Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?

Aviso de conteúdo: pedofilia, campanhas anti-LGBTQIAPN+, retóricas falaciosas contra a comunidade e grupos dela, exclusionismos, contém links externos.

De tempos em tempos as redes sociais se agitam diante da mesma coisa que surge e ressurge da terra das bizarrices inesquecíveis: pedossexuais. Esse é só um nome bonitinho para pedófiles, colocando a pedofilia como uma “orientação sexual” – logo como uma atração tão válida quanto qualquer outra.

Se você não conhece essa polêmica, sinta-se privilegiade. E, sinto dizer: agora você vai conhecer. Mas se você conhece, tenho duas perguntas:

  1. você sabe de onde veio isso?
  2. você acredita que seja mesmo possível pedófiles terem um espaço na comunidade?

Pra quem é mais politizade e engajade nas questões dissidentes, pode até achar de prontidão que pedossexuais é uma grande “zoeira” infeliz de trolls da Internet, ou uma mentira descarada de gente diciseterossexista pra manchar a comunidade.

Porém, muitas pessoas, mesmo aquelas que estão há anos em movimentos sociais, ainda ficam na dúvida sobre a legitimidade desse grupo. E uma onda de pessoas acaba acreditando nessa legitimidade, mesmo gente da comunidade e aliada. E é exatamente isso que mais me incomoda nessa polêmica toda.

Bem, se for necessário mesmo fazer esse esforço (até pra quem quer falar sobre isso, mas não tem argumentos concretos), eu vou explicar brevemente o motivo de pedofilia não ser uma orientação:

  1. é uma atração que envolve especificamente um grupo de indivíduos que são incapazes de consentir em tais relações.
  2. é uma condição mental que causa danos ao individuo e a outros indivíduos (com ênfase nas vítimas, as próprias crianças).
  3. seu conceito está totalmente fora das concepções atuais de orientação, que é atração por gêneros e/ou atração que depende de fatores ou situações específiques (como vínculo, personalidade, etc).

E antes que alguém venha com discursos exclusionistas por causa do item 3, não, orientações influenciadas por neurodivergências não são equiparáveis a esse distúrbio, e nem validam uma orientação “influenciada” por ele, pois as definições delas não justificam a busca por relações sem consentimento.

  • Pedossexuais, MAPs, e afins

Falando des pedossexuais, onde tudo isso começou? Ao que tudo indica, buscando em fontes de investigações, essa palavra foi vista numa imagem compartilhada no saite 4chan (lugar famoso por ter todo tipo de bizarrice feita contra grupos dissidentes). Não se sabe de onde ela é, mas não há registro nenhum de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento feito pela comunidade que tenha usado uma sigla incluindo um P para pedossexuais. Ao que tudo indica isso foi ou uma montagem ou uma fabricação real feita por uma campanha “anti-gay”, tentando associar homossexualidade com pedofilia (uma tática que existe há décadas). Por mais que essa campanha seja absurda e esteja desmentida, o fantasma dela continua aí até hoje. Infelizmente, as fontes que tenho estão em inglês, mas as deixarei no final do texto.

Outra campanha famosa que surge e ressurge das cinzas periodicamente é de um grupo chamado MAP, do inglês minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores”. Há também um outro grupo, NOMAP, do inglês non offensive minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores não ofensivas”; que, aparentemente, define um grupo de pessoas com desejos pedófilos, mas que não querem contato com crianças. Não tenho informações suficientes sobre esse grupo pra determinar se é um grupo “inofensivo” ou não; porém, existem sim grupos de pedófiles que advogam contra a pornografia e abuso infantis.

Bem, “menores” é um grupo amplo e relativo que engloba adolescentes e crianças. Existem legislações diferentes pelo mundo que demarcam tanto a maioridade (18 anos, 21 anos, etc) quanto as idades de consentimento (aqui no Brasil, por exemplo, é 14). Fiz essa ressalva exatamente porque “atração por menores” inclui a pedofilia propriamente dita, mas também inclui atração por adolescentes, a qual não cabe no escopo do que a ciência e leis consideram como pedofilia ou abuso de criança (embora ainda seja um tópico controverso). Assim começa o problema com MAPs, pois relações com crianças seguem sendo classificadas como distúrbio mental (pela ciência) e crime (pela lei). Logo, conteúdos e grupos MAPs não são legítimos, não devem ser incentivados, e devem ser denunciados e levados à justiça. E o que acontece nessa terra de ninguém chamada Internet são campanhas nocivas de “positividade”, seja através de hashtags, de postagens incentivando ou defendendo, de montagens de “bandeiras de orgulho” para esse grupo, e outras atividades similares.

Eu diria que MAPs são apenas um subproduto do que se tornou a campanha de pedossexuais. Por isso achei pertinente essa menção, afinal, daqui a um tempo, provavelmente veremos mais citações escandalosas de MAPs no lugar de pedossexuais. No fim, é o mesmo lixo de sempre: ataques para manchar, desmoralizar e desarticular a comunidade.

Existem outros grupos por aí sem nomes específicos que “defendem” a pedofilia fazendo paralelos com discursos positivos a favor de relações dissidentes e teorias de gênero, dizendo coisas como “amor não tem idade”, ou que “idade é uma construção social”, enfim. E outras montagens que implicam que a comunidade aceita pedofilia. Mesma coisa pra tudo que eu disse sobre MAPs e pedossexuais.

  • Pedos na comunidade

Mas, afinal, o que me incomoda nessa polêmica toda? Exatamente as diversas reações que vejo de ativistas e outras pessoas da comunidade quando esse assunto bomba de repente nas redes sociais. Tem gente que acredita mesmo que tem pessoas da comunidade querendo aprovar a inclusão de pedos, tem gente que surta pra defender o quanto a comunidade não aprova isso e faz um esforço imenso para convencer es outres disso. E fico me perguntando como pessoas que estão há anos no movimento caem nisso, ou pra quem as pessoas estão se defendendo com tanta agitação?

Aqui estão explicações do por que pedossexuais ou MAPs (e qualquer outro nome que inventem) não têm como se infiltrar na comunidade e muito menos serem incluídes como um segmento próprio e legítimo:

Primeiro, qualquer apoio a desejos ou práticas de pedofilia vindo de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento referentes à comunidade com certeza receberá uma resposta totalmente negativa de imediato. Não haverá diálogo, porque isso não está para debate. Abuso de criança não é um debate. Pedofilia não é uma mera discussão de “a favor ou contra”. Ninguém aceitará isso (com exceção de quem quer abusar de crianças, né), e existe toda forte rejeição pública e de instituições legais e científicas.

Segundo, pedófiles precisariam antes se organizar enquanto movimento político, e se consolidarem numa identidade política, para assim talvez se articular como parte também da comunidade. Isso não vai acontecer. Mesmo que haja movimentos na Internet, em nenhum lugar do mundo atual esse movimento será aceito como político. Esse movimento não terá como abrir discussões sociais, lutar por direitos e demandas, exigir políticas públicas, enfim. Nenhum governo ou país aceitará isso, e qualquer tentativa de algo assim (que duvido que ocorra) também receberá uma reação imediata negativa.

Já existiu um ativismo pedófilo mais forte e presente nas décadas passadas, mas, atualmente, com o avanço das legislações e por causa da opinião pública geral, o pouco “ativismo” que existe se limita a espaços e postagens execráveis na Internet.

  • As reações da comunidade

Afinal, precisamos tanto assim nos defender de quem? Quem está acreditando que a comunidade quer aprovar pedofilia? Quem estamos precisando convencer disso? Sinceramente, além daquelus que já odeiam a comunidade, quem acredita nisso tem que ser alguém ou muito alienade sobre a comunidade ou com tendências reacionárias contra ela. E, com tendências reacionárias, me refiro a pessoas da comunidade que absorveram ideias e discursos contra outros grupos dissidentes (pode ser o caso de pessoas queermísicas, exclusionistas de assexuais, quem é contra microcomunidades, etc).

O desespero das pessoas chega ao ponto de afirmar que “não existe gente pedófila na comunidade”. É uma tentativa fútil colocar a comunidade toda como seres puros e divinos e que não existe gente pedófila nela. Com certeza existe. E são esses casos, quando públicos, que serão usados por reaças como mantras para dizer que “tinham razão”. E não importa os dados que apontam que a grande maioria dos casos de pedofilia é de pessoas cis hétero e dentro de conjuntos familiares. Não importa os muitos casos de pedofilia dentro de igrejas, ou de gente declaradamente cristã. Nossa defesa não deveria ser “ninguém aqui é pedófile”, e sim “a comunidade não reconhece isso como parte dela”.

E vou dizer também que rechaçar pessoas pedófilas da comunidade como “uma vergonha”, como “aquelas que realmente estragam a comunidade”, ou qualquer outra coisa similar, é apenas um punitivismo que serve pra agradar, antes de tudo, nosses inimigues, o sistema. Es pedófiles da comunidade são tão “hereges” quanto pessoas da comunidade que já assassinaram alguém a sangue frio, que já agrediram uma pessoa vulnerável, que são supremacistas branques, que são reaças de direita, enfim. Não precisamos ou devemos fazer votos de perfeição aqui. A comunidade é feita por pessoas, pessoas são falhas, e seus atos devem ser respondidos pelo que são. Fazer essas coisas e ser da comunidade é um agravante só pra quem quer uma desculpa para odiá-la e generalizá-la.

Seria bom se acabasse por aí, porém, nesse saco são jogadas também as pessoas indesejáveis à parcela da comunidade que é higienizada e praticante das respeitabilidades (como fetichistas e não-monogâmiques), aquelas que não se submetem a assimilacionismos ou atendem a critérios des porteires da comunidade (microcomunidades num geral), e várias pessoas queers que são “dissidentes demais” para os movimentos popularzinhos. Já vi muitas vezes orientações mais específicas – tanto a-espectrais quanto indefinidas – serem acusadas de “darem abertura” para pedofilia/abuso. E já vi reacionáries da comunidade acusando MOGAI ou microcomunidades da existência de grupos nocivos, como MAPs ou trolls adultes se dizendo crianças porque “se identificam com tal idade e querem ser respeitades por isso”. Incrível como os discursos parecem tanto com aqueles de reaças de direita, dizendo coisas como “primeiro aprovam homem com homem e mulher com mulher, depois chegam nos bichos, e aí nas crianças”.

E esse grande saco, onde são jogadas as pessoas nocivas e problemáticas e as pessoas legítimas e inocentes, só serve para dizer aes de fora da comunidade que somos seres puros e divinos, que merecemos viver e ser “normais”, e que em troca do perdão do Deus Normativo oferecemos esses sacrifícios. E adivinhem: aquelus de fora não se importam, e vão continuar com suas mentiras e falácias e seus ataques, como fazem há décadas, como sempre fizeram. Já associavam corpos dissidentes à pedofilia muito antes da primeira notícia de um caso confirmado de pedofilia vindo de alguém da comunidade. Por isso também digo que esse apelo não serve pra nada.

  • O que a comunidade pode fazer?

A comunidade faz muito bem em se posicionar contra a pedofilia, e não deixa de ser uma pauta importante (tanto pelas difamações quanto pelas muitas crianças dissidentes que sofrem abuso). Contudo, deve estar preparada para campanhas difamatórias como essas, e que vão continuar não importa o que ela faça. E que sempre serão mais impulsionadas quando a comunidade tocar em assuntos sobre as crianças, como quando falam das crianças não-normativas, ou das crianças que desde sempre se entendem como trans, enfim. E não são assuntos que devem ser deixados de fora em prol de respeitabilidades, ou para evitar ou diminuir acusações infundadas. Crianças dissidentes existem, e uma parcela enorme da comunidade se percebe dissidente desde cedo.

Apesar de tudo que falei, pedófiles continuam sendo um grande problema, e os conteúdos dos quais falei continuam causando caos e medo. O que podemos fazer contra tudo isso, até então, é denunciar para as redes sociais e autoridades competentes e entidades, evitar dar engajamento a tais conteúdos e pessoas, e tomar as possíveis medidas de segurança (como privar perfis).

A mensagem final desse texto é apenas mais uma vez que as pessoas parem de acreditar em tudo que leem na Internet, e comecem a investigar melhor as coisas. Estão, novamente, mordendo isca de invenções conservadoras.

Enfim, depois de tudo isso, você agora não precisa mais se contorcer no chão e dar saltos para defender a comunidade, acreditando que pedos são um grupo político legítimo e que possuem um movimento capaz de adentrar na comunidade. Ao menos isso não é mais um problema. De nada.

Links adicionais:

‘LGBT’ Está Adicionando um ‘P’ para Pedossexuais?

Checagem de fato: A comunidade LGBTQ não está adicionando “P” em sua sigla

E-Farsas: Grupos querem inserir o “P” de “pedossexual” na sigla LGBT?

BuzzFeed: A história da pedofilia entrar para a sigla LGBT desenha como funcionam as fake news

Um comentário em “Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s