A orientação hétero inclui pessoas não-binárias?

Aviso de conteúdo: exorsexismo e genitalismo, heterossexismo e derivações, contém links externos.

Esta questão aparece ocasionalmente por aí nas redes sociais, seguida de respostas duvidosas ou mesmo absurdas.

Já vi pessoas definindo hétero como “atração por diferentes gêneros”. Faz até sentido se formos pela raiz do termo. Porém, temos inúmeras palavras aí, e isso inclui a orientação bi, pra mostrar que muitas vezes existe um abismo entre raízes e o contexto social das palavras.

Já vi pessoas não-binárias se dizendo hétero, seguindo uma lógica de que “foram designadas de tal gênero binário, e se atraem apenas por pessoas do outro gênero binário”. Isso é praticamente o mesmo que “sou de tal sexo e me atraio por tal sexo”, e definir orientações por atração por sexo é muito problemático.

E, por fim, a parte mais polêmica desse artigo e o que me motivou a escrevê-lo: já vi pessoas por aí afirmando que hétero inclui pessoas não-binárias, porque “pessoas não-binárias podem ser alinhadas ao masculino ou feminino”.

Quem conhece o conceito de alinhamento de gênero pode ver sentido nisso. O problema é que quem espalha essa explicação tem outro conceito de alinhamento, e vou explorar isso mais abaixo.

Eu poderia ter começado o texto dando a resposta da pergunta. Mas acredito que possa ser mais produtivo analisar camada por camada antes disso, embora eu já tenha rebatido algumas ideias.

Primeiro de tudo, o que define nossa orientação?

Precisamos separar, antes de tudo, nossa identidade e de nossa atração. Cada pessoa no mundo tem sua própria atração, pois não há como alguém ter exatamente as mesmas experiências por toda a vida que outra pessoa.

Agora, o mundo atual exige que coloquemos um rótulo (isso não é uma crítica) em nossas atrações. Muitas delas conseguem ser encaixadas em certos rótulos, que são descritores de experiências e também da posição social das pessoas. Vivemos num mundo onde pessoas são ou privilegiadas ou oprimidas por isso, e esses rótulos demonstram bem isso.

O único rótulo de atração privilegiado até então é a orientação hétero. Nenhuma pessoa é oprimida pelo simples fato de ser hétero. E aqui ainda devemos fazer os devidos recortes, pois a dinâmica de pessoas cis e hétero* é bem diferente de pessoas trans/intersexo/a-espectrais e hétero.

*Obs: e aqui eu falo de pessoas que podem ser descritas apenas como hétero, que com certeza são heterossexuais e heterorromânticas, e demonstram qualquer outro tipo de atração de acordo com a ideia de hétero.

Quero fazer uma ressalva sobre pessoas hétero da comunidade LGBTQIAPN+ antes de continuar: existe uma carência enorme de conteúdo (teoria, relatos, etc) de como é a dinâmica dessas pessoas com a heteronorma e sociedade. É uma questão importante e que deveria ser mais considerada, pois esses grupos têm suas particularidades (ex: a validação da orientação de pessoas trans binárias depende da validação de seus gêneros).

Continuando, a identidade que adotamos para descrever nossa atração nem sempre é algo tão estrito quanto parece ser. Um exemplo mais prático: dois homens que se atraíram a vida toda por mulheres. Um teve uma atração exclusiva, o outro apenas uma vez na vida se atraiu por outro homem. Ambos vão se identificar como héteros. Um por se encaixar estritamente no que se entende por hétero, e o outro por não considerar uma única experiência momentânea como algo que lhe tira totalmente do que se entende por hétero. Atrações diferentes, orientações iguais. Assim funcionam as identidades, ao menos no contexto atual.

Segundo, o que se entende por hétero?

Bem, hétero é uma identidade como as demais. Porém, ao contrário delas, hétero é uma norma. Hétero é um ideal, um status de poder, e serve sistematicamente como um molde para o que seria uma orientação correta, aceitável, e possível de existir. Há pessoas que se encaixam nessa norma, e tudo bem. Isso não invalida suas experiências de vida.

E o que essa norma sempre pregou desde sua fundação? Que para ser hétero, você precisa ser homem ou mulher, deve se atrair unicamente pelo outro gênero binário, e deve ter uma atração frequente e constante.

A partir daí formou-se o molde de uma orientação normal. Ou seja, esse molde não inclui e nunca incluiu: pessoas não-binárias ou atração por pessoas não-binárias, e nem atração exclusiva pelo mesmo gênero binário, atração por mais de um gênero, atração fluida ou indefinida, e nem atração ausente/parcial/condicional/circunstancial.

Heterossexismo engloba toda discriminação contra orientações não-hétero e pessoas heterodissidentes. Por isso que monossexismo e alossexismo, embora sejam sistemas próprios, ainda estão dentro do heterossexismo e são outras facetas dele. Por isso que toda discriminação contra qualquer orientação não-hétero devido a alguma característica legítima (uma atração exclusiva por um gênero não-binário, uma atração por personalidade, uma atração influenciada por neurodivergência, etc) são apenas reproduções de heterossexismo (e possivelmente outras opressões), mesmo quando não se está pregando a orientação hétero como normal.

Vamos retomar o conceito de alinhamento de gênero. Esse conceito foi formulado na anglosfera para se falar de uma proximidade de pessoas não-binárias com determinado gênero, sem que elas sejam desse gênero. Essa proximidade se refere a experiências. É muito comum haver pessoas não-binárias alinhadas a um ou ambos gêneros binários; afinal, para muita gente, são as maiores referências (lembrem-se que vivemos num mundo binarista). Ser alinhade a homem e/ou mulher não é ser desses gêneros, e não necessariamente ser: de uma identidade próxima ou relacionada, e/ou ter uma aparência social típica desses gêneros. Ponto.

E o que pessoas no meio virtual brasileiro estão entendendo por “alinhade a homem/mulher ou masculino/feminino” (não sei até que ponto foi desinformação ou uma distorção proposital do conceito) é “pessoa lida como homem/mulher”. E, dentro desse pensamento, é totalmente aceitável ler todas as pessoas não-binárias como de um gênero binário que te atrai, continuar com determinada identidade, e se relacionar com essas pessoas. O nome disso é reducionismo de gênero, aliás.

Você se atrair pelo que leu da pessoa não é a mesma coisa que se atrair se baseando na identidade de gênero dela. Sinceramente, é muito bizarro como essa ideia de “atração por leitura” (que, aliás, é retórica de feminismo radical) se espalhou na comunidade não-binária brasileira com tanta tranquilidade. Até então muita gente estava pregando que é errado pessoas hétero, gays e lésbicas se atraírem por pessoas trans binárias por as lerem como do gênero designado (e isso inclui pessoas pré-transição ou que não desejam transicionar), ou se relacionar com elas por esse motivo e permanecerem nessas identidades. Por que a mesma lógica não é aplicada para pessoas não-binárias? Dois pesos, duas medidas?

Numa sociedade dominada por um sistema ocidental de sexo-gênero, somos ensinades desde sempre a separar as pessoas apenas em ou homens ou mulheres, e se baseando em aparências ou genitálias. Isso é extremamente nocivo para toda pessoa cisdissidente. Devemos combater esse sistema, desconstruir o que nos foi imposto como realidade, e ampliarmos nossas perspectivas e ideias de atração. Vamos mesmo jogar no lixo um ativismo de anos e anos em prol das pessoas trans e voltar a aceitar atração por aparências/genitálias?

Contudo, há de se considerar que a não-binaridade é muito ampla e cheia de nuances. Pensando nisso, temos uma questão particular com as identidades gay e lésbica.

As orientações gay e lésbica incluem pessoas não-binárias?

Sim, atualmente essas identidades foram flexibilizadas para tanto serem adotadas por pessoas não-binárias quanto incluir atração por gêneros não-binários similares aos binários. Ou seja, a identidade gay pode incluir gêneros similares a homem, a identidade lésbica pode incluir gêneros similares a mulher.

Essas identidades já estão fora da norma, então podem ser maleáveis. E essas identidades têm uma longa história, portanto são muito importantes para muita gente que se firmou nelas desde sempre.

A não-binaridade é muito diversa, como já foi dito. Pessoas não-binárias podem ser: parcialmente homem/mulher, periodicamente homem/mulher, de gêneros próximos ou relacionados a homem/mulher, ou mesmo de qualquer identidade e alinhadas aos gêneros binários. Portanto, dependendo do caso, há pessoas dentro dessas condições que podem ver sentido nas identidades gay e lésbica, até então pensadas para pessoas binárias. E, da mesma forma, também ver sentido em serem inclusas nessas orientações.

O que é necessário se fazer aqui, se tratando de pessoas binárias com pessoas não-binárias, é conversar e analisar a situação toda. A atração de uma parte pode incluir a outra? A outra parte se sente contemplada por tal identidade? Mesmo pessoas nas condições mencionadas anteriormente podem querer priorizar sua não-binaridade, e quem é gay ou lésbica precisa respeitar isso.

Lembrando que nem toda pessoa gay ou lésbica pode se atrair por gêneros não-binários. E não há problema nisso, pois nenhuma orientação que não inclua determinado gênero é problemática (se fosse assim, qualquer orientação mono ou a-espectral seria errada). Ou seja, ainda existem gays com atração exclusiva por homens e lésbicas com atração exclusiva por mulheres.

Ah, e mesmo gays e lésbicas com atração por pessoas não-binárias podem adotar junto outras identidades, como min e fin. Ou, dependendo da ocasião e se considerarem ideal, podem mudar para essas identidades. Cada caso é um caso, e não há uma resposta definitiva para todos os casos.

Afinal, hétero inclui ou não pessoas não-binárias?

A resposta é não. Definitivamente, não.

Hétero não é apenas uma identidade. É uma norma. Não há como flexibilizar uma norma; caso contrário, ela deixa de ser norma. Da mesma forma que não há pessoas “parcialmente cis”. Da mesma forma que não há pessoas “meio perissexo”.

Dentro de tudo que já foi dito, mesmo com toda a diversidade de pessoas não-binárias, a heteronorma não considera ou valida atrações e relações diamóricas.

Se há pessoas hétero se atraindo e se relacionando com pessoas não-binárias porque está as lendo como de tal gênero binário, isso é exorsexismo. Se hétero é o que faz sentido para elas, bom, que tenham a decência de não se relacionarem com pessoas não-binárias. Agora, se uma pessoa que até então se diz hétero tem uma atração de longa data por pessoas não-binárias, e a tem estando ciente da não-binaridade delas, essa pessoa deveria considerar que está fora da norma e que deveria assumir sua dissidência e adotar outra identidade. Não lhe faltam opções, e aqui posso citar como exemplos bi, poli, penúlti, toren e trixen.

Afinal, por que tem gente defendendo essa flexibilização? Existem razões legítimas, algum sentido nisso? Ou é apenas por conveniência (ex: a pessoa não quer terminar o namoro com hétero) e exorsexismo internalizado (“tudo bem pessoas não-binárias serem resumidas a homem/mulher”)? Não acreditem em tudo que é falado por aí. Não é porque uma pessoa não-binária está defendendo tal ideia que ela esteja certa. E as comunidades trans e não-binária estão muito impregnadas de ideias cissexistas (incluindo retórica radfem).

E outra coisa, essa ideia entra numa grande e perigosa contradição. Até então muita gente da comunidade LGBTQIAPN+ defende que pessoas perissexo-cisgênero-hétero* não fazem parte dela, e que podem ser apenas aliadas. Muito bem, faz sentido. Agora, se insistirmos em incluir pessoas não-binárias nessa orientação, caímos no seguinte abismo lógico: ou assumimos que hétero ainda é uma identidade privilegiada e com isso dizemos que atração não-binária não tem relevância alguma, ou que então essus héteros atraídes por pessoas não-binárias também podem ser alvo de discriminação e portanto têm lugar na comunidade. E aí? Como fica essa questão? Quem está disposte a admitir que é exorsexista ou aceitar héteros* como parte da comunidade?

Creio que está na hora de pararmos de tentar se encaixar na norma ou fazer malabarismos nocivos pra chamar a norma de nossa, e começarmos a nos posicionarmos contra ela. Afinal, a norma nunca esteve e nunca estará ao nosso favor.

Um grande texto sobre termos, expressões, atitudes e conceitos capacitistas

Aviso de conteúdo: listagem e menções de muitas terminologias, ideias e ações capacitistas em todos os graus.

Capacitismo engloba toda opressão e discriminação cometidas contra pessoas com deficiência (PCDs) e neurodivergentes (NDs). Esses dois grupos têm um longo histórico de serem associados com características negativas – e isso está muito bem expresso na quantidade de palavras que usamos para xingar ou descrever coisas ridículas, absurdas, etc.

Quando se fala em palavras, sempre há pessoas para protestar, mostrando resistência em rever seu vocabulário. Porém, não podemos ignorar que a grande maioria das palavras usadas constantemente para atacar e criticar tem algum viés capacitista.

Ressignificação – que é dar um valor positivo à palavra, e não apenas retirar sua conotação negativa por conveniência – é um ato válido. Mas aqui só pessoas com deficiência e neurodivergentes poderiam ressignificar alguma coisa. Falando por experiência, só vi gente neurotípica ou que aparentemente não se afeta com essa questão defendendo a continuação do uso de vocabulários capacitistas, o que me parece mais uma desculpa para não largar um hábito.

Esse texto, como o próprio título diz, tem a intenção de apontar termos, expressões e atitudes que cometem e reforçam capacitismo num geral. Aqui explico o motivo do por que cada coisa listada tem um viés capacitista, e também sugiro alternativas melhores. Não quero me ater ao que é mais grave ou mais leve, e acredito que as explicações podem deixar isso evidente. Meu foco aqui é no capacitismo em si apenas.

Ressalto que não estou dizendo que pessoas que dizem e fazem essas coisas são ruins, pois tudo isso é naturalizado e capacitismo não é nada discutido na sociedade. Agora, no momento em que lerem o conteúdo daqui, não haverá mais a desculpa da ignorância. Fica na consciência de cada ume.

  • Termos

A maioria dos termos capacitistas define estados ou condições referentes à saúde mental ou desenvolvimento das funções mentais.

As palavras louque e insane, assim como os sinônimos maluque e doide, foram desde sempre palavras usadas para descrever pessoas com pensamentos ilógicos, perturbações, ou sofrendo de delírios e alucinações. Psicose é um termo médico e mais preciso. Portanto nenhuma dessas palavras é recomendada.

E aqui já aproveito para não recomendar delírio/delirante ou alucinação/alucinante como descritores de situações incomuns, extraordinárias, e similares. Condições clínicas não descrevem a realidade ou improbabilidades.

Lunátique é algo usado para falar de alguém que divaga, que sai da realidade, que fica fantasiando ou “sonhando acordade”. Essas situações remetem facilmente a alucinações e delírios, e também a devaneios excessivos, assim como atitudes presentes em casos de esquizofrenia, mania, e depressão psicótica.

Casos de oligofrenia, que é um termo amplo que caracteriza graus diferentes de dificuldades cognitivas e intelectuais, são também usados como ofensas frequentes; o que inclui: débil, imbecil, idiota, e retardade. Constantemente estúpide é usado como sinônimo dessas palavras. Outra palavra que pode ser citada aqui é babaca, que também tem sua origem como um termo vulgar para a genitália vaginal.

Cretine descreve a condição de cretinismo, que é a baixa atividade congênita da tireoide. Esse hipotireoidismo interfere no desenvolvimento físico e mental da pessoa.

Maníaque define alguém num estado de humor extremamente elevado (seja eufórico ou irritável), não qualquer criminose, perseguidore, etc. Assim como a mania não é apenas um comportamento repetitivo.

Mongol não é apenas capacitista, como também é racista. Primeiro, por se referir a pessoas da Mongólia num contexto de depreciação, não de etnia. Segundo, por ter sido usado para associar características físicas de pessoas com síndrome de Down a etnias do leste asiático e ameríndias, que, dentro de um pensamento eugenista, colocava todos esses grupos como uma raça inferior. Mongol pode ser usado para se referir a pessoas da etnia e só.

Histérique não é apenas capacitista, como também é misógino. A histeria foi fundada na ideia de que mulheres que não aceitavam os papeis sociais impostos (portanto, sua “condição de mulher”) sofriam desse distúrbio – pois, hipoteticamente, tinha alguma relação com o útero. Isso inclui reações de insatisfação e revolta, vistas como “excesso de emoção”.

Demente é a condição daquelu que desenvolve diminuição da capacidade de raciocínio e memória, algo que pode ocorrer na fase de velhice ou por causa de doenças neurológicas degenerativas.

Anencéfale é um bebê com subdesenvolvimento do cérebro e do crânio. Além do capacitismo, é muito insensível usar de uma condição que resulta em morte de bebês.

E claro que tudo isso também se aplica aos substantivos derivados desses adjetivos: loucura, insanidade, maluquice, doideira, idiotice, imbecilidade, estupidez, etc. E outras derivações óbvias ou que remetem a outros estigmas, como as terminações -tardade, -loide, -pata.

Algumas palavras capacitistas que se referem a condições físicas costumam remeter a coisas incompletas, imperfeitas, dispensáveis, e similares. Capenga é um sinônimo de uma pessoa manca, com alguma dificuldade motora nas pernas. Deformade, que descreve condições estéticas ou anatômicas incomuns (muitas vezes consideradas feias ou indesejáveis), é outro exemplo.

Pra finalizar, temos as fobias. No âmbito psicológico, fobias são quadros clínicos de medo e aversão irracionais e sem uma causa aparente, que geram, entre outras coisas, ataques de pânico e ansiedade nas pessoas. Mundialmente se usam palavras com sufixo -fobia para descrever ações e sentimentos opressives e discriminações. Isso não deixa de ser uma forma de associar ódio e intolerância às neurodivergências, aos estados mentais diversos. O próprio termo homofobia foi cunhado intencionalmente para ser ligado com as fobias clínicas. Alternativas sugeridas incluem os nomes dos sistemas opressivos (heterossexismo, cissexismo, etc) ou substituir o sufixo por –misia.

Posso estar esquecendo alguns termos, mas acredito que até aqui é possível desenvolver um senso crítico sobre o que torna uma palavra capacitista. Na dúvida, recomendo uma busca sobre sua origem e/ou seus sinônimos.

  • Expressões

Existem também algumas expressões que envolvem condições físicas ou mentais para descreverem ou sendo associadas a coisas que não são relacionadas a esses aspectos.

Cegue de [insira emoção/sentimento]. Uma expressão um tanto comum. Mas cegueira é uma condição física, não emocional de qualquer forma. O mesmo vale para louque e qualquer outra palavra mencionada.

Algumas neurodivergências são usadas para descreverem estados emocionais e sentimentos totalmente fora do âmbito clínico. Depressão não se resume a tristeza ou desânimo, muito menos quando são momentânies. Bipolaridade não é apenas uma mudança de humor, ou sentimentos conflituosos/contraditórios com alguma coisa. Ansiedade não é uma expectativa, nem a emoção de estar esperando por um acontecimento. Multiplicidade (antes conhecida como “múltiplas personalidades”) não retrata mudanças súbitas ou rápidas de pensamento, ou conversas internas que podemos ter numa autorreflexão ou introspecção. Narcisismo não define uma pessoa que é apenas vaidosa, convencida, ou que valoriza muito sua imagem. Paranoia não é apenas um estado de suspeita (mesmo que seja exagerada ou infundada). TOC não é apenas a mera preferência por coisas ordenadas ou padronizadas, ou alguns comportamentos aleatórios repetitivos/do cotidiano.

Trauma acabou sendo uma palavra banalizada e usada para definir apenas memórias de situações ruins. Um trauma envolve muito estresse, dificuldade de lidar com um ocorrido, e crises emocionais.

“Virar um hospício” retrata lugares bagunçados, sem ordem, ou também com pessoas estressadas ou irresponsáveis ou similares. Além da péssima associação, hospícios são e sempre foram basicamente prisões e matadouros para pessoas neurodivergentes e aquelas rotuladas como tal para assim serem descartadas do meio social.

Outras expressões acabam caindo em ideias equivocadas ou mesmo em desumanização.

A expressão surde-mude é muito equivocada. Dizer que pessoas surdas são automaticamente mudas é muito incoerente, pois muitas podem desenvolver a oralidade. A ideia de mudez também implica uma ausência de comunicação, e língua de sinais existe pra isso.

Cadeirante ainda é um termo usado por aí. Não é adequado para falar de pessoas que utilizam cadeira de rodas por dois motivos básicos: por reduzir as pessoas a uma cadeira, e porque pessoas com deficiências físicas e motoras podem fazer uso de outros recursos além da cadeira.

Pessoas especiais ou pessoas com necessidades é uma expressão de eufemismo para PCDs e NDs num geral, embora costuma se referir muito a pessoas com dificuldades cognitivas ou motoras. Acaba sendo uma forma de infantilizar esses grupos, e colocá-los como pessoas incapazes (necessitam sempre de ajuda, sem qualquer autonomia).

  • Atitudes

Atitudes capacitistas, além de dizer tudo que foi listado acima, incluem ações mais “evidentes” como estereotipar ou retratar PCDs e NDs como caricaturas, instrumentalizar esses grupos pra defender argumentos e ou falar por eles, e tratar as pessoas como se precisassem sempre de ajuda ou como se fossem menos capazes de tudo.

Outras ações menos evidentes, e que envolvem características ou elementos presentes na vida de PCDs e NDs, incluem:

– fazer piadas com gestos e expressões faciais usades em línguas de sinais;

– zombar de gatilhos alheios ou usar a ideia de gatilho como piada e deboche;

– criticar ou debochar de interesses especiais, hiperfocos, ou assuntos sobre os quais alguém fala muito;

– falar sobre “idade mental”, relacionar coisas a isso, e criticar ou debochar de pessoas por não terem amizades ou contatos;

– exigir das pessoas certas características sociais e emocionais exaltadas como qualidades, como no caso de sociabilidade e empatia;

– exigir das pessoas compreensão total ou imediata de linguagem figurada, informações vagas, coisas subliminares ou sugestivas, e ironias e sarcasmos;

– e exigir das pessoas que falem ou se expressem de determinadas maneiras, geralmente consideradas mais “fáceis” ou “acessíveis” a uma maioria.

Outras coisas incluem “memes” e chacotas usades com frequência, como “ur dur” e imitação de “vozes de gente [insira termo capacitista]”, “probleminha na cabeça”, “tomar remédios/[insira qualquer medicamento psicotrópico]”, “fonte: vozes da minha cabeça”, escrever alternando entre letras maiúsculas e minúsculas, e imagens de pessoas ou personagens com expressões faciais tortas e/ou gestos disformes.

Uma atitude agressiva e estressante com pessoas NDs é quando ficam questionando o diagnóstico delas, perguntando por detalhes como sintomas ou “graus” (que são em si questionáveis), tudo a fim de validar o que são ou acreditar que elas são o que afirmam ser, e ficar comparando com pessoas com o mesmo diagnóstico que parecem “sofrer mais/de verdade”.

A simples falta de acessibilidade, ou o quanto acessibilidade não é considerada para tudo, pode estar aqui também.

Muitas construções e arquiteturas não são planejadas com rampas e/ou recursos táteis. Muitas palestras não pensam na possibilidade de ume tradutore de língua de sinais. Muitos símbolos e caracteres especiais não são lidos em leitores de tela. Emojis são lidos da forma como são escritos, o que pode ser desagradável numa postagem repleta de emojis (ainda mais em sequência). Muitas postagens visuais são feitas sem considerar pessoas com baixa visão e certas neurodivergências – e aqui falo de fonte e tamanho das letras, das cores usadas, e outros detalhes. Muitos vídeos não possuem ao menos uma legenda. Muitas imagens não são descritas; o que, às vezes, é culpa da própria plataforma, mas há meios de contornar isso. Muitos conteúdos não se prestam a colocar avisos de conteúdo/gatilho quando são necessários. Isso tudo são coisas a se pensar.

Tratar acessibilidade como um favor ou um anexo à “normalidade” é puro capacitismo.

  • Conceitos

Existem conceitos problemáticos que envolvem capacitismo e outras opressões, mas que acabaram sendo normalizados pela sociedade como aceitáveis e inquestionáveis, por mais que possam ser subjetivos, por mais que sejam furados ou mesmo obsoletos. Seguem abaixo três grandes exemplos.

  1. Inteligência

Um conceito questionável. Muitas vezes pessoas são consideradas inteligentes por demonstrarem dois aspectos: terem raciocínio lógico rápido e serem bem informadas sobre diversos assuntos. Há teorias sobre possuirmos “tipos de inteligências”, que descrevem bem aptidões relevantes (ter noção de espaço físico, saber identificar frequências de som, fazer autorreflexão, etc).

No entanto, o conceito de inteligência foi fundado numa teoria eugenista de que havia uma raça superior – logo, inteligente; e que o resto era inferior. Por muito tempo também, homens foram representações e portadores da inteligência enquanto dominavam o saber, a academia, e toda produção de conhecimento. E, por fim, considerando o quanto inteligência é medida ou julgada com base em informações ou conhecimentos prévies (e aqui está inclusa a própria alfabetização), é bem evidente que acaba sendo inacessível para determinadas classes socioeconômicas e grupos marginalizados.

Focando agora na subjetividade, a ideia do que seria inteligência está mais para uma construção social que muda de cultura em cultura e de tempos em tempos do que algo concreto, algo universal e atemporal. Muitas pessoas interpretam inteligência de várias formas. Dicionários acabam dando definições variadas, combinando com habilidades comuns a muita gente. Tais habilidades podem ser influenciadas por outros fatores (a falta de sono, uso de medicamentos, etc). Os famosos testes de Q.I., ainda superestimados, são testes muito padronizados que não contemplam muitas pessoas. Enfim, não é um conceito realmente bem construído.

Inteligência é algo constantemente mencionado em discussões sobre ética e direitos de pessoas com deficiência, como se fosse um fator que de alguma determina o valor de alguém numa sociedade. De fato, isso acontece; pessoas consideradas inteligentes são muito valorizadas, colocadas como desejáveis e exemplos a ser seguidos. Tudo isso alimenta um estigma imenso contra pessoas com dificuldades cognitivas, colocando-as como menos capazes de serem “pessoas comuns” pela “falta de inteligência”, como pessoas que sempre dependerão de alguém “mais capaz”, como falhas e fardos na sociedade.

E, além disso, inteligência é até hoje usada como uma prova da superioridade des humanes sobre as demais espécies. Já foi também usada como defesa da integridade de algumas espécies, e também como critério para determinar quais espécies podem ser consideradas “indivíduos” (como macaques e golfinhos).

Está na hora de revermos nossas ideias sobre as capacidades mentais, e talvez formular um conceito que não seja problemático e que englobe devidamente a neurodiversidade.

  1. Psicopatia

Existe uma grande ideia no imaginário coletivo sobre o que seria ume psicopata. O que vem na cabeça costuma ser alguém com tendências assassinas, sádica, misantrópica, isolada, egoísta, e similares.

O termo costuma ser usado para descrever o que seria pessoas com o diagnóstico de “desordem de personalidade antissocial”. Pois é, psicopatia sequer é um diagnóstico ou está incluída em catálogos de saúde mental. Mas o ponto não é esse, e nem quero ficar dando crédito a tais catálogos.

Esse diagnóstico é muito definido pela falta de complacência – a inclinação a concordar com as pessoas e obedecer regras e códigos de conduta. E tal exigência sempre pesou e desfavoreceu muito mais grupos marginalizados pelo próprio sistema, em especial pessoas pobres, racializadas, com deficiência e neurodivergentes. Complacência é muito mais um mecanismo de modelar e controlar os comportamentos a favor de um sistema do que uma qualidade concreta e necessária na vida humana. E é muito fácil rotular pessoas desses grupos com esse e outros diagnósticos.

Tudo isso implica que muitas pessoas são apenas taxadas de “psicopatas” para a conveniência de um sistema que as exclui, e isso não apenas recai naquelus com deficiência ou neurodivergência, mas também em outras camadas sociais também marginalizadas, em situações de desigualdade. É essa carga que traz o termo psicopata do mundo das ideias até o mundo material.

  1. Empatia

Vou começar dizendo que empatia existe e há pessoas que a sentem. O real problema é o quanto associam essa característica como algo inteiramente benéfico e imprescindível para que uma pessoa seja realmente boa, decente, etc. O que é a empatia? É apenas a habilidade de entender e deduzir emoções alheias, resumidamente falando.

O fato de você entender e deduzir emoções não te pré-dispõe a se importar com essas emoções, não te confere a capacidade de amar e gostar de alguém ou algo, e não é algo necessário para compreender conceitos como injustiça e opressão. É bobagem ficar atribuindo preconceito e ódio a coisas inerentemente causadas por falta de empatia, sendo que muitas dessas pessoas vão demonstrar alguma empatia com suas famílias e amizades, e mais quem for considerade “normal” para elas. Empatia pode ser seletiva.

Agora, vamos considerar que existem neurodivergências que afetam a capacidade de ter empatia, como alguns casos de autismo. E que pessoas, por exemplo, sobreviventes de abuso podem desenvolver traumas que também interferem na empatia. Considerando que fatores intrínsecos ou externos podem também definir a capacidade ou não de ter empatia, deveríamos rever nossa concepção disso para não cairmos em pensamentos deterministas de que “algumas pessoas já nascem defeituosas ou más”, algo que não condiz com a realidade e complexidade humana.

E não sentir empatia por alguém não te impede de entender que discriminação pode lhe causar mal, que pessoas sofrem ou sentem dor, nem de comemorar a felicidade de alguém, ou de fazer coisas que façam bem às pessoas. E não é por um acaso que profissões da saúde exigem pouca empatia, ou mesmo que pessoas reprimam a empatia, para assim poder lidar emocionalmente melhor com toda a carga que essas áreas trazem.

Enfim, o que estou dizendo é que a empatia é uma característica relativa, pode ser desenvolvida ou reprimida, e não é em si algo capacitista. O que é capacitista é a ideia social que gira em torno dela, essa noção toda de altruísmo e moralidade que lhe jogam, e que não cabe nela como pensamos ou fantasiamos.

  • Alternativas

Bem, com todas as explicações dadas, acredito que há alternativas que sejam intuitivas ou possíveis de serem pensadas. Mesmo assim, entendo que todas as palavras e expressões mencionadas são usadas para diversas finalidades, até mesmo de forma positiva.

Por isso deixarei logo abaixo listas de algumas palavras de acordo com uma finalidade. Algumas podem ser usadas pra outra finalidade dependendo do contexto.

– Palavras que descrevem coisas ou pessoas em contextos negativos variados: deplorável, escrote, extremista, imature, insensate, insignificante, irresponsável, radical, ridícule, vergonhose.

– Palavras que descrevem coisas ou situações que saem do senso comum: absurde, disparatade, fantástique, imprevisível, imprudente, inacreditável, incomum, incrível, inesperade, mirabolante.

– Palavras que descrevem pessoas com pouco conhecimento ou que não entendem a realidade: alienade, bobe, desinformade, ignorante, néscie, obtuse, simplórie, tole.

– Palavras que descrevem pessoas ou ideias sem sentido ou coerência: confuse, ilógique, incoerente, inconstante, indecise.

– Expressões que descrevem emoções e sentimentos em excesso ou desmedides: perdide (de…), movide (por…), cheie (de…), (…) imensamente/de forma demasiada.

Enfim, creio que coloquei exemplos suficientes. Para mais exemplos, recomendo um dicionário ou pesquisa.

Entendo que muitas dessas coisas acabam sendo ditas ou feitas sem intenção, passam despercebidas, enfim. O que todes nós podemos fazer é nos policiarmos, cortarmos essas palavras e ações do nosso cotidiano, repensar e procurar alternativas. Isso exige esforço e tempo. Capacitismo é muito enraizado, e por isso precisamos refletir sobre a extensão dele e o quanto o praticamos. Incluam as pessoas, excluam o capacitismo.

Links adicionais:

Sobre deslizamentos semânticos e as contribuições das teorias de gênero para uma nova abordagem do conceito de deficiência intelectual

Wikipédia – Oligofrenia (pode conter informações obsoletas)

Medium – “Precisamos falar sobre Capacitismo”

Amplifi.casa – Algumas dicas básicas sobre evitar vocabulário e retórica capacitista

Colorides – capacitismo, lembrete, interesses especiais

Racismo: Por que “mongol” se tornou um termo pejorativo, como sinônimo de Síndrome de Down

Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas

Autistic Hoya – Capacitismo/Linguagem (conteúdo em inglês)

Inteligência é um conceito capacitista (conteúdo em inglês)

ANDES-SN debate capacitismo nas instituições de ensino

Por que o termo ‘psicopata’ é racista e capacitista (conteúdo em inglês)

Empatia é a pior base possível para moralidade (conteúdo em inglês)

Qual a diferença entre empatia, piedade e compaixão (conteúdo em inglês)