Binarismos

Aviso de conteúdo: colonialismo, racismo, diadismo, cissexismo, menciona genitálias.

Os binarismos estão em todo lugar. Contaminam nossas mentes e perspectivas de mundo, limitam nossas possibilidades, nos passam inverdades disfarçadas de realidade e ordem natural das coisas.

Não falo apenas dos binarismos como homem e mulher, ou pênis e vulva, etc etc etc.

Fomos/Somos colonizades por essa ideia arcaica de Bem | Mal. Pessoas são ou boas ou más. Coisas são ou boas ou más. Tudo é Preto | Branco, Positivo | Negativo, Quente | Frio, Esquerda | Direita, Cima | Baixo.

Cria-se oposições onde não existem. Cria-se contrários, inversões, antônimos, etc etc etc. E essas criações, mesmo quando absurdas, mesmo quando é evidente que não são suficientes, ainda influem em nossas vidas, relações, formas de agir e pensar.

(não é como se não soubéssemos que existem gradientes de cores, relativismos, várias temperaturas, diversos pontos cardeais, enfim… mas a gente esquece diretooo)

Os binarismos se sustentam ao máximo que podem, traçando uma grande e longa narrativa de que explicam o mundo, que sempre existiram e sempre existirão.

E quando não conseguem mais se sustentar com absolutismo, formulam suas armadilhas bizarras – e tanta tanta gente cai nelas.

O binarismo afirma que entre 1 e 2 existe o 1,5. E o que é esse número além um intermediário entre dois números inteiros (ênfase na palavra “inteiros”)?

O binarismo afirma que entre masculine e feminine existe neutre. E o que é neutre além de uma confirmação e reafirmação de que existem dois polos?

O binarismo afirma que entre Sim e Não existe Talvez. E o que é o talvez além de uma falta de certeza que continua nos apontando para apenas duas respostas?

O binarismo se contorna para afirmar que nunca existiram apenas duas opções igual a uma cobra que se enrola e morde a própria causa. Nos engana com falsas terceiras opções que nada mais são do que versões/derivações inferiores das únicas opções que são pregadas.

O binarismo procria também quando se faz necessário. Antes haviam es normais e es desviantes, até que surgiram os termos hétero e homo, deixando tanta gente que não é nem um ou outro num limbo.

O binarismo protege sua integridade sempre que pode. Antes haviam os marcadores sexuais de sexo masculino e sexo feminino, e agora temos, uau, o sexo X/indefinido/não-especificado (imagina só o binarismo dizendo que outros sexos são definidos ou específicos, né?).

O binarismo se segura ao máximo na simplificação. Antes haviam apenas dois gêneros, e então, para facilitar a compreensão das pobres pessoas do mundo civilizado com o sistema de gênero perfeito, jogaram toda e qualquer identidade dos povos incivilizados como “terceiro gênero”.

O binarismo também tem o poder de afirmar algo e agir diferente na prática. Nos dão tantas opções de “raças” além de branca, como preta, parda, amarela, etc, e ainda assim, só uma delas detém poder estrutural, só uma delas é vista como universal, enquanto as outras são As Outras.

Precisamos nos atentar às artimanhas dos binarismos. Elas existem. Elas estão aí. Por um lado, elas demonstram a fragilidade e o medo deles. Por outro lado, reduzem/apagam/esmagam a complexidade, a diversidade, a amplitude, tudo que ameaça os poderes binaristas.

Os binarismos vão a todo tempo nos intimidar, persuadir, nos convencer, ou tentar nos convencer, nos encurralar, prender, usar falácias, ter discursos bonitinhos, dizer que nos representam. Não caiam nisso!

Que es conformades fiquem às sombras dos binarismos, fingindo que estão sendo bem representades. Nós, comprometides com a inconformidade, não aceitamos migalhas, restos, subprodutos, entrelinhas ou notas de rodapé!

Não basta apontar para outras opções, ainda mais quando dadas pelos binarismos. Não basta criar apenas terceiras opções, ainda mais quando nossas referências são os binarismos.

A mera existência de duas e somente duas opções precisa ser destruída. Binarismos não podem e nem deveriam existir.

Sejamos todes, antes de tudo, anti-binarismos!