Vamos falar dos direitos dos homens

Aviso de conteúdo: misoginia, menciona violências e suicídio, referências às realidades de muitos grupos marginalizados, contém links externos.

Homens têm direitos? Homens têm privilégios? Homens são oprimidos? Homens necessitam lutar por direitos?

Parecem perguntas ridículas. Ao menos para muitas feministas e pessoas de um ou mais grupos marginalizados. Mas peço que não as vejam dessa forma. Não existem perguntas ridículas, e são perguntas mais interessantes do que aparentam ser.

Faz um tempo que vi um vídeo de uma conversa entre uma feminista e um “ativista dos direitos dos homens”. Decidi ver o vídeo, achando que ele proporcionaria mais momentos de raiva ou escárnio que qualquer outra coisa. Bem, até teve isso. Mas decidi analisar com mais calma tudo aquilo. E então tive a ideia de escrever esse texto. Diretos dos homens.

Uma retrospectiva da História antes. Revolução Francesa, um período que durou de 1789 a 1799. Tendo inspirações no pensamento iluminista, formulou-se um documento que decretava os direitos individuais e coletivos “dos homens”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um marco importante na história dos direitos humanos. Inclusive, esse documento foi base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Muites dizem por aí que a palavra “homem” se referia ao ser humano como um todo. Mas, porém, entretanto, contudo… na prática, a Declaração apenas servia aos homens mesmo, enquanto as mulheres foram esquecidas dos ilustres princípios de liberdade, igualdade e brotheragem… ops, digo, fraternidade. Tanto que, um tempo depois, formulou-se a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; que foi rejeitada pela Convenção francesa. Mulheres exigindo os mesmos direitos que os homens ainda era algo inconcebível naquela época de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Na segunda onda do feminismo, década de 1960, surgiu o feminismo radical, que trouxe uma série de discussões sobre patriarcado e a origem da opressão das mulheres – que, segundo a vertente, está na existência do gênero dentro dos moldes patriarcais que conhecemos. Não vou discutir sobre o feminismo radical aqui. Vou puxar justamente a ideia do patriarcado.

A ideia de patriarcado surgiu para explicar, a princípio, como funciona a opressão dos homens sobre as mulheres. Os homens são um grupo antagônico e que possuem privilégios, enquanto mulheres são o grupo oprimido. E essa visão dicotômica já um pouco ultrapassada de “homem, privilégio; mulher, opressão” perdura até hoje.

Não é de se estranhar que vários homens, e aqui incluo reaças e antifeministas, já pontuaram várias vezes as “generalizações” que feministas fazem de homens. Não apenas discursos colocando homens como um grupo todo privilegiado, mas afirmações mais controversas como “todo homem é um estuprador em potencial”, e ideias que reafirmam alguma maldade inerente ao gênero homem.

Os feminismos trouxeram uma abertura importante para homens poderem falar de si também e dos efeitos negativos do patriarcado sobre eles. Por isso é possível encontrar grupos e espaços de homens feministas/pró-feminismo/antipatriarcado – e aqui acho válido citar o movimento Homens Libertem-Se e o saite Papo de Homem. Além disso, os feminismos trouxeram o que todo movimento social traz no mundo atual: reacionarismo. Principalmente de grupos alinhados ao direitismo e conservadorismo. Grupos antifeministas são sempre desse espectro político, muito embora antifeminismo possa existir até mesmo em grupos (ditos) progressistas e revolucionários.

Outro fenômeno que surgiu com tudo isso e o avanço da Internet foi o masculinismo, que possui diversos significados (às vezes positivos, às vezes negativos), mas aqui focarei num principal ponto: masculinistas são homens buscando lutar por “seus direitos”. Há grupos e grupos, como aqueles que reivindicam tópicos específicos – como a quebra de estereótipos nocivos ou a abolição do alistamento militar obrigatório, e aqueles que buscam “igualdade” com as mulheres em certas situações sem ter o mínimo de senso crítico ou mesmo atribuindo culpas às mulheres que as mesmas sequer têm. E, infelizmente, foram esses últimos grupos, essencialmente antifeministas, que culminaram nos ditos movimentos pelos direitos dos homens.

O que são os movimentos de direitos dos homens? Bem, são apenas isso. Movimentos pelos direitos dos homens. E o que os movimentos em prol dos direitos dos homens afirmam? Resumidamente que a classe homem tornou-se a mais oprimida ou negligenciada em detrimento da classe mulher, e que, por isso, busca reunir os homens para lutar contra isso. Os homens desses movimentos afirmam sofrer opressões, inclusive, das próprias mulheres e da sociedade atual (que agora “favorece mais as mulheres”).

Afinal, que opressões são essas que esses homens estão dizendo por aí que sofrem? Bem, num geral, são praticamente as mesmas pontuações misturadas com diversas falácias, dados falsos/duvidosos, e premissas equivocadas/distorcidas. Acredito que posso resumi-las em: cobranças sociais, taxas de expectativa de vida e suicídio, funções e direitos paternais, liberdade de expressão, e discursos generalistas negativos. Muito bem, vou falar de cada item.

As cobranças sociais. Sim, são um grande problema mesmo. E estão envolvidas nas taxas de violência e suicídio dos homens. Não é por um acaso que estão surgindo grupos de apoio de homens formados para discutir a masculinidade tóxica. Porque essas cobranças têm uma relação íntima com esse conceito. E para quem conhece a masculinidade tóxica sabe que ela é um produto do patriarcado. Mulheres podem ser sustentadoras disso tanto quanto qualquer outra pessoa, e isso não apaga o fato de que elas continuam presentes em estatísticas de violência doméstica, estupro, e feminicídio; e nem o fato de que o grupo atuante que predomina nessas estatísticas são homens.

Acontece que vejo tentativas desses movimentos em jogar a culpa das cobranças sociais na conta das mulheres, o que é, no mínimo, absurdamente desonesto. Até parece que foram as mulheres que sempre estiveram no comando da lei, religião e ciência, e criaram uma série de normas sobre ser homem e ser mulher.

As taxas. Sim, precisamos urgentemente falar delas. Realmente, homens morrem mais e se suicidam mais. Pois são outras consequências das cobranças sociais, da masculinidade tóxica, do molde nocivo que o patriarcado constrói e impõe aos homens. Apesar de ainda haver pouca visibilidade nessas questões, existem estudos e preocupações com esses fenômenos. Homens precisam urgentemente discutir sobre sentimentos e masculinidades. E isso precisa obrigatoriamente levar em conta fatores interseccionais, como raça e modalidade de gênero, visto que existem altos índices de suicídio entre homens negros e homens trans. E discutir essas questões indo nas verdadeiras raízes, nas reais causas das violências com homens e entre homens.

Não encontrei em minhas pesquisas quaisquer respostas ou ações efetivas dos tais movimentos dos homens sobre essas questões, que já são bem neglicenciadas.

Paternidade. Vamos lá, tópico polêmico. Nossa sociedade prega um modelo tradicional de família que coloca o pai como provedor e a mãe como cuidadora. Embora ambes possam participar na criação, é socialmente aceito, quase num acordo invisível, de que a criação des filhes é responsabilidade da mãe. Isso sobrecarrega qualquer pessoa, ainda mais num lar onde ambas figuras têm empregos. E com certeza deve influenciar em decisões jurídicas de guarda. Se existe uma preocupação legítima com a paternidade, os homens deveriam então focar em dividir as tarefas domésticas e de criação. Em relação aos direitos dos homens nessa questão da paternidade, já existem esses direitos (ao menos no Brasil). Não vou ficar pesquisando sobre os outros países do mundo, mas caso não haja esses direitos em algum país, esses homens precisam se mobilizar por isso sim. Sobre guarda, bom, cada caso é um caso, não sou especialista e nem juíze. Mas já existem mecanismos atuando em prol dos homens. Por isso, sim, exijam seus direitos, pois já são garantidos. E se ainda assim algum homem achar que a decisão jurídica não foi justa, ele deve proceder dentro do âmbito legal.

Agora, também pergunto aos tais movimentos dos homens: o que acham sobre os altos índices de abandono paterno e das milhares de crianças sem o nome do pai nos RGs? Também não achei opiniões e posicionamentos sobre isso, apenas acusações infundadas de que mulheres são “privilegiadas” por cuidarem des filhes e “sempre” ficarem com a guarda.

Em relação a tal liberdade de expressão, sinceramente, é difícil levar a sério. Porque aqui caímos naquela questão clássica de um grupo privilegiado de pessoas querendo fazer qualquer discurso nocivo contra um grupo marginalizado, e sentindo-se ameaçado conforme esse outro grupo ganha alguma visibilidade e voz para denunciar toda opressão que passa. Aquela falsa simetria básica, onde um grupo está lutando pela vida, enquanto o outro chora por não poder fazer mais aquelas “piadinhas” preconceituosas de sempre. E o que mais pesa aqui são declarações misóginas e retóricas sexistas.

Falando nos discursos generalistas, bem, eu vou ceder um pouquinho e dizer que eles têm um lado problemático e improdutivo. A raiz desses discursos é sem dúvida o feminismo radical, que muitas vezes coloca homens como indivíduos naturalmente ruins e opressivos. Já deveríamos ter superado isso, mesmo que seja em forma de meme ou piada. Esse tipo de atitude, mesmo sendo contra um grupo privilegiado, não ajuda e não acrescenta em nada. E, além disso, antagonizar homens é uma atitude extremamente irresponsável e mostra ignorância ou descaso com as possíveis intersecções que atravessam homens: raça, orientação, modalidade de gênero, classe, corporalidade, entre outras.

Se você acha ridícula a ideia de que é possível mulheres oprimirem homens ou fala de homens como se fossem toda uma categoria homogênea dotada de “todos os privilégios”, você precisa urgentemente rever se não está contaminade com retóricas radfem e mais do que nunca estudar interseccionalidades. Sim, mulher pode oprimir homem. E não, não é nenhum dos casos que os tais movimentos pró-homem falam por aí (até porque, nem intersecção de raça fazem).

Ah, interseccionalidades! Vamos falar sobre elas? Vamos falar sobre os muitos grupos de homens sujeitos a opressões específicas?

Homens negros e indígenas são alvos de muita violência do Estado. Homens trans ainda lutam por reconhecimento social e direitos básicos como moradia e saúde. Homens gays estão no topo das estatísticas de violência e morte por discriminação heterossexista. Homens bi/multi são invisibilizados até nas políticas públicas “LGBT”. Homens intersexo são vítimas de mutilação genital e falta de autonomia sobre seus próprios corpos. Homens gordos são patologizados e ridicularizados. Homens com deficiência possuem uma série de demandas pela inacessibilidade e são vistos como fardos. Homens da classe trabalhadora enfrentam exploração e têm seus direitos ameaçados constantemente. E eu poderia ficar aqui me estendendo com mais e mais exemplos, mas o resto e muito mais pode ser encontrado com uma pesquisa feita na boa vontade.

Não há como discutir realmente os direitos dos homens sem levar em conta toda construção patriarcal e ocidental de gênero, e sem incluir as pautas raciais, heterodissidentes, cisdissidentes, trabalhistas, das PCDs e des neurodivergentes, etc etc etc. Enquanto há questões inerentes ao patriarcado e que podem atingir homens em geral, há questões mais específicas de outras estruturas opressivas (que podem piorar as questões gerais).

Agora eu vos pergunto: esses tais movimentos a favor dos “direitos dos homens” estão falando dessas questões? Quantos estão abordando as questões gerais da maneira mais adequada, com olhar crítico, sem praticar falsas simetrias, sem tirar a culpa do patriarcado, e sem jogar alguma culpa desmedida em mulheres? Se as questões que atingem os homens não estão considerando o patriarcado e todas as possíveis interseccionalidades, afinal, o que exatamente esses grupos estão fazem em prol dos homens?

Se não há nada disso, a única coisa que podemos concluir é que esses grupos são apenas aglomerados de machistas sem práxis, articulação política, demandas válidas, nada que proponha mudanças sociais ou que seja capaz de realizá-las. Não apenas isso, como também são apenas mais uma forma do antifeminismo, e isso fica evidente considerando o quanto focam em atacar os movimentos feministas, se utilizando também de sexismo e misoginia, dados falsos ou inventados ou sem nenhuma fonte, e negação do gênero como um fator que incentiva violências específicas contra a mulher.

Por isso temos movimentos antifeministas como A Voice for Men (tradução literal: Uma Voz para Os Homens), que dizem lutar pelos “direitos dos homens”, mas acabam sendo apenas redutos sexistas que legitimam a imensa misoginia e as visões distorcidas do mundo de homens obscurantistas e negacionistas, que de bônus odeiam também outros grupos marginalizados. Basta analisar os discursos de seus membros e ver suas postagens e entrevistas.

Gênero é um assunto complexo e não pode ser resumido a “todos os homens têm privilégio e oprimem todas as mulheres.” É coerente dizer que o patriarcado por si só, a princípio, tende a conferir privilégios aos indivíduos homens. Mas vivemos numa sociedade que não é apenas patriarcal, mas também é racista, diciseterossexista, capacitista, entre outras opressões. Uma luta a favor dos homens deve ser uma luta a favor de todos os homens. Muitos direitos sociais estão garantidos, na teoria. Na prática, nota-se quais homens são mais privilegiados e quais são menos. Pra haver igualdade, estruturas hegemônicas de poder precisam ser derrubadas. E é esse comprometimento que se espera dos homens envolvidos em suas respectivas causas sociais, assim como os homens aliados dessas, e assim como os grupos de homens que estão se reinventando e buscando a verdadeira libertação do gênero homem.

Um movimento a favor dos direitos dos homens só faz sentido se for um movimento essencialmente antipatriarcal e interseccional. Somente assim, seguindo esses vieses, que podem ir até a raiz dos problemas, de tudo que falta aos homens, de toda opressão possível de atingir os homens. É esse movimento que podemos e devemos construir.

Links adicionais:

Documentário: The Mask You Live In (Legendado)

Colocamos uma feminista e um ativista dos direitos dos homens para conversar (sem que eles soubessem) (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Mulheres são privilegiadas. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Homens são privilegiados. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: essencialismo de gênero, argumentações liberais e religiosas, discursos antifeminismo.)

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