O sexo: biológico ou construção social?

Aviso de conteúdo: diadismo, cissexismo, colonialismo, menções a genitálias e órgãos reprodutivos, terminologias obsoletas, links externos.

Entendo se a pergunta parecer absurda. Quando se fala no sexo ser uma construção social, o que muita gente pode entender é que está se afirmando que os órgãos e as funções reprodutives/sexuais são uma invenção, ou são irreais, apenas uma ideia abstrata. Ninguém está afirmando isso. Muito menos negando as possíveis realidades trazidas pelas possíveis corporalidades. O que está se questionando são atributos, valores e viés com os quais tratamos o sexo. O texto é sobre isso.

Uma breve história do sexo e do gênero

Antes de tudo, acho interessante e necessário fazer uma revisão histórica muito resumida sobre como a humanidade lidou com o sexo até chegar aos dias atuais, até existir a concepção de “sexo biológico”.

Diversas culturas e sociedades ao longo da história tiveram suas próprias concepções de sexo-gênero. Em tempos mais remotos, em culturas matriarcais, entendia-se como divina e sagrada a capacidade de pessoas com útero de gerar vida. Outras culturas tiveram suas próprias categorias ou identidades de gênero para indivíduos eunucos, intersexo, ou que não aceitavam os papéis sociais esperados, como no caso de pessoas Sekhet, Tumtum e Burrnesha. Mesmo havendo questões complicadas em torno disso, esses são apenas exemplos de como sexo nunca foi interpretado apenas como uma realidade biológica sem influências sociais e culturais. Até mais da metade do século 18, a reprodução não havia sido compreendida como é atualmente, passando por diversas hipóteses e crenças (também enviesadas por gênero) que foram rompidas pela ciência.

A Grécia Antiga se destacou pelo modelo de sexo-único, que acreditava basicamente que o “sexo masculino” era mais desenvolvido enquanto o “sexo feminino” era uma versão inferior, invertida desse outro. E tal perspectiva moldou a forma como mulheres cis e a feminilidade eram tratades nesse período: numa posição de passividade, fraqueza, submissão, etc.

E então, no final do século 18, criou-se o modelo de dismorfismo sexual que temos até os dias atuais, que colocava dois sexos diferentes e distintos, nascidos para se complementarem, colocados em realidades “naturais” próprias e justificadas pela ciência, pela região, pela moral, e outras concepções construídas ao longo dos anos e das épocas. Expectativas de virilidade e de qualidades como racionalidade e inteligência surgiram para “os homens”, enquanto a maternidade e a reprodução eram o destino e o ideal para “as mulheres”.

As concepções atuais, embora ainda em disputas e com cargas do passado, elaboraram melhor sobre a extensão do sexo. Podemos separar o sexo em quatro fatores principais:

  • genéticos – cromossomos e genes,
  • gonadais (testículos, ovários, etc),
  • genitais (pênis, vulva, etc),
  • e hormonais – suas atividades e os efeitos esperados (que formam as chamadas características secundárias, como barba e tamanho dos seios).

Quando o assunto é “os sexos”, o imaginário coletivo costuma pensar a mesma coisa que é vista nos livros de biologia: dois corpos brancos, magros, padronizados. Nem focarei a questão nos corpos transicionados. Pergunta: quantos corpos negros, gordos, mais diferenciados são mostrados, ilustrados, tidos como referências? Não é por um acaso que esses corpos não aparecem, pois nossas concepções de sexo vêm de uma base eurocêntrica. A diversidade de corpos está atualmente promovendo essa nova disputa, que é questionar e reformular essa sistematização vigente do sexo, que dita que só existem dois sexos legítimos e naturais.

O gênero e os órgãos reprodutivos

Essas duas categorias absolutas de sexo que então predeterminam um gênero são colocadas a nós como realidades. E, sendo realidades, são inquestionáveis, são para a vida toda, são parte do que somos e jamais poderemos mudar. Tudo isso começa com uma simples genitália de ume bebê, ou do que é identificado num ultrassom.

Várias e várias vezes pessoas cis reafirmam seus gêneros com base na genitália (principalmente) (que, para elas, resume a totalidade de seus sexos). Isso é mais presente em homens. Mulheres podem incluir nisso seus ovários e útero. Pois bem, aí temos uma imensa brecha que demonstra a fragilidade do sistema binário de sexo-gênero, visto que essas partes corporais podem sofrer efeitos irreversíveis, como perda ou “inutilização”. Se um homem perder o pênis num acidente, ele deixará de ser homem? Quando a mulher já não menstrua e nem reproduz mais, ela deixa de ser mulher? Centralizar os gêneros nessas partes corporais, portanto, é inviável.

Quando o assunto não envolve pessoas cisdissidentes, e pessoas cis são questionadas sobre seus gêneros, incrivelmente, elas costumam se reafirmar com respostas subjetivas, mesmo que muitas se baseiem em estereótipos e papéis de gênero. Nesses momentos, ninguém se lembra da tal “realidade” do sexo. E ela também não é lembrada quando estamos falando de máquinas, inteligências artificiais, e personagens de obras fictícias. O robô Sophia foi reconhecido como uma cidadã, e é tratado o tempo todo como mulher, mesmo não tendo nada de orgânico dentro dele. Siri é tratada sempre com linguagem associada ao gênero mulher, apesar da mesma declarar por si própria que não é mulher e gênero não se aplica a ela. As Gems da franquia Steven Universo, embora utilizem como padrão a linguagem a/ela/a e possuem formas geralmente associadas com o que se entende por feminino, são entendidas como mulheres, apesar de serem aliens sem sexo/gênero e mesmo podendo adotar qualquer forma e linguagem. Esses são exemplos de que gênero é (de)marcado também quando conveniente mesmo quando não há um sexo presente. Não é sobre sexo, ou apenas sobre sexo.

A simplificação do sexo

Os termos “sexo masculino” e “sexo feminino” já nem têm uma lógica, pois não faz sentido chamarmos coisas objetivas por coisas subjetivas. Os sexos estão ali, sendo o que são. O que os torna masculinos ou femininos? Como podemos chamar os sexos de ideias que mudam de tempos em tempos e de cultura em cultura? E como poderíamos ainda utilizar tais palavras enquanto as desvinculamos dos arquétipos de homem e mulher?

Tirando essas abstrações, mesmo corpos que se encaixam nos ideais dos “sexos típicos” (os perissexos) são muito variados entre si. O sexo não é um fator infalível que “denuncia o gênero” das pessoas sob toda e qualquer circunstância. Corpos marcados como “femininos” que são esguios e com seios pequenos podem bagunçar percepções sociais. Corpos marcados como “masculinos” que são gordos e desenvolvem seios rompem com a expectativa de um corpo de peito reto. Pode ser difícil assimilar essas variedades porque vivemos numa sociedade muito marcada por gênero através de roupas e comportamentos. Pode ser também que vivemos numa bolha onde corpos que se encaixam nos ideais cisnormativos são predominantes, o que torna a perspectiva mais enviesada. Porém, corpos são diversos, e portanto não se encaixam perfeitamente em duas categorias tão estritas com características que podem ser presumidas e que são esperadas.

Como também foi mencionado, existem quatro fatores principais que moldam o sexo das pessoas, e tais fatores, além de amplos, também oferecem combinações variadas entre si. Por isso temos tantas variações mesmo que das genitálias típicas, de tamanhos de seios, de distribuição e quantidade de pelos, enfim. E no meio dessa diversidade toda, saindo do que ainda é considerado comum, temos a intersexualidade, que logo será abordada.

Então o que sobrou até aqui são os usos dos termos “macho” e “fêmea”, pois parecem ser os únicos que faz algum sentido usar, ou que podem ser viáveis para se referir a tipos sexuais. Hm, bem, não exatamente. Esses termos perdem totalmente o sentido com corpos que fizeram procedimentos hormonais e/ou cirúrgicos, ainda mais corpos uma grande “passabilidade” como de “outro sexo”. Vou elaborar mais no próximo tópico.

Intersexualidade: sexo enquanto espectro

Com as concepções vigentes de sexo, vieram também as concepções de sexos normais e sexos anormais, defeituosos, de anomalias, de distúrbios. O que entendemos por intersexualidade não é uma novidade, e já esteve presente em outras culturas. Porém, a patologização da intersexualidade é um tanto recente. É um assunto tão apagado que quase ninguém aprende sobre ele, seja numa escola, seja trabalhando numa área da saúde. Muita gente pode até ter tido contato com o termo “hermafrodita”, mas o que se entende é “alguém com pênis e vagina”, ou “alguém com ambos os sexos” (que quase sempre se resume às genitálias típicas). E várias mentiras continuam sendo espalhadas, principalmente que pessoas intersexo são estéreis e frequentemente doentes.

A pauta intersexo está avançando, e está desmentindo décadas de falácias e invenções sobre intersexualidade. O que o movimento intersexo internacional esteve defendendo é a validação dos corpos intersexo, o que fez com que váries cientistas revisassem as concepções de sexo. E então chegamos a uma nova perspectiva que esteve ganhando cada vez mais força: sexo é um espectro. Nos deparamos então com inúmeras combinações de cromossomos, órgãos e atividades hormonais que revelaram o quanto o sexo é complexo, e que essa complexidade está presente em muito mais do que uma minoria estimada da população.

Cromossomos foram por muito tempo presumidos por meio das genitálias típicas. Considerando que a maioria das pessoas sequer conferiu seus cromossomos, é muito possível que haja mais pessoas com variância cromossômica do que se estima. A mesma coisa vale para órgãos internos e fenômenos como o mosaicismo.

Apesar disso tudo, a intersexualidade ainda não rompe com os ideais de “macho” e “fêmea”, que se entende como os sexos “típicos”. Há pessoas que até argumentam que a intersexualidade confirma a realidade dos sexos típicos. E há pessoas que, ainda apegadas aos ideais binários, defendem que o sexo é um “espectro de machos e fêmeas”, o que parece ser algo um pouco mais amplo que duas categorias estritas. Porém… se apegar ao “macho” e à “fêmea” ainda cai em contradições e paradigmas que precisam ser rompides. O sexo é fundamentado na reprodução, e com a reprodução vêm atrelados arquétipos sociais. O que seria um macho ou uma fêmea que não reproduz? A ideia de macho ainda faz sentido num corpo com pênis mas esguio e delicado? A ideia de fêmea ainda faz sentido num corpo com vulva mas grande e atlético? Vamos agora criar uma nova hierarquia, com machos típicos e atípicos e fêmeas típicas e atípicas? Entende aonde quero chegar? Se tirarmos a necessidade de reprodução e toda generificação, o que sobra para o macho e a fêmea? E vale relembrar que corpos transicionados já saem de qualquer lógica desses ideais também. Ampliar macho e fêmea é uma enorme perda de tempo. Precisamos tratar esses ideais como ultrapassados e inúteis. O macho já causou muito estrago. E o futuro não será da fêmea.

Mas e a reprodução? E as diferenças biológicas?

A reprodução ocorre tipicamente com a fusão de dois gametas, um espermatozoide e um óvulo, o que tradicionalmente necessita de dois sexos complementares. Ponto. Esses sexos complementares podem ser dois perissexos, um perissexo e um intersexo, ou dois intersexos (lembrando que nem toda pessoa perissexo é fértil e nem toda pessoa intersexo é infértil). Com o uso de tecnologia, essa reprodução pode ocorrer sem uma relação sexual, com a fertilização de um óvulo por inseminação artificial. Aliás, a tecnologia já está tendo resultados com processos que criam gametas a partir de outras células. Talvez, futuramente, teremos gestações completas in vitro ou mesmo partenogênese na espécie humana.

Como foi dito antes, o sexo é fundamentado na reprodução da espécie, e assim foi por muito tempo pela religião e pela ciência. E os papeis reprodutivos posicionaram as pessoas em locais diferentes em várias sociedades. Como se o papel de determinado corpo na reprodução devesse determinar a ele valores, atribuições, comportamentos, e expectativas. Tudo isso são construções sociais. Até mesmo o modo como se lida com os possíveis papeis dos corpos na reprodução. É evidente a diferença entre um corpo que insemina e um corpo que gera. Porém, nem esses e nem aqueles que não possuem nenhuma capacidade ou mesmo vontade de reproduzir devem ser reduzidos a isso. Pessoas são muito mais que um papel reprodutivo.

A espécie continuará reproduzindo como sempre fez, se for essa a grande preocupação. Mais importante que isso é tornar a reprodução um processo absolutamente ético, sem pressões sociais, ou idealizações, ou expectativas, que parta de decisões tomadas individualmente (por quem que vai gerar), ou, se forem coletivamente (por quem vai gerar e ume parceire, um grupo, ou uma comunidade), que a pessoa que for gerar tenha o controle total de seu corpo e a plena consciência de concordar e vivenciar o processo. E torcemos para a evolução dos processos in vitro, para que assim os corpos também possam escolher não vivenciar toda uma gestação.

A ideia comum de reprodução acompanha várias outras ideias vinculadas a gênero. E tudo isso está sendo reapropriado e ressignificado por corpos dissidentes. A menstruação é até hoje considerada um “signo feminino”, parte do que faz mulher ser mulher. Agora, isso está sendo questionado. Não apenas da perspectiva de mulheres cis, que estão se colocando como muito mais que corpos que menstruam, e que estão evidenciando a vivência de mulheres que não menstruam. As perspectivas de corpos que não são cis ou perissexo estão conquistando espaço, mostrando que menstruação pode ser masculina para algumes homens trans, pode ser não-binária para algumas pessoas fora do binário, pode ser apenas uma característica tão relevante quanto tamanho e cor de olhos e cabelos para algumas pessoas de qualquer identidade de gênero, entre outras possibilidades. A mesma coisa está acontecendo com maternidade, paternidade, com os corpos que produzem esperma, enfim.

Por fim, entendo que o que foi trazido até aqui também pode entrar em conflito com os estudos neurológicos de sexo/gênero. Vários estudos indicam que existem diferenças estruturais significativas entre cérebros de corpos predominados por testosterona e corpos predominados por estrogênio. Outros indicam que determinados cérebros até predispõem preferências por certos signos sociais, como brinquedos e roupas. Espero que haja mais estudos sobre o cérebro, com metodologias variadas, feitos também por pessoas dissidentes. Não duvido que possa haver diferenças estruturais de nascença. De novo, as diferenças biológicas podem existir e existem. A questão maior é como lidamos com essas diferenças quando inseridas numa sociedade com hierarquias formadas em torno de um sistema de sexo-gênero. Novos estudos indicam que cérebros podem ter noções de sexo/gênero mais flexíveis. E, em todo caso, estudos “indicando” que cérebros podem predispor pessoas a se adequar a estereótipos de gênero já se mostram tendenciosos no momento em que estereótipos são puramente construções sociais. Como seria um cérebro “predisposto” a gostar de carrinhos ou de saias numa sociedade onde essas coisas nem existem? São nuances como essa que tais estudos deveriam começar a considerar melhor.

Fazendo nossos sexos

Afinal, a quem a desconstrução do “sexo biológico” realmente ameaça? A única ameaça real é somente contra aquelus que estão em posições de poder na hierarquia de sexo-gênero. Contudo, muitas pessoas, mesmo quando em posições menores na hierarquia, ainda terão resistência com isso, pois elas estão muito imersas numa realidade feita por falsas verdades afirmadas e reafirmadas constantemente. O sexo, mesmo hierárquico, também é feito no discurso. Esta aí a importância de se apropriar e mudar o discurso.

Estamos presenciando o surgimento e a visibilização de paus de travesti, bigodes neutros, peitos transmásculos, úteros sem gênero, neovulvas transxeninas, e, com o avanço da tecnologia, poderemos ter uma diversidade de corpos físicos que ainda não é possível. Mas não apenas a tecnologia faz o sexo. Nossos discursos também fazem o sexo. Precisamos agora caminhar para retomar o sexo, e darmos aos nossos sexos nossos próprios sentidos em vez de deixar um sistema falido continuar fazendo isso por nós. É essa libertação que precisamos, que só teremos depois de jogar no lixo o binário de sexo/gênero e todos seus subprodutos (incluindo o macho e a fêmea).

É necessário descolonizar o sexo, para então personalizar o sexo, e então customizar o sexo como podemos e queremos.

Enfim, nossa concepção de sexo precisa ser revista e atualizada, pois continuar tratando-o como um binário estrito, uma realidade biológica inquestionável e atemporal, e algo apenas material existindo fora de influências sociais e culturais não é mais viável, além de ser anticientífico e limitante demais.

Links adicionais:

Ume Garote Altermative – O sexo biológico

Transfeminismo – Mulheres Trans Também São Mulheres Biológicas

Medium – Texto: Sexo não é cromossomos: a história de um século de ideias erradas sobre X e Y

AzMina – “Não é só o gênero que é socialmente construído, o sexo biológico também”

YouTube – Make Science BR | Sexo Biológico versus Identidade de Gênero (Parte 1)

YouTube – SciShow | Existem Mais Do Que Dois Sexos Humanos (em inglês, mas tem legendas automáticas em pt-br)

YouTube – Riley J. Dennis | Macho e fêmea são bináries, mas as pessoas não são (em inglês, mas tem legendas automáticas em pt-br)

YouTube – TED: A estranha história dos “cromossomos sexuais” | Molly Webster (em inglês, mas tem legendas em pt-br)

Visualizando Sexo como um Espectro (em inglês)

O corpo e a construção das desigualdades de gênero pela ciência (AC: cissexismo) (artigo científico para baixar)

Indeterminade

Atração por pessoas não-binárias: perspectivas e possibilidades para além do binário

Aviso de conteúdo: exorsexismo, cissexismo, colonialismo, capacitismo, exclusionismo baseado em reducionismo de gênero, exclusionismo contra microcomunidades, menções a corporalidades, contém ironias, links externos.

Recado: algumas das terminologias usadas ao longo do texto podem ser encontradas aqui e aqui, e podem facilitar o entendimento.

Este é um assunto inusitado, complexo, controverso, e extenso, sem uma única resposta simples, e uma discussão que ainda está sendo construída. Tenha tudo isso em mente ao ler esse texto.

Apesar disso, acredito que eu possa trazer aqui um conteúdo que ofereça mais reflexões e entendimentos do que mais dúvidas, respostas medíocres, ou perguntas sem qualquer resposta.

Atração por pessoas não-binárias existe? Ela é possível? As pessoas se atraem por uma identidade de gênero não-binária? As pessoas não se atraem apenas por “leituras sociais”? Toda orientação inclui pessoas não-binárias? Essa atração é totalmente diferente de atração por pessoas binárias? Todas essas questões e outros tópicos relacionados serão abordades aqui.

Como esse é um tema ainda novo, esse texto não vai trazer apenas informações prontas, mas também vai acabar tendo que desenvolver, quase como um “pioneirismo”. E, não, não sou da academia, e se querem tanto assim referências, sugiro que façam suas próprias pesquisas ou aguardem alguém fazê-las. Não precisamos de aval acadêmico para produzir, criar, desenvolver tópicos relacionados a qualquer grupo marginalizado. Aqui, trarei conhecimentos de comunidades, pensamentos e vivências de outras pessoas, e também minhas próprias vivências e perspectivas. Não estou inventando nada. E também terei algumas referências de estudos queer, pois, apesar de não haver (ainda) nada mais específico, estudos de sexualidade apontam sua complexidade, e isso será utilizado no conteúdo.

O texto é muito longo, já aviso. Então, leia no seu tempo. E leia até o fim. Valorize meus esforços com esse conteúdo. Aproveite.

Conceitos de atração e orientação

Por mais que se pesquise sobre “atração não-binária”, o conteúdo relacionado a isso é muito escasso e quase nunca desenvolve além de positividade (ex: “atração por n-b é válida!”) e afirmações breves (ex: “você pode se atrair apenas por não-bináries”). Nada disso é suficiente, devo admitir, para nos aprofundarmos no que é ou não é, ou o que pode ou não pode ser uma atração por pessoas não-binárias.

E antes de falarmos sobre atração por n-b, acho que deveríamos falar primeiramente sobre o que é atração.

Aqui não preciso me estender. Atração é basicamente todo interesse espontâneo ou vontade involuntária de ter alguma interação com alguém ou algo, e essa interação se desenvolve em algum tipo de relação. E relações podem ser sexuais, românticas, platônicas, alternativas, e etc. Orientações e outras identidades de atração são apenas descrições que pessoas necessitam por vários motivos. Não são e nem precisam ser descrições tão literais e restritas. Até porque, e isso é consenso de várias comunidades politizadas e de estudos de diversidade, palavras nunca serão suficientes para explicar todas as complexidades e subjetividades das pessoas. Atração é algo muito pessoal. Atrações são o que são.

Sobre orientações, um conceito utilizado até hoje é se baseando em “atração por gênero”. Isso é suficiente? Não. Mas essa descrição é o que funciona para o momento atual. Um conceito mais amplo de orientação é “as condições para que ocorra atração”. Isso é até melhor, pois inclui orientações que não são baseadas em gênero, que é o caso de orientações a-espectrais num geral.

Uma explicação conflituosa: “leitura social” x reducionismo de gênero

As atrações por pessoas não-binárias são discussões um tanto recentes ainda. Porém, mesmo assim, já existem respostas “prontas” sendo defendidas por aí. E vou falar da “principal”, a que mais vejo na Internet.

Tem gente que afirma que o mundo inteiro se atrai por uma “leitura social” (ou seja, se a pessoa é lida como homem ou como mulher), e isso nem é novidade: isso é literalmente o senso comum de qualquer sociedade colonizada, que tenha apenas como referências de gênero homens e mulheres, e que são distinguíveis seguindo lógicas cisnormativas (no corpo, na aparência, nos comportamentos, etc).

Aliás, gostaria de deixar muito bem registrado aqui o quanto essa premissa é tão errada, nociva, problemática, um imenso desserviço a qualquer luta contra as hegemonias de gênero e atração, e apenas mais uma forma de sustentá-las e se assimilar a uma sociedade binarista. E, como toda premissa assim, dá abertura a todo tipo de ataque e invalidação de microcomunidades e qualquer outra identidade que, para esses “novos” padrões – que são apenas os velhos padrões com outra embalagem, não serve aos interesses daquelus que querem apenas um pequeno espaço na normalidade.

Essa premissa de que todes somos apenas uma “leitura social” desconsidera totalmente as experiências de pessoas atraídas independentemente de gênero, de pessoas a-espectrais, de pessoas fluidas ou indefinidas, e de qualquer cultura não-ocidental com mais de dois gêneros. É principalmente colonialista, pois o binário de gênero e tudo que o acompanha (incluindo essa ideia) é uma invenção colonial. E também acredito que vale pontuar o quanto é uma perspectiva capacitista, partindo sempre de corpos capazes de ver. Não é por um acaso que as defesas dessa premissa quase sempre vêm com exemplos envolvendo gente “que vemos” na rua, na balada, no Instagram, enfim.

Só um adendo, isso também me fez refletir se “leitura social” é realmente uma terminologia adequada e precisa, pois leitura remete a algo que se vê, e além de pessoas cegas existirem, o gênero das pessoas não é apenas presumido por aparência, mas também por voz, toques, e até mesmo o modo como a pessoa escreve ou age num bate-papo. Enfim, voltando ao assunto…

Além disso, a ideia de que todes podem ser reduzides a uma leitura social joga toda luta contra a cisnorma no lixo, pois se pessoas podem ser reduzidas assim no campo afetivo, nada impede de ocorrer o mesmo em outros campos. Então pessoas serão privilegiadas ou oprimidas de acordo com a leitura – e aqui damos total razão ao que o feminismo radical prega. E, consequentemente, outras lutas perdem sentido. Se leitura é o que importa, o que fazer com “as falhas” como pessoas intersexo? Devemos agora dar razão ao transmedicalismo e desejar que toda pessoa trans faça uma transição física completa, tudo dentro da conformidade de gênero? Pessoas inconformes de gênero são as novas subversivas da ordem e pureza?

Resumindo: a premissa de atração pela presunção de um gênero (sendo pessoas presumidas sempre como ou homem ou mulher) é uma perspectiva colonialista (portanto, cissexista), capacitista, e monossexista (e alossexista). Isso que estou resumindo, pois há mais coisas que eu poderia citar.

Talvez atração por expressão? Atração por um gênero presumido é errada?

Contudo, apesar de todas as críticas feitas, acho que posso trazer uma nova interpretação e possível solução. Talvez as pessoas que afirmam e reafirmam essa premissa sejam na verdade atraídas por expressões de gênero. Isso é diferente sim de “leitura social”, pois “leituras” falham muito e são incapazes de “acertar” o sexo ou ao menos a designação de gênero das pessoas. Sexo é um espectro, corpos são diversos demais, nossas noções dos gêneros binários são muito enviesadas, e nossas ideias de expressão de gênero precisam ser mais ampliadas. Portanto, “leitura social” é um parâmetro nada confiável de tão furado.

Existem masculinidades e feminilidades, tanto partindo das referências sociais que temos quanto de ressignificações feitas por pessoas ou comunidades. Se isso atrai as pessoas, tudo bem. Não há problema. Existem orientações que descrevem atração por expressões, e se atrair por expressões masculinas e/ou femininas não muda o fato de que essas expressões estarão em pessoas tanto binárias quanto fora do binário, e tais atrações não invalidam suas identidades de gênero. Aliás, li uma postagem dizendo que se você é alguém que se atrai por pessoas “femininas”, sabendo que elas podem ser de qualquer identidade de gênero, você pode ser ume pan com essa preferência de expressão.

Entendo perfeitamente que a ideia de atração por identidades de gênero não-binárias pode parecer impossível exatamente por nossas maiores referências sociais serem as hegemônicas. Ainda somos criades com essas referências, as quais internalizamos e influenciam demais em nosso desenvolvimento. Mas quando questionamos essas referências, quando as desconstruímos, podemos encontrar novas possibilidades e perspectivas de gênero, consequentemente, também de atração, e de como orientações e identidades podem funcionar para nós.

Sim, muitas vezes a maioria das pessoas presume um gênero, e dentro das lógicas cisnormativas. A presunção de gênero pode ser o que orienta as atrações dessas pessoas. E… isso é problema delas. Presunção vem de expectativas. Expectativas são problema de quem as tem. As expectativas de alguém ser de tal gênero binário são tão relevantes quanto quaisquer outras expectativas que se faz, como afinidades, gostos, traços de personalidade, etc. Até expressão de gênero costuma ser presumida erroneamente, o que é mais fácil de acontecer quando conhecemos pessoas através de redes sociais. Mesma coisa com gênero.

Mas, bem, atração é atração. Não curto a ideia de dizer que existem atrações erradas. Existem, sim, atrações partindo de premissas problemáticas, como quando se presume determinada genitália porque a pessoa parece ser de tal gênero. Porém, atração continua sendo atração, ela é involuntária, mas ela não é também desculpa para discriminar pessoas que não corresponderam a certas expectativas. Se alguém não corresponde a expectativas de corpo e/ou expressão, o melhor a se fazer é dizer que não tem interesse. Pronto. Não precisa se justificar.

Ah, algo importante de se pontuar é que embora expressões sejam resumidas a masculinas, femininas, e andróginas/neutras, isso não significa também que pessoas n-b com essas expressões se consideram pessoas “essencialmente” assim e/ou alinhadas com essas qualidades. Novamente, ninguém tem obrigação de corresponder expectativas, e isso vale também para a leitura que se faz das expressões.

Entre como ocorre atração e como descrever atração

Com base na minha experiência e em tudo que já pesquisei, posso afirmar que atrações podem ocorrer, em termos gerais, das seguintes formas:

– atração imediata (geralmente chamada de atração primária).

– atração desenvolvida (geralmente chamada de secundária) após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que já é potencialmente atraente.

– atração desenvolvida após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que antes não era potencialmente atraente.

– atração por uma presunção de gênero, e que permanece mesmo após haver confirmação de estar errada.

– atração por parceire de longa data que permanece mesmo quando elu se revela de outra identidade de gênero.

Sim, estou “validando” atração por uma presunção de gênero, unicamente porque isso é uma realidade no contexto atual. Porém, isso não é um destino, não é inalterável, e não é inquestionável. Inclusive, acredito que precisamos trazer essas discussões para que pessoas possam se conhecer melhor, e também para evitar mais gente não-binária sendo alvo de reducionismos alheios.

A desconstrução pode fazer diferença para certas pessoas. Há pessoas que podem descobrir ter atração por pessoas n-b por autorreflexão, acesso à informação, e/ou experiências com pessoas n-b. Da mesma forma, a desconstrução pode não fazer diferença. Algumas pessoas não se importam também, e querem se manter numa perspectiva binarista de mundo.

E tudo bem também para pessoas que até então se atraíram apenas por gente que correspondia a um gênero binário presumido, e que, por um acaso, eram mesmo desse gênero. São circunstâncias possíveis. Para algumas pessoas, um grupo é mais acessível a elas, e tudo bem se esse grupo for unicamente pessoas cis/binárias. Isso não é a mesma coisa que gente que busca somente relações com pessoas de um gênero presumido específico, não se importando mesmo quando são não-binárias. Uma pessoa já me disse que acha que pessoas assim poderiam ainda adotar rótulos que incluam n-b. Não discordo, mas particularmente acho que essas pessoas deveriam apenas evitar relações com gente n-b. Inclusive, esse é o meu posicionamento com pessoas hétero, e falei sobre isso nesse texto aqui.

Mesmo que a atração seja por um gênero presumido, pessoas ainda deveriam refletir se não deveriam considerar relações com pessoas n-b como relevantes, e procurar uma maneira saudável de incluí-las, que pode ser adotando outra(s) identidade(s) (como bi, poli, etc) ou ressignificando dentro do possível as existentes (como no caso das orientações gay e lésbique). Depende de cada caso, não existe uma resposta universal.

A ressignificação de orientações mono, em especial gay e lésbique, pode até ser defendida por reducionistas de gênero, porém, ela pode fazer sentido para muita gente n-b. E acho que vale pontuar também o quanto várias pessoas aceitam as premissas do reducionismo de gênero porque são carentes de afeto, por suas opções de relacionamento serem escassas, então aceitam serem reduzidas a gêneros binários para ter alguma coisa, por mais mínima que seja.

Há pessoas que consideram a validação da atração por pessoas n-b importante mesmo quando a atração surgiu pela presunção binária. E sei disso porque já aconteceu comigo: um menino gay chegou em mim, mostrou interesse, falei que eu era não-binárie, e então ele se questionou se continuava “sendo gay”. Muito embora ele tenha se atraído por uma presunção, e eu também nem acho que faria sentido ele mudar sua identidade por causa de uma atração pontual, aquela situação foi relevante suficiente para ele questionar se a identidade gay podia descrever aquela experiência. Talvez aquilo o tenha feito considerar atração por n-b uma possibilidade maior, e/ou tenha mostrado uma nova possibilidade que até então nem havia sido considerada.

Explorando a atração por pessoas não-binárias

Li uma vez uma postagem dizendo que alguém afirmar não ter atração por pessoas não-binárias não tem fundamento, porque não existe qualquer padrão ou referências sobre o que é uma pessoa não-binária, que pessoas não-binárias podem ser literalmente de qualquer jeito assim como pessoas binárias, e que com certeza em algum momento da vida todo mundo se atraiu por uma pessoa n-b sem saber disso. Eu… não discordo disso.

Significa então que toda pessoa é atraída por pessoas n-b? Hm… vamos nos aprofundar nisso.

A afirmação que qualquer pessoa de qualquer identidade de gênero pode ser de qualquer forma faz todo sentido, e não há o que discordar aqui. O problema é quando isso é colocado como a realidade total de todas as pessoas, sem considerar qualquer contexto social, as dinâmicas, e como os sistemas opressivos operam. Bem, se todes são atraídes por qualquer identidade de gênero, então significa que enfim rompemos com o cissexismo? Rompemos também com parte do heterossexismo, já que héteros nem existem? Rompemos com o monossexismo, já que todo mundo é multi?

Não é assim que funcionam as coisas, ainda mais quando fenômenos como privilégio hétero e multimisia continuam existindo e beneficiando certas pessoas.

Com tudo que foi dito até aqui, lembrando também das situações que citei sobre como atração ocorre, não acho impossível existir situações em que alguém perde atração pela pessoa se dizer não-binária. É exatamente a mesma coisa que já acontece com gente com atração por bináries. Se é errado não se atrair e não querer relações com n-b, bom, então vamos agora acusar váries homens gays e mulheres hétero de misoginia por não quererem nada com mulheres, ou admitir que existe misandria da parte de váries mulheres lésbiques e homens héteros? Talvez o que não tenha de atraente na não-binaridade é a mesma coisa com pessoas que apenas se atraem e se relacionam com um gênero binário específico. O que podemos fazer? Vamos policiar a atração e relação alheias, e assim criar um novo regime opressivo em cima do heteronormativo?

No fim das contas, pessoas também podem buscar relações com apenas um grupo de gênero específico por quaisquer outras razões além de atração, principalmente por afinidades e facilidade de relação. E as dinâmicas com pessoas não-binárias tendem a ser muito diferentes de pessoas cis e binárias num geral, o que leva gente n-b muitas vezes a encontrar relações melhores com pessoas multi e/ou outras não-binárias.

Não acho que deveríamos focar em provar que pessoas podem ser entendidas como não-binárias sem nenhuma informação prévia e que a atração imediata por isso é o que realmente se configuraria numa atração por n-b real e possível. Caímos num paradoxo, pois a mesma coisa poderia ser afirmada de pessoas binárias. Acho que deveríamos ir por outras abordagens, e deixar cada ume se atrair e se relacionar com quem quiser e ponto final.

Termos de atração que incluem n-b, relações diamóricas

Afirmo com certeza que não é impossível ou sem sentido orientações que incluem ou podem incluir atração por n-b, como toren e trixen ou poli. Mesma coisa sobre pessoas que se dizem atraídas exclusivamente por gente n-b. Vindo de pessoas binárias, isso gera controvérsias. Mas vindo de outras pessoas n-b, essa possibilidade existe, pois elas podem não ter atração por gente binária por causa de opressão e experiências negativas. E, da mesma forma, também podem perder alguma atração prévia. Na prática, convenhamos, não é diferente de relações centradas entre grupos marginalizados (como as transcentradas, ou afrocentradas, enfim), e se homens aquileanes e mulheres sáfiques podem escolher se relacionar apenas com o mesmo gênero, a mesma opção deve existir para pessoas n-b também.

Porém, muitas pessoas admitem que atração exclusiva por gente n-b pode ser confusa ou pouco frequente, e por isso difícil de entender, pois ainda vivemos num mundo onde não existe ainda um número significativo de pessoas não-binárias evidentes, e ainda tem toda aquela questão que expliquei das referências sociais impostas. Mesmo assim, há pessoas afirmando que sentem atração exclusiva por pessoas n-b, e não há razões para não acreditar nisso.

E como alguém pode se atrair “desde sempre” por pessoas n-b apesar das referências? Não sei. Particularmente, imagino que talvez essas atrações poderiam se manifestar como interesse por androginia, inconformidades de gênero, corpos que poderiam ser considerados intersexo ou transicionados, corpos e aspectos improváveis de existir “naturalmente”, e/ou até mesmo seres humanoides fictícios. Isso até a pessoa se desenvolver e aprender que sexo não define gênero, que pessoas não-binárias existem, e que elas podem ter qualquer aparência e corpo. E digo tudo isso porque o que faria mais sentido para uma “atração não-binária” é criar suas referências por fora das referências binárias.

Identidades que descrevem atração não precisam ser tão restritas assim, nem tão literais. E nenhuma exige qualquer tipo de relação. Na teoria, pessoas podem ter relação com qualquer ume. Mas ter determinada identidade não implica que você deva se relacionar com tal pessoa ou grupo.

Por isso mesmo é válido adotar certas identidades pensando não apenas em atração como também em suas relações, querer expressar por meio desses termos que você tem relações com pessoas de tal identidade/grupo. Uma pessoa cetero, por exemplo, não precisa ser alguém que passou a vida toda tendo atração imediata unicamente por pessoas n-b, mas pode muito bem ser alguém cuja atração por pessoas n-b é a única relevante e que busca relações somente com essas pessoas. Aliás, pessoas já adotam orientações por outras razões além da descrição geral, podendo ser afinidade com uma comunidade (ex: alguns casos de pessoas [mono] [multi]), ou pela facilidade em explicar para as pessoas em geral (ex: uma pessoa que usa pan em vez de bi devido à interpretação binária do senso comum).

Acho muito admirável o trabalho que as comunidades virtuais na anglosfera tem feito há anos. Há registros de cunhagens de rótulos falando de atração por n-b já desde o início da década passada. Isso comprova o quanto essas comunidades estavam muito avançadas, trazendo perspectivas de inclusão e validação não-binária que estão até hoje sendo debatidas de uma forma tão rasa e infeliz (especialmente na lusosfera). E já faz anos que pessoas têm tocado em assuntos como pessoas hétero se atraindo por n-b, ou se todo mundo é realmente atraído por n-b, ou se ter uma atração pontual por pessoas n-b tem o mesmo peso que relações com elas.

Essas cunhagens são muito importantes para experiências de pessoas não-binárias, e de atrações e relações envolvendo pessoas não-binárias, ainda mais num mundo ainda regido por um sistema binário de gênero que não considera sequer identidades ou atrações e relações assim como reais, possíveis, ou legítimas.

Mesmo assim, entendo que haja pessoas na dúvida sobre a importância de evidenciar relações diamóricas, ainda mais quando o assunto são as dinâmicas de opressão e discriminação na sociedade. Atração por n-b é discriminada? Minha resposta é: sim. Com certeza não da mesma forma que relações entendidas como “homoafetivas” (num contexto binário típico, né). Também me questiono o quanto um homem cis hétero todo padrão declarando atração por uma pessoa com toda uma “passabilidade de mulher cis”, mesmo após essa pessoa se declarar não-binária, teria sua atração discriminada da mesma forma se a situação fosse com alguém de barba e peito reto. Porém, apagamento também é uma faceta da opressão. Considero essa discussão no mesmo patamar de pessoas trans binárias sem passabilidade sendo maldenominadas.

E, além disso tudo, por mais apagadas que sejam as relações diamóricas, pessoas não-binárias ainda estão sujeitas a relações abusivas com pessoas binárias que não consideram sua não-binaridade (olá, prazer, sobrevivente de uma relação assim falando aqui). Violências assim e em outros campos também causam danos, o que não deixa de ser parte do exorsexismo.

Por tudo isso que a validação de pessoas não-binárias é tão necessária, e isso inclui terminologias que descrevam atrações e relações específicas com e entre pessoas n-b.

E um breve adendo: em outras culturas não-ocidentais existem termos que descrevem relações entre homens e mulheres com pessoas de identidades de gênero restritas dessas culturas. Menciono isso apenas como um paralelo, para mostrar que termos que descrevem relações entre gêneros “diferentes”, num contexto fora do binário, são históricos e considerados relevantes por tais culturas.

“Todo mundo se atrai por n-b, toda orientação inclui n-b”

Então podemos afirmar com toda confiança de que todo mundo é potencialmente atraído por pessoas não-binárias? Minha resposta é: depende.

Tente imaginar ou compreender a seguinte situação: uma pessoa que passou a vida toda achando que só existiam dois gêneros, e se atraiu e se relacionou unicamente com pessoas que se apresentavam como um desses gêneros. Eu, uma pessoa de outra geração, de outro contexto, com toda informação que tenho, posso chegar nela e dizer que a atração dela não é por apenas esse gênero, e que ela na verdade se atrai sim por pessoas de um grupo o qual ela nem sabia que existia? Posso fazer isso? Podemos fazer isso? Como exigir de alguém se atrair pelo que elu desconhece?

Antes de ficarmos repetindo como mantra que todo mundo se atrai por n-b, deveríamos pensar nessa nuance e nas outras abordadas anteriormente.

E, sobre a questão de toda orientação incluir ou não n-b, proponho as seguintes perguntas:

“Toda pessoa está interessada em incluir n-b em sua orientação?”

“Toda pessoa n-b faz questão de ser incluída na orientação de todes?”

Como a resposta para ambas é não, então, não há sentido em jogar pessoas não-binárias para quem não as quer e para quem não querem, e isso apenas com o intuito de validá-las, sendo que outras formas melhores disso existem e foram apresentadas. Gente exorsexista nem deveria estar entrando nessa discussão toda.

Apesar de tudo que foi dito até agora, muita gente “convencida” pode ainda achar que atração por toda não-binaridade é o que faz mais sentido, ou atração apenas por espectros de gênero – que vão de masculino e feminino, tendo andrógino/neutro no meio. Então isso levanta umas perguntinhas, por exemplo:

“Como é possível então se atrair exclusivamente por pessoas agênero?”

“Como assim atração maior por xenogêneros?”

“Como ter preferência por identidades distantes do binário, como aporagênero e maverique?”

Pra mim as respostas para perguntas assim são tão subjetivas quanto responder o por que nos atraímos por homens, mulheres, expressões masculinas, expressões femininas, e expressões andróginas/neutras. Nada disso precisa de justificativa para existir. Mas se vamos agora exigir explicações, que sejam então de todo mundo. Justo, né?

Da mesma forma que não me interessa tentar entender quem se atrai por tudo que mencionei, não me interessa também quem se atrai por novos arquétipos, ou novas projeções, ou grupos e/ou identidades em particular. Se alguém diz se atrair de tal forma por tal coisa, eu não tenho o que contrariar ou discordar, o que posso fazer é apenas acreditar, pois nem tenho motivo para desacreditar.

Talvez, para algumas pessoas, faça sentido se atrair por ausências de gênero, ou por gêneros que não podem ser explicados com concepções comuns e humanas, ou por todas as identidades definidas por não estar de qualquer forma dentro ou próximo do binário. Talvez o que exista de tão atraente em masculinidades e feminilidades também exista em androginidades/neutralidades, e também em nulidades, xeninidades, outerinidades, entre outras possíveis qualidades de gênero. Talvez seja a mesmíssima coisa com as qualidades que existem em outras culturas e só fazem sentido dentro des entendimentos e dinâmicas de gênero delas. Novas ideias estão sendo descobertas, ou criadas, ou (re)formuladas, e, a partir delas, possibilidades surgem ou mesmo ressurgem. É assim que entendo essa questão toda.

Eu adoraria que houvesse estudos sobre isso, pois gosto de estudos sobre diversidade. Mas se for para existir estudos sobre atração por identidades não-binárias, que haja também sobre atração pelos gêneros binários. A última coisa que precisamos é exotificação científica, assim como já foi praticada com homossexualidade e transexualidade.

Sinceramente? Nós não entendemos nada de nada ainda. O que entendemos até agora sobre essas questões de atração e gênero ainda estão em construção. E o que entendemos até o momento é muito enviesado: são muitas perspectivas normativas, tendenciosas, ocidentais, e que fazem mais sentido na atualidade. E as perspectivas de muitos corpos, em especial com deficiência e neurodivergentes, sequer estão tendo a consideração que merecem. Não temos todas as respostas. E, mesmo quando há uma resposta, ela pode mudar daqui a uns anos. Talvez jamais tenhamos todas as respostas. Então precisamos tanto assim ficar disputando por respostas definitivas e absolutas? Pra que, afinal? Por nós? Por nosso grupo, ou nossas bolhas? Pela sociedade? Pelo planeta todo? Precisamos pensar mais nisso.

Enfim, acho que posso concluir o texto assim: atração por pessoas não-binárias, por mais subjetiva que seja, por mais que seja uma discussão ainda sendo construída conforme as discussões não-binárias avançam, é tão real e possível quanto atração por pessoas binárias, pode ter vários significados e contextos, pode ou não estar inclusa em qualquer orientação, pode ou não ser relevante nas relações de alguém, abre uma gama de possibilidades que transcendem concepções binárias, e desafiam as concepções atuais que ainda temos de atração e orientação e identidades.

Precisamos parar com tantos esforços inúteis e danosos de tentar simplificar a diversidade. Afinal, isso apenas nos joga de volta às margens das normatividades. Se formos analisar bem, as normatividades são exatamente isso: simplificações. E o que podemos fazer até lá? Bom, continuar vivendo e aprendendo, nos relacionando com quem quisermos, adotando os rótulos que quisermos, nos politizar, e contribuir para mudanças radicais, para derrubar as hegemonias vigentes. E podemos começar isso apenas parando de reforçar tais hegemonias. Nunca faremos parte delas. E ainda bem.

Links adicionais:

Instagram – Qualidades de gênero

Instagram – Atrações

Valprehension – “Se você está afim de mim, então você não é hétero” (em inglês)

Todo Mundo Sente Atração Por Pessoas Não-Binárias (em inglês, tem legenda em pt-br)

Tumblr: uma postagem sobre discursos sobre atração não-binária (em inglês)

Tumblr: uma postagem sobre argumentos reducionistas de gênero (em inglês)

Medium – Passando como Transfem e Transmasc (Ao Mesmo Tempo) (em inglês)