O sexo: biológico ou construção social?

Aviso de conteúdo: diadismo, cissexismo, colonialismo, menções a genitálias e órgãos reprodutivos, terminologias obsoletas, links externos.

Entendo se a pergunta parecer absurda. Quando se fala no sexo ser uma construção social, o que muita gente pode entender é que está se afirmando que os órgãos e as funções reprodutives/sexuais são uma invenção, ou são irreais, apenas uma ideia abstrata. Ninguém está afirmando isso. Muito menos negando as possíveis realidades trazidas pelas possíveis corporalidades. O que está se questionando são atributos, valores e viés com os quais tratamos o sexo. O texto é sobre isso.

Uma breve história do sexo e do gênero

Antes de tudo, acho interessante e necessário fazer uma revisão histórica muito resumida sobre como a humanidade lidou com o sexo até chegar aos dias atuais, até existir a concepção de “sexo biológico”.

Diversas culturas e sociedades ao longo da história tiveram suas próprias concepções de sexo-gênero. Em tempos mais remotos, em culturas matriarcais, entendia-se como divina e sagrada a capacidade de pessoas com útero de gerar vida. Outras culturas tiveram suas próprias categorias ou identidades de gênero para indivíduos eunucos, intersexo, ou que não aceitavam os papéis sociais esperados, como no caso de pessoas Sekhet, Tumtum e Burrnesha. Mesmo havendo questões complicadas em torno disso, esses são apenas exemplos de como sexo nunca foi interpretado apenas como uma realidade biológica sem influências sociais e culturais. Até mais da metade do século 18, a reprodução não havia sido compreendida como é atualmente, passando por diversas hipóteses e crenças (também enviesadas por gênero) que foram rompidas pela ciência.

A Grécia Antiga se destacou pelo modelo de sexo-único, que acreditava basicamente que o “sexo masculino” era mais desenvolvido enquanto o “sexo feminino” era uma versão inferior, invertida desse outro. E tal perspectiva moldou a forma como mulheres cis e a feminilidade eram tratades nesse período: numa posição de passividade, fraqueza, submissão, etc.

E então, no final do século 18, criou-se o modelo de dismorfismo sexual que temos até os dias atuais, que colocava dois sexos diferentes e distintos, nascidos para se complementarem, colocados em realidades “naturais” próprias e justificadas pela ciência, pela região, pela moral, e outras concepções construídas ao longo dos anos e das épocas. Expectativas de virilidade e de qualidades como racionalidade e inteligência surgiram para “os homens”, enquanto a maternidade e a reprodução eram o destino e o ideal para “as mulheres”.

As concepções atuais, embora ainda em disputas e com cargas do passado, elaboraram melhor sobre a extensão do sexo. Podemos separar o sexo em quatro fatores principais:

  • genéticos – cromossomos e genes,
  • gonadais (testículos, ovários, etc),
  • genitais (pênis, vulva, etc),
  • e hormonais – suas atividades e os efeitos esperados (que formam as chamadas características secundárias, como barba e tamanho dos seios).

Quando o assunto é “os sexos”, o imaginário coletivo costuma pensar a mesma coisa que é vista nos livros de biologia: dois corpos brancos, magros, padronizados. Nem focarei a questão nos corpos transicionados. Pergunta: quantos corpos negros, gordos, mais diferenciados são mostrados, ilustrados, tidos como referências? Não é por um acaso que esses corpos não aparecem, pois nossas concepções de sexo vêm de uma base eurocêntrica. A diversidade de corpos está atualmente promovendo essa nova disputa, que é questionar e reformular essa sistematização vigente do sexo, que dita que só existem dois sexos legítimos e naturais.

O gênero e os órgãos reprodutivos

Essas duas categorias absolutas de sexo que então predeterminam um gênero são colocadas a nós como realidades. E, sendo realidades, são inquestionáveis, são para a vida toda, são parte do que somos e jamais poderemos mudar. Tudo isso começa com uma simples genitália de ume bebê, ou do que é identificado num ultrassom.

Várias e várias vezes pessoas cis reafirmam seus gêneros com base na genitália (principalmente) (que, para elas, resume a totalidade de seus sexos). Isso é mais presente em homens. Mulheres podem incluir nisso seus ovários e útero. Pois bem, aí temos uma imensa brecha que demonstra a fragilidade do sistema binário de sexo-gênero, visto que essas partes corporais podem sofrer efeitos irreversíveis, como perda ou “inutilização”. Se um homem perder o pênis num acidente, ele deixará de ser homem? Quando a mulher já não menstrua e nem reproduz mais, ela deixa de ser mulher? Centralizar os gêneros nessas partes corporais, portanto, é inviável.

Quando o assunto não envolve pessoas cisdissidentes, e pessoas cis são questionadas sobre seus gêneros, incrivelmente, elas costumam se reafirmar com respostas subjetivas, mesmo que muitas se baseiem em estereótipos e papéis de gênero. Nesses momentos, ninguém se lembra da tal “realidade” do sexo. E ela também não é lembrada quando estamos falando de máquinas, inteligências artificiais, e personagens de obras fictícias. O robô Sophia foi reconhecido como uma cidadã, e é tratado o tempo todo como mulher, mesmo não tendo nada de orgânico dentro dele. Siri é tratada sempre com linguagem associada ao gênero mulher, apesar da mesma declarar por si própria que não é mulher e gênero não se aplica a ela. As Gems da franquia Steven Universo, embora utilizem como padrão a linguagem a/ela/a e possuem formas geralmente associadas com o que se entende por feminino, são entendidas como mulheres, apesar de serem aliens sem sexo/gênero e mesmo podendo adotar qualquer forma e linguagem. Esses são exemplos de que gênero é (de)marcado também quando conveniente mesmo quando não há um sexo presente. Não é sobre sexo, ou apenas sobre sexo.

A simplificação do sexo

Os termos “sexo masculino” e “sexo feminino” já nem têm uma lógica, pois não faz sentido chamarmos coisas objetivas por coisas subjetivas. Os sexos estão ali, sendo o que são. O que os torna masculinos ou femininos? Como podemos chamar os sexos de ideias que mudam de tempos em tempos e de cultura em cultura? E como poderíamos ainda utilizar tais palavras enquanto as desvinculamos dos arquétipos de homem e mulher?

Tirando essas abstrações, mesmo corpos que se encaixam nos ideais dos “sexos típicos” (os perissexos) são muito variados entre si. O sexo não é um fator infalível que “denuncia o gênero” das pessoas sob toda e qualquer circunstância. Corpos marcados como “femininos” que são esguios e com seios pequenos podem bagunçar percepções sociais. Corpos marcados como “masculinos” que são gordos e desenvolvem seios rompem com a expectativa de um corpo de peito reto. Pode ser difícil assimilar essas variedades porque vivemos numa sociedade muito marcada por gênero através de roupas e comportamentos. Pode ser também que vivemos numa bolha onde corpos que se encaixam nos ideais cisnormativos são predominantes, o que torna a perspectiva mais enviesada. Porém, corpos são diversos, e portanto não se encaixam perfeitamente em duas categorias tão estritas com características que podem ser presumidas e que são esperadas.

Como também foi mencionado, existem quatro fatores principais que moldam o sexo das pessoas, e tais fatores, além de amplos, também oferecem combinações variadas entre si. Por isso temos tantas variações mesmo que das genitálias típicas, de tamanhos de seios, de distribuição e quantidade de pelos, enfim. E no meio dessa diversidade toda, saindo do que ainda é considerado comum, temos a intersexualidade, que logo será abordada.

Então o que sobrou até aqui são os usos dos termos “macho” e “fêmea”, pois parecem ser os únicos que faz algum sentido usar, ou que podem ser viáveis para se referir a tipos sexuais. Hm, bem, não exatamente. Esses termos perdem totalmente o sentido com corpos que fizeram procedimentos hormonais e/ou cirúrgicos, ainda mais corpos uma grande “passabilidade” como de “outro sexo”. Vou elaborar mais no próximo tópico.

Intersexualidade: sexo enquanto espectro

Com as concepções vigentes de sexo, vieram também as concepções de sexos normais e sexos anormais, defeituosos, de anomalias, de distúrbios. O que entendemos por intersexualidade não é uma novidade, e já esteve presente em outras culturas. Porém, a patologização da intersexualidade é um tanto recente. É um assunto tão apagado que quase ninguém aprende sobre ele, seja numa escola, seja trabalhando numa área da saúde. Muita gente pode até ter tido contato com o termo “hermafrodita”, mas o que se entende é “alguém com pênis e vagina”, ou “alguém com ambos os sexos” (que quase sempre se resume às genitálias típicas). E várias mentiras continuam sendo espalhadas, principalmente que pessoas intersexo são estéreis e frequentemente doentes.

A pauta intersexo está avançando, e está desmentindo décadas de falácias e invenções sobre intersexualidade. O que o movimento intersexo internacional esteve defendendo é a validação dos corpos intersexo, o que fez com que váries cientistas revisassem as concepções de sexo. E então chegamos a uma nova perspectiva que esteve ganhando cada vez mais força: sexo é um espectro. Nos deparamos então com inúmeras combinações de cromossomos, órgãos e atividades hormonais que revelaram o quanto o sexo é complexo, e que essa complexidade está presente em muito mais do que uma minoria estimada da população.

Cromossomos foram por muito tempo presumidos por meio das genitálias típicas. Considerando que a maioria das pessoas sequer conferiu seus cromossomos, é muito possível que haja mais pessoas com variância cromossômica do que se estima. A mesma coisa vale para órgãos internos e fenômenos como o mosaicismo.

Apesar disso tudo, a intersexualidade ainda não rompe com os ideais de “macho” e “fêmea”, que se entende como os sexos “típicos”. Há pessoas que até argumentam que a intersexualidade confirma a realidade dos sexos típicos. E há pessoas que, ainda apegadas aos ideais binários, defendem que o sexo é um “espectro de machos e fêmeas”, o que parece ser algo um pouco mais amplo que duas categorias estritas. Porém… se apegar ao “macho” e à “fêmea” ainda cai em contradições e paradigmas que precisam ser rompides. O sexo é fundamentado na reprodução, e com a reprodução vêm atrelados arquétipos sociais. O que seria um macho ou uma fêmea que não reproduz? A ideia de macho ainda faz sentido num corpo com pênis mas esguio e delicado? A ideia de fêmea ainda faz sentido num corpo com vulva mas grande e atlético? Vamos agora criar uma nova hierarquia, com machos típicos e atípicos e fêmeas típicas e atípicas? Entende aonde quero chegar? Se tirarmos a necessidade de reprodução e toda generificação, o que sobra para o macho e a fêmea? E vale relembrar que corpos transicionados já saem de qualquer lógica desses ideais também. Ampliar macho e fêmea é uma enorme perda de tempo. Precisamos tratar esses ideais como ultrapassados e inúteis. O macho já causou muito estrago. E o futuro não será da fêmea.

Mas e a reprodução? E as diferenças biológicas?

A reprodução ocorre tipicamente com a fusão de dois gametas, um espermatozoide e um óvulo, o que tradicionalmente necessita de dois sexos complementares. Ponto. Esses sexos complementares podem ser dois perissexos, um perissexo e um intersexo, ou dois intersexos (lembrando que nem toda pessoa perissexo é fértil e nem toda pessoa intersexo é infértil). Com o uso de tecnologia, essa reprodução pode ocorrer sem uma relação sexual, com a fertilização de um óvulo por inseminação artificial. Aliás, a tecnologia já está tendo resultados com processos que criam gametas a partir de outras células. Talvez, futuramente, teremos gestações completas in vitro ou mesmo partenogênese induzida na espécie homo sapiens.

Como foi dito antes, o sexo é fundamentado na reprodução da espécie, e assim foi por muito tempo pela religião e pela ciência. E os papeis reprodutivos posicionaram as pessoas em locais diferentes em várias sociedades. Como se o papel de determinado corpo na reprodução devesse determinar a ele valores, atribuições, comportamentos, e expectativas. Tudo isso são construções sociais. Até mesmo o modo como se lida com os possíveis papeis dos corpos na reprodução. É evidente a diferença entre um corpo que insemina e um corpo que gera. Porém, nem esses e nem aqueles que não possuem nenhuma capacidade ou mesmo vontade de reproduzir devem ser reduzidos a isso. Pessoas são muito mais que um papel reprodutivo.

A espécie continuará reproduzindo como sempre fez, se for essa a grande preocupação. Mais importante que isso é tornar a reprodução um processo absolutamente ético, sem pressões sociais, ou idealizações, ou expectativas, que parta de decisões tomadas individualmente (por quem que vai gerar), ou, se forem coletivamente (por quem vai gerar e ume parceire, um grupo, ou uma comunidade), que a pessoa que for gerar tenha o controle total de seu corpo e a plena consciência de concordar e vivenciar o processo. E torcemos para a evolução dos processos in vitro, para que assim os corpos também possam escolher não vivenciar toda uma gestação.

A ideia comum de reprodução acompanha várias outras ideias vinculadas a gênero. E tudo isso está sendo reapropriado e ressignificado por corpos dissidentes. A menstruação é até hoje considerada um “signo feminino”, parte do que faz mulher ser mulher. Agora, isso está sendo questionado. Não apenas da perspectiva de mulheres cis, que estão se colocando como muito mais que corpos que menstruam, e que estão evidenciando a vivência de mulheres que não menstruam. As perspectivas de corpos que não são cis ou perissexo estão conquistando espaço, mostrando que menstruação pode ser masculina para algumes homens trans, pode ser não-binária para algumas pessoas fora do binário, pode ser apenas uma característica tão relevante quanto tamanho e cor de olhos e cabelos para algumas pessoas de qualquer identidade de gênero, entre outras possibilidades. A mesma coisa está acontecendo com maternidade, paternidade, com os corpos que produzem esperma, enfim.

Por fim, entendo que o que foi trazido até aqui também pode entrar em conflito com os estudos neurológicos de sexo/gênero. Vários estudos indicam que existem diferenças estruturais significativas entre cérebros de corpos predominados por testosterona e corpos predominados por estrogênio. Outros indicam que determinados cérebros até predispõem preferências por certos signos sociais, como brinquedos e roupas. Espero que haja mais estudos sobre o cérebro, com metodologias variadas, feitos também por pessoas dissidentes. Não duvido que possa haver diferenças estruturais de nascença. De novo, as diferenças biológicas podem existir e existem. A questão maior é como lidamos com essas diferenças quando inseridas numa sociedade com hierarquias formadas em torno de um sistema de sexo-gênero. Novos estudos indicam que cérebros podem ter noções de sexo/gênero mais flexíveis. E, em todo caso, estudos “indicando” que cérebros podem predispor pessoas a se adequar a estereótipos de gênero já se mostram tendenciosos no momento em que estereótipos são puramente construções sociais. Como seria um cérebro “predisposto” a gostar de carrinhos ou de saias numa sociedade onde essas coisas nem existem? São nuances como essa que tais estudos deveriam começar a considerar melhor.

Fazendo nossos sexos

Afinal, a quem a desconstrução do “sexo biológico” realmente ameaça? A única ameaça real é somente contra aquelus que estão em posições de poder na hierarquia de sexo-gênero. Contudo, muitas pessoas, mesmo quando em posições menores na hierarquia, ainda terão resistência com isso, pois elas estão muito imersas numa realidade feita por falsas verdades afirmadas e reafirmadas constantemente. O sexo, mesmo hierárquico, também é feito no discurso. Está aí a importância de se apropriar e mudar o discurso.

Estamos presenciando o surgimento e a visibilização de paus de travesti, bigodes neutros, peitos transmásculos, úteros sem gênero, neovulvas transxeninas, e, com o avanço da tecnologia, poderemos ter uma diversidade de corpos físicos que ainda não é possível. Mas não apenas a tecnologia faz o sexo. Nossos discursos também fazem o sexo. Precisamos agora caminhar para retomar o sexo, e darmos aos nossos sexos nossos próprios sentidos em vez de deixar um sistema falido continuar fazendo isso por nós. É essa libertação que precisamos, que só teremos depois de jogar no lixo o binário de sexo/gênero e todos seus subprodutos (incluindo o macho e a fêmea).

É necessário descolonizar o sexo, para então personalizar o sexo, e então customizar o sexo como podemos e queremos.

Enfim, nossa concepção de sexo precisa ser revista e atualizada, pois continuar tratando-o como um binário estrito, uma realidade biológica inquestionável e atemporal, e algo apenas material existindo fora de influências sociais e culturais não é mais viável, além de ser anticientífico e limitante demais.

Links adicionais:

Ume Garote Altermative – O sexo biológico

Transfeminismo – Mulheres Trans Também São Mulheres Biológicas

Medium – Texto: Sexo não é cromossomos: a história de um século de ideias erradas sobre X e Y

AzMina – “Não é só o gênero que é socialmente construído, o sexo biológico também”

YouTube – Make Science BR | Sexo Biológico versus Identidade de Gênero (Parte 1)

YouTube – SciShow | Existem Mais Do Que Dois Sexos Humanos (em inglês, mas tem legendas automáticas em pt-br)

YouTube – Riley J. Dennis | Macho e fêmea são bináries, mas as pessoas não são (em inglês, mas tem legendas automáticas em pt-br)

YouTube – TED: A estranha história dos “cromossomos sexuais” | Molly Webster (em inglês, mas tem legendas em pt-br)

Visualizando Sexo como um Espectro (em inglês)

O corpo e a construção das desigualdades de gênero pela ciência (AC: cissexismo) (artigo científico para baixar)

Indeterminade

Publicado por Oltiel

Aporagênero (-/elu/-e), polissexual, não-monogâmique, queer, militante LGBTQIAPN+, socialista, e mais umas coisinhas.

Um comentário em “O sexo: biológico ou construção social?

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