A não-binariedade de bichas e sapatonas

Aviso de conteúdo: cisheterossexismo, desgenerização, termos pejorativos ressignificados, menciona assimilacionismo e colonialismo.

Muita gente deve ter na cabeça alguma ideia do que é bicha ou sapatão. O senso comum reconhece esses termos apenas como sinônimos (ainda pejorativos) de gay e lésbica.

Assim como ocorreu com queer nos Estados Unidos, corpos dissidentes com alguma consciência ou politizados o suficiente pegaram os termos para si e os ressignificaram; de ofensas a palavras que carregam orgulho e resistência.

Para algumas pessoas continuam sendo sinônimos do que já são; gays ou lésbicas. Contudo, há pessoas multi que também fazem uso dessas palavras, ampliando seu significado.

Para outras pessoas, essas palavras são mais do que isso: são identidades!

Enquanto há homens e mulheres se reafirmando gays/lésbicas ou multi, há outros corpos se reafirmando apenas como bichas e sapatonas. E só.

O que pode causar estranheza e atrair opiniões discordantes, visto que, em meio a esse turbilhão de novas informações e formulações de conceitos, muita gente dos movimentos sociais se empenhou muito em colocar gênero e orientação como aspectos separados, e não está disposta a aceitar identidades que os misturem.

Como tudo na vida, nada é absoluto. Nem todos os corpos desejam manter esse separatismo tão estrito; pois, para eles, não serve e não faz sentido.

Existem contextos sociais diferentes, recortes diferentes, experiências de vida diferentes. Não é por um acaso que essas identidades são tão presentes nas regiões periféricas; locais onde tanta informação e tão lindamente catalogada muitas vezes nem chega em sua totalidade, ou não consegue ter o mesmo valor e impacto.

Para muita gente desde sempre dissidente, desde sempre dando sinais de estar fora das (cis)(hetero)normas,” homem” e “mulher” devem ter perdido o sentido à medida que tais termos foram negados a esses corpos. Muitos desses corpos nunca foram tratados como homem ou mulher, apenas como “coisas”, como só bicha e sapatão. Muitos desses corpos não puderem se dizer homem ou mulher, apesar da designação de gênero.

Em meio a contextos em que concepções formuladas pela academia não chegam, e onde as pessoas não são nem permitidas de ser homem ou mulher, não é nada absurdo que os corpos procurem outras palavras para se nomear e assim ter uma posição na sociedade, no mundo; dar um sentido ao que são, a sua existência. E os nomes surgiram: bicha e sapatão.

E o que tudo isso tem a ver com a tal da não-binariedade de gênero? Bem, acredito que até aqui é um pouco evidente. Mas me explicarei melhor.

As identidades bicha e sapatão sempre estiveram mais próximas da não-binariedade do que do binômio de gênero. Afirmar-se homem ou mulher heterodissidente é diferente de ser bicha ou sapatão. Afirmar-se ainda homem e mulher fora da heteronorma têm suas lutas e demandas, com certeza; mas, ainda assim, estão se posicionando dentro de um binário imposto e vigente. E ser binárie tem seus privilégios.

Mas afirmar-se bicha e sapatão é negar até mesmo uma posição dentro desse binário. É colocar-se fora da própria cisnorma.

Existe uma força incrível e uma beleza incomparável numa identidade que combina gênero e orientação, que torna essas características unas; ambas unidas contra a cisnorma e a heteronorma (ou melhor, a cisheteronorma). É uma pena que assimilacionistas não percebam isso.

Muitas pessoas bichas e sapatonas avançaram com suas demandas e seus posicionamentos políticos dentro do território da não-binariedade sem nem saberem sobre esse conceito. E a não-binariedade sempre esteve e continua estando aqui para acolher e fortalecer esses corpos fora das caixinhas homem-mulher.

E eles não precisam tanto assim se encaixar numa das consagradas letrinhas de alguma sigla do movimento. Não é necessário outro B ou um S (que não é mais de simpatizante). O identitarismo dessas dissidências vai mais além disso, trazendo junto marcas fortes de raça e classe. Sua movimentação sempre seguiu por fora de movimentos convencionais. E assim continuará, se necessário (tem muita gente fora dos movimentos convencionais, acreditem).

Ainda faço uma ressalva especial aos corpos racializados que são bichas/sapatonas; que, mesmo sem saber, estão fazendo um resgate histórico; pois o binômio de gênero é um regime de origem eurocêntrica, e como tal foi imposto a todas as culturas ameríndias, asiáticas e africanas que aceitavam mais de dois gêneros ou outros gêneros além de homem e mulher (que também possuíam concepções diferentes das atuais).

Embora não tenhamos um equivalente próprio de queer no país, bichas e sapatonas têm muito de uma essência queer em si; desde a autoidentificação até suas ações.

Se queer for “gringo” demais e se espaços G e L falharem em incluir esses corpos, o meio não-binário ao menos estará sempre aqui para apoiá-los. No meio não-binário não somos e nunca seremos hétero; e muites nós já somos (total ou parcialmente) ou um dia fomos apenas bichas e sapatões. Assim como também transviades, fanchas, travesti-macho, e mais.

E concluo dizendo que bichas e sapatonas e pessoas não-binárias num geral têm muito em comum e deveriam somar forças. E uma união assim é algo que podemos muito bem dizer que se compara ao que queer trouxe na anglosfera: uma filosofia antiassimilacionista e permanentemente contra-normativa, indo na contracorrente até dos próprios movimentos convencionais com suas novas imposições de ser e agir.

Texto: O Manifesto Bissexual

Aviso de conteúdo: monossexismo, concepção moralista sobre “promiscuidade”, mononormatividade.

Tradução minha do texto “O Manifesto Bissexual”.

Nós estamos cansades de sermos analisades, definides e representades por outras pessoas que não nós mesmes, ou pior ainda, não considerades em absoluto. Nós somos frustrades pelo isolamento imposto e pela invisibilidade que vêm de nos dizerem ou esperarem que escolhemos ou uma identidade homossexual ou heterossexual.

Monossexualidade é um ditame heterossexista usado para oprimir homossexuais e para negar a validade da bissexualidade.

Bissexualidade é uma identidade completa e fluida. Não presuma que bissexualidade seja binária ou duogâmica por natureza: que temos “dois” lados ou que devemos nos envolver simultaneamente com ambos os gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não presuma que só existem dois gêneros. Não confunda nossa fluidez com confusão, irresponsabilidade, ou incapacidade de ter compromisso. Não iguale promiscuidade, infidelidade, ou comportamento sexual inseguro com bissexualidade. Esses são traços humanos que cruzam todas as orientações sexuais. Nada deveria ser presumido sobre a sexualidade de qualquer ume, incluindo a sua.

Nós nos zangamos com aquelus que se recusam a aceitar nossa existência; nossas questões; nossas contribuições; nossas alianças; nossa voz. É hora de a voz bissexual ser ouvida.

O texto foi publicado em 1990 numa revista da época direcionada ao público bissexual, a Anything That Moves (tradução: “Qualquer Coisa Que Se Mova”).

Percebe-se que o ativismo bi já encontrava suas dificuldades desde essa década, e que monossexismo já se manifestava desde sempre junto com moralismos e a estigmatização da não-monogamia .

Curiosidade: encontrei que “duogamia” se refere a quando uma pessoa bi tem simultaneamente dues parceires, homem e mulher.

Desde essa publicação instaurou-se oficialmente bi como um termo guarda-chuva para toda forma de atração por mais de um gênero, e ainda abrindo espaço para o uso de outros rótulos. Essa definição ampla esteve sendo resgatada por pessoas e grupos bi/multi engajades num ativismo mais inclusivo e unificador, visto que o senso comum e muitas fontes ainda espalham que bi é apenas atração exclusiva pelos gêneros binários.

Em meio a tantas brigas internas (como bi v.s. pan) e muitos discursos de policiamento e segregação, devemos resgatar essa consciência, pregada pela comunidade bi em seus primórdios, e promover acolhimento e empoderamento mútuos de todas as pessoas multi. Olhar para trás e saber a história da comunidade é uma forma de fazer isso. E por isso compartilhei esse registro histórico da comunidade bi, que desde sempre abriu espaço para muitas identidades e expressões e considerou a existência de gêneros não-binários.

Lembrando que esse mês, setembro, é o mês da visibilidade bi. Então nada mais apropriado do que contar uma parte da história da comunidade.

(Descrição de imagem: a bandeira de orgulho bi. Uma bandeira de três faixas horizontais, duas grandes e uma mais fina entre elas. De cima para baixo, as cores são magenta, roxa e azul. Fim da descrição.)

Referências bibliográficas (em inglês):

https://bialogue-group.tumblr.com/post/17532147836/atm1990-bisexualmanifesto

https://muse.jhu.edu/article/575374/summary