Atração por pessoas não-binárias: perspectivas e possibilidades para além do binário

Aviso de conteúdo: exorsexismo, cissexismo, colonialismo, capacitismo, exclusionismo baseado em reducionismo de gênero, exclusionismo contra microcomunidades, menções a corporalidades, ironias, links externos.

Recado: algumas das terminologias usadas ao longo do texto podem ser encontradas aqui e aqui, e podem facilitar o entendimento.

Este é um assunto inusitado, complexo, controverso, e extenso, sem uma única resposta simples, e uma discussão que ainda está sendo construída. Tenha tudo isso em mente ao ler esse texto.

Apesar disso, acredito que eu possa trazer aqui um conteúdo que ofereça mais reflexões e entendimentos do que mais dúvidas, respostas medíocres, ou perguntas sem qualquer resposta.

Atração por pessoas não-binárias existe? Ela é possível? As pessoas se atraem por uma identidade de gênero não-binária? As pessoas não se atraem apenas por “leituras sociais”? Toda orientação inclui pessoas não-binárias? Essa atração é totalmente diferente de atração por pessoas binárias? Todas essas questões e outros tópicos relacionados serão abordades aqui.

Como esse é um tema ainda novo, esse texto não vai trazer apenas informações prontas, mas também vai acabar tendo que desenvolver, quase como um “pioneirismo”. E, não, não sou da academia, e se querem tanto assim referências, sugiro que façam suas próprias pesquisas ou aguardem alguém fazê-las. Não precisamos de aval acadêmico para produzir, criar, desenvolver tópicos relacionados a qualquer grupo marginalizado. Aqui, trarei conhecimentos de comunidades, pensamentos e vivências de outras pessoas, e também minhas próprias vivências e perspectivas. Não estou inventando nada. E também terei algumas referências de estudos queer, pois, apesar de não haver (ainda) nada mais específico, estudos de sexualidade apontam sua complexidade, e isso será utilizado no conteúdo.

O texto é muito longo, já aviso. Então, leia no seu tempo. E leia até o fim. Valorize meus esforços com esse conteúdo. Aproveite.

Conceitos de atração e orientação

Por mais que se pesquise sobre “atração não-binária”, o conteúdo relacionado a isso é muito escasso e quase nunca desenvolve além de positividade (ex: “atração por n-b é válida!”) e afirmações breves (ex: “você pode se atrair apenas por não-bináries”). Nada disso é suficiente, devo admitir, para nos aprofundarmos no que é ou não é, ou o que pode ou não pode ser uma atração por pessoas não-binárias.

E antes de falarmos sobre atração por n-b, acho que deveríamos falar primeiramente sobre o que é atração.

Aqui não preciso me estender. Atração é basicamente todo interesse espontâneo ou vontade involuntária de ter alguma interação com alguém ou algo, e essa interação se desenvolve em algum tipo de relação. E relações podem ser sexuais, românticas, platônicas, alternativas, e etc. Orientações e outras identidades de atração são apenas descrições que pessoas necessitam por vários motivos. Não são e nem precisam ser descrições tão literais e restritas. Até porque, e isso é consenso de várias comunidades politizadas e de estudos de diversidade, palavras nunca serão suficientes para explicar todas as complexidades e subjetividades das pessoas. Atração é algo muito pessoal. Atrações são o que são.

Sobre orientações, um conceito utilizado até hoje é se baseando em “atração por gênero”. Isso é suficiente? Não. Mas essa descrição é o que funciona para o momento atual. Um conceito mais amplo de orientação é “as condições para que ocorra atração”. Isso é até melhor, pois inclui orientações que não são baseadas em gênero, que é o caso de orientações a-espectrais num geral.

Uma explicação conflituosa: “leitura social” x reducionismo de gênero

As atrações por pessoas não-binárias são discussões um tanto recentes ainda. Porém, mesmo assim, já existem respostas “prontas” sendo defendidas por aí. E vou falar da “principal”, a que mais vejo na Internet.

Tem gente que afirma que o mundo inteiro se atrai por uma “leitura social” (ou seja, se a pessoa é lida como homem ou como mulher), e isso nem é novidade: isso é literalmente o senso comum de qualquer sociedade colonizada, que tenha apenas como referências de gênero homens e mulheres, e que são distinguíveis seguindo lógicas cisnormativas (no corpo, na aparência, nos comportamentos, etc).

Aliás, gostaria de deixar muito bem registrado aqui o quanto essa premissa é tão errada, nociva, problemática, um imenso desserviço a qualquer luta contra as hegemonias de gênero e atração, e apenas mais uma forma de sustentá-las e se assimilar a uma sociedade binarista. E, como toda premissa assim, dá abertura a todo tipo de ataque e invalidação de microcomunidades e qualquer outra identidade que, para esses “novos” padrões – que são apenas os velhos padrões com outra embalagem, não serve aos interesses daquelus que querem apenas um pequeno espaço na normalidade.

Essa premissa de que todes somos apenas uma “leitura social” desconsidera totalmente as experiências de pessoas atraídas independentemente de gênero, de pessoas a-espectrais, de pessoas fluidas ou indefinidas, e de qualquer cultura não-ocidental com mais de dois gêneros. É principalmente colonialista, pois o binário de gênero e tudo que o acompanha (incluindo essa ideia) é uma invenção colonial. E também acredito que vale pontuar o quanto é uma perspectiva capacitista, partindo sempre de corpos capazes de ver. Não é por um acaso que as defesas dessa premissa quase sempre vêm com exemplos envolvendo gente “que vemos” na rua, na balada, no Instagram, enfim.

Só um adendo, isso também me fez refletir se “leitura social” é realmente uma terminologia adequada e precisa, pois leitura remete a algo que se vê, e além de pessoas cegas existirem, o gênero das pessoas não é apenas presumido por aparência, mas também por voz, toques, e até mesmo o modo como a pessoa escreve ou age num bate-papo. Enfim, voltando ao assunto…

Além disso, a ideia de que todes podem ser reduzides a uma leitura social joga toda luta contra a cisnorma no lixo, pois se pessoas podem ser reduzidas assim no campo afetivo, nada impede de ocorrer o mesmo em outros campos. Então pessoas serão privilegiadas ou oprimidas de acordo com a leitura – e aqui damos total razão ao que o feminismo radical prega. E, consequentemente, outras lutas perdem sentido. Se leitura é o que importa, o que fazer com “as falhas” como pessoas intersexo? Devemos agora dar razão ao transmedicalismo e desejar que toda pessoa trans faça uma transição física completa, tudo dentro da conformidade de gênero? Pessoas inconformes de gênero são as novas subversivas da ordem e pureza?

Resumindo: a premissa de atração pela presunção de um gênero (sendo pessoas presumidas sempre como ou homem ou mulher) é uma perspectiva colonialista (portanto, cissexista), capacitista, e monossexista (e alossexista). Isso que estou resumindo, pois há mais coisas que eu poderia citar.

Talvez atração por expressão? Atração por um gênero presumido é errada?

Contudo, apesar de todas as críticas feitas, acho que posso trazer uma nova interpretação e possível solução. Talvez as pessoas que afirmam e reafirmam essa premissa sejam na verdade atraídas por expressões de gênero. Isso é diferente sim de “leitura social”, pois “leituras” falham muito e são incapazes de “acertar” o sexo ou ao menos a designação de gênero das pessoas. Sexo é um espectro, corpos são diversos demais, nossas noções dos gêneros binários são muito enviesadas, e nossas ideias de expressão de gênero precisam ser mais ampliadas. Portanto, “leitura social” é um parâmetro nada confiável de tão furado.

Existem masculinidades e feminilidades, tanto partindo das referências sociais que temos quanto de ressignificações feitas por pessoas ou comunidades. Se isso atrai as pessoas, tudo bem. Não há problema. Existem orientações que descrevem atração por expressões, e se atrair por expressões masculinas e/ou femininas não muda o fato de que essas expressões estarão em pessoas tanto binárias quanto fora do binário, e tais atrações não invalidam suas identidades de gênero. Aliás, li uma postagem dizendo que se você é alguém que se atrai por pessoas “femininas”, sabendo que elas podem ser de qualquer identidade de gênero, você pode ser ume pan com essa preferência de expressão.

Entendo perfeitamente que a ideia de atração por identidades de gênero não-binárias pode parecer impossível exatamente por nossas maiores referências sociais serem as hegemônicas. Ainda somos criades com essas referências, as quais internalizamos e influenciam demais em nosso desenvolvimento. Mas quando questionamos essas referências, quando as desconstruímos, podemos encontrar novas possibilidades e perspectivas de gênero, consequentemente, também de atração, e de como orientações e identidades podem funcionar para nós.

Sim, muitas vezes a maioria das pessoas presume um gênero, e dentro das lógicas cisnormativas. A presunção de gênero pode ser o que orienta as atrações dessas pessoas. E… isso é problema delas. Presunção vem de expectativas. Expectativas são problema de quem as tem. As expectativas de alguém ser de tal gênero binário são tão relevantes quanto quaisquer outras expectativas que se faz, como afinidades, gostos, traços de personalidade, etc. Até expressão de gênero costuma ser presumida erroneamente, o que é mais fácil de acontecer quando conhecemos pessoas através de redes sociais. Mesma coisa com gênero.

Mas, bem, atração é atração. Não curto a ideia de dizer que existem atrações erradas. Existem, sim, atrações partindo de premissas problemáticas, como quando se presume determinada genitália porque a pessoa parece ser de tal gênero. Porém, atração continua sendo atração, ela é involuntária, mas ela não é também desculpa para discriminar pessoas que não corresponderam a certas expectativas. Se alguém não corresponde a expectativas de corpo e/ou expressão, o melhor a se fazer é dizer que não tem interesse. Pronto. Não precisa se justificar.

Ah, algo importante de se pontuar é que embora expressões sejam resumidas a masculinas, femininas, e andróginas/neutras, isso não significa também que pessoas n-b com essas expressões se consideram pessoas “essencialmente” assim e/ou alinhadas com essas qualidades. Novamente, ninguém tem obrigação de corresponder expectativas, e isso vale também para a leitura que se faz das expressões.

Entre como ocorre atração e como descrever atração

Com base na minha experiência e em tudo que já pesquisei, posso afirmar que atrações podem ocorrer, em termos gerais, das seguintes formas:

– atração imediata (geralmente chamada de atração primária).

– atração desenvolvida (geralmente chamada de secundária) após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que já é potencialmente atraente.

– atração desenvolvida após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que antes não era potencialmente atraente.

– atração por uma presunção de gênero, e que permanece mesmo após haver confirmação de estar errada.

– atração por parceire de longa data que permanece mesmo quando elu se revela de outra identidade de gênero.

Sim, estou “validando” atração por uma presunção de gênero, unicamente porque isso é uma realidade no contexto atual. Porém, isso não é um destino, não é inalterável, e não é inquestionável. Inclusive, acredito que precisamos trazer essas discussões para que pessoas possam se conhecer melhor, e também para evitar mais gente não-binária sendo alvo de reducionismos alheios.

A desconstrução pode fazer diferença para certas pessoas. Há pessoas que podem descobrir ter atração por pessoas n-b por autorreflexão, acesso à informação, e/ou experiências com pessoas n-b. Da mesma forma, a desconstrução pode não fazer diferença. Algumas pessoas não se importam também, e querem se manter numa perspectiva binarista de mundo.

E tudo bem também para pessoas que até então se atraíram apenas por gente que correspondia a um gênero binário presumido, e que, por um acaso, eram mesmo desse gênero. São circunstâncias possíveis. Para algumas pessoas, um grupo é mais acessível a elas, e tudo bem se esse grupo for unicamente pessoas cis/binárias. Isso não é a mesma coisa que gente que busca somente relações com pessoas de um gênero presumido específico, não se importando mesmo quando são não-binárias. Uma pessoa já me disse que acha que pessoas assim poderiam ainda adotar rótulos que incluam n-b. Não discordo, mas particularmente acho que essas pessoas deveriam apenas evitar relações com gente n-b. Inclusive, esse é o meu posicionamento com pessoas hétero, e falei sobre isso nesse texto aqui.

Mesmo que a atração seja por um gênero presumido, pessoas ainda deveriam refletir se não deveriam considerar relações com pessoas n-b como relevantes, e procurar uma maneira saudável de incluí-las, que pode ser adotando outra(s) identidade(s) (como bi, poli, etc) ou ressignificando dentro do possível as existentes (como no caso das orientações gay e lésbique). Depende de cada caso, não existe uma resposta universal.

A ressignificação de orientações mono, em especial gay e lésbique, pode até ser defendida por reducionistas de gênero, porém, ela pode fazer sentido para muita gente n-b. E acho que vale pontuar também o quanto várias pessoas aceitam as premissas do reducionismo de gênero porque são carentes de afeto, por suas opções de relacionamento serem escassas, então aceitam serem reduzidas a gêneros binários para ter alguma coisa, por mais mínima que seja.

Há pessoas que consideram a validação da atração por pessoas n-b importante mesmo quando a atração surgiu pela presunção binária. E sei disso porque já aconteceu comigo: um menino gay chegou em mim, mostrou interesse, falei que eu era não-binárie, e então ele se questionou se continuava “sendo gay”. Muito embora ele tenha se atraído por uma presunção, e eu também nem acho que faria sentido ele mudar sua identidade por causa de uma atração pontual, aquela situação foi relevante suficiente para ele questionar se a identidade gay podia descrever aquela experiência. Talvez aquilo o tenha feito considerar atração por n-b uma possibilidade maior, e/ou tenha mostrado uma nova possibilidade que até então nem havia sido considerada.

Explorando a atração por pessoas não-binárias

Li uma vez uma postagem dizendo que alguém afirmar não ter atração por pessoas não-binárias não tem fundamento, porque não existe qualquer padrão ou referências sobre o que é uma pessoa não-binária, que pessoas não-binárias podem ser literalmente de qualquer jeito assim como pessoas binárias, e que com certeza em algum momento da vida todo mundo se atraiu por uma pessoa n-b sem saber disso. Eu… não discordo disso.

Significa então que toda pessoa é atraída por pessoas n-b? Hm… vamos nos aprofundar nisso.

A afirmação que qualquer pessoa de qualquer identidade de gênero pode ser de qualquer forma faz todo sentido, e não há o que discordar aqui. O problema é quando isso é colocado como a realidade total de todas as pessoas, sem considerar qualquer contexto social, as dinâmicas, e como os sistemas opressivos operam. Bem, se todes são atraídes por qualquer identidade de gênero, então significa que enfim rompemos com o cissexismo? Rompemos também com parte do heterossexismo, já que héteros nem existem? Rompemos com o monossexismo, já que todo mundo é multi?

Não é assim que funcionam as coisas, ainda mais quando fenômenos como privilégio hétero e multimisia continuam existindo e beneficiando certas pessoas.

Com tudo que foi dito até aqui, lembrando também das situações que citei sobre como atração ocorre, não acho impossível existir situações em que alguém perde atração pela pessoa se dizer não-binária. É exatamente a mesma coisa que já acontece com gente com atração por bináries. Se é errado não se atrair e não querer relações com n-b, bom, então vamos agora acusar váries homens gays e mulheres hétero de misoginia por não quererem nada com mulheres, ou admitir que existe misandria da parte de váries mulheres lésbiques e homens héteros? Talvez o que não tenha de atraente na não-binaridade é a mesma coisa com pessoas que apenas se atraem e se relacionam com um gênero binário específico. O que podemos fazer? Vamos policiar a atração e relação alheias, e assim criar um novo regime opressivo em cima do heteronormativo?

No fim das contas, pessoas também podem buscar relações com apenas um grupo de gênero específico por quaisquer outras razões além de atração, principalmente por afinidades e facilidade de relação. E as dinâmicas com pessoas não-binárias tendem a ser muito diferentes de pessoas cis e binárias num geral, o que leva gente n-b muitas vezes a encontrar relações melhores com pessoas multi e/ou outras não-binárias.

Não acho que deveríamos focar em provar que pessoas podem ser entendidas como não-binárias sem nenhuma informação prévia e que a atração imediata por isso é o que realmente se configuraria numa atração por n-b real e possível. Caímos num paradoxo, pois a mesma coisa poderia ser afirmada de pessoas binárias. Acho que deveríamos ir por outras abordagens, e deixar cada ume se atrair e se relacionar com quem quiser e ponto final.

Termos de atração que incluem n-b, relações diamóricas

Afirmo com certeza que não é impossível ou sem sentido orientações que incluem ou podem incluir atração por n-b, como toren e trixen ou poli. Mesma coisa sobre pessoas que se dizem atraídas exclusivamente por gente n-b. Vindo de pessoas binárias, isso gera controvérsias. Mas vindo de outras pessoas n-b, essa possibilidade existe, pois elas podem não ter atração por gente binária por causa de opressão e experiências negativas. E, da mesma forma, também podem perder alguma atração prévia. Na prática, convenhamos, não é diferente de relações centradas entre grupos marginalizados (como as transcentradas, ou afrocentradas, enfim), e se homens aquileanes e mulheres sáfiques podem escolher se relacionar apenas com o mesmo gênero, a mesma opção deve existir para pessoas n-b também.

Porém, muitas pessoas admitem que atração exclusiva por gente n-b pode ser confusa ou pouco frequente, e por isso difícil de entender, pois ainda vivemos num mundo onde não existe ainda um número significativo de pessoas não-binárias evidentes, e ainda tem toda aquela questão que expliquei das referências sociais impostas. Mesmo assim, há pessoas afirmando que sentem atração exclusiva por pessoas n-b, e não há razões para não acreditar nisso.

E como alguém pode se atrair “desde sempre” por pessoas n-b apesar das referências? Não sei. Particularmente, imagino que talvez essas atrações poderiam se manifestar como interesse por androginia, inconformidades de gênero, corpos que poderiam ser considerados intersexo ou transicionados, corpos e aspectos improváveis de existir “naturalmente”, e/ou até mesmo seres humanoides fictícios. Isso até a pessoa se desenvolver e aprender que sexo não define gênero, que pessoas não-binárias existem, e que elas podem ter qualquer aparência e corpo. E digo tudo isso porque o que faria mais sentido para uma “atração não-binária” é criar suas referências por fora das referências binárias.

Identidades que descrevem atração não precisam ser tão restritas assim, nem tão literais. E nenhuma exige qualquer tipo de relação. Na teoria, pessoas podem ter relação com qualquer ume. Mas ter determinada identidade não implica que você deva se relacionar com tal pessoa ou grupo.

Por isso mesmo é válido adotar certas identidades pensando não apenas em atração como também em suas relações, querer expressar por meio desses termos que você tem relações com pessoas de tal identidade/grupo. Uma pessoa cetero, por exemplo, não precisa ser alguém que passou a vida toda tendo atração imediata unicamente por pessoas n-b, mas pode muito bem ser alguém cuja atração por pessoas n-b é a única relevante e que busca relações somente com essas pessoas. Aliás, pessoas já adotam orientações por outras razões além da descrição geral, podendo ser afinidade com uma comunidade (ex: alguns casos de pessoas [mono] [multi]), ou pela facilidade em explicar para as pessoas em geral (ex: uma pessoa que usa pan em vez de bi devido à interpretação binária do senso comum).

Acho muito admirável o trabalho que as comunidades virtuais na anglosfera tem feito há anos. Há registros de cunhagens de rótulos falando de atração por n-b já desde o início da década passada. Isso comprova o quanto essas comunidades estavam muito avançadas, trazendo perspectivas de inclusão e validação não-binária que estão até hoje sendo debatidas de uma forma tão rasa e infeliz (especialmente na lusosfera). E já faz anos que pessoas têm tocado em assuntos como pessoas hétero se atraindo por n-b, ou se todo mundo é realmente atraído por n-b, ou se ter uma atração pontual por pessoas n-b tem o mesmo peso que relações com elas.

Essas cunhagens são muito importantes para experiências de pessoas não-binárias, e de atrações e relações envolvendo pessoas não-binárias, ainda mais num mundo ainda regido por um sistema binário de gênero que não considera sequer identidades ou atrações e relações assim como reais, possíveis, ou legítimas.

Mesmo assim, entendo que haja pessoas na dúvida sobre a importância de evidenciar relações diamóricas, ainda mais quando o assunto são as dinâmicas de opressão e discriminação na sociedade. Atração por n-b é discriminada? Minha resposta é: sim. Com certeza não da mesma forma que relações entendidas como “homoafetivas” (num contexto binário típico, né). Também me questiono o quanto um homem cis hétero todo padrão declarando atração por uma pessoa com toda uma “passabilidade de mulher cis”, mesmo após essa pessoa se declarar não-binária, teria sua atração discriminada da mesma forma se a situação fosse com alguém de barba e peito reto. Porém, apagamento também é uma faceta da opressão. Considero essa discussão no mesmo patamar de pessoas trans binárias sem passabilidade sendo maldenominadas.

E, além disso tudo, por mais apagadas que sejam as relações diamóricas, pessoas não-binárias ainda estão sujeitas a relações abusivas com pessoas binárias que não consideram sua não-binaridade (olá, prazer, sobrevivente de uma relação assim falando aqui). Violências assim e em outros campos também causam danos, o que não deixa de ser parte do exorsexismo.

Por tudo isso que a validação de pessoas não-binárias é tão necessária, e isso inclui terminologias que descrevam atrações e relações específicas com e entre pessoas n-b.

E um breve adendo: em outras culturas não-ocidentais existem termos que descrevem relações entre homens e mulheres com pessoas de identidades de gênero restritas dessas culturas. Menciono isso apenas como um paralelo, para mostrar que termos que descrevem relações entre gêneros “diferentes”, num contexto fora do binário, são históricos e considerados relevantes por tais culturas.

“Todo mundo se atrai por n-b, toda orientação inclui n-b”

Então podemos afirmar com toda confiança de que todo mundo é potencialmente atraído por pessoas não-binárias? Minha resposta é: depende.

Tente imaginar ou compreender a seguinte situação: uma pessoa que passou a vida toda achando que só existiam dois gêneros, e se atraiu e se relacionou unicamente com pessoas que se apresentavam como um desses gêneros. Eu, uma pessoa de outra geração, de outro contexto, com toda informação que tenho, posso chegar nela e dizer que a atração dela não é por apenas esse gênero, e que ela na verdade se atrai sim por pessoas de um grupo o qual ela nem sabia que existia? Posso fazer isso? Podemos fazer isso? Como exigir de alguém se atrair pelo que elu desconhece?

Antes de ficarmos repetindo como mantra que todo mundo se atrai por n-b, deveríamos pensar nessa nuance e nas outras abordadas anteriormente.

E, sobre a questão de toda orientação incluir ou não n-b, proponho as seguintes perguntas:

“Toda pessoa está interessada em incluir n-b em sua orientação?”

“Toda pessoa n-b faz questão de ser incluída na orientação de todes?”

Como a resposta para ambas é não, então, não há sentido em jogar pessoas não-binárias para quem não as quer e para quem não querem, e isso apenas com o intuito de validá-las, sendo que outras formas melhores disso existem e foram apresentadas. Gente exorsexista nem deveria estar entrando nessa discussão toda.

Apesar de tudo que foi dito até agora, muita gente “convencida” pode ainda achar que atração por toda não-binaridade é o que faz mais sentido, ou atração apenas por espectros de gênero – que vão de masculino e feminino, tendo andrógino/neutro no meio. Então isso levanta umas perguntinhas, por exemplo:

“Como é possível então se atrair exclusivamente por pessoas agênero?”

“Como assim atração maior por xenogêneros?”

“Como ter preferência por identidades distantes do binário, como aporagênero e maverique?”

Pra mim as respostas para perguntas assim são tão subjetivas quanto responder o por que nos atraímos por homens, mulheres, expressões masculinas, expressões femininas, e expressões andróginas/neutras. Nada disso precisa de justificativa para existir. Mas se vamos agora exigir explicações, que sejam então de todo mundo. Justo, né?

Da mesma forma que não me interessa tentar entender quem se atrai por tudo que mencionei, não me interessa também quem se atrai por novos arquétipos, ou novas projeções, ou grupos e/ou identidades em particular. Se alguém diz se atrair de tal forma por tal coisa, eu não tenho o que contrariar ou discordar, o que posso fazer é apenas acreditar, pois nem tenho motivo para desacreditar.

Talvez, para algumas pessoas, faça sentido se atrair por ausências de gênero, ou por gêneros que não podem ser explicados com concepções comuns e humanas, ou por todas as identidades definidas por não estar de qualquer forma dentro ou próximo do binário. Talvez o que exista de tão atraente em masculinidades e feminilidades também exista em androginidades/neutralidades, e também em nulidades, xeninidades, outerinidades, entre outras possíveis qualidades de gênero. Talvez seja a mesmíssima coisa com as qualidades que existem em outras culturas e só fazem sentido dentro des entendimentos e dinâmicas de gênero delas. Novas ideias estão sendo descobertas, ou criadas, ou (re)formuladas, e, a partir delas, possibilidades surgem ou mesmo ressurgem. É assim que entendo essa questão toda.

Eu adoraria que houvesse estudos sobre isso, pois gosto de estudos sobre diversidade. Mas se for para existir estudos sobre atração por identidades não-binárias, que haja também sobre atração pelos gêneros binários. A última coisa que precisamos é exotificação científica, assim como já foi praticada com homossexualidade e transexualidade.

Sinceramente? Nós não entendemos nada de nada ainda. O que entendemos até agora sobre essas questões de atração e gênero ainda estão em construção. E o que entendemos até o momento é muito enviesado: são muitas perspectivas normativas, tendenciosas, ocidentais, e que fazem mais sentido na atualidade. E as perspectivas de muitos corpos, em especial com deficiência e neurodivergentes, sequer estão tendo a consideração que merecem. Não temos todas as respostas. E, mesmo quando há uma resposta, ela pode mudar daqui a uns anos. Talvez jamais tenhamos todas as respostas. Então precisamos tanto assim ficar disputando por respostas definitivas e absolutas? Pra que, afinal? Por nós? Por nosso grupo, ou nossas bolhas? Pela sociedade? Pelo planeta todo? Precisamos pensar mais nisso.

Enfim, acho que posso concluir o texto assim: atração por pessoas não-binárias, por mais subjetiva que seja, por mais que seja uma discussão ainda sendo construída conforme as discussões não-binárias avançam, é tão real e possível quanto atração por pessoas binárias, pode ter vários significados e contextos, pode ou não estar inclusa em qualquer orientação, pode ou não ser relevante nas relações de alguém, abre uma gama de possibilidades que transcendem concepções binárias, e desafiam as concepções atuais que ainda temos de atração e orientação e identidades.

Precisamos parar com tantos esforços inúteis e danosos de tentar simplificar a diversidade. Afinal, isso apenas nos joga de volta às margens das normatividades. Se formos analisar bem, as normatividades são exatamente isso: simplificações. E o que podemos fazer até lá? Bom, continuar vivendo e aprendendo, nos relacionando com quem quisermos, adotando os rótulos que quisermos, nos politizar, e contribuir para mudanças radicais, para derrubar as hegemonias vigentes. E podemos começar fazendo apenas parando de reforçar tais hegemonias. Nunca faremos parte delas. E ainda bem.

Links adicionais:

Instagram – Qualidades de gênero

Instagram – Atrações

Valprehension – “Se você está afim de mim, então você não é hétero” (em inglês)

Todo Mundo Sente Atração Por Pessoas Não-Binárias (em inglês, tem legenda em pt-br)

Tumblr: uma postagem sobre discursos sobre atração não-binária (em inglês)

Tumblr: uma postagem sobre argumentos reducionistas de gênero (em inglês)

Medium – Passando como Transfem e Transmasc (Ao Mesmo Tempo) (em inglês)

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Binarismos

Aviso de conteúdo: colonialismo, racismo, diadismo, cissexismo, menciona genitálias.

Os binarismos estão em todo lugar. Contaminam nossas mentes e perspectivas de mundo, limitam nossas possibilidades, nos passam inverdades disfarçadas de realidade e ordem natural das coisas.

Não falo apenas dos binarismos como homem e mulher, ou pênis e vulva, etc etc etc.

Fomos/Somos colonizades por essa ideia arcaica de Bem | Mal. Pessoas são ou boas ou más. Coisas são ou boas ou más. Tudo é Preto | Branco, Positivo | Negativo, Quente | Frio, Esquerda | Direita, Cima | Baixo.

Cria-se oposições onde não existem. Cria-se contrários, inversões, antônimos, etc etc etc. E essas criações, mesmo quando absurdas, mesmo quando é evidente que não são suficientes, ainda influem em nossas vidas, relações, formas de agir e pensar.

(não é como se não soubéssemos que existem gradientes de cores, relativismos, várias temperaturas, diversos pontos cardeais, enfim… mas a gente esquece diretooo)

Os binarismos se sustentam ao máximo que podem, traçando uma grande e longa narrativa de que explicam o mundo, que sempre existiram e sempre existirão.

E quando não conseguem mais se sustentar com absolutismo, formulam suas armadilhas bizarras – e tanta tanta gente cai nelas.

O binarismo afirma que entre 1 e 2 existe o 1,5. E o que é esse número além um intermediário entre dois números inteiros (ênfase na palavra “inteiros”)?

O binarismo afirma que entre masculine e feminine existe neutre. E o que é neutre além de uma confirmação e reafirmação de que existem dois polos?

O binarismo afirma que entre Sim e Não existe Talvez. E o que é o talvez além de uma falta de certeza que continua nos apontando para apenas duas respostas?

O binarismo se contorna para afirmar que nunca existiram apenas duas opções igual a uma cobra que se enrola e morde a própria causa. Nos engana com falsas terceiras opções que nada mais são do que versões/derivações inferiores das únicas opções que são pregadas.

O binarismo procria também quando se faz necessário. Antes haviam es normais e es desviantes, até que surgiram os termos hétero e homo, deixando tanta gente que não é nem um ou outro num limbo.

O binarismo protege sua integridade sempre que pode. Antes haviam os marcadores sexuais de sexo masculino e sexo feminino, e agora temos, uau, o sexo X/indefinido/não-especificado (imagina só o binarismo dizendo que outros sexos são definidos ou específicos, né?).

O binarismo se segura ao máximo na simplificação. Antes haviam apenas dois gêneros, e então, para facilitar a compreensão das pobres pessoas do mundo civilizado com o sistema de gênero perfeito, jogaram toda e qualquer identidade dos povos incivilizados como “terceiro gênero”.

O binarismo também tem o poder de afirmar algo e agir diferente na prática. Nos dão tantas opções de “raças” além de branca, como preta, parda, amarela, etc, e ainda assim, só uma delas detém poder estrutural, só uma delas é vista como universal, enquanto as outras são As Outras.

Precisamos nos atentar às artimanhas dos binarismos. Elas existem. Elas estão aí. Por um lado, elas demonstram a fragilidade e o medo deles. Por outro lado, reduzem/apagam/esmagam a complexidade, a diversidade, a amplitude, tudo que ameaça os poderes binaristas.

Os binarismos vão a todo tempo nos intimidar, persuadir, nos convencer, ou tentar nos convencer, nos encurralar, prender, usar falácias, ter discursos bonitinhos, dizer que nos representam. Não caiam nisso!

Que es conformades fiquem às sombras dos binarismos, fingindo que estão sendo bem representades. Nós, comprometides com a inconformidade, não aceitamos migalhas, restos, subprodutos, entrelinhas ou notas de rodapé!

Não basta apontar para outras opções, ainda mais quando dadas pelos binarismos. Não basta criar apenas terceiras opções, ainda mais quando nossas referências são os binarismos.

A mera existência de duas e somente duas opções precisa ser destruída. Binarismos não podem e nem deveriam existir.

Sejamos todes, antes de tudo, anti-binarismos!

O que torna um termo válido?

Aviso de conteúdo: citações de ações e situações variadas que sejam opressivas, criminosas, perigosas, e similares; exemplos de discursos exclusionistas; contém links externos.

Este é um texto que busca explicar quais são os critérios usados para avaliar quais termos podem ser válidos ou minimamente aceitáveis, e quais podem ser nocivos ou irreais. Ainda assim, existe uma área cinza entre esses grupos, e outras nuances serão abordadas junto com ela. Os termos aos quais me refiro aqui são especificamente termos relacionados com a comunidade LGBTQIAPN+ e tópicos paralelos a ela.

Isso não é algo tão discutido na lusosfera, ainda mais no contexto brasileiro, mas na anglosfera, principalmente nos meios virtuais, existe uma cultura de cunhagem de inúmeros termos para descrever as mais variadas experiências. Isso é geralmente associado à sigla MOGAI, que era inicialmente uma alternativa a qualquer sigla identitária da comunidade, e, com o tempo tempo, acabou sendo associada a blogues e pessoas que cunham diversos termos (às vezes chamados de “microrrótulos” ou “microidentidades”).

Essa cultura de haver muitas palavras para “tanta coisa” ou “tudo” atrai muitas reações, de positivas a negativas. Enquanto isso deu a oportunidade para pessoas poderem nomear suas próprias experiências e validá-las, também trouxe reacionarismos de dentro da comunidade. Entre esses ataques temos discursos exclusionistas (ditando o que é e o que não é válido se baseando em ideias arbitrárias; e pode se misturar com coisas como assimilacionismo), e temos cunhagens feitas com o propósito evidente de zombar ou manchar a comunidade.

E exclusionismo e cunhagens ruins estão ganhando uma notoriedade crescente aqui na Internet brasileira, embora ainda possam ficar mais em certas bolhas (como nas “militâncias” do Twitter). E não é recente que muitas cunhagens já chegaram nas redes populares, mas como postagens de ódio e chacota em páginas de direita, por exemplo. Como não há discussões elaboradas sobre isso, e muita gente não tem senso crítico algum e acredita em tudo por aí, decidi fazer esse texto como uma tentativa de amenizar esses problemas oferecendo direcionamentos, e esses direcionamentos são para que pessoas comecem a separar melhor o que merece alguma credibilidade e o que não merece, assim como também ampliar mais suas perspectivas sobre experiências de sexo/gênero/orientação/etc.

Espero que depois desse texto saibam analisar com cuidado e bom senso o que encontram por aí na vastidão da Internet. E que possam mudar a perspectiva sobre conteúdos como as listas do saite Orientando (que tem um trabalho incrível e que deveria ser muito mais reconhecido), e entendam a importância de muitos termos. E que ajudem a criar espaços e conteúdos mais inclusivos.

Critérios sobre termos nocivos, perigosos, e opressivos

Se fosse para resumir quais os critérios usados para determinar a validade de um termo, eu diria que qualquer termo que não cometa alguma opressão ou traga problemas para qualquer pessoa ou grupo marginalizado/dissidente. Mas isso não é suficiente. É vago até para quem entende do assunto, e exclusionistas e gente alienada/desinformada podem encontrar nessa descrição opressões e problemas onde nem existem.

Então na lista a seguir terá itens, e se um termo atende a qualquer um deles, ele não é válido de jeito nenhum, podendo ser perigoso ou já sendo em si um ataque à integridade da comunidade.

  • algo que descreva qualquer experiência baseada em ódio ou aversão ou similares a algum grupo marginalizado/dissidente, ou que remeta a uma característica considerada marginalizada/dissidente.

Exemplos: um termo afetivo para “homens que amam homens enquanto desprezam todos os demais gêneros”, ou um gênero “baseado no ódio à feminilidade”.

Nota: existem termos baseados em oposição ou antítese a uma qualidade de gênero, e nada disso implica odiar aquela qualidade. Uma pessoa dizer que sua identidade de gênero não é feminina e que faz oposição ou antítese à feminilidade não é odiar a feminilidade, que é por si só um aspecto cobrado de mulheres e recriminado em outras pessoas.

  • algo que descreva atração e relações ou incentive atos afetivos com seres e indivíduos incapazes de consentir nesses atos.

Exemplos: qualquer orientação que seja direcionada a crianças, animais, pessoas falecidas, pessoas inconscientes, e pessoas em estados mentais alterados por qualquer fator.

Nota: cunhar algo como “atração por plantas” ou “atração por pedras” pode não ser algo inerentemente ruim ou envolver uma vítima, mas isso pode muito bem já existir sob a forma de um fetiche/uma parafilia.

  • algo que descreva atração e relações que objetifiquem ou excluam de alguma grupos marginalizados/dissidentes.

Exemplos: uma orientação para “atração apenas por pessoas racializadas”, ou um termo juvélico para “uma pessoa cis atraída por outras pessoas cis”.

Nota: termos centrados em afetividade entre grupos marginalizados/dissidentes podem ser interpretados dessa forma, mas é uma analogia sem fundamento. Por exemplo, pessoas trans em relações transcentradas, que priorizam relação apenas com outras pessoas trans, não estão objetificando o próprio grupo, e a exclusão de pessoas cis – um grupo privilegiado – pode sr justificada por causa de traumas e violências.

  • algo que descreva uma identificação pessoal em situações problemáticas ou onde a pessoa não tem consciência/plena capacidade de raciocínio.

Exemplos: uma identidade de gênero “sentida somente quando a pessoa é vítima de agressão”, qualquer orientação que existe sob efeito de bebidas e/ou drogas, e um termo para “pessoas que sentem não ter mais um sexo ou ter um sexo nulo quando estão dormindo”.

  • algo que se aproprie de experiências exclusivas de um determinado grupo.

Exemplos: um termo para “homens que são cis e ao mesmo tempo transmasculines“, um termo para “pessoas perissexo que se sentem intersexo por dentro”.

  • algo que procure ressignificar termos consagrados para algo que não condiz nem com a terminologia e nem com o consenso de comunidades e movimentos.

Exemplos: propor ressignificar a orientação bi para “atração por apenas dois gêneros”, propor ressignificar a orientação demi para “uma atração parcial por algum gênero”.

  • algo que seja absurdamente contraditório e entre em conflito com termos já existentes (geralmente consagrados também).

Exemplos: semibissexual (“uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”), um termo para “uma pessoa trans que se identifique apenas com o gênero designado”.

Apesar de não envolver nada do que foi citado acima, outros critérios de exclusão de termos pode envolver serem vagos demais, terem uma descrição difícil de se entender, ou a mesma descrição ser exatamente a mesma de algum outro termo.

Área cinza

Sim, existem termos que não se encaixam em nada do que foi descrito acima, mas podem ser termos sem propósito ou finalidade, e/ou que descrevem experiências que nem podem ser consideradas marginalizadas/dissidentes. Existem blogues no Tumblr que cunham praticamente qualquer termo por mais absurdo que seja, e algumas pessoas pela Internet também seguem essa linha (talvez por diversão, talvez por ingenuidade, não há como saber).

Aqui eu poderia citar como exemplos: uma orientação para quem tem atração por pessoas vegetarianas/veganas, uma identidade de gênero que existe somente quando a pessoa está viva, um termo afetivo para canhotes que amam outres canhotes, ou uma identidade para pessoas que sentem orgulho de seu genital.

Nada disso é realmente ruim de alguma forma, não deve ser considerado como motivo ou até justificativa para a comunidade receber ódio, e nem deveria ser atacado justamente por ser inofensivo, dispensável. Não gostou do termo? Achou esquisito? Achou zoado? Ignore. Simples.

Termos reapropriados ou ressignificados

Existem termos cunhados com a intenção de zombar da comunidade, mas que ou podem ser reapropriados e ressignificados, principalmente porque descrevem experiências que não são impossíveis de existir.

Alguns termos, em especial xenogêneros, já foram cunhados em blogues de trolls e ainda assim adotados por comunidades não-binárias porque, apesar da intenção inicial, não necessariamente descreviam uma experiência inválida por qualquer motivo. E a partir desses termos a comunidade pode criar outros derivados ou seguindo lógicas parecidas, porque a simples cunhagem de termos também pode ser política e uma resposta contra quem quer atacar a comunidade dessa forma.

Exemplo: um blogue troll cria uma identidade de gênero para pessoas cujo gênero só existe quando a pessoa está com determinadas cores de roupas. Então a comunidade pega isso e cria termos específicos para cada cor.

Termos controversos

Há termos que possuem alguma validade no que se propõem, mas que causam controvérsias por dois motivos:

  • por conter uma descrição problemática de uma experiência conhecida ou já relatada, ou que seja possível de existir.

Exemplo: uma orientação para pessoas que sentem atração pela inteligência de alguém. Enquanto inteligência é um conceito problemático, se a intenção do termo era falar da atração pela afinidade com pensamentos e ideias de alguém, e isso é possível e pode ser descrito dessa forma.

  • por terem condições absurdas, desnecessárias ou impositivas. Essas condições geralmente são um conjunto de linguagem que pessoas daquela identidade devem usar, ou um tipo de aparência ou estética que essas pessoas devem ter o tempo todo.

Exemplo: uma identidade de gênero influenciada por gates, e a pessoa deve ser tratada por miados no lugar de artigos, pronomes, e flexões de gênero. Uma identidade influenciada por um animal é possível (pode ser um exemplo de kingênero), mas ninguém exige esse tratamento.

Fora isso tudo, existem termos que geram discussões por causa de suas implicações mesmo quando descrevem uma experiência possível.

Por exemplo, um termo para pessoas que são cis e trans ao mesmo tempo. Sim, essa experiência é possível, e pode ser interpretada dessa forma por pessoas que: fluem entre o gênero designado e outro(s), ou que possuem o gênero designado junto com outro(s), ou cujo gênero designado muda de intensidade até ser ausente. O que pode gerar controvérsias é uma pessoa se declarando “cis e trans”, pois: a) o sistema não reconhece alguém cis e trans, nem parcialmente cis; e b) isso pode ser facilmente interpretado como um termo feito para atacar a comunidade, para desmoralizar a militância trans.

Nessas situações é recomendável um termo diferenciado que descreva melhor tal experiência, para que assim pessoas possam discutir melhor sobre si e se organizar.

Exclusionismos com termos válidos

Ainda falarei mais sobre exclusionismo. Aqui darei alguns exemplos interessantes e que acabam mostrando como retóricas exclusionistas funcionam.

Termos baseados em traumas são acusados de romantizar traumas, de colocar traumas como positivos, ou de colocar “experiências válidas” no mesmo patamar de doenças. Essas críticas arbitrárias partem da mesma premissa capacitista de quem critica orientações e identidades de gênero influenciadas por neurodivergências: de que experiências com orientação e gênero só podem existir ou ser relevantes dentro do que é considerado normal, saudável e racional – que é uma perspectiva totalmente neurotípica, e que desconsidera a possibilidade de traumas e neurodivergências das pessoas terem alguma relevância em como vivenciam orientação/gênero.

Termos baseados em condições clínicas que podem ser tratadas ou mesmo curadas são acusados de romantizar essas condições, de serem termos desnecessários, e de confundir experiências saudáveis e naturais com coisas que não são. De novo, interpretações unilaterais e um pouco de paternalismo de pessoas que acham que entendem as experiências e perspectivas da outra pessoa melhor que ela mesma, e que se recusam a aceitar que os efeitos daquelas condições pode sim fazer parte de como a pessoa lida e percebe sua atração/identidade de gênero/etc. E se for algo baseado em condições curáveis, então a pessoa deixará de usar aquele termo quando não fizer mais sentido.

Não é de agora que a orientação abro é atacada por meio de interpretações errôneas (intencionais ou não), de acusações de que pessoas fluidas são confusas ou ainda estão se descobrindo, ou por retórica de assimilacionismo bi. E eu já defendi essa orientação nessa postagem aqui.

E até mesmo a orientação poli, que pode ser considerada popular e uma das três orientações multi mais conhecidas (ao lado de bi e pan), é atacada por pessoas que partem de princípios reducionistas de gênero sobre como funcionam as atrações. Porque, segundo elas, todas as pessoas têm apenas duas leituras sociais e todo mundo se atrai por uma ou ambas, e, portanto, atrações só são por um gênero ou por todos os gêneros, e não existem atrações por qualquer quantidade intermediária de gêneros.

Esses podem ser bons exemplos de termos que não se encaixam naqueles itens do primeiro tópico, mas dos quais exclusionistas fazem suas próprias interpretações falaciosas, tendenciosas, ou limitadas, e colocam como termos inválidos por razões que, embora arbitrárias, podem parecer convincentes para pessoas por fora desses assuntos, que possuem conhecimento mínimo ou raso de como funcionam experiências e da diversidade. Cuidado.

No fim das contas, termos surgem e somem, são usados e se tornam obsoletos. Se um termo se tornar inutilizável, não for usado por ninguém, ou mostrar que não tem qualquer aplicação, ele será apenas esquecido. Não há por que recriminar uma cunhagem nessas condições, pois é natural que palavras apareçam e depois, por quaisquer motivos, não sejam necessárias.

Caso também algum termo cause dúvidas ou estranhamento, recomendo se comunicar com a pessoa, pois ela pode dar uma explicação melhor do que especulações alheias ou achismos. A própria pessoa sabe seus motivos para adotar determinado termo, entendam isso.

Espero que esse texto tenha ajudado. Validem experiências, não ataquem termos que nada agregam ou não fazem mal algum, e se posicionem contra os termos realmente problemáticos e que ferem outras pessoas.

Bi, 2, palavras, significados

Quando o assunto é a orientação bi, várias pessoas de repente se tornam autoridades máximas sobre a língua, e reproduzem aquelas várias retóricas típicas sobre o prefixo, sobre o número dois, sobre o que se entende por isso, sobre “o que faz sentido” e “o verdadeiro e inquestionável conceito de bi desde sempre”.

Para aquelus que nada sabem sobre como se construiu a identidade bi, a história do movimento e das comunidades, e sabe o que significa o prefixo, pode parecer “óbvio” que bi é atração por dois gêneros/sexos, e isso se alinha com os sensos comuns de que existem apenas dois sexos e dois gêneros – feminino e masculino, mulher e homem.

Porém, a língua portuguesa tem muitos exemplos do quanto o apego a radicais e origens das palavras é algo muito muito furado. Hoje, queria falar sobre isso. Sobre bi. E sobre palavras. Sobre como palavras são flexíveis, como significados podem mudar com contextos, como podemos até interpretar definições “sólidas” de maneiras “fluidas”. Vamos lá?

Bi vem do grego “dois”. O que significa dois? Um número, sim. Mas mais do que isso: dois não é um. Dois é mais que um. Um é uma unidade. Mais que um é uma pluralidade. Dois pode ser uma dualidade. Mas uma dualidade é uma pluralidade. Percebem como um simples dois pode significar outras coisas?

E, incrivelmente, esses vários significados fizeram parte da trajetória da própria identidade bi. O mundo das ideias se refletiu no mundo material. A palavra bi foi entendida de várias formas: dois sexos, dois sexos/gêneros, dois gêneros, e duas orientações. A palavra bissexual já descreveu coisas muito diferentes: seres com sexos distintos ao mesmo tempo, pessoas entendidas como “de ambos gêneros” psicologicamente, e então chegamos no âmbito da atração. Há fontes afirmando que ser bi já foi entendido até como ter as duas orientações, hétero e homo, simultaneamente.

A comunidade bi atraiu pessoas que se entendiam como hétero e homo, ou como apenas não-hétero e não-homo. Aliás, isso fez com que pessoas assexuais acabassem se juntando ao rolê bi, pois, se bi era ter atração “igual” por “ambos” sexos/gêneros, a ausência de atração por ambos era “ter uma atração igual”. E como a sexualidade humana tende a ser fluida, a comunidade também foi convidativa para todes que se atraiam muito mais por um gênero e às vezes davam aquela escorregadinha para “o outro lado”. Quem mandou tornarem as definições oficiais/populares de hétero e homo tão estritas, né? Enquanto essas orientações se construíam numa atração sólida, a comunidade bi tornou-se espaço das atrações fluidas, pois o que é a fluidez se não transitar entre um e dois e vários números, né?

Não tem dicionário, livro, lei, academia ou autoridade que consiga conter esse fenômeno das palavras e seus significados. Palavras não são essas entidades flutuando num mundo invisível onde são criadas com um significado único e inalterável, e assim permanecem até o fim do Universo. Elas se expressam no mundo físico também, se misturam a outras ideias, passeiam pelo imaginário social através dos tempos e das culturas e das localidades, e caem nesse mar imenso de repetição e reinterpretação e ressignificação. A história da identidade bi mostra o quanto esse mar é real, o quanto as ondas desse mar vão pra lá e pra cá até hoje.

Acho que falei o suficiente. Concluindo: palavras não precisam ser tão literais, e palavras mudam de sentido com contextos sociais. Bi é dois. Mas não apenas dois. Pode ser apenas dois. Mas nunca foi apenas dois. Quem gostou, bate palma. Quem não gostou, cria uma nova palavra, compre um barco, e não caia no mar. Simples.

Sobre ser queer no Brasil

Aviso de conteúdo: discursos anti-queer, assimilacionismo, respeitabilidade, contém links externos.

Este é um texto tanto pessoal quanto uma abordagem de um tema específico, que acredito que pode contemplar a realidade de outres queers brasileires. Vou falar sobre os argumentos contra a identidade queer no Brasil, e meus motivos para adotar essa identidade. E espero que isso possa validar outras pessoas queer por aqui.

Antes de tudo, vou ressaltar que aqui estou falando de queer enquanto uma identidade mesmo, não um termo guarda-chuva ou um descritor de qualquer pessoa fora da diciseteronorma.

Vou começar dizendo que reconheço que queer não tem aqui no Brasil a mesma popularidade que outras identidades, como gay, lésbica, bi, trans, etc. Porém, isso não é motivo para não usar, e nada realmente impede a existência de queers no país. E, com vou explicar mais pra frente, queer é mais do que uma simples identidade. Quem de repente já teve contato com o termo Teoria Queer, talvez tenha uma ideia da dimensão que queer consegue tomar por si só.

Quando há posicionamentos contra pessoas brasileiras se identificarem como queer, eles costumam girar em torno do fato de queer ser algo de fora. Assim, eu aceitaria essa argumentação de pessoas de identidades exclusivas do Brasil, ou ao menos cunhadas aqui. Porque com exceção de travesti, viado, bicha, sapatão, e talvez mais um ou outro termo, todo o resto foi importado de fora, em sua forma original ou traduzida/adaptada. Aliás, é simplesmente ridículo pessoas gays invalidando queer por vir de fora.

Eu aprecio e incentivo o pensamento de valorizarmos as identidades de nosso país. Não por patriotismo, longe disso; até porque as identidades daqui são subversivas, e nascidas da violência dessa tal “pátria amada”. Nosso contexto que é importante. Nossas perspectivas de gênero e sexualidade são importantes. Travesti é uma identidade de gênero nascida no Brasil e exclusiva da América Latina, por exemplo; tendo tanto valor quanto identidades de gênero exclusivas de outras culturas.

Minha questão aqui é que nada do que tem aqui me descreve ou contempla minhas experiências e perspectivas, nem mesmo a palavra viado, da qual já fui chamade algumas vezes. Até gosto de me dizer viade, às vezes. Mas não chega ao mesmo nível que queer e as demais identidades que uso.

Uma coisa que o ativismo dissidente do Brasil falhou em fazer foi justamente criar um termo guarda-chuva ou geral para todas as pessoas fora das normas. Não temos um equivalente de queer. Temos coisas próximas, como transviado. Mas até o que já tivemos de próximo acabou ganhando outros significados em outros contextos. Assim, se existisse real preocupação com um termo que definisse a pessoa apenas como dissidente, sem especificar mais nada, uma palavra coringa para alguém que não seja perissexo e/ou cis e/ou hétero, então haveria esforços para cunhar algo. E não há, apenas críticas e a ausência de uma solução.

Se amanhã mesmo cunhassem um equivalente brasileiro/lusófono/latinoamericano de queer, eu adotaria no mesmo dia (junto com queer, porque não vejo motivo pra largar). Enquanto não há isso, sigo usando queer.

Vocês podem encontrar por aí gente dizendo que queer “não tem materialidade no Brasil”. Essa palavra aí, materialidade, ganhou uma popularidade esquisita de uns tempos pra cá. Eu a vejo com frequência em discursos invalidando alguma coisa, em especial microcomunidades. Em vez das pessoas falarem “não concordo com o uso desse termo” ou “não acho que isso exista”, agora optaram por algo mais bonitinho e acadêmico: “não tem materialidade”. Isso significa basicamente que queer não faz sentido em nosso contexto, ou mesmo que não tem como existir no Brasil.

A questão é que… já existem pessoas queer no Brasil, sendo queer no contexto brasileiro. Cá estou eu, queer e brasileire, escrevendo um texto sobre isso!

O argumento da materialidade às vezes até parece fazer sentido, na verdade. Mas não faz tanto assim, e ainda menos nesse contexto atual de globalização. Queer já saiu há décadas do contexto estadunidense e até mesmo da academia. Já se espalhou pelo mundo. Como não tem e nunca teve pretensão de ser algo exclusivamente estadunidense ou anglófono, não está proibido de se usar fora dos EUA e da anglosfera. E a proposta de queer é justamente descrever qualquer pessoa minimamente deslocada das normas vigentes de gênero e sexualidade, indo mais além do que identidade de gênero e orientação. Queer não exclui; pelo contrário, inclui. Queer valida todo mundo contra essas normas. Queer pode ser apenas o sentimento de rejeição às imposições e regras.

Além disso, espaços queer, na minha experiência, são os mais diversos possíveis. São espaços com pessoas de gerações diferentes, corporalidades diferentes, etnias diferentes, e muito mais; não apenas um lugar pra quem não é perissexo e/ou cis e/ou hétero, e focado apenas nessas questões. São interseccionais, logo são abrangentes, repletos de muitas perspectivas e histórias e vivências. É uma diversidade linda, me faz bem, faz eu me sentir alguém no mundo. Como não amar isso? Como não querer isso pra mim? Como não me identificar com tal coisa?

Uma pena que aqui no Brasil não temos esse tipo de espaços. Mas existem propostas sendo construídas, sendo uma delas a própria instância Colorides da rede social Mastodon. Ainda tem pouquíssima gente na instância, e Mastodon ainda não fez a fama que merece no Brasil. Mas está aí. É um espaço queer brasileiro. Tem a proposta da mesma diversidade que vejo nos outros espaços. Existem pessoas tentando ao menos trazer esse mesmo espírito que queer traz, e acho que precisamos muito mais disso do que apenas adotar o termo de forma vazia ou mesmo cooptada (coisa que às vezes vejo por aí).

É um tanto deprimente perceber sentimentos anti-queer vindo de figuras públicas e ativistas da comunidade, ainda mais pessoas que galgaram seu caminho até espaços de poder, como a própria academia, e agora os usam para invalidações. E para quê? Para agradar a quem ou qual narrativa? Às vezes quero pensar que é ignorância em relação ao tema (por mais que essas pessoas devessem se informar antes de se pronunciar, né), mas fica cada vez mais difícil de não acreditar que isso não possa ser por assimilacionismo (e sendo contra uma identidade antiassimilacionista não é coincidência) e respeitabilidade (porque, bem, queer é totalmente antinorma e isso incomoda aquelus que querem um pouquinho de aceitação da sociedade). Já tive até contato com uma pessoinha aí de um partido que falou na minha cara que ela e outras pessoas trans binárias barram qualquer projeto de lei apenas por ter a palavra queer.

Infelizmente, muito do exclusionismo anti-queer também foi importado de fora, e incorporado com muitas falácias espalhadas por aí. Quem teve contato com muitas retóricas de feminismo radical ou de transmedicalismo, por exemplo, tem altas chances de ter visto queer sendo colocado como um monstro, um desserviço contra mulheres e “as verdadeiras pessoas trans”. Já comentei em outro texto gente até colocando queer junto com pedófiles.

Entendo que queer é uma palavra nova e desconhecida pra muita gente, que não está em nossas políticas públicas, e que existe ainda muita intolerância em torno dela, mas, até o momento, é o que me descreve bem enquanto um corpo dissidente. Não vejo sentido também em me apegar ao objetivo de fazer as pessoas entenderem do que estou falando, já que direto preciso explicar o que é não-binárie, polissexual, etc. Queer resume todas as minhas dissidências: meu gênero fora do binário, minha inconformidade de linguagem, minha atração por muitos gêneros, minha não-monogamia, meu fetichismo, minhas perspectivas de gênero e sexualidade, minha simples discordância a tudo pregado e sustentado pelo disciseterossexismo, e também minhas posições contra assimilacionismos e respeitabilidades.

Bem, claro que não preciso da identidade para ser o que sou e pensar da forma que penso. Mas às vezes é bom poder dizer tudo isso e mais um pouco com apenas uma palavra. E não importa quando não me apresento como queer em certos espaços. Porque eu carrego comigo sempre tudo que esse termo traz, e isso também é importante. Queer, para mim, não é apenas uma identidade, mas também filosofia e política. Espero que mais queers brasileires apareçam e possam se expressar, explorar essa palavra como querem, combiná-la com outras identidades (de fora ou não), e mostrar que estamos aqui e existimos.

Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?

Aviso de conteúdo: pedofilia, campanhas anti-LGBTQIAPN+, retóricas falaciosas contra a comunidade e grupos dela, exclusionismos, contém links externos.

De tempos em tempos as redes sociais se agitam diante da mesma coisa que surge e ressurge da terra das bizarrices inesquecíveis: pedossexuais. Esse é só um nome bonitinho para pedófiles, colocando a pedofilia como uma “orientação sexual” – logo como uma atração tão válida quanto qualquer outra.

Se você não conhece essa polêmica, sinta-se privilegiade. E, sinto dizer: agora você vai conhecer. Mas se você conhece, tenho duas perguntas:

  1. você sabe de onde veio isso?
  2. você acredita que seja mesmo possível pedófiles terem um espaço na comunidade?

Pra quem é mais politizade e engajade nas questões dissidentes, pode até achar de prontidão que pedossexuais é uma grande “zoeira” infeliz de trolls da Internet, ou uma mentira descarada de gente diciseterossexista pra manchar a comunidade.

Porém, muitas pessoas, mesmo aquelas que estão há anos em movimentos sociais, ainda ficam na dúvida sobre a legitimidade desse grupo. E uma onda de pessoas acaba acreditando nessa legitimidade, mesmo gente da comunidade e aliada. E é exatamente isso que mais me incomoda nessa polêmica toda.

Bem, se for necessário mesmo fazer esse esforço (até pra quem quer falar sobre isso, mas não tem argumentos concretos), eu vou explicar brevemente o motivo de pedofilia não ser uma orientação:

  1. é uma atração que envolve especificamente um grupo de indivíduos que são incapazes de consentir em tais relações.
  2. é uma condição mental que causa danos ao individuo e a outros indivíduos (com ênfase nas vítimas, as próprias crianças).
  3. seu conceito está totalmente fora das concepções atuais de orientação, que é atração por gêneros e/ou atração que depende de fatores ou situações específiques (como vínculo, personalidade, etc).

E antes que alguém venha com discursos exclusionistas por causa do item 3, não, orientações influenciadas por neurodivergências não são equiparáveis a esse distúrbio, e nem validam uma orientação “influenciada” por ele, pois as definições delas não justificam a busca por relações sem consentimento.

  • Pedossexuais, MAPs, e afins

Falando des pedossexuais, onde tudo isso começou? Ao que tudo indica, buscando em fontes de investigações, essa palavra foi vista numa imagem compartilhada no saite 4chan (lugar famoso por ter todo tipo de bizarrice feita contra grupos dissidentes). Não se sabe de onde ela é, mas não há registro nenhum de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento feito pela comunidade que tenha usado uma sigla incluindo um P para pedossexuais. Ao que tudo indica isso foi ou uma montagem ou uma fabricação real feita por uma campanha “anti-gay”, tentando associar homossexualidade com pedofilia (uma tática que existe há décadas). Por mais que essa campanha seja absurda e esteja desmentida, o fantasma dela continua aí até hoje. Infelizmente, as fontes que tenho estão em inglês, mas as deixarei no final do texto.

Outra campanha famosa que surge e ressurge das cinzas periodicamente é de um grupo chamado MAP, do inglês minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores”. Há também um outro grupo, NOMAP, do inglês non offensive minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores não ofensivas”; que, aparentemente, define um grupo de pessoas com desejos pedófilos, mas que não querem contato com crianças. Não tenho informações suficientes sobre esse grupo pra determinar se é um grupo “inofensivo” ou não; porém, existem sim grupos de pedófiles que advogam contra a pornografia e abuso infantis.

Bem, “menores” é um grupo amplo e relativo que engloba adolescentes e crianças. Existem legislações diferentes pelo mundo que demarcam tanto a maioridade (18 anos, 21 anos, etc) quanto as idades de consentimento (aqui no Brasil, por exemplo, é 14). Fiz essa ressalva exatamente porque “atração por menores” inclui a pedofilia propriamente dita, mas também inclui atração por adolescentes, a qual não cabe no escopo do que a ciência e leis consideram como pedofilia ou abuso de criança (embora ainda seja um tópico controverso). Assim começa o problema com MAPs, pois relações com crianças seguem sendo classificadas como distúrbio mental (pela ciência) e crime (pela lei). Logo, conteúdos e grupos MAPs não são legítimos, não devem ser incentivados, e devem ser denunciados e levados à justiça. E o que acontece nessa terra de ninguém chamada Internet são campanhas nocivas de “positividade”, seja através de hashtags, de postagens incentivando ou defendendo, de montagens de “bandeiras de orgulho” para esse grupo, e outras atividades similares.

Eu diria que MAPs são apenas um subproduto do que se tornou a campanha de pedossexuais. Por isso achei pertinente essa menção, afinal, daqui a um tempo, provavelmente veremos mais citações escandalosas de MAPs no lugar de pedossexuais. No fim, é o mesmo lixo de sempre: ataques para manchar, desmoralizar e desarticular a comunidade.

Existem outros grupos por aí sem nomes específicos que “defendem” a pedofilia fazendo paralelos com discursos positivos a favor de relações dissidentes e teorias de gênero, dizendo coisas como “amor não tem idade”, ou que “idade é uma construção social”, enfim. E outras montagens que implicam que a comunidade aceita pedofilia. Mesma coisa pra tudo que eu disse sobre MAPs e pedossexuais.

  • Pedos na comunidade

Mas, afinal, o que me incomoda nessa polêmica toda? Exatamente as diversas reações que vejo de ativistas e outras pessoas da comunidade quando esse assunto bomba de repente nas redes sociais. Tem gente que acredita mesmo que tem pessoas da comunidade querendo aprovar a inclusão de pedos, tem gente que surta pra defender o quanto a comunidade não aprova isso e faz um esforço imenso para convencer es outres disso. E fico me perguntando como pessoas que estão há anos no movimento caem nisso, ou pra quem as pessoas estão se defendendo com tanta agitação?

Aqui estão explicações do por que pedossexuais ou MAPs (e qualquer outro nome que inventem) não têm como se infiltrar na comunidade e muito menos serem incluídes como um segmento próprio e legítimo:

Primeiro, qualquer apoio a desejos ou práticas de pedofilia vindo de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento referentes à comunidade com certeza receberá uma resposta totalmente negativa de imediato. Não haverá diálogo, porque isso não está para debate. Abuso de criança não é um debate. Pedofilia não é uma mera discussão de “a favor ou contra”. Ninguém aceitará isso (com exceção de quem quer abusar de crianças, né), e existe toda forte rejeição pública e de instituições legais e científicas.

Segundo, pedófiles precisariam antes se organizar enquanto movimento político, e se consolidarem numa identidade política, para assim talvez se articular como parte também da comunidade. Isso não vai acontecer. Mesmo que haja movimentos na Internet, em nenhum lugar do mundo atual esse movimento será aceito como político. Esse movimento não terá como abrir discussões sociais, lutar por direitos e demandas, exigir políticas públicas, enfim. Nenhum governo ou país aceitará isso, e qualquer tentativa de algo assim (que duvido que ocorra) também receberá uma reação imediata negativa.

Já existiu um ativismo pedófilo mais forte e presente nas décadas passadas, mas, atualmente, com o avanço das legislações e por causa da opinião pública geral, o pouco “ativismo” que existe se limita a espaços e postagens execráveis na Internet.

  • As reações da comunidade

Afinal, precisamos tanto assim nos defender de quem? Quem está acreditando que a comunidade quer aprovar pedofilia? Quem estamos precisando convencer disso? Sinceramente, além daquelus que já odeiam a comunidade, quem acredita nisso tem que ser alguém ou muito alienade sobre a comunidade ou com tendências reacionárias contra ela. E, com tendências reacionárias, me refiro a pessoas da comunidade que absorveram ideias e discursos contra outros grupos dissidentes (pode ser o caso de pessoas queermísicas, exclusionistas de assexuais, quem é contra microcomunidades, etc).

O desespero das pessoas chega ao ponto de afirmar que “não existe gente pedófila na comunidade”. É uma tentativa fútil colocar a comunidade toda como seres puros e divinos e que não existe gente pedófila nela. Com certeza existe. E são esses casos, quando públicos, que serão usados por reaças como mantras para dizer que “tinham razão”. E não importa os dados que apontam que a grande maioria dos casos de pedofilia é de pessoas cis hétero e dentro de conjuntos familiares. Não importa os muitos casos de pedofilia dentro de igrejas, ou de gente declaradamente cristã. Nossa defesa não deveria ser “ninguém aqui é pedófile”, e sim “a comunidade não reconhece isso como parte dela”.

E vou dizer também que rechaçar pessoas pedófilas da comunidade como “uma vergonha”, como “aquelas que realmente estragam a comunidade”, ou qualquer outra coisa similar, é apenas um punitivismo que serve pra agradar, antes de tudo, nosses inimigues, o sistema. Es pedófiles da comunidade são tão “hereges” quanto pessoas da comunidade que já assassinaram alguém a sangue frio, que já agrediram uma pessoa vulnerável, que são supremacistas branques, que são reaças de direita, enfim. Não precisamos ou devemos fazer votos de perfeição aqui. A comunidade é feita por pessoas, pessoas são falhas, e seus atos devem ser respondidos pelo que são. Fazer essas coisas e ser da comunidade é um agravante só pra quem quer uma desculpa para odiá-la e generalizá-la.

Seria bom se acabasse por aí, porém, nesse saco são jogadas também as pessoas indesejáveis à parcela da comunidade que é higienizada e praticante das respeitabilidades (como fetichistas e não-monogâmiques), aquelas que não se submetem a assimilacionismos ou atendem a critérios des porteires da comunidade (microcomunidades num geral), e várias pessoas queers que são “dissidentes demais” para os movimentos popularzinhos. Já vi muitas vezes orientações mais específicas – tanto a-espectrais quanto indefinidas – serem acusadas de “darem abertura” para pedofilia/abuso. E já vi reacionáries da comunidade acusando MOGAI ou microcomunidades da existência de grupos nocivos, como MAPs ou trolls adultes se dizendo crianças porque “se identificam com tal idade e querem ser respeitades por isso”. Incrível como os discursos parecem tanto com aqueles de reaças de direita, dizendo coisas como “primeiro aprovam homem com homem e mulher com mulher, depois chegam nos bichos, e aí nas crianças”.

E esse grande saco, onde são jogadas as pessoas nocivas e problemáticas e as pessoas legítimas e inocentes, só serve para dizer aes de fora da comunidade que somos seres puros e divinos, que merecemos viver e ser “normais”, e que em troca do perdão do Deus Normativo oferecemos esses sacrifícios. E adivinhem: aquelus de fora não se importam, e vão continuar com suas mentiras e falácias e seus ataques, como fazem há décadas, como sempre fizeram. Já associavam corpos dissidentes à pedofilia muito antes da primeira notícia de um caso confirmado de pedofilia vindo de alguém da comunidade. Por isso também digo que esse apelo não serve pra nada.

  • O que a comunidade pode fazer?

A comunidade faz muito bem em se posicionar contra a pedofilia, e não deixa de ser uma pauta importante (tanto pelas difamações quanto pelas muitas crianças dissidentes que sofrem abuso). Contudo, deve estar preparada para campanhas difamatórias como essas, e que vão continuar não importa o que ela faça. E que sempre serão mais impulsionadas quando a comunidade tocar em assuntos sobre as crianças, como quando falam das crianças não-normativas, ou das crianças que desde sempre se entendem como trans, enfim. E não são assuntos que devem ser deixados de fora em prol de respeitabilidades, ou para evitar ou diminuir acusações infundadas. Crianças dissidentes existem, e uma parcela enorme da comunidade se percebe dissidente desde cedo.

Apesar de tudo que falei, pedófiles continuam sendo um grande problema, e os conteúdos dos quais falei continuam causando caos e medo. O que podemos fazer contra tudo isso, até então, é denunciar para as redes sociais e autoridades competentes e entidades, evitar dar engajamento a tais conteúdos e pessoas, e tomar as possíveis medidas de segurança (como privar perfis).

A mensagem final desse texto é apenas mais uma vez que as pessoas parem de acreditar em tudo que leem na Internet, e comecem a investigar melhor as coisas. Estão, novamente, mordendo isca de invenções conservadoras.

Enfim, depois de tudo isso, você agora não precisa mais se contorcer no chão e dar saltos para defender a comunidade, acreditando que pedos são um grupo político legítimo e que possuem um movimento capaz de adentrar na comunidade. Ao menos isso não é mais um problema. De nada.

Links adicionais:

‘LGBT’ Está Adicionando um ‘P’ para Pedossexuais?

Checagem de fato: A comunidade LGBTQ não está adicionando “P” em sua sigla

E-Farsas: Grupos querem inserir o “P” de “pedossexual” na sigla LGBT?

BuzzFeed: A história da pedofilia entrar para a sigla LGBT desenha como funcionam as fake news

Identidades controversas, reacionarismos, e atrações múltiplas

Aviso de conteúdo: monossexismo (internalizado e reproduzido), assimilacionismo, policiamento de identidades e experiências, exclusionismo.

Pra quem não gosta de surpresa e talvez queira “poupar seu tempo”, já vou estragar: sim, esse texto vai defender heteroflexível e lésbica bi.

Bem, as orientações flexíveis são conhecidas há muito, enquanto gays/lésbicas multi é um fenômeno que ganhou atenção recentemente na anglosfera, mas que já chegou aqui no Brasil (junto com discursos contrários e um ódio importado também). Aqui, gostaria de explicar e discutir sobre essas identidades, e outras identidades fluidas, explorando mais sobre nossas ideias e concepções do que é a multiatratividade.

Acho que são discussões necessárias devido a muitas pessoas e comunidades multi estarem vendo uma ameaça que não existe nessas identidades, e no quanto essas ações podem afetar negativamente as comunidades e muitas pessoas multi. Senso crítico é importante, mas precisamos começar a separá-lo de nossos reacionarismos com o que não entendemos ou interpretamos de forma negativa.

Vamos pensar mais nessas coisas antes de ficar pulando e exaltando com arco-íris e flores a tal da diversidade humana.

  • Orientações flexíveis

O conceito ainda obsoleto de pessoas homoflexíveis e heteroflexíveis é que são pessoas atraídas por determinado gênero binário, mas ocasionalmente se atraem pelo outro gênero binário – isso, claro, num contexto binário. É o que ainda se espalha por aí.

Embora sejam as orientações mais “famosas”, o sufixo -flexível acompanha qualquer orientação que descreva atração por um gênero ou que não descreva atração por todos os gêneros. Logo, não há apenas homoflexível e heteroflexível. Francamente, não sei o quanto orientações como virflexível ou trixenflexível ou neuflexível são também alvos de ataques e críticas assim como essas duas. Mas o que deve justificar isso é o fato de ambas estarem tanto “deturpando” uma identidade consagrada (homo – gay/lésbica) e “dando abertura” pra invasão de opressories (héteros), enquanto as outras citadas foram cunhadas fora do contexto LG.

O conceito mais atual de uma orientação flexível é atração por um gênero ou determinados gêneros, mas que possui exceções na atração. Essas exceções costumam ser fracas e/ou raras e/ou aleatórias. Pessoas flexíveis costumam relatar que possuem uma atração fixa e definida por longos períodos, e então percebem exceções em certas ocasiões. Essa é uma característica importante que faz com que muitas delas não sintam que faz sentido assumir identidades multi (como bi, poli, toren, trixen, etc), ou sintam que não se encaixam (totalmente) nessas comunidades. Porém, já existe um consenso em espaços mais inclusivos e comunidades flexíveis que elas estão dentro do guarda-chuva da multiatração – e isso é muito importante.

Sim, pessoas flexíveis são multi, assim como pessoas bi, poli, pan, oni, paro, toren, trixen, etc. Pessoas flexíveis se reconhecem assim, podem ser alvos de monossexismo também.

O ponto que gera controvérsias entre homoflexível e heteroflexível com pessoas multi, com ênfase nas pessoas bi, é que existe um histórico de pessoas mono usando essas identidades para zombar das atrações multi e querer invalidá-las. Questão complicada? Sim. Porém, não acho que pessoas flexíveis legítimas devam pagar por isso, quando pessoas nocivas assim sequer vão frequentar espaços multi e construir algo pelas comunidades multi, e muito menos se firmar nessas identidades.

Agora também pergunto: quantos espaços multi, com ênfase em espaços bi, realmente sabem lidar criticamente com essa questão quando aparece uma pessoa que se diz flexível? Quantos desses espaços focam num diálogo e acolhimento em vez de cair em zoeiras e/ou acusações? Quantos se prestam a explicar seu ponto de vista sobre orientações flexíveis sem ataques e constrangimentos e fazer a pessoa se sentir mal?

Acho válido o esforço de um diálogo para apontar se aquela identidade é a mais adequada, ou se de repente a pessoa se encaixa melhor numa orientação multi como bi, poli, etc. Mas quantas pessoas fazem isso? Na hora de fazer piada e chacota com orientações flexíveis, várias pessoas multi se juntam com pessoas mono. Talvez até por isso também que aparece pessoas “sem rótulos” por aí, que na verdade são flexíveis, mas preferem esconder isso por medo e receio.

Também percebo que discursos contra orientações flexíveis caem numa imensa contradição, pois é fácil acusar de monossexismo identidades que descrevem, a princípio, atração por apenas um gênero. E identidades que descrevem atração por um número de gêneros? Por que essas exceções podem ou não ter um nome? Estariam elas “manchando” também as pessoas multi? São pessoas pan com panmisia internalizada (ignorando que mesmo a exceção pode não englobar todos os gêneros)? Nunca vi esses discursos, embora eu consiga imaginá-los.

Aliás, podemos até fazer um paralelo nessa questão das exceções com atrações a-espectrais, visto que nesses espectros existem também atrações que podem ser fracas e/ou raras, que podem ser condicionais ou circunstanciais. Invalidar essas exceções não seria algo paralelamente alossexista? Não sei responder. Mas é muito contraditório invalidá-las enquanto valida experiências a-espectrais.

Acredito que posso resumir meus pontos a: orientações flexíveis são válidas porque são multi, são alvo de monossexismo, podem ser experiências tanto de pessoas (a princípio) mono quanto de outras pessoas multi, são experiências paralelas a outros tipos de orientações, e pessoas que as adotam legitimamente não têm o que ganhar com isso sistematicamente nem com as próprias comunidades multi em geral.

Afinal, espaços multi deveriam se fechar assim para pessoas flexíveis, quando as mesmas também possuem experiências negativas como vácuo identitário, policiamento de sua atração, e hostilidade de pessoas mono quando relatam atração/relação com pessoas de determinado(s) gênero(s)? Espaços multi deveriam dar toda essa importância a essas identificações quando nesses espaços se prega tanto que não importa como ocorre a atração, a frequência dela, com quais e quantas pessoas de determinado(s) gênero(s) a pessoa se relacionou? Fica aí a reflexão.

  • Gays/Lésbicas multi

Aqui focarei em gays/lésbicas multi, embora haja possibilidade desse “cruzamento” de identidades também com outras orientações mono (hétero, vir, femina, etc). Existem também contextos específicos, exclusivos das identidades gay e lésbica, que justificam a presença e difusão de gays multi e lésbicas multi e não de outras possibilidades.

Vou começar colocando aqui as principais razões que levam pessoas a se identificarem assim:

  1. pessoas multi com preferência por homens/mulheres;
  2. pessoas multi que sentem atração por homens/mulheres;
  3. pessoas multi que sentem atração por um gênero binário e pessoas não-binárias;
  4. pessoas multi atraídas por pessoas binárias e não-binárias, e querem dar ênfase nas não-binárias;
  5. pessoas multi resgatando gay/lésbica como termos guarda-chuva;
  6. pessoas variorientadas que são multi numa atração e gay/lésbica em outra;
  7. pessoas atraídas por um gênero, mas não descartam se relacionar com outro(s).

Falando de uma perspectiva histórica, lesbianismo inicialmente não definia uma orientação específica, e sim um comportamento, que englobava toda mulher sáfica. Muitas mulheres bi se firmaram (também) na identidade lésbica, até haver a influência das feministas radicais e o separatismo lésbico. Algumas mulheres que tiveram essa vivência seguiram usando, enquanto há outras pessoas que querem resgatar pra si esse uso mais amplo. Então, mulheres se afirmando lésbica e bi não é um fenômeno recente, advindo com a Internet. Isso acontece há décadas.

Sobre gays multi, achei pouquíssima coisa, mas acredito que haja sim pessoas querendo resgatar pra si um uso mais amplo de gay, dependendo de suas experiências, de sua geração, enfim.

Li muitas postagens contrárias a essas identidades e, embora algumas parecessem convincentes nos argumentos, percebi que quase todas pareciam ter interpretado gay/lésbica multi como quisessem (sem nem ler as razões de pessoas se identificarem), e focavam no quanto esses grupos iriam “confundir as definições” e dar aval para ataques de grupos nocivos (assediadories, gente lesbomísica/bísimica, etc). Isso me soa aquela tática clássica de reacionáries de culpar um grupo por fenômenos que já existem e vão continuar existindo com ou sem esse grupo. E ninguém também está impondo o uso dessas identidades, pois elas servem a quem vê sentido nelas.

Acusar gays e lésbicas multi disso e de desrespeitar ou manchar as comunidades multi faz tanto sentido quanto dizer o mesmo de: pessoas que primeiro se assumiram gay/lésbica e depois se assumiram multi, pessoas que primeiro se assumiram multi e depois se assumiram mono, e pessoas fluidas que transitam entre identidades mono e multi (e o discurso pode até se estender para identidades como abro ou duo).

Esse ódio todo a gays e lésbicas multi chegou a ponto de haver mobilizações contra e criadore da bandeira pan por elu ter apoiado esses grupos, e ter listas de bloqueios de pessoas gays/lésbicas multi e apoiadories, para terem ideia da dimensão que chegou.

E gays e lésbicas multi são o que, afinal? Bem, antes de tudo, são multi. São pessoas atraídas por mais de um gênero, em qualquer uma das possíveis situações, e que podem acessar comunidades das identidades que usam. São tão multi quanto qualquer outra pessoa multi, e que também merecem um espaço em comunidades gays/lésbicas.

A própria ideia de pessoas gays e lésbicas serem multi nem é realmente absurda ou longe da realidade, considerando que:

  1. enquanto há aquelus atraídes apenas pelos gêneros binários, existem aquelus atraídes pelos binários e gêneros similares. Dependendo da experiência e perspectiva, a pessoa pode se considerar atraída por mais de um gênero, mesmo que sejam gêneros dentro de um mesmo espectro (masculino/feminino).
  2. existem pessoas atraídas sexualmente por um gênero e romanticamente por outro (ex: gay heterorromântico), e isso, tecnicamente, as coloca como multi devido a suas experiências se cruzarem com de outras pessoas multi (mas é possível que nem todas se considerem multi mesmo assim).

Nossa própria ideia do que é ser multi precisa sair de caixinhas.

Entendo que a informação aqui na lusosfera, ainda mais no Brasil, é precária, muitas dessas discussões não chegam aqui, mas acredito que criaram um monstro desproporcional em cima de gays e lésbicas multi, sendo que: pessoas variorientadas nem são tão desconhecidas assim, os termos gay e lésbica têm um histórico conhecido de terem sido amplos, e parece que nem houve esforços pra entender esses grupos ou dialogar.

Muito desse reacionarismo todo remete a valores assimilacionistas e essencialistas criados para “unificar e proteger” as comunidades. Isso é um grande problema, pois caímos em policiamento de identidades e experiências alheias, coerção (“se identifique assim, ou você é inválide”), e afastamento de pessoas de espaços seguros e ativismos. Onde isso tudo ajuda pessoas multiatraídas?

  • Identidades fluidas

Se fôssemos separar orientações em categorias específicas, além de mono e multi teríamos a categoria fluida. Apesar de ser uma categoria mais próxima de multi do que das demais, pessoas fluidas possuem experiências que podem transitar entre experiências tipicamente multi e mono e também a-espectrais.

É tragicômico ver o tanto gente da comunidade e (supostes) aliades que repetem o mantra da “sexualidade é fluida” e o quanto fluidez é muitas vezes colocada como parte das atrações multi, mas, porém, contudo, pessoas de todos os lugares, sejam mono ou multi, aparecem para vomitar ódio em cima de qualquer orientação fluida. Aliás, esse tipo de coisa já me fez escrever um texto de defesa da orientação abro, e eu recomendo essa leitura porque as ideias necessárias já estão nele.

Eu acredito que esse posicionamento contra identidades fluidas, quando vem de pessoas multi, é mais por reacionarismo e assimilacionismo (“é melhor usar tal identidade”, “vamos todes nos dizer apenas bi”, etc) do que puro monossexismo. Muitos dos discursos que já vi em ondas de ataque focavam no quanto pessoas fluidas eram apenas bi (ou multi) que não queriam assumir isso e tinham monossexismo internalizado. E, de novo, vejo nas redes sociais mais esforços pra condenar alguém do que acolher – o que me faz temer por qualquer pessoa de microcomunidades que queira se expressar ou buscar solidariedade nas redes populares.

Sobre pessoas fluidas, muitas se consideram multi, e existe consenso em discussões sobre monossexismo de que essa opressão também atinge pessoas fluidas. A própria fluidez coloca a pessoa numa posição simultânea de “pessoa que não se atrai por apenas um gênero o tempo todo” e “pessoa atraída por mais de um gênero”, e tal pessoa não é poupada mesmo que haja um período em que sua atração possa ser descrita como hétero (caso alguém já pense em soltar essa pérola). Isso me lembra aquela mesma velha “discussão” de que pessoas a-espectrais hétero (assexuais heterorromântiques, heterossexuais arromântiques, etc) são ou não são beneficiadas pelo heterossexismo (e não, não são).

Agora pergunto novamente sobre como espaços multi lidam com pessoas fluidas. Suas definições de bi, poli, etc – que, aliás, já são muito abertas – conseguem englobar experiências fluidas? Podemos apenas jogar pessoas fluidas numa dessas identidades, contudo e apesar de tudo? Podemos fazer isso com: uma pessoa ora atraída apenas por homens, ora atraída apenas por mulheres; ou uma pessoa que num período se atrai por muitos gêneros, e em outro se atrai por apenas um; ou uma pessoa que muda constantemente entre atração por um gênero, poucos gêneros, muitos gêneros, todos os gêneros, e nenhum gênero?

Sinceramente? Passou do momento de perceber que pessoas fluidas estão lado a lado com pessoas multi, ainda mais na luta contra o monossexismo, e que esse monte de policiamento e ataques faz de tudo, menos unir ou ajudar alguém. E nem é incomum pessoas fluidas adotarem também identidades multi. Espero que pessoas fluidas possam se organizar melhor e produzir seus conteúdos, para assim trazer mais visibilidade a essas questões.

Outras orientações fluidas que podem ser citadas: duo, acefluide, bifluxo, novo, onique, adfectu, morfe.

  • Então… tudo é válido?

Tudo que foi citado acima são identidades válidas, experiências reais, e que precisam ser melhor consideradas. Mas, claro, nem tudo que aparece por aí é válido. Isso parece frase de reaça, porém não deixa de ser verdade.

Contudo e apesar de tudo, precisamos ainda manter um senso crítico com certas coisas que são divulgadas por aí. Isso inclui identidades como semibissexual, que é obviamente falsa e criada pra zoar (sim, vou usar a palavra obviamente, porque se você acreditou nisso, você tem o mesmo senso crítico de quem acredita em fake news absurdas). E pra quem não sabe, semibissexual é “uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”. Sim, essa é a definição. Sim, teve gente que levou a sério.

Adendo: essa identidade também pode atingir pessoas a-espectrais que usam alguma orientação com prefixo semi- e que também são bi, e que podem se apresentar como “semibi”, por exemplo. Cuidado com essa confusão!

Outro grupo muito problemático que teve atenção há uns anos são os goys (pra quem não sabe, são homens que se dizem héteros, mas se relacionam sexualmente com outros homens – sem serem passivos – e não se apaixonam por eles). Na prática, vejo goys como homens bi/multissexuais heterorromânticos. O problema com esse grupo são os princípios que giram em torno deles, que são basicamente misóginos, fememísicos, e (ironicamente) heterossexistas.

Nada do que foi defendido nos outros tópicos pode ser comparado a uma identidade troll e um grupo muito problemático sem credibilidade. E nem com outras coisas que aparecem ocasionalmente, como highsexuais (que acho mais problemático pela circunstância do que pela definição), ou qualquer outro grupo que mostra comportamento multissexual e não usa qualquer termo que remeta a isso.

Monossexismo é estrutural, e tudo isso não deixa de ser manifestações dele. Porém, precisamos tomar cuidado para não cair em reacionarismos e colocar grupos legítimos junto com esses mencionados agora. E, principalmente, ampliar o que entendemos por multiatratividade, para também não cairmos em críticas alheias que, no fim, também possuem raízes monossexistas.

Links adicionais:

Lésbica Bi (conteúdo em inglês)

O Que Heteroflexível Significa E Como Saber Se Se Aplica A Você (conteúdo em inglês) (aviso de conteúdo: definição obsoleta, linguagem exorsexista)

Vamos falar dos direitos dos homens

Aviso de conteúdo: misoginia, menciona violências e suicídio, referências às realidades de muitos grupos marginalizados, contém links externos.

Homens têm direitos? Homens têm privilégios? Homens são oprimidos? Homens necessitam lutar por direitos?

Parecem perguntas ridículas. Ao menos para muitas feministas e pessoas de um ou mais grupos marginalizados. Mas peço que não as vejam dessa forma. Não existem perguntas ridículas, e são perguntas mais interessantes do que aparentam ser.

Faz um tempo que vi um vídeo de uma conversa entre uma feminista e um “ativista dos direitos dos homens”. Decidi ver o vídeo, achando que ele proporcionaria mais momentos de raiva ou escárnio que qualquer outra coisa. Bem, até teve isso. Mas decidi analisar com mais calma tudo aquilo. E então tive a ideia de escrever esse texto. Diretos dos homens.

Uma retrospectiva da História antes. Revolução Francesa, um período que durou de 1789 a 1799. Tendo inspirações no pensamento iluminista, formulou-se um documento que decretava os direitos individuais e coletivos “dos homens”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um marco importante na história dos direitos humanos. Inclusive, esse documento foi base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Muites dizem por aí que a palavra “homem” se referia ao ser humano como um todo. Mas, porém, entretanto, contudo… na prática, a Declaração apenas servia aos homens mesmo, enquanto as mulheres foram esquecidas dos ilustres princípios de liberdade, igualdade e brotheragem… ops, digo, fraternidade. Tanto que, um tempo depois, formulou-se a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; que foi rejeitada pela Convenção francesa. Mulheres exigindo os mesmos direitos que os homens ainda era algo inconcebível naquela época de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Na segunda onda do feminismo, década de 1960, surgiu o feminismo radical, que trouxe uma série de discussões sobre patriarcado e a origem da opressão das mulheres – que, segundo a vertente, está na existência do gênero dentro dos moldes patriarcais que conhecemos. Não vou discutir sobre o feminismo radical aqui. Vou puxar justamente a ideia do patriarcado.

A ideia de patriarcado surgiu para explicar, a princípio, como funciona a opressão dos homens sobre as mulheres. Os homens são um grupo antagônico e que possuem privilégios, enquanto mulheres são o grupo oprimido. E essa visão dicotômica já um pouco ultrapassada de “homem, privilégio; mulher, opressão” perdura até hoje.

Não é de se estranhar que vários homens, e aqui incluo reaças e antifeministas, já pontuaram várias vezes as “generalizações” que feministas fazem de homens. Não apenas discursos colocando homens como um grupo todo privilegiado, mas afirmações mais controversas como “todo homem é um estuprador em potencial”, e ideias que reafirmam alguma maldade inerente ao gênero homem.

Os feminismos trouxeram uma abertura importante para homens poderem falar de si também e dos efeitos negativos do patriarcado sobre eles. Por isso é possível encontrar grupos e espaços de homens feministas/pró-feminismo/antipatriarcado – e aqui acho válido citar o movimento Homens Libertem-Se e o saite Papo de Homem. Além disso, os feminismos trouxeram o que todo movimento social traz no mundo atual: reacionarismo. Principalmente de grupos alinhados ao direitismo e conservadorismo. Grupos antifeministas são sempre desse espectro político, muito embora antifeminismo possa existir até mesmo em grupos (ditos) progressistas e revolucionários.

Outro fenômeno que surgiu com tudo isso e o avanço da Internet foi o masculinismo, que possui diversos significados (às vezes positivos, às vezes negativos), mas aqui focarei num principal ponto: masculinistas são homens buscando lutar por “seus direitos”. Há grupos e grupos, como aqueles que reivindicam tópicos específicos – como a quebra de estereótipos nocivos ou a abolição do alistamento militar obrigatório, e aqueles que buscam “igualdade” com as mulheres em certas situações sem ter o mínimo de senso crítico ou mesmo atribuindo culpas às mulheres que as mesmas sequer têm. E, infelizmente, foram esses últimos grupos, essencialmente antifeministas, que culminaram nos ditos movimentos pelos direitos dos homens.

O que são os movimentos de direitos dos homens? Bem, são apenas isso. Movimentos pelos direitos dos homens. E o que os movimentos em prol dos direitos dos homens afirmam? Resumidamente que a classe homem tornou-se a mais oprimida ou negligenciada em detrimento da classe mulher, e que, por isso, busca reunir os homens para lutar contra isso. Os homens desses movimentos afirmam sofrer opressões, inclusive, das próprias mulheres e da sociedade atual (que agora “favorece mais as mulheres”).

Afinal, que opressões são essas que esses homens estão dizendo por aí que sofrem? Bem, num geral, são praticamente as mesmas pontuações misturadas com diversas falácias, dados falsos/duvidosos, e premissas equivocadas/distorcidas. Acredito que posso resumi-las em: cobranças sociais, taxas de expectativa de vida e suicídio, funções e direitos paternais, liberdade de expressão, e discursos generalistas negativos. Muito bem, vou falar de cada item.

As cobranças sociais. Sim, são um grande problema mesmo. E estão envolvidas nas taxas de violência e suicídio dos homens. Não é por um acaso que estão surgindo grupos de apoio de homens formados para discutir a masculinidade tóxica. Porque essas cobranças têm uma relação íntima com esse conceito. E para quem conhece a masculinidade tóxica sabe que ela é um produto do patriarcado. Mulheres podem ser sustentadoras disso tanto quanto qualquer outra pessoa, e isso não apaga o fato de que elas continuam presentes em estatísticas de violência doméstica, estupro, e feminicídio; e nem o fato de que o grupo atuante que predomina nessas estatísticas são homens.

Acontece que vejo tentativas desses movimentos em jogar a culpa das cobranças sociais na conta das mulheres, o que é, no mínimo, absurdamente desonesto. Até parece que foram as mulheres que sempre estiveram no comando da lei, religião e ciência, e criaram uma série de normas sobre ser homem e ser mulher.

As taxas. Sim, precisamos urgentemente falar delas. Realmente, homens morrem mais e se suicidam mais. Pois são outras consequências das cobranças sociais, da masculinidade tóxica, do molde nocivo que o patriarcado constrói e impõe aos homens. Apesar de ainda haver pouca visibilidade nessas questões, existem estudos e preocupações com esses fenômenos. Homens precisam urgentemente discutir sobre sentimentos e masculinidades. E isso precisa obrigatoriamente levar em conta fatores interseccionais, como raça e modalidade de gênero, visto que existem altos índices de suicídio entre homens negros e homens trans. E discutir essas questões indo nas verdadeiras raízes, nas reais causas das violências com homens e entre homens.

Não encontrei em minhas pesquisas quaisquer respostas ou ações efetivas dos tais movimentos dos homens sobre essas questões, que já são bem neglicenciadas.

Paternidade. Vamos lá, tópico polêmico. Nossa sociedade prega um modelo tradicional de família que coloca o pai como provedor e a mãe como cuidadora. Embora ambes possam participar na criação, é socialmente aceito, quase num acordo invisível, de que a criação des filhes é responsabilidade da mãe. Isso sobrecarrega qualquer pessoa, ainda mais num lar onde ambas figuras têm empregos. E com certeza deve influenciar em decisões jurídicas de guarda. Se existe uma preocupação legítima com a paternidade, os homens deveriam então focar em dividir as tarefas domésticas e de criação. Em relação aos direitos dos homens nessa questão da paternidade, já existem esses direitos (ao menos no Brasil). Não vou ficar pesquisando sobre os outros países do mundo, mas caso não haja esses direitos em algum país, esses homens precisam se mobilizar por isso sim. Sobre guarda, bom, cada caso é um caso, não sou especialista e nem juíze. Mas já existem mecanismos atuando em prol dos homens. Por isso, sim, exijam seus direitos, pois já são garantidos. E se ainda assim algum homem achar que a decisão jurídica não foi justa, ele deve proceder dentro do âmbito legal.

Agora, também pergunto aos tais movimentos dos homens: o que acham sobre os altos índices de abandono paterno e das milhares de crianças sem o nome do pai nos RGs? Também não achei opiniões e posicionamentos sobre isso, apenas acusações infundadas de que mulheres são “privilegiadas” por cuidarem des filhes e “sempre” ficarem com a guarda.

Em relação a tal liberdade de expressão, sinceramente, é difícil levar a sério. Porque aqui caímos naquela questão clássica de um grupo privilegiado de pessoas querendo fazer qualquer discurso nocivo contra um grupo marginalizado, e sentindo-se ameaçado conforme esse outro grupo ganha alguma visibilidade e voz para denunciar toda opressão que passa. Aquela falsa simetria básica, onde um grupo está lutando pela vida, enquanto o outro chora por não poder fazer mais aquelas “piadinhas” preconceituosas de sempre. E o que mais pesa aqui são declarações misóginas e retóricas sexistas.

Falando nos discursos generalistas, bem, eu vou ceder um pouquinho e dizer que eles têm um lado problemático e improdutivo. A raiz desses discursos é sem dúvida o feminismo radical, que muitas vezes coloca homens como indivíduos naturalmente ruins e opressivos. Já deveríamos ter superado isso, mesmo que seja em forma de meme ou piada. Esse tipo de atitude, mesmo sendo contra um grupo privilegiado, não ajuda e não acrescenta em nada. E, além disso, antagonizar homens é uma atitude extremamente irresponsável e mostra ignorância ou descaso com as possíveis intersecções que atravessam homens: raça, orientação, modalidade de gênero, classe, corporalidade, entre outras.

Se você acha ridícula a ideia de que é possível mulheres oprimirem homens ou fala de homens como se fossem toda uma categoria homogênea dotada de “todos os privilégios”, você precisa urgentemente rever se não está contaminade com retóricas radfem e mais do que nunca estudar interseccionalidades. Sim, mulher pode oprimir homem. E não, não é nenhum dos casos que os tais movimentos pró-homem falam por aí (até porque, nem intersecção de raça fazem).

Ah, interseccionalidades! Vamos falar sobre elas? Vamos falar sobre os muitos grupos de homens sujeitos a opressões específicas?

Homens negros e indígenas são alvos de muita violência do Estado. Homens trans ainda lutam por reconhecimento social e direitos básicos como moradia e saúde. Homens gays estão no topo das estatísticas de violência e morte por discriminação heterossexista. Homens bi/multi são invisibilizados até nas políticas públicas “LGBT”. Homens intersexo são vítimas de mutilação genital e falta de autonomia sobre seus próprios corpos. Homens gordos são patologizados e ridicularizados. Homens com deficiência possuem uma série de demandas pela inacessibilidade e são vistos como fardos. Homens da classe trabalhadora enfrentam exploração e têm seus direitos ameaçados constantemente. E eu poderia ficar aqui me estendendo com mais e mais exemplos, mas o resto e muito mais pode ser encontrado com uma pesquisa feita na boa vontade.

Não há como discutir realmente os direitos dos homens sem levar em conta toda construção patriarcal e ocidental de gênero, e sem incluir as pautas raciais, heterodissidentes, cisdissidentes, trabalhistas, das PCDs e des neurodivergentes, etc etc etc. Enquanto há questões inerentes ao patriarcado e que podem atingir homens em geral, há questões mais específicas de outras estruturas opressivas (que podem piorar as questões gerais).

Agora eu vos pergunto: esses tais movimentos a favor dos “direitos dos homens” estão falando dessas questões? Quantos estão abordando as questões gerais da maneira mais adequada, com olhar crítico, sem praticar falsas simetrias, sem tirar a culpa do patriarcado, e sem jogar alguma culpa desmedida em mulheres? Se as questões que atingem os homens não estão considerando o patriarcado e todas as possíveis interseccionalidades, afinal, o que exatamente esses grupos estão fazem em prol dos homens?

Se não há nada disso, a única coisa que podemos concluir é que esses grupos são apenas aglomerados de machistas sem práxis, articulação política, demandas válidas, nada que proponha mudanças sociais ou que seja capaz de realizá-las. Não apenas isso, como também são apenas mais uma forma do antifeminismo, e isso fica evidente considerando o quanto focam em atacar os movimentos feministas, se utilizando também de sexismo e misoginia, dados falsos ou inventados ou sem nenhuma fonte, e negação do gênero como um fator que incentiva violências específicas contra a mulher.

Por isso temos movimentos antifeministas como A Voice for Men (tradução literal: Uma Voz para Os Homens), que dizem lutar pelos “direitos dos homens”, mas acabam sendo apenas redutos sexistas que legitimam a imensa misoginia e as visões distorcidas do mundo de homens obscurantistas e negacionistas, que de bônus odeiam também outros grupos marginalizados. Basta analisar os discursos de seus membros e ver suas postagens e entrevistas.

Gênero é um assunto complexo e não pode ser resumido a “todos os homens têm privilégio e oprimem todas as mulheres.” É coerente dizer que o patriarcado por si só, a princípio, tende a conferir privilégios aos indivíduos homens. Mas vivemos numa sociedade que não é apenas patriarcal, mas também é racista, diciseterossexista, capacitista, entre outras opressões. Uma luta a favor dos homens deve ser uma luta a favor de todos os homens. Muitos direitos sociais estão garantidos, na teoria. Na prática, nota-se quais homens são mais privilegiados e quais são menos. Pra haver igualdade, estruturas hegemônicas de poder precisam ser derrubadas. E é esse comprometimento que se espera dos homens envolvidos em suas respectivas causas sociais, assim como os homens aliados dessas, e assim como os grupos de homens que estão se reinventando e buscando a verdadeira libertação do gênero homem.

Um movimento a favor dos direitos dos homens só faz sentido se for um movimento essencialmente antipatriarcal e interseccional. Somente assim, seguindo esses vieses, que podem ir até a raiz dos problemas, de tudo que falta aos homens, de toda opressão possível de atingir os homens. É esse movimento que podemos e devemos construir.

Links adicionais:

Documentário: The Mask You Live In (Legendado)

Colocamos uma feminista e um ativista dos direitos dos homens para conversar (sem que eles soubessem) (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Mulheres são privilegiadas. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Homens são privilegiados. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: essencialismo de gênero, argumentações liberais e religiosas, discursos antifeminismo.)

Fetichismo: conceito, ideias, questionamentos

Aviso de conteúdo: sexualidade, referências sexuais, menções a fetiches, discriminação anti-fetichista, contém links externos.

Hoje o assunto é polêmico. Então, putinhes e puritanes, se preparem para uma jatada de rompimento de moralismos na cara.

Vocês sabem o que são fetiches? Bem, talvez saibam. Ou acham que sabem. Fetiches possuem uma visão muito negativa, e até hoje espalham por aí ideias equivocadas sobre isso, chamando muita coisa que sequer é fetiche de fetiche.

Pois bem, basicamente, fetiches são quando se atribui um valor sexual a partes corporais, objetos, situações e fantasias que, a princípio, não possuem nada de sexual. Aqui poderia citar então fetiche por pés, por roupas de couro, em transar numa floresta, ou em simular uma cena erótica.

Não faz sentido dizer ter fetiche por órgãos genitais, pois já são partes associadas com sexualidade. O mesmo pode ser dito sobre partes que nem são genitais, mas possuem valores sexuais atribuídos socialmente, como bunda e seios.

Dentro do que foi dito, pessoas em si não podem ser fetiche por terem determinadas características. Isso é algo que pesa muito para grupos marginalizados, pois essas atitudes refletem outras facetas de suas respectivas opressões. Não, mulheres não são fetiche, pessoas negras não são fetiche, pessoas trans não são fetiche, pessoas gordas não são fetiche, e por aí vai. Não são porque não podem ser. O que acontece com esses grupos pode ser chamado de objetificação ou hipersexualização (não sei se existem diferenças práticas entre esses termos).

“Ah, mas eu vi a pessoa dizendo que tinha fetiche por [insira grupo marginalizado]!”

Pois bem, essa pessoa não sabe do que está falando. Ela está apenas reproduzindo uma ideia equivocada e negativa que é espalhada em torno da palavra fetiche. E, aliás, fazer isso não apenas cai na objetificação ou hipersexualização, como também contribui com o ódio e o preconceito contra fetiches e fetichistas. Para facilitar, eu vou usar o termo “fetichização” pra falar dessa ação errônea de tornar alguém ou um grupo num fetiche.

Ninguém diz ter fetiche em pessoas cis ou brancas. Engraçado, né? Porque elas são mais que isso: são “preferências”, são exaltadas como objetivos de vida, são colocadas como padrão de beleza e desejo. Isso é bem mais problemático do que quando esses corpos são, de certo modo, sexualizados em propagandas, na mídia, enfim. Daí, entramos no tópico da compulsão sexual que passamos na sociedade, onde somos bombardeades frequentemente com imagens e mensagens sexuais, que só reforçam as narrativas de que sexo é fundamental e deve ser presente em nossas vidas. Isso é um grande problema, mas não algo que deve ser colocado na conta dos fetiches.

A única “fetichização” que conheço de um grupo privilegiado é aquela cometida por muitos homens cis gays com homens cis héteros. Não que isso afete esse grupo de alguma maneira. O mais problemático mesmo é que essa exaltação do hétero parte de premissas normativas, de que o homem que se relaciona com mulheres é “mais homem”, logo, mais atraente e sexualmente cobiçável. Às vezes isso até se estende para homens multissexuais pelo mesmo motivo. Às vezes, não – o que evidencia o monossexismo.

Isso foi apenas para exemplificar que grupos privilegiados ainda podem sair intactos de objetificação e hipersexualização, e essas atitudes ainda terem por base opressões que não os afetam.

“Ah, mas até que ponto é fetiche e não distúrbio ou transtorno?”

Hm, qual o limite do fetiche? Isso me lembra perguntas como “qual o limite da arte?”.

O limite é não ter limite, desde que exista dois grandes pilares fundamentais que sustentam essa porra: consentimento e prazer. Se todas as partes estão concordando e estão curtindo, é o que importa. E é pra isso que serve (ou deveria servir) o fetichismo. Explorar novas áreas da sexualidade. O que é sexualidade sem consentimento e prazer?

Sim, quando falo que tudo pode, é tudo mesmo. Incluindo aquelas coisas que muita gente acha nojenta ou problemática. Coisas que acho que não preciso citar. O que é feito entre quatro paredes e entre um conjunto (um casal, um trisal, um bacanal, etc) é problema dessas pessoas, e um grande espaço onde a imaginação se expande a favor delas, sem julgamentos ou moralismos. É um espaço onde a própria opressão pode ser subvertida e transformada num ato de prazer, ou onde aqueles desejos considerados errados pelas sociedades belas e recatas podem ser realizados dignamente.

E, só pra lubrificar as ideias aqui, o fetichismo não envolve parafilias com seres incapazes de consentir, como o trio pedo-necro-zoo. Além disso, e pra finalizar, se um desejo seu te faz algum mal e também causa mal aes outres, o fetichismo ou o meio fetichista não vão te ajudar. Busque ajuda psicológica.

“Ah, mas eu vi uma pessoa dizendo que gosta de ser objetificada/hipersexualizada.”

Bem, isso é uma questão controversa. Fiquei refletindo sobre isso por um bom tempo. Acabei, então, comparando essa situação com dois fetiches: exibicionismo e submissão. O exibicionismo consiste na pessoa em se mostrar, tendo prazer apenas com isso, ou, também, tendo prazer em despertar desejos alheios. Não seria isso uma forma dessa pessoa de estar sendo hipersexualizada? A submissão envolve jogos e fantasias, muitas vezes envolvendo a pessoa simular ser uma coisa que só existe para o prazer alheio. Isso não seria a pessoa estar consentindo em ser objetificada? Se ambos os fetiches estão errados, logo, alguém que diz gostar de ser objetificade/hipersexualizade está errade. Porém, se nesse mundo de imaginação tudo é permitido desde que haja consentimento e prazer mútuos, por que uma pessoa desejar isso deveria ser errado?

Caímos quase numa questão filosófica. Mas eu também não sei se deveria ser, pois não acho que temos o direito de medir por nossas réguas se o prazer da outra pessoa é problemático, isso quando o mesmo lhe faz bem e não está ferindo nem a ela nem ninguém.

“E pessoas do mesmo grupo marginalizado podem cometer essas coisas entre si?”

Sim, da mesma forma que pessoas marginalizadas podem reproduzir suas respectivas opressões. Acontece. E por isso precisamos espalhar informações e abrir diálogos, mesma coisa que fazemos com demais questões estruturais.

“E como sei que estou objetificando ou hipersexualizando alguém?”

Se uma pessoa ou um grupo te disserem que você está cometendo essas ações, no mínimo, você deve refletir sobre isso. Ninguém fica incomodade ou desconfortável sem motivo. E isso vale pra qualquer ume, incluindo ume parceire de longa data.

Caso não tenha ninguém para te dizer algo, pense nas seguintes questões:

– Estou reduzindo alguém a determinada(s) característica(s) visando apenas meu próprio prazer?

– Estou colocando meu prazer em primeiro lugar sem pensar na outra pessoa?

– Estou colocando expectativas sem fundamento naquele corpo apenas por ele ser o que é?

Se a resposta for sim pra qualquer uma dessas perguntas, sim, isso é uma fetichização, e você deve repensar sobre isso.

Se a resposta for não, e você demonstra uma admiração genuína por certos corpos marginalizados, isso não é um problema. Você pode amar corpos marginalizados sem cair em fetichização. Você pode apreciar a beleza de um corpo negro, trans, gordo, etc. Apenas não espere que pessoas desses grupos te correspondam, ou fique buscando afeto apenas desses grupos (isso vai parecer chasing).

“Relações centradas entre esses grupos não podem cair nessas coisas?”

Talvez. Depende do caso, depende da intenção.

Relações centradas são uma resposta a uma estrutura opressiva que limita ou mesmo anula as possibilidades afetivas de um grupo. Por isso o grupo reage ficando apenas entre si. Justo, não? Muita gente também, por causa de traumas e um longo histórico negativo, acabam preferindo o próprio grupo do que “arriscar” outras relações. É um direito delas.

Agora, antes de apostar nas relações centradas, se façam aquelas perguntinhas, em especial a pergunta sobre colocar expectativas. E, como já disse, pessoas de um grupo marginalizado podem reproduzir ações de objetificação e hipersexualização. Se for o caso, não é uma relação centrada, apenas reprodução de ações opressivas.

“Mas, afinal, o que fetichistas sofrem de discriminação?”

Historicamente, formas não-normativas de sexualidade foram perseguidas, tendo o aval das famigeradas instituições sociais que sempre sustentarem as estruturas opressivas: religião, ciência e lei (nessa ordem). Isso não se refere apenas à heterodissidência, mas também aos fetichismos (e outros comportamentos, como masturbação).

Essa marginalização acabou aproximando corpos dissidentes dos fetichismos. O meio fetichista nasceu entre pessoas gays, lésbicas, multissexuais, inconformes de gênero, trans, não-mono, etc. Tanto que, por isso, o segmento queer engloba também es fetichistas (sim, isso inclui as pessoas peri-cis-hétero, superem logo isso), muito embora existam movimentos fetichistas próprios; que acabam sendo primos de movimentos LGBTQIAPN+.

E, apesar disso, vocês acreditam que o sistema teve a pachorra de se apropriar dos fetichismos, transformando-os num “luxo” para homens cis hétero brancos? Se quando você pensa em fetiche te vem a imagem clássica de uma dominatrix toda padrão que está lá para servir a um homem, parabéns, sua ideia de fetiche foi cooptada e distorcida com sucesso.

Apesar dos avanços sociais, fetichismos seguem sendo tabus na sociedade num geral. Discursos de ódio são bem comuns, sempre os associando a crimes e transtornos e similares; frequentemente, isso acompanha também outras ações opressivas (capacitismo, heterossexismo, cissexismo, misoginia, etc). É comum pessoas esconderem seus fetiches por causa de julgamentos, moralismos, reações de escárnio, nojo, enfim. A discriminação chega a atingir relações familiares e amorosas, podendo acabar em divórcios. Consultórios clínicos ainda tratam fetiches dentro de visões arcaicas patologizantes, apesar de BDSM ter saído do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em 2013. Recentemente foi lançado um manual sobre fetiches para profissionais da saúde, e deixarei uma versão traduzida no fim do texto.

Exatamente por tudo isso que existe o termo fetichemisia (cunhado por mim, mas na verdade é apenas uma adaptação de kinkphobia). Embora haja controvérsias sobre “fetichista” ser ou não uma identidade política, ainda é um descritor de um grupo, e de um grupo sujeito a opressões oriundas de normas sexuais. Aliás, existe uma grande conexão entre fetichemisia e heteronormatividade.

Fetichismo já tem uma imagem negativa, e a mídia também não coopera para melhorar isso. Temos o exemplo clássico daquele livro que tem um personagem fetichista, mas muito problemático, e muita gente combinou críticas a sua personalidade com o fetichismo presente na história. Entendam de uma vez: pessoas podem ser abusivas, sendo fetichistas ou não. Isso está relacionado ao caráter, não à sexualidade. Esse tipo de generalização é desonesta e praticamente a mesma coisa que conservadories fazem com pessoas heterodissidentes.

Enfim, acredito que isso era tudo que eu podia falar do assunto, e falar sem tabus e visando elucidar um tema ainda obscuro e cercado de preconceitos.

Se estamos falando tanto de liberdade sexual, deveríamos incluir também os fetiches. Se não deveríamos ter vergonha de uma orientação sexual, o mesmo deveria valer para os fetiches. Precisamos de mais positividade aes fetichistas, e menos julgamentos e discriminações.

Saibam do que estão falando, cuidado para não caírem em objetificações e hipersexualizações, e curtam suas sexualidades de maneira saudável e explorando os horizontes que quiserem.

Créditos a Fernanda Fedatto pela tradução.

Nota: juro pra vocês, descobri hoje mesmo que hoje, por uma grande coincidência, é o Dia Internacional do BDSM! Parece até uma piada do Universo com minha cara haha. Enfim, bom saber que estou postando esse texto num dia tão propício!

Links adicionais:

Como o BDSM pode te ajudar em seu relacionamento

O que é parafilia e fetichismo?

O discurso dos perversos: praticantes de BDSM em busca de legitimação (aviso de conteúdo: discurso médico patologizante contra fetiches e heterodissidência)

O Lado Ruim do BDSM (aviso de conteúdo: abuso, misoginia)

Neolinguagem: pensamentos sobre as neoflexões

Utilizarei aqui o termo neoflexão para me referir a toda nova flexão de gênero que não esteja prevista dentro da língua padrão.

Como foi explicado na página sobre neolinguagem, a proposta não é perfeita. Quando destrinchamos as infinitas possibilidades que ela abre, nos deparamos com nuances que mostram opções e também limitações e questões sem uma resposta.

Embora quase tudo que for colocado aqui ainda se encontra num campo muito hipotético, o que pode ser usado para desconsiderar tal discussão, o fato de que essa proposta e seus horizontes ainda estarem muito na teoria nos dá uma liberdade maior de expandir as ideias, mesmo que fiquem para um futuro distante ou mesmo que nem venham a ser aplicadas.

1- Casos em que a neoflexão –e pode não ser suficiente

Apesar de –e ser uma neoflexão muito aderida e muito provavelmente será a oficializada, ela sozinha não garante uma neutralidade real e absoluta para todas as palavras e situações.

Há uma quantidade considerável de palavras que não evidencia um determinado gênero só por uma letra ou mesmo sílaba em seu final, mas também pela pronúncia de uma parte da palavra.

Vejamos os seguintes exemplos:

Sogro / Sogra

Curioso / Curiosa

Novo / Nova

Apenas na escrita podemos reparar na mudança de flexão. Só se muda uma letra. Agora, lendo as palavras, percebemos que a letra que antecede à desinência de gênero também possui sons diferentes. Em palavras flexionadas com –o, seu tom é fechado (ô). Em palavras flexionadas com –a, seu tom é aberto (ó). No plural das palavras flexionadas com –o, quase sempre o tom é aberto.

Então vamos à questão principal aqui: colocar apenas –e no fim dessas palavras realmente as torna “neutras”? Isso é suficiente? Isso rompe mesmo com o binarismo presente em nossa língua? São apenas reflexões.

Talvez haja pessoas que não se importem e optem por um tom de o, ou mesmo alternem entre ambos os sons. Mas é possível que a sonoridade da letra, que continua tendo em si uma carga de gênero binário, possa incomodar ou não deixar todas as pessoas satisfeitas.

Como resolver isso, sendo que só conseguimos pronunciar esses dois tons da letra o?

Uma solução possível seria a letra u, que é muito próxima de o e possui só um tom.

Então, talvez, poderíamos propor para palavras terminadas em “o tonalizado” + consoante(s) + e a alternativa u-(x)-e. Então teríamos nesses casos: sugre, curiuse, nuve. Entendo que possam soar estranhas, mas toda novidade soará assim. Entendo também que essa proposta não seja para logo, pois no momento o mais prático é ensinar alternativas mais fáceis de se lembrar e praticar.

Um par de palavras que evidencia a sonoridade com acentos é avô e avó. Indo pela lógica aplicada aqui, uma alternativa possível para esse par seria avu; muito embora avo, mudando o som átono de a e dando uma segunda função a essa palavra no plural (pois avos é uma descrição numérica de frações), possa ser uma opção válida.

Melhor do que impor uma única opção alternativa é abrir possibilidades. Embora avô-avó tenham um peso social maior, as demais palavras deveriam estar abertas aos gostos de sues falantes e usuáries. Seja pronunciando um tom, ambos os tons de o, ou usando u.

Pode haver casos em que as pessoas vão preferir um som de o para não se confundir com outra palavra, como em morte (no caso, adjetivo alternativo de morto/morta) ou o próprio exemplo do número nove.

2- Mais de uma proposta de neoflexões neutras universais

Tratando-se de propostas de alternativas de flexões, há pouquíssimas opções propostas. As alternativas ensinadas aqui no blogue são em sua maioria as mesmas que têm maior aderência por todes que optam por uma neolinguagem inclusiva (digo isso por experiência e pesquisa nos meios virtuais).

No caso do par –ão e –ã, a alternativa mais comum e aceita é –ane quando se trata da neoflexão neutra. Porém, não deveria ser proibido ou barrado o uso de –ãe, por mais que muites achem estranho o som de irmãe ou capitãe. Inclusive, eu mesme havia pensado em adotar essa neoflexão como neutra universal. Acabei optando pela outra mais por causa de sua aderência maior nos espaços virtuais.

Ocasionalmente vejo por aí pessoas sugerindo a neoflexão –us em vez de –ies, no caso de palavras em que o plural “masculino” é –es. No entanto, vejo pouquíssima gente a usando, e parece que “trabalhadorus” e “professorus” não soam nada agradável para uma maioria. De novo, nada deveria ser impedido. Porém, não confio que essa neoflexão passará adiante.

Embora um assunto pouco discutido, as flexões –eu e –eia também possuem mais de uma proposta. Aqui propus –ei. Em outros lugares é possível achar –eie. Qual é a mais aderida? Sinceramente, nem sei, pois quase nem vejo essas flexões sendo faladas por aí. Tópicos deixados assim em aberto também são um problema.

3- Muitas opções de neoflexões individuais

E aqui entramos num território mais complicado: linguagens individuais.

Está certo que a grande maioria das pessoas que usam neolinguagem pra si usa exclusivamente a neoflexão –e, que também é praticamente aceita como “neutra universal”. Ela funciona muito bem e sua aderência é muito positiva.

Agora, considerando que outras pessoas queiram usar para si outras neoflexões, temos algumas complicações. Por enquanto vou focar nas vogais e semivogais. Além de O, A, E, temos também I e U; e também Y e W. Na página sobre neolinguagem tem as regras de mudanças pensando na neoflexão –e. Vou usá-las como parâmetros.

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –i.

  • –go/–ga, alternativa –gui.
  • –co/–ca, alternativa –qui.
  • –ão/–ã, alternativa –ani.

Até aqui essas terminações funcionam igual a com neoflexão –e. Mas então chegamos às divergências:

  • –eo/–ea: alternativa com –i? Teríamos então gêmi, contemparâni?
  • –e/–a: alternativa com –i? Teríamos então parenti, presidenti?
  • –eu/–eia: alternativa com –ei? Igual –e?

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –u.

  • –go/–ga, alternativa –gu.
  • –co/–ca, alternativa –cu.

Até aqui, possível. Mas então chegamos às divergências:

  • –ão/–ã, alternativa com –ãu?
  • –eo/–ea: alternativa com –eu? Teríamos então gêmeu, contemparâneu?

Bem, até aqui parece funcionar bem, pois a estrutura é como a do gênero gramatical masculino, apenas trocando o por u. E quanto a esses casos abaixo?

  • –e/–a: alternativa com –u? Teríamos então parentu, presidentu?
  • –eu/–eia: alternativa com…?

As questões que seriam geradas pelo uso de Y e W são praticamente as mesmas de I e U, respectivamente, apenas mudando as letras finais.

Concluindo, tudo que foi colocado aqui só reforça que precisamos discutir mais a fundo sobre a neolinguagem, tanto para formular uma proposta de neutralidade padrão quanto considerar outras possibilidades. Estamos expandindo a língua de uma forma que até então nem havia sido pensada ou ao menos exposta dessa maneira. Até lá, essas questões continuam sem respostas.