Neolinguagem: pensamentos sobre as neoflexões

Utilizarei aqui o termo neoflexão para me referir a toda nova flexão de gênero que não esteja prevista dentro da língua padrão.

Como foi explicado na página sobre neolinguagem, a proposta não é perfeita. Quando destrinchamos as infinitas possibilidades que ela abre, nos deparamos com nuances que mostram opções e também limitações e questões sem uma resposta.

Embora quase tudo que for colocado aqui ainda se encontra num campo muito hipotético, o que pode ser usado para desconsiderar tal discussão, o fato de que essa proposta e seus horizontes ainda estarem muito na teoria nos dá uma liberdade maior de expandir as ideias, mesmo que fiquem para um futuro distante ou mesmo que nem venham a ser aplicadas.

1- Casos em que a neoflexão –e pode não ser suficiente

Apesar de –e ser uma neoflexão muito aderida e muito provavelmente será a oficializada, ela sozinha não garante uma neutralidade real e absoluta para todas as palavras e situações.

Há uma quantidade considerável de palavras que não evidencia um determinado gênero só por uma letra ou mesmo sílaba em seu final, mas também pela pronúncia de uma parte da palavra.

Vejamos os seguintes exemplos:

Sogro / Sogra

Curioso / Curiosa

Novo / Nova

Apenas na escrita podemos reparar na mudança de flexão. Só se muda uma letra. Agora, lendo as palavras, percebemos que a letra que antecede à desinência de gênero também possui sons diferentes. Em palavras flexionadas com –o, seu tom é fechado (ô). Em palavras flexionadas com –a, seu tom é aberto (ó). No plural das palavras flexionadas com –o, quase sempre o tom é aberto.

Então vamos à questão principal aqui: colocar apenas –e no fim dessas palavras realmente as torna “neutras”? Isso é suficiente? Isso rompe mesmo com o binarismo presente em nossa língua? São apenas reflexões.

Talvez haja pessoas que não se importem e optem por um tom de o, ou mesmo alternem entre ambos os sons. Mas é possível que a sonoridade da letra, que continua tendo em si uma carga de gênero binário, possa incomodar ou não deixar todas as pessoas satisfeitas.

Como resolver isso, sendo que só conseguimos pronunciar esses dois tons da letra o?

Uma solução possível seria a letra u, que é muito próxima de o e possui só um tom.

Então, talvez, poderíamos propor para palavras terminadas em “o tonalizado” + consoante(s) + e a alternativa u-(x)-e. Então teríamos nesses casos: sugre, curiuse, nuve. Entendo que possam soar estranhas, mas toda novidade soará assim. Entendo também que essa proposta não seja para logo, pois no momento o mais prático é ensinar alternativas mais fáceis de se lembrar e praticar.

Um par de palavras que evidencia a sonoridade com acentos é avô e avó. Indo pela lógica aplicada aqui, uma alternativa possível para esse par seria avu; muito embora avo, mudando o som átono de a e dando uma segunda função a essa palavra no plural (pois avos é uma descrição numérica de frações), possa ser uma opção válida.

Melhor do que impor uma única opção alternativa é abrir possibilidades. Embora avô-avó tenham um peso social maior, as demais palavras deveriam estar abertas aos gostos de sues falantes e usuáries. Seja pronunciando um tom, ambos os tons de o, ou usando u.

Pode haver casos em que as pessoas vão preferir um som de o para não se confundir com outra palavra, como em morte (no caso, adjetivo alternativo de morto/morta) ou o próprio exemplo do número nove.

2- Mais de uma proposta de neoflexões neutras universais

Tratando-se de propostas de alternativas de flexões, há pouquíssimas opções propostas. As alternativas ensinadas aqui no blogue são em sua maioria as mesmas que têm maior aderência por todes que optam por uma neolinguagem inclusiva (digo isso por experiência e pesquisa nos meios virtuais).

No caso do par –ão e –ã, a alternativa mais comum e aceita é –ane quando se trata da neoflexão neutra. Porém, não deveria ser proibido ou barrado o uso de –ãe, por mais que muites achem estranho o som de irmãe ou capitãe. Inclusive, eu mesme havia pensado em adotar essa neoflexão como neutra universal. Acabei optando pela outra mais por causa de sua aderência maior nos espaços virtuais.

Ocasionalmente vejo por aí pessoas sugerindo a neoflexão –us em vez de –ies, no caso de palavras em que o plural “masculino” é –es. No entanto, vejo pouquíssima gente a usando, e parece que “trabalhadorus” e “professorus” não soam nada agradável para uma maioria. De novo, nada deveria ser impedido. Porém, não confio que essa neoflexão passará adiante.

Embora um assunto pouco discutido, as flexões –eu e –eia também possuem mais de uma proposta. Aqui propus –ei. Em outros lugares é possível achar –eie. Qual é a mais aderida? Sinceramente, nem sei, pois quase nem vejo essas flexões sendo faladas por aí. Tópicos deixados assim em aberto também são um problema.

3- Muitas opções de neoflexões individuais

E aqui entramos num território mais complicado: linguagens individuais.

Está certo que a grande maioria das pessoas que usam neolinguagem pra si usa exclusivamente a neoflexão –e, que também é praticamente aceita como “neutra universal”. Ela funciona muito bem e sua aderência é muito positiva.

Agora, considerando que outras pessoas queiram usar para si outras neoflexões, temos algumas complicações. Por enquanto vou focar nas vogais e semivogais. Além de O, A, E, temos também I e U; e também Y e W. Na página sobre neolinguagem tem as regras de mudanças pensando na neoflexão –e. Vou usá-las como parâmetros.

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –i.

  • –go/–ga, alternativa –gui.
  • –co/–ca, alternativa –qui.
  • –ão/–ã, alternativa –ani.

Até aqui essas terminações funcionam igual a com neoflexão –e. Mas então chegamos às divergências:

  • –eo/–ea: alternativa com –i? Teríamos então gêmi, contemparâni?
  • –e/–a: alternativa com –i? Teríamos então parenti, presidenti?
  • –eu/–eia: alternativa com –ei? Igual –e?

Supondo que uma pessoa queira usar a neoflexão –u.

  • –go/–ga, alternativa –gu.
  • –co/–ca, alternativa –cu.

Até aqui, possível. Mas então chegamos às divergências:

  • –ão/–ã, alternativa com –ãu?
  • –eo/–ea: alternativa com –eu? Teríamos então gêmeu, contemparâneu?

Bem, até aqui parece funcionar bem, pois a estrutura é como a do gênero gramatical masculino, apenas trocando o por u. E quanto a esses casos abaixo?

  • –e/–a: alternativa com –u? Teríamos então parentu, presidentu?
  • –eu/–eia: alternativa com…?

As questões que seriam geradas pelo uso de Y e W são praticamente as mesmas de I e U, respectivamente, apenas mudando as letras finais.

Concluindo, tudo que foi colocado aqui só reforça que precisamos discutir mais a fundo sobre a neolinguagem, tanto para formular uma proposta de neutralidade padrão quanto considerar outras possibilidades. Estamos expandindo a língua de uma forma que até então nem havia sido pensada ou ao menos exposta dessa maneira. Até lá, essas questões continuam sem respostas.

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