtindo, é o que importa. E é pra isso que serve (ou deveria servir) o fetichismo. Explorar novas áreas da sexualidade. O que é sexualidade sem consentimento e prazer?

Sim, quando falo que tudo pode, é tudo mesmo. Incluindo aquelas coisas que muita gente acha nojenta ou problemática. Coisas que acho que não preciso citar. O que é feito entre quatro paredes e entre um conjunto (um casal, um trisal, um bacanal, etc) é problema dessas pessoas, e um grande espaço onde a imaginação se expande a favor delas, sem julgamentos ou moralismos. É um espaço onde a própria opressão pode ser subvertida e transformada num ato de prazer, ou onde aqueles desejos considerados errados pelas sociedades belas e recatas podem ser realizados dignamente.

E, só pra lubrificar as ideias aqui, o fetichismo não envolve parafilias com seres incapazes de consentir, como o trio pedo-necro-zoo. Além disso, e pra finalizar, se um desejo seu te faz algum mal e também causa mal aes outres, o fetichismo ou o meio fetichista não vão te ajudar. Busque ajuda psicológica.

“Ah, mas eu vi uma pessoa dizendo que gosta de ser objetificada/hipersexualizada.”

Bem, isso é uma questão controversa. Fiquei refletindo sobre isso por um bom tempo. Acabei, então, comparando essa situação com dois fetiches: exibicionismo e submissão. O exibicionismo consiste na pessoa em se mostrar, tendo prazer apenas com isso, ou, também, tendo prazer em despertar desejos alheios. Não seria isso uma forma dessa pessoa de estar sendo hipersexualizada? A submissão envolve jogos e fantasias, muitas vezes envolvendo a pessoa simular ser uma coisa que só existe para o prazer alheio. Isso não seria a pessoa estar consentindo em ser objetificada? Se ambos os fetiches estão errados, logo, alguém que diz gostar de ser objetificade/hipersexualizade está errade. Porém, se nesse mundo de imaginação tudo é permitido desde que haja consentimento e prazer mútuos, por que uma pessoa desejar isso deveria ser errado?

Caímos quase numa questão filosófica. Mas eu também não sei se deveria ser, pois não acho que temos o direito de medir por nossas réguas se o prazer da outra pessoa é problemático, isso quando o mesmo lhe faz bem e não está ferindo nem a ela nem ninguém.

“E pessoas do mesmo grupo marginalizado podem cometer essas coisas entre si?”

Sim, da mesma forma que pessoas marginalizadas podem reproduzir suas respectivas opressões. Acontece. E por isso precisamos espalhar informações e abrir diálogos, mesma coisa que fazemos com demais questões estruturais.

“E como sei que estou objetificando ou hipersexualizando alguém?”

Se uma pessoa ou um grupo te disserem que você está cometendo essas ações, no mínimo, você deve refletir sobre isso. Ninguém fica incomodade ou desconfortável sem motivo. E isso vale pra qualquer ume, incluindo ume parceire de longa data.

Caso não tenha ninguém para te dizer algo, pense nas seguintes questões:

– Estou reduzindo alguém a determinada(s) característica(s) visando apenas meu próprio prazer?

– Estou colocando meu prazer em primeiro lugar sem pensar na outra pessoa?

– Estou colocando expectativas sem fundamento naquele corpo apenas por ele ser o que é?

Se a resposta for sim pra qualquer uma dessas perguntas, sim, isso é uma fetichização, e você deve repensar sobre isso.

Se a resposta for não, e você demonstra uma admiração genuína por certos corpos marginalizados, isso não é um problema. Você pode amar corpos marginalizados sem cair em fetichização. Você pode apreciar a beleza de um corpo negro, trans, gordo, etc. Apenas não espere que pessoas desses grupos te correspondam, ou fique buscando afeto apenas desses grupos (isso vai parecer chasing).

“Relações centradas entre esses grupos não podem cair nessas coisas?”

Talvez. Depende do caso, depende da intenção.

Relações centradas são uma resposta a uma estrutura opressiva que limita ou mesmo anula as possibilidades afetivas de um grupo. Por isso o grupo reage ficando apenas entre si. Justo, não? Muita gente também, por causa de traumas e um longo histórico negativo, acabam preferindo o próprio grupo do que “arriscar” outras relações. É um direito delas.

Agora, antes de apostar nas relações centradas, se façam aquelas perguntinhas, em especial a pergunta sobre colocar expectativas. E, como já disse, pessoas de um grupo marginalizado podem reproduzir ações de objetificação e hipersexualização. Se for o caso, não é uma relação centrada, apenas reprodução de ações opressivas.

“Mas, afinal, o que fetichistas sofrem de discriminação?”

Historicamente, formas não-normativas de sexualidade foram perseguidas, tendo o aval das famigeradas instituições sociais que sempre sustentarem as estruturas opressivas: religião, ciência e lei (nessa ordem). Isso não se refere apenas à heterodissidência, mas também aos fetichismos (e outros comportamentos, como masturbação).

Essa marginalização acabou aproximando corpos dissidentes dos fetichismos. O meio fetichista nasceu entre pessoas gays, lésbicas, multissexuais, inconformes de gênero, trans, não-mono, etc. Tanto que, por isso, o segmento queer engloba também es fetichistas (sim, isso inclui as pessoas peri-cis-hétero, superem logo isso), muito embora existam movimentos fetichistas próprios; que acabam sendo primos de movimentos LGBTQIAPN+.

E, apesar disso, vocês acreditam que o sistema teve a pachorra de se apropriar dos fetichismos, transformando-os num “luxo” para homens cis hétero brancos? Se quando você pensa em fetiche te vem a imagem clássica de uma dominatrix toda padrão que está lá para servir a um homem, parabéns, sua ideia de fetiche foi cooptada e distorcida com sucesso.

Apesar dos avanços sociais, fetichismos seguem sendo tabus na sociedade num geral. Discursos de ódio são bem comuns, sempre os associando a crimes e transtornos e similares; frequentemente, isso acompanha também outras ações opressivas (capacitismo, heterossexismo, cissexismo, misoginia, etc). É comum pessoas esconderem seus fetiches por causa de julgamentos, moralismos, reações de escárnio, nojo, enfim. A discriminação chega a atingir relações familiares e amorosas, podendo acabar em divórcios. Consultórios clínicos ainda tratam fetiches dentro de visões arcaicas patologizantes, apesar de BDSM ter saído do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em 2013. Recentemente foi lançado um manual sobre fetiches para profissionais da saúde, e deixarei uma versão traduzida no fim do texto.

Exatamente por tudo isso que existe o termo fetichemisia (cunhado por mim, mas na verdade é apenas uma adaptação de kinkphobia). Embora haja controvérsias sobre “fetichista” ser ou não uma identidade política, ainda é um descritor de um grupo, e de um grupo sujeito a opressões oriundas de normas sexuais. Aliás, existe uma grande conexão entre fetichemisia e heteronormatividade.

Fetichismo já tem uma imagem negativa, e a mídia também não coopera para melhorar isso. Temos o exemplo clássico daquele livro que tem um personagem fetichista, mas muito problemático, e muita gente combinou críticas a sua personalidade com o fetichismo presente na história. Entendam de uma vez: pessoas podem ser abusivas, sendo fetichistas ou não. Isso está relacionado ao caráter, não à sexualidade. Esse tipo de generalização é desonesta e praticamente a mesma coisa que conservadories fazem com pessoas heterodissidentes.

Enfim, acredito que isso era tudo que eu podia falar do assunto, e falar sem tabus e visando elucidar um tema ainda obscuro e cercado de preconceitos.

Se estamos falando tanto de liberdade sexual, deveríamos incluir também os fetiches. Se não deveríamos ter vergonha de uma orientação sexual, o mesmo deveria valer para os fetiches. Precisamos de mais positividade aes fetichistas, e menos julgamentos e discriminações.

Saibam do que estão falando, cuidado para não caírem em objetificações e hipersexualizações, e curtam suas sexualidades de maneira saudável e explorando os horizontes que quiserem.

Créditos a Fernanda Fedatto pela tradução.

Nota: juro pra vocês, descobri hoje mesmo que hoje, por uma grande coincidência, é o Dia Internacional do BDSM! Parece até uma piada do Universo com minha cara haha. Enfim, bom saber que estou postando esse texto num dia tão propício!

Links adicionais:

Como o BDSM pode te ajudar em seu relacionamento

O que é parafilia e fetichismo?

O discurso dos perversos: praticantes de BDSM em busca de legitimação (aviso de conteúdo: discurso médico patologizante contra fetiches e heterodissidência)

O Lado Ruim do BDSM (aviso de conteúdo: abuso, misoginia)

Neolinguagem: pensamentos sobre as neoflexões

Utilizarei aqui o termo neoflexão para me referir a toda nova flexão de gênero que não esteja prevista dentro da língua padrão.

Como foi explicado na página sobre neolinguagem, a proposta não é perfeita. Quando destrinchamos as infinitas possibilidades que ela abre, nos deparamos com nuances que mostram opções e também limitações e questões sem uma resposta.

Embora quase tudo que for colocado aqui ainda se encontra num campo muito hipotético, o que pode ser usado para desconsiderar tal discussão, o fato de que essa proposta e seus horizontes ainda estarem muito na teoria nos dá uma liberdade maior de expandir as ideias, mesmo que fiquem para um futuro distante ou mesmo que nem venham a ser aplicadas.

1- Casos em que a neoflexão –e pode não ser suficiente

Apesar de –e ser uma neoflexão muito aderida e muito provavelmente será a oficializada, ela sozinha não garante uma neutralidade real e absoluta para todas as palavras e situações.

Há uma quantidade considerável de palavras que não evidencia um determinado gênero só por uma letra ou mesmo sílaba em seu final, mas também pela pronúncia de uma parte da palavra.

Vejamos os seguintes exemplos:

Sogro / Sogra

Curioso / Curiosa

Novo / Nova

Apenas na escrita podemos reparar na mudança de flexão. Só se muda uma letra. Agora, lendo as palavras, percebemos que a letra que antecede à desinência de gênero também possui sons diferentes. Em palavras flexionadas com –o, seu tom é fechado (ô). Em palavras flexionadas com –a, seu tom é aberto (ó). No plural das palavras flexionadas com –o, quase sempre o tom é aberto.

Então vamos à questão principal aqui: colocar apenas –e no fim dessas palavras realmente as torna “neutras”? Isso é suficiente? Isso rompe mesmo com o binarismo presente em nossa língua? São apenas reflexões.

Talvez haja pessoas que não se importem e optem por um tom de o, ou mesmo alternem entre ambos os sons. Mas é possível que a sonoridade da letra, que continua tendo em si uma carga de gênero binário, possa incomodar ou não deixar todas as pessoas satisfeitas.

Como resolver isso, sendo que só conseguimos pronunciar esses dois tons da letra o?

Uma solução possível seria a letra u, que é muito próxima de o e possui só um tom.

Então, talvez, poderíamos propor para palavras terminadas em “o tonalizado” + consoante(s) + e a alternativa u-(x)-e. Então teríamos nesses casos: sugre, curiuse, nuve. Entendo que possam soar estranhas, mas toda novidade soará assim. Entendo também que essa proposta não seja para logo, pois no momento o mais prático é ensinar alternativas mais fáceis de se lembrar e praticar.

Um par de palavras que evidencia a sonoridade com acentos é avô e avó. Indo pela lógica aplicada aqui, uma alternativa possível para esse par seria avu; muito embora avo, mudando o som átono de a e dando uma segunda função a essa palavra no plural (pois avos é uma descrição numérica de frações), possa ser uma opção válida.

Melhor do que impor uma única opção alternativa é abrir possibilidades. Embora avô-avó tenham um peso social maior, as demais palavras deveriam estar abertas aos gostos de sues falantes e usuáries. Seja pronunciando um tom, ambos os tons de o, ou usando u.

Pode haver casos em que as pessoas vão preferir um som de o para não se confundir com outra palavra, como em morte (no caso, adjetivo alternativo de morto/morta) ou o próprio exemplo do número nove.

2- Mais de uma proposta de neoflexões neutras universais

Tratando-se de propostas de alternativas de flexões, há pouquíssimas opções propostas. As alternativas ensinadas aqui no blogue são em sua maioria as mesmas que têm maior aderência por todes que optam por uma neolinguagem inclusiva (digo isso por experiência e pesquisa nos meios virtuais).

No caso do par –ão e –ã, a alternativa mais comum e aceita é –ane quando se trata da neoflexão neutra. Porém, não deveria ser proibido ou barrado o uso de –ãe, por mais que muites achem estranho o som de irmãe ou capitãe. Inclusive, eu mesme havia pensado em adotar essa neoflexão como neutra universal. Acabei optando pela outra mais por causa de sua aderência maior nos espaços virtuais.

Ocasionalmente vejo por aí pessoas sugerindo a neoflexão –us em vez de –ies, no caso de palavras em que o plural “masculino” é –es. No entanto, vejo pouquíssima gente a usando, e parece que “trabalhadorus” e “professorus” não soam nada agradável para uma maioria. De novo, nada deveria ser impedido. Porém, não confio que essa neoflexão passará adiante.

Embora um assunto pouco discutido, as flexões –eu e –eia também possuem mais de uma proposta. Aqui propus –ei. Em outros lugares é possível achar –eie. Qual é a mais aderida? Sinceramente, nem sei, pois quase nem vejo essas flexões sendo faladas por aí. Tópicos deixados assim em aberto também são um problema.

3- Muitas opções de neoflexões individuais

E aqui entramos num território mais complicado: linguagens individuais.

Está certo que a grande maioria das pessoas que usam neolinguagem pra si usa exclusivamente a neoflexão –e, que também é praticamente aceita como “neutra universal”. Ela funciona muito bem e sua aderência é muito positiva.

Agora, considerando que outras pessoas queiram usar para si outras neoflexões, temos algumas complicações. Por enquanto vou focar nas vogais e semivogais. Além de O, A, E, temos também I e U; e também Y e W. Na página sobre neolinguagem tem as regras de mudanças pensando na neoflexão –e. Vou usá-las como parâmetros.

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –i.

  • –go/–ga, alternativa –gui.
  • –co/–ca, alternativa –qui.
  • –ão/–ã, alternativa –ani.

Até aqui essas terminações funcionam igual a com neoflexão –e. Mas então chegamos às divergências:

  • –eo/–ea: alternativa com –i? Teríamos então gêmi, contemparâni?
  • –e/–a: alternativa com –i? Teríamos então parenti, presidenti?
  • –eu/–eia: alternativa com –ei? Igual –e?

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –u.

  • –go/–ga, alternativa –gu.
  • –co/–ca, alternativa –cu.

Até aqui, possível. Mas então chegamos às divergências:

  • –ão/–ã, alternativa com –ãu?
  • –eo/–ea: alternativa com –eu? Teríamos então gêmeu, contemparâneu?

Bem, até aqui parece funcionar bem, pois a estrutura é como a do gênero gramatical masculino, apenas trocando o por u. E quanto a esses casos abaixo?

  • –e/–a: alternativa com –u? Teríamos então parentu, presidentu?
  • –eu/–eia: alternativa com…?

As questões que seriam geradas pelo uso de Y e W são praticamente as mesmas de I e U, respectivamente, apenas mudando as letras finais.

Concluindo, tudo que foi colocado aqui só reforça que precisamos discutir mais a fundo sobre a neolinguagem, tanto para formular uma proposta de neutralidade padrão quanto considerar outras possibilidades. Estamos expandindo a língua de uma forma que até então nem havia sido pensada ou ao menos exposta dessa maneira. Até lá, essas questões continuam sem respostas.

Outerinidade

Aviso de conteúdo: contém links externos.

Este é outro conceito formulado por mim em meio a pesquisas e reflexões minhas sobre gênero. Isso foi em 2018, e a postagem onde citei o termo pela primeira vez é essa.

Dentro desse tema, existem quatro grandes projeções/arquétipos/essências/qualidades usades para explicar e/ou definir identidades de gênero, expressões de gênero, e experiências relacionadas a gênero. Elus são: feminine, masculine, neutre e andrógine. Ou seja, aqui temos quatro conceitos: feminilidade, masculinidade, neutralidade e androginidade. Além desses, podemos incluir a nulidade (a ausência de gênero) e a xeninidade (concepções de gênero totalmente fora de lógicas e ideias humanas ou convencionais).

Pois bem. Apesar disso tudo, dentro do que sei e entendo, percebi que faltava ainda mais um conceito, um conceito que pudesse englobar o que não era feminine, masculine, neutre, andrógine, mas que não era também nule, nem xenine.

Já existe na anglosfera esse mesmo conceito, mas com um nome derivado de duas identidades de gênero: maverique e aporagênero. Eu quis cunhar um novo nome e conceito por motivos de: não queria algo que remetesse a essas identidades específicas e suas definições, não queria algo que implicasse ter relação com identidades criadas num contexto ocidental, e queria uma palavra nova e mais abrangente sem controvérsias.

Pensei e pensei, e me veio outerine; consequentemente, o adjetivo outerinidade.

Antes de tudo, ressalto que outerine não é xenine, pois ainda é uma concepção que existe dentro de lógicas e ideias humanas e convencionais. É apenas tudo que preenche um vácuo deixado entre os quatro conceitos “principais”, e que também é algo presente (ou seja, não é nule). E não é apenas ume quinte (ou sétime) projeção/arquétipo/essência/qualidade. Outerine engloba tudo que ainda não tem um nome, e que não pode ser explicado apenas pelos conceitos que já existem.

Costumo fazer analogias com cores quando vou falar desses assuntos. Vou colocar dessa forma: se feminine é rosa, masculine é azul, neutre é cinza, andrógine é roxo, e nule é transparente, outerine seria amarelo, verde, laranja, etc. Poderia até ser as cores que humanes não conseguem ver, como infravermelho e ultravioleta. E xenine? Bem, pode até ter todas as cores possíveis, mas é um conceito que vai muito além disso.

Tudo isso é extremamente subjetivo, mas ainda coisas que podemos imaginar, mentalizar, experienciar, ou sentir de alguma forma. Portanto, outerinidade fará mais sentido para quem consegue se encaixar de alguma forma nesse conceito.

Enfim. Explicando com exemplos mais concretos, outerine pode ser algo:

  • totalmente único e sem relação nenhuma com os conceitos anteriores; ou
  • que, embora seja único, pode ainda ser comparado com os conceitos anteriores; ou
  • novo que surge de combinações entre dois ou todos os conceitos anteriores.

Vou dar exemplos de identidades que são ou podem ser outerinas e explicar cada um:

Maverique: dentro de seu conceito, outerine faz todo sentido.

Aporagênero: dentro de seu conceito, outerine faz sentido, embora pessoas não precisem se encaixar estritamente na definição.

Egogênero: um gênero único e exclusivo da própria pessoa pode ser outerino.

Antigênero: a “qualidade oposta” de um gênero pode ser outerina, visto que a ideia de oposto aqui não é algo como “feminine-masculine”.

Intergênero: um gênero influenciado por intersexualidade pode ser outerino, se qualquer outro conceito não se aplicar aqui.

Neurogênero: um gênero influenciado por neurodivergência pode ser outerino, se não for xenino e não puder ser explicado por nenhum outro conceito.

– Qualquer identidade indefinida/desconhecida/incompreensível: se nada do que já existe consegue descrevê-la, talvez outerine consiga ou possa servir.

– Qualquer identidade com definições muito amplas: alguém que se define apenas como não-binárie, ou genderqueer, ou homem não-binárie/mulher não-binárie, e etc pode talvez explicar sua identidade como outerina.

Identidades culturalmente restritas: se e somente se a pessoa acreditar que todos os conceitos já mencionados não se aplicam à sua identidade, e deseja um conceito para se descrever.

Com certeza poderia haver outros exemplos, mas acredito que até aqui está evidente quais identidades de gênero são ou podem ser outerinas por natureza.

Ressaltando que outerine não é algo apenas para identidades. Pessoas também podem definir sua expressão de gênero como outerina, ou dizer que seu gênero tem alguma conexão com outerinidade, enfim.

Ah, e só de curiosidade, um ano depois de eu formular esse conceito acabei descobrindo que o mesmo serve para descrever minha própria identidade de gênero. Coisas da vida, né?

Acredito que isso é tudo que eu poderia explicar sobre o conceito de outerinidade.

Não-conformidade de linguagem

Aviso de conteúdo: exorsexismo, colonização, contém links externos.

Não-conformidade de linguagem é um conceito que formulei em 2018. Aqui, nesta postagem, explorarei melhor as implicações e os usos desse conceito. Mas quem tiver curiosidade pode ver a postagem original aqui.

Em termos gerais, uma pessoa não-conformista de linguagem (NCL) é toda pessoa que não usa uma linguagem de gênero aceita dentro de um idioma, ou imposta de acordo com determinada identidade de gênero.

Portanto, as pessoas inclusas nesse conceito são:

– pessoas binárias que usam exclusivamente a outra linguagem não associada a seu gênero;

– pessoas não-binárias que usam exclusivamente a outra linguagem que não lhes foi designada;

– pessoas que usam exclusivamente ou não uma sintaxe neutra possível;

– pessoas que usam ambas as linguagens validadas num idioma binarista;

– pessoas que usam uma linguagem validada dentro do idioma, mas não prevista para ser usada por alguém;

– pessoas que usam neolinguagens e outras opções fora das normas;

– e pessoas que usam qualquer ou todas as linguagens possíveis.

O conceito foi pensado mais no contexto da língua portuguesa, que tem vários elementos que compõem uma linguagem pessoal (artigos, pronomes, desinências, etc). Dependendo do país e seu idioma, o nome pode ser adaptado para “não-conformidade de pronome” (ex: inglês) ou alguma outra opção. A ideia continua a mesma.

Pensei nesse conceito tendo como inspiração o conceito de não-conformidade de gênero (NCG), que é toda pessoa com uma expressão de gênero fora das normas sociais. Tecnicamente, NCLs estão dentro de NCG, pois a linguagem pessoal é parte da expressão de gênero.

O conceito foi formulado considerando a questão específica do exorsexismo linguístico ou do binarismo de gênero refletidos em idiomas e suas culturas.

Logo, não é uma questão que atinge pessoas binárias (cis, trans, ipso, etc) que estão de acordo com a linguagem atribuída a seus gêneros, e que usam exclusivamente essa linguagem. Pessoas cis têm o respeito a sua linguagem garantido, enquanto pessoas cisdissidentes terão a linguagem respeitada ao terem seu gênero reconhecido (o desrespeito nessa situação envolveria cissexismo, mas sem exorsexismo).

Essa questão talvez não atinja também pessoas fora do binário de gênero que usem exclusivamente a linguagem designada e que estão confortáveis ou em harmonia com ela (mas ainda sejam alvos das demais formas de exorsexismo). Dou ênfase nisso, pois nem toda pessoa que usa apenas a linguagem designada a usa por livre e espontânea vontade, como nos casos de pessoas que desconhecem neolinguagem ou que são nativas de um idioma sem uma alternativa proposta (ex: japonês). Confesso que isso não foi algo que considerei quando formulei o conceito.

E, falando no contexto latino-americano, esse conceito pode ou não fazer sentido para travestis. O consenso atual é que travesti é uma identidade transfeminina, e que o uso de a/ela/a é padrão para esse grupo, da mesma forma que é para mulheres. No entanto, temos as seguintes duas questões: a) travesti não é um gênero reconhecido pelo sistema vigente, ao contrário de mulher; e b) há travestis que ainda usam o/ele/o e/ou neolinguagens. Acredito que o melhor é deixar a pessoa decidir se o conceito vale ou não para ela e sua realidade.

Caso o quinto item sobre pessoas inclusas no conceito não tenha ficado compreensível, esse conceito engloba pronomes neutros aceitos ou em processo de aceitação em idiomas com uma estrutura binarista, o que inclui o they singular no inglês e o hen no sueco. E também pronomes usados para tudo que não for humano sendo reclamados por humanes, como o pronome it do inglês.

Esse conceito pode não fazer sentido em idiomas com apenas uma opção de linguagem pessoal (ex: cantonês tem só um pronome pessoal) ou sem marcadores de gênero (ex: coreano, ainda que possua marcadores opcionais), ou em culturas com mais de duas identidades de gêneros reconhecidas e que possuem linguagens atribuídas a elas (ex: pessoas hijra). No entanto, esse conceito pode fazer algum sentido em culturas com idiomas originalmente mais neutros ou sem gênero que sofreram ou ainda sofrem influências ocidentais de colonização.

Segue abaixo uma bandeira de orgulho feita para NCLs:

Uma bandeira composta por cinco faixas. A primeira e a última faixas são maiores e do mesmo tamanho, enquanto as três do meio são menores e do mesmo tamanho. As cores são, de cima para baixo, violeta, bege, branca, violeta, bege.

Créditos a arco-pluris pela bandeira. A postagem original (em inglês) está aqui.

Concluindo, é um conceito que pode ser útil. Pode ser apenas um descritor, ou pode ser também uma identidade de orgulho; assim como NCG. Sintam-se à vontade para usar!

A orientação hétero inclui pessoas não-binárias?

Aviso de conteúdo: exorsexismo e genitalismo, heterossexismo e derivações, contém links externos.

Esta questão aparece ocasionalmente por aí nas redes sociais, seguida de respostas duvidosas ou mesmo absurdas.

Já vi pessoas definindo hétero como “atração por diferentes gêneros”. Faz até sentido se formos pela raiz do termo. Porém, temos inúmeras palavras aí, e isso inclui a orientação bi, pra mostrar que muitas vezes existe um abismo entre raízes e o contexto social das palavras.

Já vi pessoas não-binárias se dizendo hétero, seguindo uma lógica de que “foram designadas de tal gênero binário, e se atraem apenas por pessoas do outro gênero binário”. Isso é praticamente o mesmo que “sou de tal sexo e me atraio por tal sexo”, e definir orientações por atração por sexo é muito problemático.

E, por fim, a parte mais polêmica desse artigo e o que me motivou a escrevê-lo: já vi pessoas por aí afirmando que hétero inclui pessoas não-binárias, porque “pessoas não-binárias podem ser alinhadas ao masculino ou feminino”.

Quem conhece o conceito de alinhamento de gênero pode ver sentido nisso. O problema é que quem espalha essa explicação tem outro conceito de alinhamento, e vou explorar isso mais abaixo.

Eu poderia ter começado o texto dando a resposta da pergunta. Mas acredito que possa ser mais produtivo analisar camada por camada antes disso, embora eu já tenha rebatido algumas ideias.

Primeiro de tudo, o que define nossa orientação?

Precisamos separar, antes de tudo, nossa identidade e de nossa atração. Cada pessoa no mundo tem sua própria atração, pois não há como alguém ter exatamente as mesmas experiências por toda a vida que outra pessoa.

Agora, o mundo atual exige que coloquemos um rótulo (isso não é uma crítica) em nossas atrações. Muitas delas conseguem ser encaixadas em certos rótulos, que são descritores de experiências e também da posição social das pessoas. Vivemos num mundo onde pessoas são ou privilegiadas ou oprimidas por isso, e esses rótulos demonstram bem isso.

O único rótulo de atração privilegiado até então é a orientação hétero. Nenhuma pessoa é oprimida pelo simples fato de ser hétero. E aqui ainda devemos fazer os devidos recortes, pois a dinâmica de pessoas cis e hétero* é bem diferente de pessoas trans/intersexo/a-espectrais e hétero.

*Obs: e aqui eu falo de pessoas que podem ser descritas apenas como hétero, que com certeza são heterossexuais e heterorromânticas, e demonstram qualquer outro tipo de atração de acordo com a ideia de hétero.

Quero fazer uma ressalva sobre pessoas hétero da comunidade LGBTQIAPN+ antes de continuar: existe uma carência enorme de conteúdo (teoria, relatos, etc) de como é a dinâmica dessas pessoas com a heteronorma e sociedade. É uma questão importante e que deveria ser mais considerada, pois esses grupos têm suas particularidades (ex: a validação da orientação de pessoas trans binárias depende da validação de seus gêneros).

Continuando, a identidade que adotamos para descrever nossa atração nem sempre é algo tão estrito quanto parece ser. Um exemplo mais prático: dois homens que se atraíram a vida toda por mulheres. Um teve uma atração exclusiva, o outro apenas uma vez na vida se atraiu por outro homem. Ambos vão se identificar como héteros. Um por se encaixar estritamente no que se entende por hétero, e o outro por não considerar uma única experiência momentânea como algo que lhe tira totalmente do que se entende por hétero. Atrações diferentes, orientações iguais. Assim funcionam as identidades, ao menos no contexto atual.

Segundo, o que se entende por hétero?

Bem, hétero é uma identidade como as demais. Porém, ao contrário delas, hétero é uma norma. Hétero é um ideal, um status de poder, e serve sistematicamente como um molde para o que seria uma orientação correta, aceitável, e possível de existir. Há pessoas que se encaixam nessa norma, e tudo bem. Isso não invalida suas experiências de vida.

E o que essa norma sempre pregou desde sua fundação? Que para ser hétero, você precisa ser homem ou mulher, deve se atrair unicamente pelo outro gênero binário, e deve ter uma atração frequente e constante.

A partir daí formou-se o molde de uma orientação normal. Ou seja, esse molde não inclui e nunca incluiu: pessoas não-binárias ou atração por pessoas não-binárias, e nem atração exclusiva pelo mesmo gênero binário, atração por mais de um gênero, atração fluida ou indefinida, e nem atração ausente/parcial/condicional/circunstancial.

Heterossexismo engloba toda discriminação contra orientações não-hétero e pessoas heterodissidentes. Por isso que monossexismo e alossexismo, embora sejam sistemas próprios, ainda estão dentro do heterossexismo e são outras facetas dele. Por isso que toda discriminação contra qualquer orientação não-hétero devido a alguma característica legítima (uma atração exclusiva por um gênero não-binário, uma atração por personalidade, uma atração influenciada por neurodivergência, etc) são apenas reproduções de heterossexismo (e possivelmente outras opressões), mesmo quando não se está pregando a orientação hétero como normal.

Vamos retomar o conceito de alinhamento de gênero. Esse conceito foi formulado na anglosfera para se falar de uma proximidade de pessoas não-binárias com determinado gênero, sem que elas sejam desse gênero. Essa proximidade se refere a experiências. É muito comum haver pessoas não-binárias alinhadas a um ou ambos gêneros binários; afinal, para muita gente, são as maiores referências (lembrem-se que vivemos num mundo binarista). Ser alinhade a homem e/ou mulher não é ser desses gêneros, e não necessariamente ser: de uma identidade próxima ou relacionada, e/ou ter uma aparência social típica desses gêneros. Ponto.

E o que pessoas no meio virtual brasileiro estão entendendo por “alinhade a homem/mulher ou masculino/feminino” (não sei até que ponto foi desinformação ou uma distorção proposital do conceito) é “pessoa lida como homem/mulher”. E, dentro desse pensamento, é totalmente aceitável ler todas as pessoas não-binárias como de um gênero binário que te atrai, continuar com determinada identidade, e se relacionar com essas pessoas. O nome disso é reducionismo de gênero, aliás.

Você se atrair pelo que leu da pessoa não é a mesma coisa que se atrair se baseando na identidade de gênero dela. Sinceramente, é muito bizarro como essa ideia de “atração por leitura” (que, aliás, é retórica de feminismo radical) se espalhou na comunidade não-binária brasileira com tanta tranquilidade. Até então muita gente estava pregando que é errado pessoas hétero, gays e lésbicas se atraírem por pessoas trans binárias por as lerem como do gênero designado (e isso inclui pessoas pré-transição ou que não desejam transicionar), ou se relacionar com elas por esse motivo e permanecerem nessas identidades. Por que a mesma lógica não é aplicada para pessoas não-binárias? Dois pesos, duas medidas?

Numa sociedade dominada por um sistema ocidental de sexo-gênero, somos ensinades desde sempre a separar as pessoas apenas em ou homens ou mulheres, e se baseando em aparências ou genitálias. Isso é extremamente nocivo para toda pessoa cisdissidente. Devemos combater esse sistema, desconstruir o que nos foi imposto como realidade, e ampliarmos nossas perspectivas e ideias de atração. Vamos mesmo jogar no lixo um ativismo de anos e anos em prol das pessoas trans e voltar a aceitar atração por aparências/genitálias?

Contudo, há de se considerar que a não-binariedade é muito ampla e cheia de nuances. Pensando nisso, temos uma questão particular com as identidades gay e lésbica.

As orientações gay e lésbica incluem pessoas não-binárias?

Sim, atualmente essas identidades foram flexibilizadas para tanto serem adotadas por pessoas não-binárias quanto incluir atração por gêneros não-binários similares aos binários. Ou seja, a identidade gay pode incluir gêneros similares a homem, a identidade lésbica pode incluir gêneros similares a mulher.

Essas identidades já estão fora da norma, então podem ser maleáveis. E essas identidades têm uma longa história, portanto são muito importantes para muita gente que se firmou nelas desde sempre.

A não-binariedade é muito diversa, como já foi dito. Pessoas não-binárias podem ser: parcialmente homem/mulher, periodicamente homem/mulher, de gêneros próximos ou relacionados a homem/mulher, ou mesmo de qualquer identidade e alinhadas aos gêneros binários. Portanto, dependendo do caso, há pessoas dentro dessas condições que podem ver sentido nas identidades gay e lésbica, até então pensadas para pessoas binárias. E, da mesma forma, também ver sentido em serem inclusas nessas orientações.

O que é necessário se fazer aqui, se tratando de pessoas binárias com pessoas não-binárias, é conversar e analisar a situação toda. A atração de uma parte pode incluir a outra? A outra parte se sente contemplada por tal identidade? Mesmo pessoas nas condições mencionadas anteriormente podem querer priorizar sua não-binariedade, e quem é gay ou lésbica precisa respeitar isso.

Lembrando que nem toda pessoa gay ou lésbica pode se atrair por gêneros não-binários. E não há problema nisso, pois nenhuma orientação que não inclua determinado gênero é problemática (se fosse assim, qualquer orientação mono ou a-espectral seria errada). Ou seja, ainda existem gays com atração exclusiva por homens e lésbicas com atração exclusiva por mulheres.

Ah, e mesmo gays e lésbicas com atração por pessoas não-binárias podem adotar junto outras identidades, como min e fin. Ou, dependendo da ocasião e se considerarem ideal, podem mudar para essas identidades. Cada caso é um caso, e não há uma resposta definitiva para todos os casos.

Afinal, hétero inclui ou não pessoas não-binárias?

A resposta é não. Definitivamente, não.

Hétero não é apenas uma identidade. É uma norma. Não há como flexibilizar uma norma; caso contrário, ela deixa de ser norma. Da mesma forma que não há pessoas “parcialmente cis”. Da mesma forma que não há pessoas “meio perissexo”.

Dentro de tudo que já foi dito, mesmo com toda a diversidade de pessoas não-binárias, a heteronorma não considera ou valida atrações e relações diamóricas.

Se há pessoas hétero se atraindo e se relacionando com pessoas não-binárias porque está as lendo como de tal gênero binário, isso é exorsexismo. Se hétero é o que faz sentido para elas, bom, que tenham a decência de não se relacionarem com pessoas não-binárias. Agora, se uma pessoa que até então se diz hétero tem uma atração de longa data por pessoas não-binárias, e a tem estando ciente da não-binariedade delas, essa pessoa deveria considerar que está fora da norma e que deveria assumir sua dissidência e adotar outra identidade. Não lhe faltam opções, e aqui posso citar como exemplos bi, poli, penúlti, toren e trixen.

Afinal, por que tem gente defendendo essa flexibilização? Existem razões legítimas, algum sentido nisso? Ou é apenas por conveniência (ex: a pessoa não quer terminar o namoro com hétero) e exorsexismo internalizado (“tudo bem pessoas não-binárias serem resumidas a homem/mulher”)? Não acreditem em tudo que é falado por aí. Não é porque uma pessoa não-binária está defendendo tal ideia que ela esteja certa. E as comunidades trans e não-binária estão muito impregnadas de ideias cissexistas (incluindo retórica radfem).

E outra coisa, essa ideia entra numa grande e perigosa contradição. Até então muita gente da comunidade LGBTQIAPN+ defende que pessoas perissexo-cisgênero-hétero* não fazem parte dela, e que podem ser apenas aliadas. Muito bem, faz sentido. Agora, se insistirmos em incluir pessoas não-binárias nessa orientação, caímos no seguinte abismo lógico: ou assumimos que hétero ainda é uma identidade privilegiada e com isso dizemos que atração não-binária não tem relevância alguma, ou que então essus héteros atraídes por pessoas não-binárias também podem ser alvo de discriminação e portanto têm lugar na comunidade. E aí? Como fica essa questão? Quem está disposte a admitir que é exorsexista ou aceitar héteros* como parte da comunidade?

Creio que está na hora de pararmos de tentar se encaixar na norma ou fazer malabarismos nocivos pra chamar a norma de nossa, e começarmos a nos posicionarmos contra ela. Afinal, a norma nunca esteve e nunca estará ao nosso favor.

Um grande texto sobre termos, expressões, atitudes e conceitos capacitistas

Aviso de conteúdo: listagem e menções de muitas terminologias, ideias e ações capacitistas em todos os graus.

Capacitismo engloba toda opressão e discriminação cometidas contra pessoas com deficiência (PCDs) e neurodivergentes (NDs). Esses dois grupos têm um longo histórico de serem associados com características negativas – e isso está muito bem expresso na quantidade de palavras que usamos para xingar ou descrever coisas ridículas, absurdas, etc.

Quando se fala em palavras, sempre há pessoas para protestar, mostrando resistência em rever seu vocabulário. Porém, não podemos ignorar que a grande maioria das palavras usadas constantemente para atacar e criticar tem algum viés capacitista.

Ressignificação – que é dar um valor positivo à palavra, e não apenas retirar sua conotação negativa por conveniência – é um ato válido. Mas aqui só pessoas com deficiência e neurodivergentes poderiam ressignificar alguma coisa. Falando por experiência, só vi gente neurotípica ou que aparentemente não se afeta com essa questão defendendo a continuação do uso de vocabulários capacitistas, o que me parece mais uma desculpa para não largar um hábito.

Esse texto, como o próprio título diz, tem a intenção de apontar termos, expressões e atitudes que cometem e reforçam capacitismo num geral. Aqui explico o motivo do por que cada coisa listada tem um viés capacitista, e também sugiro alternativas melhores. Não quero me ater ao que é mais grave ou mais leve, e acredito que as explicações podem deixar isso evidente. Meu foco aqui é no capacitismo em si apenas.

Ressalto que não estou dizendo que pessoas que dizem e fazem essas coisas são ruins, pois tudo isso é naturalizado e capacitismo não é nada discutido na sociedade. Agora, no momento em que lerem o conteúdo daqui, não haverá mais a desculpa da ignorância. Fica na consciência de cada ume.

  • Termos

A maioria dos termos capacitistas define estados ou condições referentes à saúde mental ou desenvolvimento das funções mentais.

As palavras louque e insane, assim como os sinônimos maluque e doide, foram desde sempre palavras usadas para descrever pessoas com pensamentos ilógicos, perturbações, ou sofrendo de delírios e alucinações. Psicose é um termo médico e mais preciso. Portanto nenhuma dessas palavras é recomendada.

E aqui já aproveito para não recomendar delírio/delirante ou alucinação/alucinante como descritores de situações incomuns, extraordinárias, e similares. Condições clínicas não descrevem a realidade ou improbabilidades.

Lunátique é algo usado para falar de alguém que divaga, que sai da realidade, que fica fantasiando ou “sonhando acordade”. Essas situações remetem facilmente a alucinações e delírios, e também a devaneios excessivos, assim como atitudes presentes em casos de esquizofrenia, mania, e depressão psicótica.

Casos de oligofrenia, que é um termo amplo que caracteriza graus diferentes de dificuldades cognitivas e intelectuais, são também usados como ofensas frequentes; o que inclui: débil, imbecil, idiota, e retardade. Constantemente estúpide é usado como sinônimo dessas palavras. Outra palavra que pode ser citada aqui é babaca, que também tem sua origem como um termo vulgar para a genitália vaginal.

Cretine descreve a condição de cretinismo, que é a baixa atividade congênita da tireoide. Esse hipotireoidismo interfere no desenvolvimento físico e mental da pessoa.

Maníaque define alguém num estado de humor extremamente elevado (seja eufórico ou irritável), não qualquer criminose, perseguidore, etc. Assim como a mania não é apenas um comportamento repetitivo.

Mongol não é apenas capacitista, como também é racista. Primeiro, por se referir a pessoas da Mongólia num contexto de depreciação, não de etnia. Segundo, por ter sido usado para associar características físicas de pessoas com síndrome de Down a etnias do leste asiático e ameríndias, que, dentro de um pensamento eugenista, colocava todos esses grupos como uma raça inferior. Mongol pode ser usado para se referir a pessoas da etnia e só.

Histérique não é apenas capacitista, como também é misógino. A histeria foi fundada na ideia de que mulheres que não aceitavam os papeis sociais impostos (portanto, sua “condição de mulher”) sofriam desse distúrbio – pois, hipoteticamente, tinha alguma relação com o útero. Isso inclui reações de insatisfação e revolta, vistas como “excesso de emoção”.

Demente é a condição daquelu que desenvolve diminuição da capacidade de raciocínio e memória, algo que pode ocorrer na fase de velhice ou por causa de doenças neurológicas degenerativas.

Anencéfale é um bebê com subdesenvolvimento do cérebro e do crânio. Além do capacitismo, é muito insensível usar de uma condição que resulta em morte de bebês.

E claro que tudo isso também se aplica aos substantivos derivados desses adjetivos: loucura, insanidade, maluquice, doideira, idiotice, imbecilidade, estupidez, etc. E outras derivações óbvias ou que remetem a outros estigmas, como as terminações -tardade, -loide, -pata.

Algumas palavras capacitistas que se referem a condições físicas costumam remeter a coisas incompletas, imperfeitas, dispensáveis, e similares. Capenga é um sinônimo de uma pessoa manca, com alguma dificuldade motora nas pernas. Deformade, que descreve condições estéticas ou anatômicas incomuns (muitas vezes consideradas feias ou indesejáveis), é outro exemplo.

Pra finalizar, temos as fobias. No âmbito psicológico, fobias são quadros clínicos de medo e aversão irracionais e sem uma causa aparente, que geram, entre outras coisas, ataques de pânico e ansiedade nas pessoas. Mundialmente se usam palavras com sufixo -fobia para descrever ações e sentimentos opressives e discriminações. Isso não deixa de ser uma forma de associar ódio e intolerância às neurodivergências, aos estados mentais diversos. O próprio termo homofobia foi cunhado intencionalmente para ser ligado com as fobias clínicas. Alternativas sugeridas incluem os nomes dos sistemas opressivos (heterossexismo, cissexismo, etc) ou substituir o sufixo por –misia.

Posso estar esquecendo alguns termos, mas acredito que até aqui é possível desenvolver um senso crítico sobre o que torna uma palavra capacitista. Na dúvida, recomendo uma busca sobre sua origem e/ou seus sinônimos.

  • Expressões

Existem também algumas expressões que envolvem condições físicas ou mentais para descreverem ou sendo associadas a coisas que não são relacionadas a esses aspectos.

Cegue de [insira emoção/sentimento]. Uma expressão um tanto comum. Mas cegueira é uma condição física, não emocional de qualquer forma. O mesmo vale para louque e qualquer outra palavra mencionada.

Algumas neurodivergências são usadas para descreverem estados emocionais e sentimentos totalmente fora do âmbito clínico. Depressão não se resume a tristeza ou desânimo, muito menos quando são momentânies. Bipolaridade não é apenas uma mudança de humor, ou sentimentos conflituosos/contraditórios com alguma coisa. Ansiedade não é uma expectativa, nem a emoção de estar esperando por um acontecimento. Multiplicidade (antes conhecida como “múltiplas personalidades”) não retrata mudanças súbitas ou rápidas de pensamento, ou conversas internas que podemos ter numa autorreflexão ou introspecção. Narcisismo não define uma pessoa que é apenas vaidosa, convencida, ou que valoriza muito sua imagem. Paranoia não é apenas um estado de suspeita (mesmo que seja exagerada ou infundada). TOC não é apenas a mera preferência por coisas ordenadas ou padronizadas, ou alguns comportamentos aleatórios repetitivos/do cotidiano.

Trauma acabou sendo uma palavra banalizada e usada para definir apenas memórias de situações ruins. Um trauma envolve muito estresse, dificuldade de lidar com um ocorrido, e crises emocionais.

“Virar um hospício” retrata lugares bagunçados, sem ordem, ou também com pessoas estressadas ou irresponsáveis ou similares. Além da péssima associação, hospícios são e sempre foram basicamente prisões e matadouros para pessoas neurodivergentes e aquelas rotuladas como tal para assim serem descartadas do meio social.

Outras expressões acabam caindo em ideias equivocadas ou mesmo em desumanização.

A expressão surde-mude é muito equivocada. Dizer que pessoas surdas são automaticamente mudas é muito incoerente, pois muitas podem desenvolver a oralidade. A ideia de mudez também implica uma ausência de comunicação, e língua de sinais existe pra isso.

Cadeirante ainda é um termo usado por aí. Não é adequado para falar de pessoas que utilizam cadeira de rodas por dois motivos básicos: por reduzir as pessoas a uma cadeira, e porque pessoas com deficiências físicas e motoras podem fazer uso de outros recursos além da cadeira.

Pessoas especiais ou pessoas com necessidades é uma expressão de eufemismo para PCDs e NDs num geral, embora costuma se referir muito a pessoas com dificuldades cognitivas ou motoras. Acaba sendo uma forma de infantilizar esses grupos, e colocá-los como pessoas incapazes (necessitam sempre de ajuda, sem qualquer autonomia).

  • Atitudes

Atitudes capacitistas, além de dizer tudo que foi listado acima, incluem ações mais “evidentes” como estereotipar ou retratar PCDs e NDs como caricaturas, instrumentalizar esses grupos pra defender argumentos e ou falar por eles, e tratar as pessoas como se precisassem sempre de ajuda ou como se fossem menos capazes de tudo.

Outras ações menos evidentes, e que envolvem características ou elementos presentes na vida de PCDs e NDs, incluem:

– fazer piadas com gestos e expressões faciais usades em línguas de sinais;

– zombar de gatilhos alheios ou usar a ideia de gatilho como piada e deboche;

– criticar ou debochar de interesses especiais, hiperfocos, ou assuntos sobre os quais alguém fala muito;

– falar sobre “idade mental”, relacionar coisas a isso, e criticar ou debochar de pessoas por não terem amizades ou contatos;

– exigir das pessoas certas características sociais e emocionais exaltadas como qualidades, como no caso de sociabilidade e empatia;

– exigir das pessoas compreensão total ou imediata de linguagem figurada, informações vagas, coisas subliminares ou sugestivas, e ironias e sarcasmos;

– e exigir das pessoas que falem ou se expressem de determinadas maneiras, geralmente consideradas mais “fáceis” ou “acessíveis” a uma maioria.

Outras coisas incluem “memes” e chacotas usades com frequência, como “ur dur” e imitação de “vozes de gente [insira termo capacitista]”, “probleminha na cabeça”, “tomar remédios/[insira qualquer medicamento psicotrópico]”, “fonte: vozes da minha cabeça”, escrever alternando entre letras maiúsculas e minúsculas, e imagens de pessoas ou personagens com expressões faciais tortas e/ou gestos disformes.

Uma atitude agressiva e estressante com pessoas NDs é quando ficam questionando o diagnóstico delas, perguntando por detalhes como sintomas ou “graus” (que são em si questionáveis), tudo a fim de validar o que são ou acreditar que elas são o que afirmam ser, e ficar comparando com pessoas com o mesmo diagnóstico que parecem “sofrer mais/de verdade”.

A simples falta de acessibilidade, ou o quanto acessibilidade não é considerada para tudo, pode estar aqui também.

Muitas construções e arquiteturas não são planejadas com rampas e/ou recursos táteis. Muitas palestras não pensam na possibilidade de ume tradutore de língua de sinais. Muitos símbolos e caracteres especiais não são lidos em leitores de tela. Emojis são lidos da forma como são escritos, o que pode ser desagradável numa postagem repleta de emojis (ainda mais em sequência). Muitas postagens visuais são feitas sem considerar pessoas com baixa visão e certas neurodivergências – e aqui falo de fonte e tamanho das letras, das cores usadas, e outros detalhes. Muitos vídeos não possuem ao menos uma legenda. Muitas imagens não são descritas; o que, às vezes, é culpa da própria plataforma, mas há meios de contornar isso. Muitos conteúdos não se prestam a colocar avisos de conteúdo/gatilho quando são necessários. Isso tudo são coisas a se pensar.

Tratar acessibilidade como um favor ou um anexo à “normalidade” é puro capacitismo.

  • Conceitos

Existem conceitos problemáticos que envolvem capacitismo e outras opressões, mas que acabaram sendo normalizados pela sociedade como aceitáveis e inquestionáveis, por mais que possam ser subjetivos, por mais que sejam furados ou mesmo obsoletos. Seguem abaixo três grandes exemplos.

  1. Inteligência

Um conceito questionável. Muitas vezes pessoas são consideradas inteligentes por demonstrarem dois aspectos: terem raciocínio lógico rápido e serem bem informadas sobre diversos assuntos. Há teorias sobre possuirmos “tipos de inteligências”, que descrevem bem aptidões relevantes (ter noção de espaço físico, saber identificar frequências de som, fazer autorreflexão, etc).

No entanto, o conceito de inteligência foi fundado numa teoria eugenista de que havia uma raça superior – logo, inteligente; e que o resto era inferior. Por muito tempo também, homens foram representações e portadores da inteligência enquanto dominavam o saber, a academia, e toda produção de conhecimento. E, por fim, considerando o quanto inteligência é medida ou julgada com base em informações ou conhecimentos prévies (e aqui está inclusa a própria alfabetização), é bem evidente que acaba sendo inacessível para determinadas classes socioeconômicas e grupos marginalizados.

Focando agora na subjetividade, a ideia do que seria inteligência está mais para uma construção social que muda de cultura em cultura e de tempos em tempos do que algo concreto, algo universal e atemporal. Muitas pessoas interpretam inteligência de várias formas. Dicionários acabam dando definições variadas, combinando com habilidades comuns a muita gente. Tais habilidades podem ser influenciadas por outros fatores (a falta de sono, uso de medicamentos, etc). Os famosos testes de Q.I., ainda superestimados, são testes muito padronizados que não contemplam muitas pessoas. Enfim, não é um conceito realmente bem construído.

Inteligência é algo constantemente mencionado em discussões sobre ética e direitos de pessoas com deficiência, como se fosse um fator que de alguma determina o valor de alguém numa sociedade. De fato, isso acontece; pessoas consideradas inteligentes são muito valorizadas, colocadas como desejáveis e exemplos a ser seguidos. Tudo isso alimenta um estigma imenso contra pessoas com dificuldades cognitivas, colocando-as como menos capazes de serem “pessoas comuns” pela “falta de inteligência”, como pessoas que sempre dependerão de alguém “mais capaz”, como falhas e fardos na sociedade.

E, além disso, inteligência é até hoje usada como uma prova da superioridade des humanes sobre as demais espécies. Já foi também usada como defesa da integridade de algumas espécies, e também como critério para determinar quais espécies podem ser consideradas “indivíduos” (como macaques e golfinhos).

Está na hora de revermos nossas ideias sobre as capacidades mentais, e talvez formular um conceito que não seja problemático e que englobe devidamente a neurodiversidade.

  1. Psicopatia

Existe uma grande ideia no imaginário coletivo sobre o que seria ume psicopata. O que vem na cabeça costuma ser alguém com tendências assassinas, sádica, misantrópica, isolada, egoísta, e similares.

O termo costuma ser usado para descrever o que seria pessoas com o diagnóstico de “desordem de personalidade antissocial”. Pois é, psicopatia sequer é um diagnóstico ou está incluída em catálogos de saúde mental. Mas o ponto não é esse, e nem quero ficar dando crédito a tais catálogos.

Esse diagnóstico é muito definido pela falta de complacência – a inclinação a concordar com as pessoas e obedecer regras e códigos de conduta. E tal exigência sempre pesou e desfavoreceu muito mais grupos marginalizados pelo próprio sistema, em especial pessoas pobres, racializadas, com deficiência e neurodivergentes. Complacência é muito mais um mecanismo de modelar e controlar os comportamentos a favor de um sistema do que uma qualidade concreta e necessária na vida humana. E é muito fácil rotular pessoas desses grupos com esse e outros diagnósticos.

Tudo isso implica que muitas pessoas são apenas taxadas de “psicopatas” para a conveniência de um sistema que as exclui, e isso não apenas recai naquelus com deficiência ou neurodivergência, mas também em outras camadas sociais também marginalizadas, em situações de desigualdade. É essa carga que traz o termo psicopata do mundo das ideias até o mundo material.

  1. Empatia

Vou começar dizendo que empatia existe e há pessoas que a sentem. O real problema é o quanto associam essa característica como algo inteiramente benéfico e imprescindível para que uma pessoa seja realmente boa, decente, etc. O que é a empatia? É apenas a habilidade de entender e deduzir emoções alheias, resumidamente falando.

O fato de você entender e deduzir emoções não te pré-dispõe a se importar com essas emoções, não te confere a capacidade de amar e gostar de alguém ou algo, e não é algo necessário para compreender conceitos como injustiça e opressão. É bobagem ficar atribuindo preconceito e ódio a coisas inerentemente causadas por falta de empatia, sendo que muitas dessas pessoas vão demonstrar alguma empatia com suas famílias e amizades, e mais quem for considerade “normal” para elas. Empatia pode ser seletiva.

Agora, vamos considerar que existem neurodivergências que afetam a capacidade de ter empatia, como alguns casos de autismo. E que pessoas, por exemplo, sobreviventes de abuso podem desenvolver traumas que também interferem na empatia. Considerando que fatores intrínsecos ou externos podem também definir a capacidade ou não de ter empatia, deveríamos rever nossa concepção disso para não cairmos em pensamentos deterministas de que “algumas pessoas já nascem defeituosas ou más”, algo que não condiz com a realidade e complexidade humana.

E não sentir empatia por alguém não te impede de entender que discriminação pode lhe causar mal, que pessoas sofrem ou sentem dor, nem de comemorar a felicidade de alguém, ou de fazer coisas que façam bem às pessoas. E não é por um acaso que profissões da saúde exigem pouca empatia, ou mesmo que pessoas reprimam a empatia, para assim poder lidar emocionalmente melhor com toda a carga que essas áreas trazem.

Enfim, o que estou dizendo é que a empatia é uma característica relativa, pode ser desenvolvida ou reprimida, e não é em si algo capacitista. O que é capacitista é a ideia social que gira em torno dela, essa noção toda de altruísmo e moralidade que lhe jogam, e que não cabe nela como pensamos ou fantasiamos.

  • Alternativas

Bem, com todas as explicações dadas, acredito que há alternativas que sejam intuitivas ou possíveis de serem pensadas. Mesmo assim, entendo que todas as palavras e expressões mencionadas são usadas para diversas finalidades, até mesmo de forma positiva.

Por isso deixarei logo abaixo listas de algumas palavras de acordo com uma finalidade. Algumas podem ser usadas pra outra finalidade dependendo do contexto.

– Palavras que descrevem coisas ou pessoas em contextos negativos variados: deplorável, escrote, extremista, imature, insensate, insignificante, irresponsável, radical, ridícule, vergonhose.

– Palavras que descrevem coisas ou situações que saem do senso comum: absurde, disparatade, fantástique, imprevisível, imprudente, inacreditável, incomum, incrível, inesperade, mirabolante.

– Palavras que descrevem pessoas com pouco conhecimento ou que não entendem a realidade: alienade, bobe, desinformade, ignorante, néscie, obtuse, simplórie, tole.

– Palavras que descrevem pessoas ou ideias sem sentido ou coerência: confuse, ilógique, incoerente, inconstante, indecise.

– Expressões que descrevem emoções e sentimentos em excesso ou desmedides: perdide (de…), movide (por…), cheie (de…), (…) imensamente/de forma demasiada.

Enfim, creio que coloquei exemplos suficientes. Para mais exemplos, recomendo um dicionário ou pesquisa.

Entendo que muitas dessas coisas acabam sendo ditas ou feitas sem intenção, passam despercebidas, enfim. O que todes nós podemos fazer é nos policiarmos, cortarmos essas palavras e ações do nosso cotidiano, repensar e procurar alternativas. Isso exige esforço e tempo. Capacitismo é muito enraizado, e por isso precisamos refletir sobre a extensão dele e o quanto o praticamos. Incluam as pessoas, excluam o capacitismo.

Links adicionais:

Sobre deslizamentos semânticos e as contribuições das teorias de gênero para uma nova abordagem do conceito de deficiência intelectual

Wikipédia – Oligofrenia (pode conter informações obsoletas)

Medium – “Precisamos falar sobre Capacitismo”

Amplifi.casa – Algumas dicas básicas sobre evitar vocabulário e retórica capacitista

Colorides – capacitismo, lembrete, interesses especiais

Racismo: Por que “mongol” se tornou um termo pejorativo, como sinônimo de Síndrome de Down

Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas

Autistic Hoya – Capacitismo/Linguagem (conteúdo em inglês)

Inteligência é um conceito capacitista (conteúdo em inglês)

ANDES-SN debate capacitismo nas instituições de ensino

Por que o termo ‘psicopata’ é racista e capacitista (conteúdo em inglês)

Empatia é a pior base possível para moralidade (conteúdo em inglês)

Qual a diferença entre empatia, piedade e compaixão (conteúdo em inglês)

Os argumentos contra a neolinguagem

Aviso de conteúdo: discursos anti-neolinguagem, cissexismo e exorsexismo, elitismo, capacitismo, contém ironias, contém links externos.

O título é uma pegadinha. Vocês jamais me verão argumentando contra a neolinguagem. Não. O que postarei aqui são respostas para os supostos argumentos contrários a ela.

Praticamente todas as vezes em que vi esse assunto bombando e tendo repercussão foram por postagens de pessoas contrárias a ele (principalmente e quase sempre feministas radicais) (pois elas parecem ser muito desocupadas). E os “argumentos” são sempre os mesmos.

Caso não tenha ficado evidente, esse texto é direcionado para pessoas a favor da neolinguagem e que desejam embasar melhor sua defesa do tema, pessoas que gostariam de entender melhor os motivos da existência dela e por que ela é válida, ou pessoas que até então estão contra ou resistentes a ela mas abertas a entender “o outro lado da história”.

Colocarei aqui os principais “contra-argumentos” à neolinguagem que, como falei, são sempre repetidos por opositories, e explicarei por que cada um deles não tem validade. Focarei em argumentações mais elaboradas, não em opiniões simplórias como “isso não vai pegar” ou “apenas acho desnecessário”.

Para ler sobre neolinguagem, clique aqui.

Para ver listas de termos usados no texto, clique aqui e aqui.

  • Inacessibilidade

É nesse momento que um monte de gente na Internet decide se preocupar com populações periféricas, com o analfabetismo, e com as necessidades de PCDs e neurodivergentes.

E nesse monte de gente vamos encontrar pessoas que: escrevem palavras abreviadas, palavras estrangeiras, usam caracteres especiais, não pontuam postagens, não descrevem qualquer imagem que postam, entre muitas outras ações que tornam a Internet um lugar excludente, difícil ou intolerável para qualquer um desses grupos.

Muito bem, hipocrisias à parte, vamos focar na ideia: “A neolinguagem é inacessível para essas pessoas, portanto é elitista e capacitista. Ela não chega na periferia, não pode ser aplicada num país com tanta gente analfabeta, não pode ser adaptada para pessoas cegas ou surdas, e não consegue ser aprendida ou entendida por quem tem dislexia ou autismo.” É tudo isso que é dito e repetido pela oposição.

Instrumentalizar pessoas periféricas, analfabetas, com deficiência e neurodivergentes tem apenas dois nomes: elitismo e capacitismo. E não se surpreendam ao reparar que a grande maioria das pessoas que invoca esses grupos na contra-argumentação sequer pertence a um ou mais desses grupos; e aqui temos um agravante, que é o roubo do local de fala.

Tratar pessoas periféricas como incapazes de aprender novas informações, julgar o que é ou não é necessário nas periferias, e tratar as periferias como uma grande entidade homogênea (tanto que falam sempre no singular, “a periferia”) é elitismo.

Utilizar-se de um problema estrutural na educação para justificar não haver mudanças válidas na linguagem é hipócrita, contraditório e elitista também.

Essa preocupação falsa ou superficial com pessoas cegas e surdas, além de condescendente e ridículo, é capacitista. O braile pode ser facilmente adaptado e libras é uma língua em que marcadores de gênero são mais opcionais que inevitáveis (na maior parte sequer existem).

Usar as pessoas disléxicas e autistas é subestimar as capacidades dessas pessoas e ignora que as mesmas barreiras e dificuldades que elas poderiam ter com o assunto podem ter com muitos outros assuntos (como a própria língua padrão, matemática, etc); ou seja, capacitismo de novo, além da homogeneização desses grupos.

Felizmente, muitas pessoas de regiões periféricas e neurodivergentes se pronunciaram contra esses posicionamentos e a instrumentalização cometida contra elas (embora nem todas fossem totalmente a favor da neolinguagem). E são elas que deveriam estar mesmo opinando sobre esses aspectos de acessibilidade.

Uma coisa cômica nesses argumentos é a insistência dessas pessoas (quase sempre cis) de que ainda há gente propondo o uso de xis e arroba (de fato, inacessíveis). Se é para contra-argumentar, ao menos se atualizem; já faz anos que muitas pessoas trans/n-b estão falando contra o uso desses caracteres e tentando difundir uma neolinguagem mais acessível e possível de ser aderida (que, no caso, é exatamente essa que utilizo aqui no blogue).

Há gente que afirmou que até mesmo a flexão –e não é reconhecida por leitores de tela. Ou isso é uma mentira deliberada, ou é apenas desinformação. A preocupação com leitores de tela é pertinente, pois precisariam ser configurados para ler corretamente palavras modificadas e neologismos. É um problema simples de se resolver. Mas, sim, leitores de tela já são capazes de entender muitas palavras flexionadas com –e.

Gente querendo usar braile, libras e leitores de tela num argumento, mas evidentemente sem nem conhecer a fundo como essas coisas funcionam… Preciso mesmo levar isso a sério?

“Mas o analfabetismo não é um problema para tudo isso?”

Com certeza traz dificuldades, mas pessoas não apenas leem e escrevem como também falam. E mais, se uma nova linguagem não pode existir por causa desse problema estrutural, então que cancelemos novos acordos ortográficos, a própria norma culta da língua, ou mesmo dialetos como o pajubá e regionalismos. Ou melhor, vamos cancelar todos os ativismos sociais devido ao tanto de gente ignorante ou sem contato com eles.

Ah, e mais coisa: se recusar a respeitar a linguagem de gênero de alguém porque há pessoas ignorantes sobre ela não faz sentido e só comprova seu preconceito.

  • Morfologia

“O latim perdeu o gênero neutro, que se assimilou ao gênero masculino; ‘o’ indica a ausência de gênero, portanto o masculino já é neutro.”

Quem usa a morfologia do gênero gramatical como defesa é tão incoerente quanto quem justifica significados literais de certas palavras por causa de prefixos e sufixos (como quem defende que atração bi deve se referir a apenas dois gêneros por causa do prefixo bi). A sociedade faz a linguagem. A linguagem reflete uma realidade; ela não existe antes para então moldar a realidade.

Primeiro de tudo, ninguém está desconsiderando o processo da transformação do latim para o português atual. Inclusive, esse processo foi e está sendo considerado em estudos acadêmicos sobre neolinguagem. É um tanto cômico ver isso sendo usado contra a proposta, pois vejo esse fato como mais um ponto favorável à existência de um gênero gramatical neutro.

Agora, existe uma coisinha chamada sociolinguística. É uma área que estuda a relação entre uma língua com a sociedade. Isso é o que estudos feministas e de gênero estão discutindo há muito tempo. A morfologia é a morfologia, e só gente com um acesso amplo à informação saberá disso. Mas ninguém ensina essa morfologia à sociedade num geral.

Desconsiderar a influência de uma língua numa sociedade ou é muita alienação ou é uma falácia descarada. De repente a sociedade se desconstruiu e parou de associar a linguagem o/ele/o com homens, exclusiva ou primariamente? Quando isso aconteceu?

E não me venham com “a língua não precisa ser inclusiva” ou “a língua não é opressiva”. São as línguas que devem se adequar aos indivíduos, e não o contrário. E se a língua não pudesse ser opressiva, termos pejorativos ou segregacionistas não existiriam.

Estamos falando de uma estrutura que parte de três princípios: que o gênero masculino é universal e padrão, que só podem existir dois gêneros, e que gênero e sexo são a mesma coisa. Temos aqui um combo de machismo e cissexismo-exorsexismo. E a neolinguagem procura romper exatamente com tudo isso; o que é inevitável, pois está tudo junto e misturado.

Mesmo se a linguagem o/ele/o fosse mantida como neutra universal e uma terceira opção gramatical fosse inclusa, não faria sentido usá-la para se referir a um grupo de pessoas que usam a/ela/a e essa terceira opção (ex: ela + elu = eles?).

Haverá mais elaboração disso no próximo tópico, pois é quase uma continuação das ideias.

  • Gênero ≠ Sexo

“Gênero gramatical não tem a ver com sexo. É só como a língua se estruturou.” E, de repente, a língua deixou de ter qualquer influência sobre o meio social! Que milagre, né?

Ora, se gênero gramatical não tem absolutamente nenhuma relação com sexos, então por que não criamos todas as pessoas com qualquer linguagem de gênero? Por que insistimos em tratar animais machos por o/ele/o e animais fêmeas por a/ela/a?

Ninguém cria bebês de qualquer sexo por o/ele/o por ser “o bebê”, ninguém trata uma pessoa barbuda e musculosa por a/ela/a por ser “a pessoa”. Não sei que sociedade desconstruída é essa, mas com certeza não é a nossa.

E esse argumento absurdamente furado desconsidera também a sociolinguística, como já foi explicado no tópico anterior.

Já que os gêneros gramaticais nunca foram impostos a pessoas (e seres) por seus sexos, então que todas as pessoas adotem e sejam desde sempre criadas e tratadas por qualquer linguagem de gênero. Isso é o mais coerente de ser feito, não? Por que isso nunca foi feito?

Não, vamos dar um passinho para trás e voltar à questão da neutralidade padrão. Supondo então que não há nada de errado com a norma de se referir a todos os gêneros por o/ele/o. Por que então não falamos “os gestantes”, já que homens trans existem e há aqueles que engravidam? Por que não fazemos propagandas de conscientização ao câncer de mama e convocamos a “todos” para fazer o exame, já que homens trans existem e há aqueles que possuem seios?

Com exceção dos objetos, há uma estrutura que associa gênero gramatical com sexo, sim. Se chama cissexismo, e não é novidade para pessoas cisdissidentes. E ainda é uma estrutura exorsexista, pois, caso não fosse, haveria um gênero gramatical para pessoas intersexo (ao menos aquelas com genitálias atípicas) ou para seres hermafroditas e assexuados. Esse argumento todo deveria ganhar um prêmio de “negação absurda e arbitrária da realidade”.

Bônus: feministas radicais adoram falar numa abolição de gênero, mas não aceitam ser referidas por o/ele/o (neutralidade padrão) e nem aceitam a proposta de um gênero neutro universal pela neolinguagem. Lógica? Não existe.

  • Estrangeirismo

Muito bem, esse pseudoargumento tem um pontinho de justificativa para existir. E isso, infelizmente, é culpa da comunidade trans/não-binária brasileira. Porque a comunidade importou, literalmente e de forma impensada, o modelo de linguagem anglófono.

Na língua inglesa, a linguagem pessoal se resume a pronomes (e adjetivos possessivos). Na língua inglesa, faz sentido alguém descrever sua linguagem como, por exemplo; pronome pessoal, pronome de objeto e pronome possessivo.

Na língua portuguesa, não. Porque na língua portuguesa existem os artigos e as flexões de gênero, pronomes são uma parte da linguagem, e, com todo respeito, descrever sua linguagem como “pronome pessoal/contração do pronome com a preposição de” é ridiculamente redundante nesse idioma (curiosidade: dele, dela, delu, etc nem são pronomes de acordo com a gramática). A importação foi tão forte que muitíssima gente reduz linguagem pessoal a “pronomes”; isso, gramaticalmente, é muito errado e sem sentido.

Mas, continuando, a merda está feita e percebo que ainda vai demorar que haja aderência ao sistema APF (artigo/pronome/flexão). Mesmo assim, isso não sustenta o argumento em si. A importação da linguagem foi feita de maneira ruim, mas os motivos por trás disso são legítimos; afinal não existe pessoas não-binárias e/ou não-conformistas de linguagem apenas na anglosfera.

Não duvido que os pronomes neutros do inglês tenham sido inspiração para a formulação e implementação da neolinguagem. Podem até ter sido o estopim (não tenho informação suficiente para afirmar ou negar isso).

Só que, independentemente da resposta, o pensamento de que “isso não é válido porque veio de fora” é muito ridículo de tão simplista e raso. Mais ridículo que isso é acusar a neolinguagem de estar impondo um estrangeirismo à língua portuguesa, sendo que ela está sendo construída totalmente dentro da gramática do idioma e se adequando a suas particularidades.

E, como já falei, línguas que devem se adequar ao indivíduo. E a língua padrão atual é incapaz de se adequar a pessoas de outros países que utilizam uma linguagem pessoal que não seja associada aos gêneros binários. Não é justo com elas. Nem justo com outras pessoas daqui, da lusosfera, que existem e que também são excluídas da própria língua, e agora estão tendo voz para falar e demandar que sua individualidade seja respeitada. E foda-se que se inspiraram em algo de fora, se isso as fez enxergar possibilidades melhores.

“Estrangeirizar” a língua seria, no máximo, utilizar palavras de outras línguas de forma indiscriminada, coisa que ainda fazemos muito e deveríamos parar quando possível. Entendo que há palavras muito difíceis de traduzir ou adaptar, mas termos como “deadname” (nome morto) ou “misgender” (maldenominação) possuem tradução e adaptação possíveis.

Ah, é até possível que palavras modificadas ou novas acabem ficando muito parecidas ou idênticas com palavras de outras línguas latinas, o que também pode parecer estrangeirismo. Porém, não vejo por que isso deveria ser um problema, pois as línguas latinas são muito próximas e não é absurdo línguas diferentes terem palavras iguais.

Se o problema aqui é importar, vamos então criticar outras importações? Muito raramente alguém adapta a palavra gay para algo mais “aportugueisado” (guei). As identidades lésbica, bissexual e transexual/transgênero são traduções de palavras cunhadas na anglosfera. Que tal devolvermos essas palavras à língua original e cunharmos nossas próprias ou usarmos o que já existe aqui (viado, bicha, sapatão, etc)? Que tal usarmos uma sigla cunhada aqui mesmo? Porque usar isso só contra neolinguagem ou termos como queer é bem desonesto e hipócrita.

Conclusão:

Todas essas argumentações não são e nunca foram fundamentadas em análises críticas ou preocupações reais. Acredito que existe um fortíssimo viés exorsexista por trás disso, mas também deve incluir uns conformismos (preguiça de aprender uma linguagem nova) e um sexismo básico (não querer que “o masculino” perca seu posto de universal e padrão).

Outras constatações furadas incluem gente afirmando que “as pessoas não-binárias querem obrigar todo mundo a usar neolinguagem”, que “querem que isso seja aprendido de um dia pro outro”, e que “idoses não vão entender”. Tudo isso é mais exageros e invenções descaradas que fazem para reforçar a oposição.

Pessoas não-binárias não têm qualquer mínimo poder de obrigar alguém a usar uma linguagem diferente, ninguém com bom senso espera que a língua vai se modificar em tão pouco tempo (nunca nem vi alguém achando isso), e, por fim, instrumentalizar idoses se chama etarismo (além de que ninguém necessita da validação de um grupo etário).

Enfim. Continuo aguardando argumentos legítimos contra a neolinguagem.

Links adicionais:

Em defesa da neolinguagem

Neolinguagem: um futuro inclusivo e contra o cistema

O “X” da questão: gênero na escrita | Papo de linguista | Jana Viscardi (aviso de conteúdo: contém palavras capacitistas.)

Linguagem neutra: principais críticas

8 polêmicas sobre gênero neutro na língua | Jana Viscardi