Sintaxe neutra

Muitas vezes referida como linguagem neutra, essa via de linguagem é possível seguindo as próprias normas da língua padrão.

Sintaxe é a parte da gramática que estuda as palavras e regras empregadas na construção de frases e suas relações lógicas. Aqui, enquanto uma denominação, tem a ver com como as frases são construídas. E aqui falarei delas sendo construídas dentro de uma natureza que chamamos de neutra, a qual envolve evitar definir gêneros específicos ou usar a neutralidade estipulada pelas normas (no caso, pelo uso do gênero gramatical masculino).

Obs: usar ambos gêneros gramaticais juntos, como eles e elas ou eles(as), não é sintaxe neutra, muito menos alguma neutralidade.

A língua portuguesa tem uma estruturação muito binária, como já foi falado. Mas isso não impede de haver uma via de comunicação mais neutra. Nessa página darei instruções sobre a sintaxe neutra.

Haverá muitos conceitos de gramática aqui, portanto pode ser algo um pouco cansativo de ler (vai parecer uma aula de português, sinto muito). Porém considero essa forma de ensinar a mais completa, mesmo que as instruções aqui estejam um tanto resumidas. Peço que se esforce para manter o foco e o interesse, pois o aprendizado aqui é importante.

1- Artigos

Retomando brevemente sobre os conjuntos de linguagem falados na página sobre neolinguagem, dos três elementos principais, o mais dispensável é o artigo antes do nome de pessoas. Não é nada estranho e nem impensável dentro da própria língua dizer nomes sem artigos. Em vez de “a Maria”, “o João”, “e Ariel”, “le Brune” etc, diga apenas os nomes.

2- Preposições

As preposições mais úteis dessa via são: de, em, para e por. Eu disse que artigos eram bem dispensáveis. Pois bem, o mesmo vale aqui para as variações dessas preposições quando combinadas com artigos. Assim:

  • Em vez de dizer “o livro do João” ou “a casa da Maria”, considere usar “o livro de João” e “a casa de Maria”. Use à vontade a preposição de!
  • Em vez de usar as contrações de em + artigo (na, no, ne, etc), considere usar apenas em. Exemplos: “Jogaram a bola em Bruno”, “O filhote fez xixi em Sid”.
  • Em vez de usar as contrações de por + artigo (pela, pelo, pele, etc), considere usar apenas por. Exemplos: “Farei isso por minha mãe”, “Passei por Jorge no caminho de casa”.
  • E em vez de usar as contrações de para + artigo (pra, pro, pre, etc), que são de uma linguagem mais informal, considere usar apenas para. Exemplos: “Levei o caderno para Marta”, “Fiz esse bolo para Alex”.

3- Pronomes

a) Sempre que possível, omita pronomes pessoais. Mesmo que pronomes sirvam para evitar a repetição de nomes, ainda é possível não necessitar tanto deles, ainda mais em enunciados falando apenas sobre uma pessoa ou um objeto. E não há regras contra repetir um nome.

Exemplo:

Artur caminhou até a entrada do prédio. Ao passar pela porta, ele pegou o elevador.

Artur caminhou até a entrada do prédio. Ao passar pela porta, pegou o elevador.

b) Onde não é possível omitir pronome é possível cortá-lo e usar o nome da pessoa. Lembre-se das preposições nessas situações. Exemplificando, em vez de usar contrações de preposições + pronomes (como dele, nela, etc), use a preposição e o nome da pessoa.

c) Na classe dos pronomes oblíquos átonos – que incluem me, se, te -, existe o pronome lhe. É usado para substituir o complemento dos chamados verbos transitivos indiretos, que precisam de preposições para fazer sentido (ex: precisar = quem precisa, precisa de alguma coisa). Faça uso de lhe sempre com esses verbos.

Exemplos: “Não falei com Carla. Queria ter lhe dito o que senti”, “Manu me perguntou uma coisa. Mas ainda não lhe respondi”.

4- Palavras invariáveis

a) Palavras invariáveis são aquelas que não fazem flexão de gênero, grau ou número. Aqui focarei no gênero. São as palavras muitas vezes chamadas de neutras, embora, gramaticalmente, não o sejam de fato. Podem perceber que muitas terminam em e; militante, viajante, estudante, cliente, etc. Mas há outras terminações, como artista e policial.

b) Faça uso de palavras de significado amplo, que contemple todes independentemente de sua identidade de gênero e conjunto de linguagem. Nessa lista temos pessoa (a palavra de ouro), indivíduo; os pronomes indefinidos alguém, quem e qualquer; e entre outras opções.

5- Sinônimos e coletivos

a) Substitua quando possível palavras flexionadas por sinônimos que não possuem flexão. Por exemplo, em vez de diretories, diga a direção. Há também substantivos que indicam grupos, como a juventude ou a classe trabalhadora.

b) Usar o coletivo de palavras é muito útil e recomendável. Por exemplo, em vez de professories, diga docentes.

6- Derivações de verbos

a) Evitar adjetivos derivados de verbos e fazer uso sempre que possível desses verbos.

Exemplo: “Você parece cansada.” / “Você parece que se cansou.”

b) Usar substantivos derivados de verbos pode ser útil e recomendável também.

Exemplo: “Pronto, está registrado.” / “Pronto, registro feito.”

7- Voz passiva

Na Gramática, a voz passiva (sintética e analítica) é um tipo de oração onde o sujeito não tem ação ou sofre a ação de um verbo. Exemplos: “Vende-se casa” (VP sintética), “A planta foi regada” (VP analítica). Sempre que possível e oportuno, use a voz passiva.

8- Alternativas semânticas

Podemos expressar uma mesma ideia de mais de uma forma. A sintaxe neutra exige muito que pense em alternativas para uma frase que pode ser dita/escrita de outro modo. Isso não apenas vai exigir conhecimento das técnicas mencionadas anteriormente. Existe também a possibilidade de cortar palavras e/ou alongar-se em certas partes, reformular frases mudando estruturas de verbos e tempos verbais, enfim.

Acredito que essas são as principais instruções sobre a sintaxe neutra seguindo a língua padrão.

Links adicionais:

Amplifi.casa Asterismos – Dicas para escrever sem linguagem específica

Medium Coragem – Adotando a linguagem neutra de gênero