As nuances das representatividades dissidentes nas mídias

Aviso de conteúdo: citação de muitos termos em inglês, menções de retratações dissidentes controversas.

Começo o texto apresentando conceitos e adaptações que serão usades.

Queercoding: poderia ser traduzido como “codificação queer”. É um conceito para personagens que “aparentam” ou “dão indícios de” ser da comunidade, mas sem que isso seja declarado por elus ou fontes oficiais. No texto, usarei o termo “codificade” para falar disso.

Queerbaiting: poderia ser traduzido como “isca queer”. É um conceito sobre propagandas, fofocas, rumores e indícios sobre tal personagem ser da comunidade, mas isso nunca é confirmado ou oficializado. No texto, usarei o termo “engodo” para falar disso.

Headcanon: se refere a quando fãs ou fandom acreditam em algo sobre ume personagem sem que tal crença tenha sido confirmada, ou mesmo que haja informações oficiais que contrariam essa crença; e aqui estou falando no contexto de orientação, gênero, sexo, e etc. No texto, adaptarei para “oficial imaginário”.

Pink money: literalmente, “dinheiro rosa”. É um conceito geralmente usado para quando pessoas, grupos, empresas, marcas ou organizações ganham algum lucro em cima da causa LGBTQIAPN+, como uso de seus símbolos (temática colorida), discursos (“amor é amor”), atos (um beijo aquileano/sáfico “encenado”), e etc.

A palavra representatividade ganhou muito destaque com o avanço dos ativismos sociais, principalmente no meio virtual. É comum encontramos postagens e análises críticas sobre as representatividades nas mídias, abordando se são positivas ou negativas, o que acertaram e o que poderiam melhorar, entre outros tópicos. Aqui, a perspectiva de pessoas de determinados grupos (pessoas politizadas, só ressaltando) é muito importante; afinal, representatividade sempre se refere a grupos subrepresentados ou minorizados.

O texto terá foco em pessoas dissidentes de sexo, gênero, atração e relação. Mas acredito que o conteúdo pode ser aplicado para outros grupos.

Não há “representatividade cis”, ou “hétero”, ou “branca”, entre outras, pois esses grupos já são/estão representados em quase tudo, mesmo quando tais representações são problemáticas ou nocivas. E isso nem importa tanto, já que mesmo essas representações não tornam a realidade desses grupos pior.

Quando o assunto é representatividade, muita gente pode reduzir a questão a representatividade boa e representatividade ruim. E há nuances que podem e devem ser exploradas, considerando contextos históricos e sociais e a complexidade des personagens e suas realidades. Acredito que essa abordagem possa ser útil para analisar representações de forma mais crítica e também ampla.

  • Codificações: artifício ou necessidade?

Acho que um dos maiores exemplos de codificação que temos é da própria Disney. Váries vilanes das animações clássicas possuem traços e trejeitos que es fazem ser associades a “pessoas queer”. Aqui temos Úrsula de A Pequena Sereia com cabelo curto e uma maquiagem chamativa, Scar de O Rei Leão e Jafar de Aladdin com seus jeitos teatrais e furtivos, e Hades de Hércules fazendo um discurso “contra homens”. Há quem diga que a Rainha de Branca de Neve e Cruella de 101 Dálmatas são codificadas. Mesmo assim, várias pessoas da comunidade que cresceram em contato com a Disney se encontraram muito nessus personagens, com menção especial a meninos/homens aquileanes e as vilãs; apesar de más, a feminilidade delas inspira uma rejeição à masculinidade hegemônica.

Só um comentário: é irônico pensar que a Disney fez tanto uso de codificação em vilanes enquanto tem uma representação predominante de famílias não-tradicionais.

Animações mais antigas da Disney possuem também um histórico de usar de estereótipos queers mais exagerados. Considerem que a empresa veio de uma época em que retratações queers eram proibidas, então codificações acabaram sendo um meio de colocar figuras dissidentes mesmo que por uns segundos e com finalidade de comédia.

Pode ser que codificações tenham vindo como uma forma discreta de se colocar a existência de pessoas da comunidade na mídia? Pode ser que sim. É um terreno nebuloso para concluir algo, ainda mais pelo contexto da época e a falta de declarações de produtories – em vida ou póstumas. E pode ser que ainda precisemos de codificações nos tempos atuais. O melhor seria caminharmos para não precisarmos mais delas.

A Disney parece que evoluiu de codificação para engodo de uns tempos pra cá, mesmo que haja exemplos que eu atribuiria mais aos anseios por representatividade do público do que uma iniciativa premeditada da própria empresa. Elsa de Frozen é um ótimo exemplo de personagem em que oficiais imaginários se tornaram pedidos em massa de criação de uma primeira princesa oficialmente queer. Não gosto da ideia de presumir heterodissidência de ume mulher só por não ter nenhum interesse romântico duárico. Elsa poderia até ser hétero e não querer uma relação, aliás. Mas entendo que uma novidade assim, e vindo de uma empresa em que a maioria das animações possuem casais duáricos, uma personagem assim pode trazer… esperança?

Então a Disney não ousou nenhuma representação queer oficial? Hm, bem… eu diria que meio que sim. Apenas uma: Pleakley de Lilo & Stitch. Porém, né, o personagem é um alienígena que encontra afinidade com a feminilidade típica de uma outra espécie de outro planeta. Isso me lembra um pouco umas representatividades assexuais e não-binárias em que personagens são robôs ou criaturas. Estaria a Disney preparando caminho para representações oficiais no futuro? Aparentemente sim, considerando que a empresa mostra algum reconhecimento dos estereótipos negativos que usou por décadas. Vamos aguardar.

  • Representatividade com “não-humanes”

Citei isso no tópico anterior. Qual seria o problema de representações com robôs e criaturas? É uma pergunta também com suas nuances. Tudo depende de contextos.

Primeiro, vamos rebater a pergunta com outra pergunta: por que não fazer logo de uma vez representações com pessoas homo sapiens, ainda mais falando em sexualidade e gênero, dois conceitos que criados e usados por essa espécie?

Podemos até considerar a possibilidade de outras criaturas e até mesmo máquinas terem algum senso de atração e identidade de gênero por algum motivo; como criaturas humanoides que se organizaram de forma parecida com humanes, e robôs serem programados com esses aspectos para algum experimento. Não há um problema inerente em retratações assim, e ainda podem ser ótimas fontes de análises e críticas. A questão é a repetição delas em detrimento de retratações de pessoas homo sapiens.

Talvez isso esteja ficando cada vez menos comum, e cada vez mais esteve aparecendo representações de pessoas não-binárias e assexuais e outros grupos dissidentes. Mas não faz muito tempo que tivemos Peridot de Steven Universe e Double Trouble de She-Ra, ambas séries animadas que retrataram personagens em relações aquileanas/sáficas e diamóricas. Ao mesmo tempo em que ainda temos episódios de apagamento, como o personagem Jughead de Riverdale, que foi colocado como heterossexual mesmo sendo oficialmente assexual nos quadrinhos.

  • Ressignificações de personagens

Há algumes personagens que podem vir a ser ressignificades após um tempo. Mesmo que a retratação tenha sido controversa inicialmente em sua própria época, pessoas de uma época posterior podem reavaliar essus personagens e podem até encontrar nelus alguma afinidade.

Consigo pensar na Doris da franquia Shrek como um ótimo exemplo desse caso. Vejo muitas afirmações superficiais de que ela é uma boa representação, e afirmações rígidas de que é uma má representação. Eu diria que ela é uma representação cinzenta e possível de ser ressignificada. Ela tem um corpo grande e uma voz grave, aspectos geralmente associados com “homens”. Ela é chamada de “irmã feia”, e esses aspectos a colocam nessa posição. Ela fica como coadjuvante no segundo filme. Mas tem mais presença no terceiro filme e é aceita entre as princesas.

É discutível o quanto os aspectos dela são apenas uma piada – o que implica ela ser uma mulher cis, ou são parte legítima de uma personagem trans colocada de forma controversa numa obra infanto-juvenil. Apesar disso, há pessoas agora que podem assistir aos filmes e encontrar algum conforto em ver uma personagem feminina tão inconforme sendo aceita entre várias mulheres e ajudando-as numa cena de ação.

É possível ressignificar sempre? Acredito que não. Personagens muito estereotipades e colocades em contextos muito negativos não têm o que oferecer. O melhor que podemos fazer é usá-les como exemplos para analisar e criticar a mentalidade da época.

  • Dissidências mecânicas em jogos

De uns tempos pra cá, jogos começaram a se abrir mais pra diversidade, deixando para trás o apagamento, a codificação, e algumas polêmicas (como a Poison de Street Fighter). Muitos jogos de estilo RPG e simulação de vida começaram a oferecer opções de relacionamento, atração e identidade de gênero dissidentes. Uma das possibilidades é a de criar ume personagem e poder colocá-le se relacionando com pessoas de qualquer gênero. Muita gente considera isso como uma representatividade multi (bissexual, como descrita na maioria das vezes).

Então me vem aquela pergunta: faz sentido afirmar que ume personagem é multi apenas por poder se relacionar potencialmente por personagens de qualquer gênero? Se isso faz sentido, então podemos afirmar que tal personagem é assexual quando sue jogadore escolhe em não se relacionar com ninguém (seguindo uma expectativa furada do que é ser assexual)?

Quando a possibilidade de ser multi só é uma parte da mecânica de um jogo, até que ponto isso é uma representatividade? Há jogos onde você só pode se relacionar com uma única pessoa, ou um único grupo de gênero (sempre tendo que escolher entre opções binárias), como em Stardew Valley. Chamar isso de “multi” praticamente é a mesma lógica do combo monossexismo-mononormatividade, que diz que pessoas multi só podem escolher “um dos gêneros” e só conseguem existir socialmente como “hétero” ou “homo”. E acho que vale questionar também se as atrações dissidentes têm o mesmo peso nesses mundos, pois em RPGs como Dragon Age parece que não existe discriminação e a necessidade de tais termos.

Isso é representação de verdade? Não tanto. Isso é ruim? Talvez nem tanto. Apelar para representação me parece mais marketing ou ingenuidade na melhor das hipóteses. No entanto, é inegável que oferecer essas opções é convidativo para a diversidade de escolhas e jogabilidade, e uma abertura para que a pessoa possa se colocar ne personagem, ou moldar sue personagem como bem quiser, o que deixa a imersão muito mais confortável. É algo propício também para colocar desejos e fantasias como se fossem oficiais imaginários, como por exemplo, jogar com uma Link trans e expressar isso usando as roupas “femininas” Gerudo.

Porém, se os jogos querem mesmo que sues jogadories se coloquem nes personagens ou construa-es como bem querem, talvez oferecer opções de autodeclaração seja um caminho a se tomar. Algo como, em algum momento, ê personagem poder dizer que “gosta de pessoas”, ou que “prefere outres homens”, que “se atrai por pessoas femininas”, que “se interessa mais por livros e comida”, coisas assim. E a autodeclaração pode coexistir com a mecânica de poder se relacionar livremente com quaisquer personagens disponíveis. Seria mais coerente poder se relacionar com mais de uma pessoa, e também poder ter relações diferenciadas que não sejam apenas românticas (como as queerplatônicas).

  • Oficiais imaginários v.s. livre interpretação

Existe também uma tática mais comum em jogos que é criar ume personagem que é conduzide apenas pelas ações e escolhas de jogadore, sem personalidade, sem uma história, quase uma página em branco que cada jogadore preenche como quer. Isso não é ruim, e continua sendo uma opção válida de imersão. Pode talvez ser algo mais simples em relação a produção e programação.

Com isso, oficiais imaginários podem fluir à vontade, o que atrai muita gente na Internet que adora criar artes independentes (fanart) e histórias inventadas (fanfic).

Ainda assim, quando o assunto é representatividade, acredito que aqui caímos na mesma questão das mecânicas de jogo. Posso usar como um bom exemplo Frisk, ê protagonista de Undertale. Frisk é uma criança humana que é sempre referida pelos pronomes they/them/their (que podemos adaptar para o conjunto ê/elu/-e). A escolha dos pronomes foi feita para que o gênero de Frisk fosse ambíguo, o que permite aes jogadories imaginarem o gênero que quiserem em Frisk. Isso fez Frisk ser considerade uma representação não-binária. Até que ponto uma criança de gênero ambíguo é uma representação não-binária? Uma coisa é o uso de pronomes neutros para esconder um gênero, e outra é ume personagem usando tais pronomes como parte de sua individualidade.

Considero ainda que Undertale desafiou algumas barreiras ao colocar uma criança tratada por pronomes neutros. Mas penso que, no futuro, permitir que jogadories escolham o tratamento de sues personagens seria uma opção melhor, mais progressista. Isso e outros aspectos continuariam permitindo que oficiais imaginários existam e possam ser mais concretos que apenas imaginação.

  • A polêmica das confirmações posteriores

Já adianto a polêmica: personagens confirmades como dissidentes após o término (ou sucesso) de uma obra frequentemente são por dinheiro rosa mesmo.

Acredito que eu poderia citar aqui como exemplo principal o Dumbledore da franquia Harry Potter. A autora revelou anos depois após o lançamento do último livro de que ele era gay. O que começou com mensagens aparentemente progressistas se tornou uma tragédia homomísica. A autora se agarrou no discurso de que não existe aparência para ser gay – o que é verdade. A sexualidade do bruxo foi colocada como “tão natural” que, naquele universo, ninguém se importou com esse detalhe. Mas, porém, contudo… quando chegou um momento oportuno de retratar a sexualidade dele nos filmes Animais Fantásticos, não teve nada do assunto.

O que torna essa representatividade inexistente é o fato de que a franquia sempre retratou atrações e relações duáricas; que, até onde podemos presumir, foram e continuam sendo hétero. Se aquele universo aceita a diversidade sexual, por que ela não aparece em absolutamente nenhum lugar ou momento? A diversidade é tão aceita que chega a ser invisível?

E esse é o problema de quando surgem confirmações por fora das obras, ainda mais quando seus universos nunca exploram a diversidade de qualquer forma, por bem ou por mal. Aqui, eu diria que acaba indo por mal, pois tais universos não foram construídos considerando a existências de pessoas heterodissidentes e cisdissidentes.

Nem tudo que é confirmado por fora da obra é ruim. Mas aqui precisamos tomar aquele cuidado de não criar uma representatividade vazia. Isso pode ser contornado com futuras retratações, sejam elas expansões das obras ou mesmo novas versões (como reboots). Embora isso possa não ser o caso de Bob Esponja, cuja animação já foi encerrada, ao menos podemos esperar isso de Velma, já que a franquia Scooby-Doo está sendo continuada.

Afinal, o que torna uma representatividade boa ou ruim? Acredito que até aqui deixei evidente de que uma representatividade não depende apenas de uma personalidade boa ou ruim. Sendo assim, retratar uma pessoa virtuosa e honesta e uma pessoa egoísta e cruel não implicam em, respectivamente, retratações boas e ruins. Pessoas têm diversas personalidades. Retratar pessoas dissidentes como apenas seres puros de luz e amor seria um tanto irreal. O que pode deixar uma obra controversa é quando a mesma retrata grupos minorizados somente em papéis e contextos negativos.

Não creio numa “representatividade perfeita”, porque não existe pessoa perfeita. E não creio em fórmulas para se fazer ótimas representações. Acredito que tudo depende mais de contextos, e contextos estão sujeitos a mudanças conforme o tempo passa. Podemos pegar o que já existe e sabemos até aqui e criar um senso melhor sobre como construir personagens que sejam, antes de tudo, pessoas críveis; ou seja, pessoas com suas nuances de interpretações e possibilidades.

Links adicionais:

Muro Pequeno | Queerbaiting e representatividade LGBT na mídia part. TV em cores

Indignada | Queerbaiting VS Queercoding: Qual a Diferença?

Jonas Maria | Queer coding: estereótipos LGBTs na cultura pop

Overly Sarcastic Productions | Papo de Tropo: Vilanes Queer Codificades (vídeo com legendas em português)

verilybitchie | Como Bissexualidade Mudou Videogames (vídeo em inglês)

Publicado por Oltiel

Aporagênero (-/elu/-e), polissexual, não-monogâmique, queer, militante LGBTQIAPN+, socialista, e mais umas coisinhas.

Um comentário em “As nuances das representatividades dissidentes nas mídias

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