Bi, 2, palavras, significados

Quando o assunto é a orientação bi, várias pessoas de repente se tornam autoridades máximas sobre a língua, e reproduzem aquelas várias retóricas típicas sobre o prefixo, sobre o número dois, sobre o que se entende por isso, sobre “o que faz sentido” e “o verdadeiro e inquestionável conceito de bi desde sempre”.

Para aquelus que nada sabem sobre como se construiu a identidade bi, a história do movimento e das comunidades, e sabe o que significa o prefixo, pode parecer “óbvio” que bi é atração por dois gêneros/sexos, e isso se alinha com os sensos comuns de que existem apenas dois sexos e dois gêneros – feminino e masculino, mulher e homem.

Porém, a língua portuguesa tem muitos exemplos do quanto o apego a radicais e origens das palavras é algo muito muito furado. Hoje, queria falar sobre isso. Sobre bi. E sobre palavras. Sobre como palavras são flexíveis, como significados podem mudar com contextos, como podemos até interpretar definições “sólidas” de maneiras “fluidas”. Vamos lá?

Bi vem do grego “dois”. O que significa dois? Um número, sim. Mas mais do que isso: dois não é um. Dois é mais que um. Um é uma unidade. Mais que um é uma pluralidade. Dois pode ser uma dualidade. Mas uma dualidade é uma pluralidade. Percebem como um simples dois pode significar outras coisas?

E, incrivelmente, esses vários significados fizeram parte da trajetória da própria identidade bi. O mundo das ideias se refletiu no mundo material. A palavra bi foi entendida de várias formas: dois sexos, dois sexos/gêneros, dois gêneros, e duas orientações. A palavra bissexual já descreveu coisas muito diferentes: seres com sexos distintos ao mesmo tempo, pessoas entendidas como “de ambos gêneros” psicologicamente, e então chegamos no âmbito da atração. Há fontes afirmando que ser bi já foi entendido até como ter as duas orientações, hétero e homo, simultaneamente.

A comunidade bi atraiu pessoas que se entendiam como hétero e homo, ou como apenas não-hétero e não-homo. Aliás, isso fez com que pessoas assexuais acabassem se juntando ao rolê bi, pois, se bi era ter atração “igual” por “ambos” sexos/gêneros, a ausência de atração por ambos era “ter uma atração igual”. E como a sexualidade humana tende a ser fluida, a comunidade também foi convidativa para todes que se atraiam muito mais por um gênero e às vezes davam aquela escorregadinha para “o outro lado”. Quem mandou tornarem as definições oficiais/populares de hétero e homo tão estritas, né? Enquanto essas orientações se construíam numa atração sólida, a comunidade bi tornou-se espaço das atrações fluidas, pois o que é a fluidez se não transitar entre um e dois e vários números, né?

Não tem dicionário, livro, lei, academia ou autoridade que consiga conter esse fenômeno das palavras e seus significados. Palavras não são essas entidades flutuando num mundo invisível onde são criadas com um significado único e inalterável, e assim permanecem até o fim do Universo. Elas se expressam no mundo físico também, se misturam a outras ideias, passeiam pelo imaginário social através dos tempos e das culturas e das localidades, e caem nesse mar imenso de repetição e reinterpretação e ressignificação. A história da identidade bi mostra o quanto esse mar é real, o quanto as ondas desse mar vão pra lá e pra cá até hoje.

Acho que falei o suficiente. Concluindo: palavras não precisam ser tão literais, e palavras mudam de sentido com contextos sociais. Bi é dois. Mas não apenas dois. Pode ser apenas dois. Mas nunca foi apenas dois. Quem gostou, bate palma. Quem não gostou, cria uma nova palavra, compre um barco, e não caia no mar. Simples.