O que torna um termo válido?

Aviso de conteúdo: citações de ações e situações variadas que sejam opressivas, criminosas, perigosas, e similares; exemplos de discursos exclusionistas; contém links externos.

Este é um texto que busca explicar quais são os critérios usados para avaliar quais termos podem ser válidos ou minimamente aceitáveis, e quais podem ser nocivos ou irreais. Ainda assim, existe uma área cinza entre esses grupos, e outras nuances serão abordadas junto com ela. Os termos aos quais me refiro aqui são especificamente termos relacionados com a comunidade LGBTQIAPN+ e tópicos paralelos a ela.

Isso não é algo tão discutido na lusosfera, ainda mais no contexto brasileiro, mas na anglosfera, principalmente nos meios virtuais, existe uma cultura de cunhagem de inúmeros termos para descrever as mais variadas experiências. Isso é geralmente associado à sigla MOGAI, que era inicialmente uma alternativa a qualquer sigla identitária da comunidade, e, com o tempo tempo, acabou sendo associada a blogues e pessoas que cunham diversos termos (às vezes chamados de “microrrótulos” ou “microidentidades”).

Essa cultura de haver muitas palavras para “tanta coisa” ou “tudo” atrai muitas reações, de positivas a negativas. Enquanto isso deu a oportunidade para pessoas poderem nomear suas próprias experiências e validá-las, também trouxe reacionarismos de dentro da comunidade. Entre esses ataques temos discursos exclusionistas (ditando o que é e o que não é válido se baseando em ideias arbitrárias; e pode se misturar com coisas como assimilacionismo), e temos cunhagens feitas com o propósito evidente de zombar ou manchar a comunidade.

E exclusionismo e cunhagens ruins estão ganhando uma notoriedade crescente aqui na Internet brasileira, embora ainda possam ficar mais em certas bolhas (como nas “militâncias” do Twitter). E não é recente que muitas cunhagens já chegaram nas redes populares, mas como postagens de ódio e chacota em páginas de direita, por exemplo. Como não há discussões elaboradas sobre isso, e muita gente não tem senso crítico algum e acredita em tudo por aí, decidi fazer esse texto como uma tentativa de amenizar esses problemas oferecendo direcionamentos, e esses direcionamentos são para que pessoas comecem a separar melhor o que merece alguma credibilidade e o que não merece, assim como também ampliar mais suas perspectivas sobre experiências de sexo/gênero/orientação/etc.

Espero que depois desse texto saibam analisar com cuidado e bom senso o que encontram por aí na vastidão da Internet. E que possam mudar a perspectiva sobre conteúdos como as listas do saite Orientando (que tem um trabalho incrível e que deveria ser muito mais reconhecido), e entendam a importância de muitos termos. E que ajudem a criar espaços e conteúdos mais inclusivos.

Critérios sobre termos nocivos, perigosos, e opressivos

Se fosse para resumir quais os critérios usados para determinar a validade de um termo, eu diria que qualquer termo que não cometa alguma opressão ou traga problemas para qualquer pessoa ou grupo marginalizado/dissidente. Mas isso não é suficiente. É vago até para quem entende do assunto, e exclusionistas e gente alienada/desinformada podem encontrar nessa descrição opressões e problemas onde nem existem.

Então na lista a seguir terá itens, e se um termo atende a qualquer um deles, ele não é válido de jeito nenhum, podendo ser perigoso ou já sendo em si um ataque à integridade da comunidade.

  • algo que descreva qualquer experiência baseada em ódio ou aversão ou similares a algum grupo marginalizado/dissidente, ou que remeta a uma característica considerada marginalizada/dissidente.

Exemplos: um termo afetivo para “homens que amam homens enquanto desprezam todos os demais gêneros”, ou um gênero “baseado no ódio à feminilidade”.

Nota: existem termos baseados em oposição ou antítese a uma qualidade de gênero, e nada disso implica odiar aquela qualidade. Uma pessoa dizer que sua identidade de gênero não é feminina e que faz oposição ou antítese à feminilidade não é odiar a feminilidade, que é por si só um aspecto cobrado de mulheres e recriminado em outras pessoas.

  • algo que descreva atração e relações ou incentive atos afetivos com seres e indivíduos incapazes de consentir nesses atos.

Exemplos: qualquer orientação que seja direcionada a crianças, animais, pessoas falecidas, pessoas inconscientes, e pessoas em estados mentais alterados por qualquer fator.

Nota: cunhar algo como “atração por plantas” ou “atração por pedras” pode não ser algo inerentemente ruim ou envolver uma vítima, mas isso pode muito bem já existir sob a forma de um fetiche/uma parafilia.

  • algo que descreva atração e relações que objetifiquem ou excluam de alguma grupos marginalizados/dissidentes.

Exemplos: uma orientação para “atração apenas por pessoas racializadas”, ou um termo juvélico para “uma pessoa cis atraída por outras pessoas cis”.

Nota: termos centrados em afetividade entre grupos marginalizados/dissidentes podem ser interpretados dessa forma, mas é uma analogia sem fundamento. Por exemplo, pessoas trans em relações transcentradas, que priorizam relação apenas com outras pessoas trans, não estão objetificando o próprio grupo, e a exclusão de pessoas cis – um grupo privilegiado – pode sr justificada por causa de traumas e violências.

  • algo que descreva uma identificação pessoal em situações problemáticas ou onde a pessoa não tem consciência/plena capacidade de raciocínio.

Exemplos: uma identidade de gênero “sentida somente quando a pessoa é vítima de agressão”, qualquer orientação que existe sob efeito de bebidas e/ou drogas, e um termo para “pessoas que sentem não ter mais um sexo ou ter um sexo nulo quando estão dormindo”.

  • algo que se aproprie de experiências exclusivas de um determinado grupo.

Exemplos: um termo para “homens que são cis e ao mesmo tempo transmasculines“, um termo para “pessoas perissexo que se sentem intersexo por dentro”.

  • algo que procure ressignificar termos consagrados para algo que não condiz nem com a terminologia e nem com o consenso de comunidades e movimentos.

Exemplos: propor ressignificar a orientação bi para “atração por apenas dois gêneros”, propor ressignificar a orientação demi para “uma atração parcial por algum gênero”.

  • algo que seja absurdamente contraditório e entre em conflito com termos já existentes (geralmente consagrados também).

Exemplos: semibissexual (“uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”), um termo para “uma pessoa trans que se identifique apenas com o gênero designado”.

Apesar de não envolver nada do que foi citado acima, outros critérios de exclusão de termos pode envolver serem vagos demais, terem uma descrição difícil de se entender, ou a mesma descrição ser exatamente a mesma de algum outro termo.

Área cinza

Sim, existem termos que não se encaixam em nada do que foi descrito acima, mas podem ser termos sem propósito ou finalidade, e/ou que descrevem experiências que nem podem ser consideradas marginalizadas/dissidentes. Existem blogues no Tumblr que cunham praticamente qualquer termo por mais absurdo que seja, e algumas pessoas pela Internet também seguem essa linha (talvez por diversão, talvez por ingenuidade, não há como saber).

Aqui eu poderia citar como exemplos: uma orientação para quem tem atração por pessoas vegetarianas/veganas, uma identidade de gênero que existe somente quando a pessoa está viva, um termo afetivo para canhotes que amam outres canhotes, ou uma identidade para pessoas que sentem orgulho de seu genital.

Nada disso é realmente ruim de alguma forma, não deve ser considerado como motivo ou até justificativa para a comunidade receber ódio, e nem deveria ser atacado justamente por ser inofensivo, dispensável. Não gostou do termo? Achou esquisito? Achou zoado? Ignore. Simples.

Termos reapropriados ou ressignificados

Existem termos cunhados com a intenção de zombar da comunidade, mas que ou podem ser reapropriados e ressignificados, principalmente porque descrevem experiências que não são impossíveis de existir.

Alguns termos, em especial xenogêneros, já foram cunhados em blogues de trolls e ainda assim adotados por comunidades não-binárias porque, apesar da intenção inicial, não necessariamente descreviam uma experiência inválida por qualquer motivo. E a partir desses termos a comunidade pode criar outros derivados ou seguindo lógicas parecidas, porque a simples cunhagem de termos também pode ser política e uma resposta contra quem quer atacar a comunidade dessa forma.

Exemplo: um blogue troll cria uma identidade de gênero para pessoas cujo gênero só existe quando a pessoa está com determinadas cores de roupas. Então a comunidade pega isso e cria termos específicos para cada cor.

Termos controversos

Há termos que possuem alguma validade no que se propõem, mas que causam controvérsias por dois motivos:

  • por conter uma descrição problemática de uma experiência conhecida ou já relatada, ou que seja possível de existir.

Exemplo: uma orientação para pessoas que sentem atração pela inteligência de alguém. Enquanto inteligência é um conceito problemático, se a intenção do termo era falar da atração pela afinidade com pensamentos e ideias de alguém, e isso é possível e pode ser descrito dessa forma.

  • por terem condições absurdas, desnecessárias ou impositivas. Essas condições geralmente são um conjunto de linguagem que pessoas daquela identidade devem usar, ou um tipo de aparência ou estética que essas pessoas devem ter o tempo todo.

Exemplo: uma identidade de gênero influenciada por gates, e a pessoa deve ser tratada por miados no lugar de artigos, pronomes, e flexões de gênero. Uma identidade influenciada por um animal é possível (pode ser um exemplo de kingênero), mas ninguém exige esse tratamento.

Fora isso tudo, existem termos que geram discussões por causa de suas implicações mesmo quando descrevem uma experiência possível.

Por exemplo, um termo para pessoas que são cis e trans ao mesmo tempo. Sim, essa experiência é possível, e pode ser interpretada dessa forma por pessoas que: fluem entre o gênero designado e outro(s), ou que possuem o gênero designado junto com outro(s), ou cujo gênero designado muda de intensidade até ser ausente. O que pode gerar controvérsias é uma pessoa se declarando “cis e trans”, pois: a) o sistema não reconhece alguém cis e trans, nem parcialmente cis; e b) isso pode ser facilmente interpretado como um termo feito para atacar a comunidade, para desmoralizar a militância trans.

Nessas situações é recomendável um termo diferenciado que descreva melhor tal experiência, para que assim pessoas possam discutir melhor sobre si e se organizar.

Exclusionismos com termos válidos

Ainda falarei mais sobre exclusionismo. Aqui darei alguns exemplos interessantes e que acabam mostrando como retóricas exclusionistas funcionam.

Termos baseados em traumas são acusados de romantizar traumas, de colocar traumas como positivos, ou de colocar “experiências válidas” no mesmo patamar de doenças. Essas críticas arbitrárias partem da mesma premissa capacitista de quem critica orientações e identidades de gênero influenciadas por neurodivergências: de que experiências com orientação e gênero só podem existir ou ser relevantes dentro do que é considerado normal, saudável e racional – que é uma perspectiva totalmente neurotípica, e que desconsidera a possibilidade de traumas e neurodivergências das pessoas terem alguma relevância em como vivenciam orientação/gênero.

Termos baseados em condições clínicas que podem ser tratadas ou mesmo curadas são acusados de romantizar essas condições, de serem termos desnecessários, e de confundir experiências saudáveis e naturais com coisas que não são. De novo, interpretações unilaterais e um pouco de paternalismo de pessoas que acham que entendem as experiências e perspectivas da outra pessoa melhor que ela mesma, e que se recusam a aceitar que os efeitos daquelas condições pode sim fazer parte de como a pessoa lida e percebe sua atração/identidade de gênero/etc. E se for algo baseado em condições curáveis, então a pessoa deixará de usar aquele termo quando não fizer mais sentido.

Não é de agora que a orientação abro é atacada por meio de interpretações errôneas (intencionais ou não), de acusações de que pessoas fluidas são confusas ou ainda estão se descobrindo, ou por retórica de assimilacionismo bi. E eu já defendi essa orientação nessa postagem aqui.

E até mesmo a orientação poli, que pode ser considerada popular e uma das três orientações multi mais conhecidas (ao lado de bi e pan), é atacada por pessoas que partem de princípios reducionistas de gênero sobre como funcionam as atrações. Porque, segundo elas, todas as pessoas têm apenas duas leituras sociais e todo mundo se atrai por uma ou ambas, e, portanto, atrações só são por um gênero ou por todos os gêneros, e não existem atrações por qualquer quantidade intermediária de gêneros.

Esses podem ser bons exemplos de termos que não se encaixam naqueles itens do primeiro tópico, mas dos quais exclusionistas fazem suas próprias interpretações falaciosas, tendenciosas, ou limitadas, e colocam como termos inválidos por razões que, embora arbitrárias, podem parecer convincentes para pessoas por fora desses assuntos, que possuem conhecimento mínimo ou raso de como funcionam experiências e da diversidade. Cuidado.

No fim das contas, termos surgem e somem, são usados e se tornam obsoletos. Se um termo se tornar inutilizável, não for usado por ninguém, ou mostrar que não tem qualquer aplicação, ele será apenas esquecido. Não há por que recriminar uma cunhagem nessas condições, pois é natural que palavras apareçam e depois, por quaisquer motivos, não sejam necessárias.

Caso também algum termo cause dúvidas ou estranhamento, recomendo se comunicar com a pessoa, pois ela pode dar uma explicação melhor do que especulações alheias ou achismos. A própria pessoa sabe seus motivos para adotar determinado termo, entendam isso.

Espero que esse texto tenha ajudado. Validem experiências, não ataquem termos que nada agregam ou não fazem mal algum, e se posicionem contra os termos realmente problemáticos e que ferem outras pessoas.

Sobre ser queer no Brasil

Aviso de conteúdo: discursos anti-queer, assimilacionismo, respeitabilidade, contém links externos.

Este é um texto tanto pessoal quanto uma abordagem de um tema específico, que acredito que pode contemplar a realidade de outres queers brasileires. Vou falar sobre os argumentos contra a identidade queer no Brasil, e meus motivos para adotar essa identidade. E espero que isso possa validar outras pessoas queer por aqui.

Antes de tudo, vou ressaltar que aqui estou falando de queer enquanto uma identidade mesmo, não um termo guarda-chuva ou um descritor de qualquer pessoa fora da diciseteronorma.

Vou começar dizendo que reconheço que queer não tem aqui no Brasil a mesma popularidade que outras identidades, como gay, lésbica, bi, trans, etc. Porém, isso não é motivo para não usar, e nada realmente impede a existência de queers no país. E, com vou explicar mais pra frente, queer é mais do que uma simples identidade. Quem de repente já teve contato com o termo Teoria Queer, talvez tenha uma ideia da dimensão que queer consegue tomar por si só.

Quando há posicionamentos contra pessoas brasileiras se identificarem como queer, eles costumam girar em torno do fato de queer ser algo de fora. Assim, eu aceitaria essa argumentação de pessoas de identidades exclusivas do Brasil, ou ao menos cunhadas aqui. Porque com exceção de travesti, viado, bicha, sapatão, e talvez mais um ou outro termo, todo o resto foi importado de fora, em sua forma original ou traduzida/adaptada. Aliás, é simplesmente ridículo pessoas gays invalidando queer por vir de fora.

Eu aprecio e incentivo o pensamento de valorizarmos as identidades de nosso país. Não por patriotismo, longe disso; até porque as identidades daqui são subversivas, e nascidas da violência dessa tal “pátria amada”. Nosso contexto que é importante. Nossas perspectivas de gênero e sexualidade são importantes. Travesti é uma identidade de gênero nascida no Brasil e exclusiva da América Latina, por exemplo; tendo tanto valor quanto identidades de gênero exclusivas de outras culturas.

Minha questão aqui é que nada do que tem aqui me descreve ou contempla minhas experiências e perspectivas, nem mesmo a palavra viado, da qual já fui chamade algumas vezes. Até gosto de me dizer viade, às vezes. Mas não chega ao mesmo nível que queer e as demais identidades que uso.

Uma coisa que o ativismo dissidente do Brasil falhou em fazer foi justamente criar um termo guarda-chuva ou geral para todas as pessoas fora das normas. Não temos um equivalente de queer. Temos coisas próximas, como transviado. Mas até o que já tivemos de próximo acabou ganhando outros significados em outros contextos. Assim, se existisse real preocupação com um termo que definisse a pessoa apenas como dissidente, sem especificar mais nada, uma palavra coringa para alguém que não seja perissexo e/ou cis e/ou hétero, então haveria esforços para cunhar algo. E não há, apenas críticas e a ausência de uma solução.

Se amanhã mesmo cunhassem um equivalente brasileiro/lusófono/latinoamericano de queer, eu adotaria no mesmo dia (junto com queer, porque não vejo motivo pra largar). Enquanto não há isso, sigo usando queer.

Vocês podem encontrar por aí gente dizendo que queer “não tem materialidade no Brasil”. Essa palavra aí, materialidade, ganhou uma popularidade esquisita de uns tempos pra cá. Eu a vejo com frequência em discursos invalidando alguma coisa, em especial microcomunidades. Em vez das pessoas falarem “não concordo com o uso desse termo” ou “não acho que isso exista”, agora optaram por algo mais bonitinho e acadêmico: “não tem materialidade”. Isso significa basicamente que queer não faz sentido em nosso contexto, ou mesmo que não tem como existir no Brasil.

A questão é que… já existem pessoas queer no Brasil, sendo queer no contexto brasileiro. Cá estou eu, queer e brasileire, escrevendo um texto sobre isso!

O argumento da materialidade às vezes até parece fazer sentido, na verdade. Mas não faz tanto assim, e ainda menos nesse contexto atual de globalização. Queer já saiu há décadas do contexto estadunidense e até mesmo da academia. Já se espalhou pelo mundo. Como não tem e nunca teve pretensão de ser algo exclusivamente estadunidense ou anglófono, não está proibido de se usar fora dos EUA e da anglosfera. E a proposta de queer é justamente descrever qualquer pessoa minimamente deslocada das normas vigentes de gênero e sexualidade, indo mais além do que identidade de gênero e orientação. Queer não exclui; pelo contrário, inclui. Queer valida todo mundo contra essas normas. Queer pode ser apenas o sentimento de rejeição às imposições e regras.

Além disso, espaços queer, na minha experiência, são os mais diversos possíveis. São espaços com pessoas de gerações diferentes, corporalidades diferentes, etnias diferentes, e muito mais; não apenas um lugar pra quem não é perissexo e/ou cis e/ou hétero, e focado apenas nessas questões. São interseccionais, logo são abrangentes, repletos de muitas perspectivas e histórias e vivências. É uma diversidade linda, me faz bem, faz eu me sentir alguém no mundo. Como não amar isso? Como não querer isso pra mim? Como não me identificar com tal coisa?

Uma pena que aqui no Brasil não temos esse tipo de espaços. Mas existem propostas sendo construídas, sendo uma delas a própria instância Colorides da rede social Mastodon. Ainda tem pouquíssima gente na instância, e Mastodon ainda não fez a fama que merece no Brasil. Mas está aí. É um espaço queer brasileiro. Tem a proposta da mesma diversidade que vejo nos outros espaços. Existem pessoas tentando ao menos trazer esse mesmo espírito que queer traz, e acho que precisamos muito mais disso do que apenas adotar o termo de forma vazia ou mesmo cooptada (coisa que às vezes vejo por aí).

É um tanto deprimente perceber sentimentos anti-queer vindo de figuras públicas e ativistas da comunidade, ainda mais pessoas que galgaram seu caminho até espaços de poder, como a própria academia, e agora os usam para invalidações. E para quê? Para agradar a quem ou qual narrativa? Às vezes quero pensar que é ignorância em relação ao tema (por mais que essas pessoas devessem se informar antes de se pronunciar, né), mas fica cada vez mais difícil de não acreditar que isso não possa ser por assimilacionismo (e sendo contra uma identidade antiassimilacionista não é coincidência) e respeitabilidade (porque, bem, queer é totalmente antinorma e isso incomoda aquelus que querem um pouquinho de aceitação da sociedade). Já tive até contato com uma pessoinha aí de um partido que falou na minha cara que ela e outras pessoas trans binárias barram qualquer projeto de lei apenas por ter a palavra queer.

Infelizmente, muito do exclusionismo anti-queer também foi importado de fora, e incorporado com muitas falácias espalhadas por aí. Quem teve contato com muitas retóricas de feminismo radical ou de transmedicalismo, por exemplo, tem altas chances de ter visto queer sendo colocado como um monstro, um desserviço contra mulheres e “as verdadeiras pessoas trans”. Já comentei em outro texto gente até colocando queer junto com pedófiles.

Entendo que queer é uma palavra nova e desconhecida pra muita gente, que não está em nossas políticas públicas, e que existe ainda muita intolerância em torno dela, mas, até o momento, é o que me descreve bem enquanto um corpo dissidente. Não vejo sentido também em me apegar ao objetivo de fazer as pessoas entenderem do que estou falando, já que direto preciso explicar o que é não-binárie, polissexual, etc. Queer resume todas as minhas dissidências: meu gênero fora do binário, minha inconformidade de linguagem, minha atração por muitos gêneros, minha não-monogamia, meu fetichismo, minhas perspectivas de gênero e sexualidade, minha simples discordância a tudo pregado e sustentado pelo disciseterossexismo, e também minhas posições contra assimilacionismos e respeitabilidades.

Bem, claro que não preciso da identidade para ser o que sou e pensar da forma que penso. Mas às vezes é bom poder dizer tudo isso e mais um pouco com apenas uma palavra. E não importa quando não me apresento como queer em certos espaços. Porque eu carrego comigo sempre tudo que esse termo traz, e isso também é importante. Queer, para mim, não é apenas uma identidade, mas também filosofia e política. Espero que mais queers brasileires apareçam e possam se expressar, explorar essa palavra como querem, combiná-la com outras identidades (de fora ou não), e mostrar que estamos aqui e existimos.

Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?

Aviso de conteúdo: pedofilia, campanhas anti-LGBTQIAPN+, retóricas falaciosas contra a comunidade e grupos dela, exclusionismos, contém links externos.

De tempos em tempos as redes sociais se agitam diante da mesma coisa que surge e ressurge da terra das bizarrices inesquecíveis: pedossexuais. Esse é só um nome bonitinho para pedófiles, colocando a pedofilia como uma “orientação sexual” – logo como uma atração tão válida quanto qualquer outra.

Se você não conhece essa polêmica, sinta-se privilegiade. E, sinto dizer: agora você vai conhecer. Mas se você conhece, tenho duas perguntas:

  1. você sabe de onde veio isso?
  2. você acredita que seja mesmo possível pedófiles terem um espaço na comunidade?

Pra quem é mais politizade e engajade nas questões dissidentes, pode até achar de prontidão que pedossexuais é uma grande “zoeira” infeliz de trolls da Internet, ou uma mentira descarada de gente diciseterossexista pra manchar a comunidade.

Porém, muitas pessoas, mesmo aquelas que estão há anos em movimentos sociais, ainda ficam na dúvida sobre a legitimidade desse grupo. E uma onda de pessoas acaba acreditando nessa legitimidade, mesmo gente da comunidade e aliada. E é exatamente isso que mais me incomoda nessa polêmica toda.

Bem, se for necessário mesmo fazer esse esforço (até pra quem quer falar sobre isso, mas não tem argumentos concretos), eu vou explicar brevemente o motivo de pedofilia não ser uma orientação:

  1. é uma atração que envolve especificamente um grupo de indivíduos que são incapazes de consentir em tais relações.
  2. é uma condição mental que causa danos ao individuo e a outros indivíduos (com ênfase nas vítimas, as próprias crianças).
  3. seu conceito está totalmente fora das concepções atuais de orientação, que é atração por gêneros e/ou atração que depende de fatores ou situações específiques (como vínculo, personalidade, etc).

E antes que alguém venha com discursos exclusionistas por causa do item 3, não, orientações influenciadas por neurodivergências não são equiparáveis a esse distúrbio, e nem validam uma orientação “influenciada” por ele, pois as definições delas não justificam a busca por relações sem consentimento.

  • Pedossexuais, MAPs, e afins

Falando des pedossexuais, onde tudo isso começou? Ao que tudo indica, buscando em fontes de investigações, essa palavra foi vista numa imagem compartilhada no saite 4chan (lugar famoso por ter todo tipo de bizarrice feita contra grupos dissidentes). Não se sabe de onde ela é, mas não há registro nenhum de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento feito pela comunidade que tenha usado uma sigla incluindo um P para pedossexuais. Ao que tudo indica isso foi ou uma montagem ou uma fabricação real feita por uma campanha “anti-gay”, tentando associar homossexualidade com pedofilia (uma tática que existe há décadas). Por mais que essa campanha seja absurda e esteja desmentida, o fantasma dela continua aí até hoje. Infelizmente, as fontes que tenho estão em inglês, mas as deixarei no final do texto.

Outra campanha famosa que surge e ressurge das cinzas periodicamente é de um grupo chamado MAP, do inglês minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores”. Há também um outro grupo, NOMAP, do inglês non offensive minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores não ofensivas”; que, aparentemente, define um grupo de pessoas com desejos pedófilos, mas que não querem contato com crianças. Não tenho informações suficientes sobre esse grupo pra determinar se é um grupo “inofensivo” ou não; porém, existem sim grupos de pedófiles que advogam contra a pornografia e abuso infantis.

Bem, “menores” é um grupo amplo e relativo que engloba adolescentes e crianças. Existem legislações diferentes pelo mundo que demarcam tanto a maioridade (18 anos, 21 anos, etc) quanto as idades de consentimento (aqui no Brasil, por exemplo, é 14). Fiz essa ressalva exatamente porque “atração por menores” inclui a pedofilia propriamente dita, mas também inclui atração por adolescentes, a qual não cabe no escopo do que a ciência e leis consideram como pedofilia ou abuso de criança (embora ainda seja um tópico controverso). Assim começa o problema com MAPs, pois relações com crianças seguem sendo classificadas como distúrbio mental (pela ciência) e crime (pela lei). Logo, conteúdos e grupos MAPs não são legítimos, não devem ser incentivados, e devem ser denunciados e levados à justiça. E o que acontece nessa terra de ninguém chamada Internet são campanhas nocivas de “positividade”, seja através de hashtags, de postagens incentivando ou defendendo, de montagens de “bandeiras de orgulho” para esse grupo, e outras atividades similares.

Eu diria que MAPs são apenas um subproduto do que se tornou a campanha de pedossexuais. Por isso achei pertinente essa menção, afinal, daqui a um tempo, provavelmente veremos mais citações escandalosas de MAPs no lugar de pedossexuais. No fim, é o mesmo lixo de sempre: ataques para manchar, desmoralizar e desarticular a comunidade.

Existem outros grupos por aí sem nomes específicos que “defendem” a pedofilia fazendo paralelos com discursos positivos a favor de relações dissidentes e teorias de gênero, dizendo coisas como “amor não tem idade”, ou que “idade é uma construção social”, enfim. E outras montagens que implicam que a comunidade aceita pedofilia. Mesma coisa pra tudo que eu disse sobre MAPs e pedossexuais.

  • Pedos na comunidade

Mas, afinal, o que me incomoda nessa polêmica toda? Exatamente as diversas reações que vejo de ativistas e outras pessoas da comunidade quando esse assunto bomba de repente nas redes sociais. Tem gente que acredita mesmo que tem pessoas da comunidade querendo aprovar a inclusão de pedos, tem gente que surta pra defender o quanto a comunidade não aprova isso e faz um esforço imenso para convencer es outres disso. E fico me perguntando como pessoas que estão há anos no movimento caem nisso, ou pra quem as pessoas estão se defendendo com tanta agitação?

Aqui estão explicações do por que pedossexuais ou MAPs (e qualquer outro nome que inventem) não têm como se infiltrar na comunidade e muito menos serem incluídes como um segmento próprio e legítimo:

Primeiro, qualquer apoio a desejos ou práticas de pedofilia vindo de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento referentes à comunidade com certeza receberá uma resposta totalmente negativa de imediato. Não haverá diálogo, porque isso não está para debate. Abuso de criança não é um debate. Pedofilia não é uma mera discussão de “a favor ou contra”. Ninguém aceitará isso (com exceção de quem quer abusar de crianças, né), e existe toda forte rejeição pública e de instituições legais e científicas.

Segundo, pedófiles precisariam antes se organizar enquanto movimento político, e se consolidarem numa identidade política, para assim talvez se articular como parte também da comunidade. Isso não vai acontecer. Mesmo que haja movimentos na Internet, em nenhum lugar do mundo atual esse movimento será aceito como político. Esse movimento não terá como abrir discussões sociais, lutar por direitos e demandas, exigir políticas públicas, enfim. Nenhum governo ou país aceitará isso, e qualquer tentativa de algo assim (que duvido que ocorra) também receberá uma reação imediata negativa.

Já existiu um ativismo pedófilo mais forte e presente nas décadas passadas, mas, atualmente, com o avanço das legislações e por causa da opinião pública geral, o pouco “ativismo” que existe se limita a espaços e postagens execráveis na Internet.

  • As reações da comunidade

Afinal, precisamos tanto assim nos defender de quem? Quem está acreditando que a comunidade quer aprovar pedofilia? Quem estamos precisando convencer disso? Sinceramente, além daquelus que já odeiam a comunidade, quem acredita nisso tem que ser alguém ou muito alienade sobre a comunidade ou com tendências reacionárias contra ela. E, com tendências reacionárias, me refiro a pessoas da comunidade que absorveram ideias e discursos contra outros grupos dissidentes (pode ser o caso de pessoas queermísicas, exclusionistas de assexuais, quem é contra microcomunidades, etc).

O desespero das pessoas chega ao ponto de afirmar que “não existe gente pedófila na comunidade”. É uma tentativa fútil colocar a comunidade toda como seres puros e divinos e que não existe gente pedófila nela. Com certeza existe. E são esses casos, quando públicos, que serão usados por reaças como mantras para dizer que “tinham razão”. E não importa os dados que apontam que a grande maioria dos casos de pedofilia é de pessoas cis hétero e dentro de conjuntos familiares. Não importa os muitos casos de pedofilia dentro de igrejas, ou de gente declaradamente cristã. Nossa defesa não deveria ser “ninguém aqui é pedófile”, e sim “a comunidade não reconhece isso como parte dela”.

E vou dizer também que rechaçar pessoas pedófilas da comunidade como “uma vergonha”, como “aquelas que realmente estragam a comunidade”, ou qualquer outra coisa similar, é apenas um punitivismo que serve pra agradar, antes de tudo, nosses inimigues, o sistema. Es pedófiles da comunidade são tão “hereges” quanto pessoas da comunidade que já assassinaram alguém a sangue frio, que já agrediram uma pessoa vulnerável, que são supremacistas branques, que são reaças de direita, enfim. Não precisamos ou devemos fazer votos de perfeição aqui. A comunidade é feita por pessoas, pessoas são falhas, e seus atos devem ser respondidos pelo que são. Fazer essas coisas e ser da comunidade é um agravante só pra quem quer uma desculpa para odiá-la e generalizá-la.

Seria bom se acabasse por aí, porém, nesse saco são jogadas também as pessoas indesejáveis à parcela da comunidade que é higienizada e praticante das respeitabilidades (como fetichistas e não-monogâmiques), aquelas que não se submetem a assimilacionismos ou atendem a critérios des porteires da comunidade (microcomunidades num geral), e várias pessoas queers que são “dissidentes demais” para os movimentos popularzinhos. Já vi muitas vezes orientações mais específicas – tanto a-espectrais quanto indefinidas – serem acusadas de “darem abertura” para pedofilia/abuso. E já vi reacionáries da comunidade acusando MOGAI ou microcomunidades da existência de grupos nocivos, como MAPs ou trolls adultes se dizendo crianças porque “se identificam com tal idade e querem ser respeitades por isso”. Incrível como os discursos parecem tanto com aqueles de reaças de direita, dizendo coisas como “primeiro aprovam homem com homem e mulher com mulher, depois chegam nos bichos, e aí nas crianças”.

E esse grande saco, onde são jogadas as pessoas nocivas e problemáticas e as pessoas legítimas e inocentes, só serve para dizer aes de fora da comunidade que somos seres puros e divinos, que merecemos viver e ser “normais”, e que em troca do perdão do Deus Normativo oferecemos esses sacrifícios. E adivinhem: aquelus de fora não se importam, e vão continuar com suas mentiras e falácias e seus ataques, como fazem há décadas, como sempre fizeram. Já associavam corpos dissidentes à pedofilia muito antes da primeira notícia de um caso confirmado de pedofilia vindo de alguém da comunidade. Por isso também digo que esse apelo não serve pra nada.

  • O que a comunidade pode fazer?

A comunidade faz muito bem em se posicionar contra a pedofilia, e não deixa de ser uma pauta importante (tanto pelas difamações quanto pelas muitas crianças dissidentes que sofrem abuso). Contudo, deve estar preparada para campanhas difamatórias como essas, e que vão continuar não importa o que ela faça. E que sempre serão mais impulsionadas quando a comunidade tocar em assuntos sobre as crianças, como quando falam das crianças não-normativas, ou das crianças que desde sempre se entendem como trans, enfim. E não são assuntos que devem ser deixados de fora em prol de respeitabilidades, ou para evitar ou diminuir acusações infundadas. Crianças dissidentes existem, e uma parcela enorme da comunidade se percebe dissidente desde cedo.

Apesar de tudo que falei, pedófiles continuam sendo um grande problema, e os conteúdos dos quais falei continuam causando caos e medo. O que podemos fazer contra tudo isso, até então, é denunciar para as redes sociais e autoridades competentes e entidades, evitar dar engajamento a tais conteúdos e pessoas, e tomar as possíveis medidas de segurança (como privar perfis).

A mensagem final desse texto é apenas mais uma vez que as pessoas parem de acreditar em tudo que leem na Internet, e comecem a investigar melhor as coisas. Estão, novamente, mordendo isca de invenções conservadoras.

Enfim, depois de tudo isso, você agora não precisa mais se contorcer no chão e dar saltos para defender a comunidade, acreditando que pedos são um grupo político legítimo e que possuem um movimento capaz de adentrar na comunidade. Ao menos isso não é mais um problema. De nada.

Links adicionais:

‘LGBT’ Está Adicionando um ‘P’ para Pedossexuais?

Checagem de fato: A comunidade LGBTQ não está adicionando “P” em sua sigla

E-Farsas: Grupos querem inserir o “P” de “pedossexual” na sigla LGBT?

BuzzFeed: A história da pedofilia entrar para a sigla LGBT desenha como funcionam as fake news

Identidades controversas, reacionarismos, e atrações múltiplas

Aviso de conteúdo: monossexismo (internalizado e reproduzido), assimilacionismo, policiamento de identidades e experiências, exclusionismo.

Pra quem não gosta de surpresa e talvez queira “poupar seu tempo”, já vou estragar: sim, esse texto vai defender heteroflexível e lésbica bi.

Bem, as orientações flexíveis são conhecidas há muito, enquanto gays/lésbicas multi é um fenômeno que ganhou atenção recentemente na anglosfera, mas que já chegou aqui no Brasil (junto com discursos contrários e um ódio importado também). Aqui, gostaria de explicar e discutir sobre essas identidades, e outras identidades fluidas, explorando mais sobre nossas ideias e concepções do que é a multiatratividade.

Acho que são discussões necessárias devido a muitas pessoas e comunidades multi estarem vendo uma ameaça que não existe nessas identidades, e no quanto essas ações podem afetar negativamente as comunidades e muitas pessoas multi. Senso crítico é importante, mas precisamos começar a separá-lo de nossos reacionarismos com o que não entendemos ou interpretamos de forma negativa.

Vamos pensar mais nessas coisas antes de ficar pulando e exaltando com arco-íris e flores a tal da diversidade humana.

  • Orientações flexíveis

O conceito ainda obsoleto de pessoas homoflexíveis e heteroflexíveis é que são pessoas atraídas por determinado gênero binário, mas ocasionalmente se atraem pelo outro gênero binário – isso, claro, num contexto binário. É o que ainda se espalha por aí.

Embora sejam as orientações mais “famosas”, o sufixo -flexível acompanha qualquer orientação que descreva atração por um gênero ou que não descreva atração por todos os gêneros. Logo, não há apenas homoflexível e heteroflexível. Francamente, não sei o quanto orientações como virflexível ou trixenflexível ou neuflexível são também alvos de ataques e críticas assim como essas duas. Mas o que deve justificar isso é o fato de ambas estarem tanto “deturpando” uma identidade consagrada (homo – gay/lésbica) e “dando abertura” pra invasão de opressories (héteros), enquanto as outras citadas foram cunhadas fora do contexto LG.

O conceito mais atual de uma orientação flexível é atração por um gênero ou determinados gêneros, mas que possui exceções na atração. Essas exceções costumam ser fracas e/ou raras e/ou aleatórias. Pessoas flexíveis costumam relatar que possuem uma atração fixa e definida por longos períodos, e então percebem exceções em certas ocasiões. Essa é uma característica importante que faz com que muitas delas não sintam que faz sentido assumir identidades multi (como bi, poli, toren, trixen, etc), ou sintam que não se encaixam (totalmente) nessas comunidades. Porém, já existe um consenso em espaços mais inclusivos e comunidades flexíveis que elas estão dentro do guarda-chuva da multiatração – e isso é muito importante.

Sim, pessoas flexíveis são multi, assim como pessoas bi, poli, pan, oni, paro, toren, trixen, etc. Pessoas flexíveis se reconhecem assim, podem ser alvos de monossexismo também.

O ponto que gera controvérsias entre homoflexível e heteroflexível com pessoas multi, com ênfase nas pessoas bi, é que existe um histórico de pessoas mono usando essas identidades para zombar das atrações multi e querer invalidá-las. Questão complicada? Sim. Porém, não acho que pessoas flexíveis legítimas devam pagar por isso, quando pessoas nocivas assim sequer vão frequentar espaços multi e construir algo pelas comunidades multi, e muito menos se firmar nessas identidades.

Agora também pergunto: quantos espaços multi, com ênfase em espaços bi, realmente sabem lidar criticamente com essa questão quando aparece uma pessoa que se diz flexível? Quantos desses espaços focam num diálogo e acolhimento em vez de cair em zoeiras e/ou acusações? Quantos se prestam a explicar seu ponto de vista sobre orientações flexíveis sem ataques e constrangimentos e fazer a pessoa se sentir mal?

Acho válido o esforço de um diálogo para apontar se aquela identidade é a mais adequada, ou se de repente a pessoa se encaixa melhor numa orientação multi como bi, poli, etc. Mas quantas pessoas fazem isso? Na hora de fazer piada e chacota com orientações flexíveis, várias pessoas multi se juntam com pessoas mono. Talvez até por isso também que aparece pessoas “sem rótulos” por aí, que na verdade são flexíveis, mas preferem esconder isso por medo e receio.

Também percebo que discursos contra orientações flexíveis caem numa imensa contradição, pois é fácil acusar de monossexismo identidades que descrevem, a princípio, atração por apenas um gênero. E identidades que descrevem atração por um número de gêneros? Por que essas exceções podem ou não ter um nome? Estariam elas “manchando” também as pessoas multi? São pessoas pan com panmisia internalizada (ignorando que mesmo a exceção pode não englobar todos os gêneros)? Nunca vi esses discursos, embora eu consiga imaginá-los.

Aliás, podemos até fazer um paralelo nessa questão das exceções com atrações a-espectrais, visto que nesses espectros existem também atrações que podem ser fracas e/ou raras, que podem ser condicionais ou circunstanciais. Invalidar essas exceções não seria algo paralelamente alossexista? Não sei responder. Mas é muito contraditório invalidá-las enquanto valida experiências a-espectrais.

Acredito que posso resumir meus pontos a: orientações flexíveis são válidas porque são multi, são alvo de monossexismo, podem ser experiências tanto de pessoas (a princípio) mono quanto de outras pessoas multi, são experiências paralelas a outros tipos de orientações, e pessoas que as adotam legitimamente não têm o que ganhar com isso sistematicamente nem com as próprias comunidades multi em geral.

Afinal, espaços multi deveriam se fechar assim para pessoas flexíveis, quando as mesmas também possuem experiências negativas como vácuo identitário, policiamento de sua atração, e hostilidade de pessoas mono quando relatam atração/relação com pessoas de determinado(s) gênero(s)? Espaços multi deveriam dar toda essa importância a essas identificações quando nesses espaços se prega tanto que não importa como ocorre a atração, a frequência dela, com quais e quantas pessoas de determinado(s) gênero(s) a pessoa se relacionou? Fica aí a reflexão.

  • Gays/Lésbicas multi

Aqui focarei em gays/lésbicas multi, embora haja possibilidade desse “cruzamento” de identidades também com outras orientações mono (hétero, vir, femina, etc). Existem também contextos específicos, exclusivos das identidades gay e lésbica, que justificam a presença e difusão de gays multi e lésbicas multi e não de outras possibilidades.

Vou começar colocando aqui as principais razões que levam pessoas a se identificarem assim:

  1. pessoas multi com preferência por homens/mulheres;
  2. pessoas multi que sentem atração por homens/mulheres;
  3. pessoas multi que sentem atração por um gênero binário e pessoas não-binárias;
  4. pessoas multi atraídas por pessoas binárias e não-binárias, e querem dar ênfase nas não-binárias;
  5. pessoas multi resgatando gay/lésbica como termos guarda-chuva;
  6. pessoas variorientadas que são multi numa atração e gay/lésbica em outra;
  7. pessoas atraídas por um gênero, mas não descartam se relacionar com outro(s).

Falando de uma perspectiva histórica, lesbianismo inicialmente não definia uma orientação específica, e sim um comportamento, que englobava toda mulher sáfica. Muitas mulheres bi se firmaram (também) na identidade lésbica, até haver a influência das feministas radicais e o separatismo lésbico. Algumas mulheres que tiveram essa vivência seguiram usando, enquanto há outras pessoas que querem resgatar pra si esse uso mais amplo. Então, mulheres se afirmando lésbica e bi não é um fenômeno recente, advindo com a Internet. Isso acontece há décadas.

Sobre gays multi, achei pouquíssima coisa, mas acredito que haja sim pessoas querendo resgatar pra si um uso mais amplo de gay, dependendo de suas experiências, de sua geração, enfim.

Li muitas postagens contrárias a essas identidades e, embora algumas parecessem convincentes nos argumentos, percebi que quase todas pareciam ter interpretado gay/lésbica multi como quisessem (sem nem ler as razões de pessoas se identificarem), e focavam no quanto esses grupos iriam “confundir as definições” e dar aval para ataques de grupos nocivos (assediadories, gente lesbomísica/bísimica, etc). Isso me soa aquela tática clássica de reacionáries de culpar um grupo por fenômenos que já existem e vão continuar existindo com ou sem esse grupo. E ninguém também está impondo o uso dessas identidades, pois elas servem a quem vê sentido nelas.

Acusar gays e lésbicas multi disso e de desrespeitar ou manchar as comunidades multi faz tanto sentido quanto dizer o mesmo de: pessoas que primeiro se assumiram gay/lésbica e depois se assumiram multi, pessoas que primeiro se assumiram multi e depois se assumiram mono, e pessoas fluidas que transitam entre identidades mono e multi (e o discurso pode até se estender para identidades como abro ou duo).

Esse ódio todo a gays e lésbicas multi chegou a ponto de haver mobilizações contra e criadore da bandeira pan por elu ter apoiado esses grupos, e ter listas de bloqueios de pessoas gays/lésbicas multi e apoiadories, para terem ideia da dimensão que chegou.

E gays e lésbicas multi são o que, afinal? Bem, antes de tudo, são multi. São pessoas atraídas por mais de um gênero, em qualquer uma das possíveis situações, e que podem acessar comunidades das identidades que usam. São tão multi quanto qualquer outra pessoa multi, e que também merecem um espaço em comunidades gays/lésbicas.

A própria ideia de pessoas gays e lésbicas serem multi nem é realmente absurda ou longe da realidade, considerando que:

  1. enquanto há aquelus atraídes apenas pelos gêneros binários, existem aquelus atraídes pelos binários e gêneros similares. Dependendo da experiência e perspectiva, a pessoa pode se considerar atraída por mais de um gênero, mesmo que sejam gêneros dentro de um mesmo espectro (masculino/feminino).
  2. existem pessoas atraídas sexualmente por um gênero e romanticamente por outro (ex: gay heterorromântico), e isso, tecnicamente, as coloca como multi devido a suas experiências se cruzarem com de outras pessoas multi (mas é possível que nem todas se considerem multi mesmo assim).

Nossa própria ideia do que é ser multi precisa sair de caixinhas.

Entendo que a informação aqui na lusosfera, ainda mais no Brasil, é precária, muitas dessas discussões não chegam aqui, mas acredito que criaram um monstro desproporcional em cima de gays e lésbicas multi, sendo que: pessoas variorientadas nem são tão desconhecidas assim, os termos gay e lésbica têm um histórico conhecido de terem sido amplos, e parece que nem houve esforços pra entender esses grupos ou dialogar.

Muito desse reacionarismo todo remete a valores assimilacionistas e essencialistas criados para “unificar e proteger” as comunidades. Isso é um grande problema, pois caímos em policiamento de identidades e experiências alheias, coerção (“se identifique assim, ou você é inválide”), e afastamento de pessoas de espaços seguros e ativismos. Onde isso tudo ajuda pessoas multiatraídas?

  • Identidades fluidas

Se fôssemos separar orientações em categorias específicas, além de mono e multi teríamos a categoria fluida. Apesar de ser uma categoria mais próxima de multi do que das demais, pessoas fluidas possuem experiências que podem transitar entre experiências tipicamente multi e mono e também a-espectrais.

É tragicômico ver o tanto gente da comunidade e (supostes) aliades que repetem o mantra da “sexualidade é fluida” e o quanto fluidez é muitas vezes colocada como parte das atrações multi, mas, porém, contudo, pessoas de todos os lugares, sejam mono ou multi, aparecem para vomitar ódio em cima de qualquer orientação fluida. Aliás, esse tipo de coisa já me fez escrever um texto de defesa da orientação abro, e eu recomendo essa leitura porque as ideias necessárias já estão nele.

Eu acredito que esse posicionamento contra identidades fluidas, quando vem de pessoas multi, é mais por reacionarismo e assimilacionismo (“é melhor usar tal identidade”, “vamos todes nos dizer apenas bi”, etc) do que puro monossexismo. Muitos dos discursos que já vi em ondas de ataque focavam no quanto pessoas fluidas eram apenas bi (ou multi) que não queriam assumir isso e tinham monossexismo internalizado. E, de novo, vejo nas redes sociais mais esforços pra condenar alguém do que acolher – o que me faz temer por qualquer pessoa de microcomunidades que queira se expressar ou buscar solidariedade nas redes populares.

Sobre pessoas fluidas, muitas se consideram multi, e existe consenso em discussões sobre monossexismo de que essa opressão também atinge pessoas fluidas. A própria fluidez coloca a pessoa numa posição simultânea de “pessoa que não se atrai por apenas um gênero o tempo todo” e “pessoa atraída por mais de um gênero”, e tal pessoa não é poupada mesmo que haja um período em que sua atração possa ser descrita como hétero (caso alguém já pense em soltar essa pérola). Isso me lembra aquela mesma velha “discussão” de que pessoas a-espectrais hétero (assexuais heterorromântiques, heterossexuais arromântiques, etc) são ou não são beneficiadas pelo heterossexismo (e não, não são).

Agora pergunto novamente sobre como espaços multi lidam com pessoas fluidas. Suas definições de bi, poli, etc – que, aliás, já são muito abertas – conseguem englobar experiências fluidas? Podemos apenas jogar pessoas fluidas numa dessas identidades, contudo e apesar de tudo? Podemos fazer isso com: uma pessoa ora atraída apenas por homens, ora atraída apenas por mulheres; ou uma pessoa que num período se atrai por muitos gêneros, e em outro se atrai por apenas um; ou uma pessoa que muda constantemente entre atração por um gênero, poucos gêneros, muitos gêneros, todos os gêneros, e nenhum gênero?

Sinceramente? Passou do momento de perceber que pessoas fluidas estão lado a lado com pessoas multi, ainda mais na luta contra o monossexismo, e que esse monte de policiamento e ataques faz de tudo, menos unir ou ajudar alguém. E nem é incomum pessoas fluidas adotarem também identidades multi. Espero que pessoas fluidas possam se organizar melhor e produzir seus conteúdos, para assim trazer mais visibilidade a essas questões.

Outras orientações fluidas que podem ser citadas: duo, acefluide, bifluxo, novo, onique, adfectu, morfe.

  • Então… tudo é válido?

Tudo que foi citado acima são identidades válidas, experiências reais, e que precisam ser melhor consideradas. Mas, claro, nem tudo que aparece por aí é válido. Isso parece frase de reaça, porém não deixa de ser verdade.

Contudo e apesar de tudo, precisamos ainda manter um senso crítico com certas coisas que são divulgadas por aí. Isso inclui identidades como semibissexual, que é obviamente falsa e criada pra zoar (sim, vou usar a palavra obviamente, porque se você acreditou nisso, você tem o mesmo senso crítico de quem acredita em fake news absurdas). E pra quem não sabe, semibissexual é “uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”. Sim, essa é a definição. Sim, teve gente que levou a sério.

Adendo: essa identidade também pode atingir pessoas a-espectrais que usam alguma orientação com prefixo semi- e que também são bi, e que podem se apresentar como “semibi”, por exemplo. Cuidado com essa confusão!

Outro grupo muito problemático que teve atenção há uns anos são os goys (pra quem não sabe, são homens que se dizem héteros, mas se relacionam sexualmente com outros homens – sem serem passivos – e não se apaixonam por eles). Na prática, vejo goys como homens bi/multissexuais heterorromânticos. O problema com esse grupo são os princípios que giram em torno deles, que são basicamente misóginos, fememísicos, e (ironicamente) heterossexistas.

Nada do que foi defendido nos outros tópicos pode ser comparado a uma identidade troll e um grupo muito problemático sem credibilidade. E nem com outras coisas que aparecem ocasionalmente, como highsexuais (que acho mais problemático pela circunstância do que pela definição), ou qualquer outro grupo que mostra comportamento multissexual e não usa qualquer termo que remeta a isso.

Monossexismo é estrutural, e tudo isso não deixa de ser manifestações dele. Porém, precisamos tomar cuidado para não cair em reacionarismos e colocar grupos legítimos junto com esses mencionados agora. E, principalmente, ampliar o que entendemos por multiatratividade, para também não cairmos em críticas alheias que, no fim, também possuem raízes monossexistas.

Links adicionais:

Lésbica Bi (conteúdo em inglês)

O Que Heteroflexível Significa E Como Saber Se Se Aplica A Você (conteúdo em inglês) (aviso de conteúdo: definição obsoleta, linguagem exorsexista)

Texto: O Manifesto Bissexual

Aviso de conteúdo: monossexismo, concepção moralista sobre “promiscuidade”, mononormatividade.

Tradução minha do texto “O Manifesto Bissexual”.

Nós estamos cansades de sermos analisades, definides e representades por outras pessoas que não nós mesmes, ou pior ainda, não considerades em absoluto. Nós somos frustrades pelo isolamento imposto e pela invisibilidade que vêm de nos dizerem ou esperarem que escolhemos ou uma identidade homossexual ou heterossexual.

Monossexualidade é um ditame heterossexista usado para oprimir homossexuais e para negar a validade da bissexualidade.

Bissexualidade é uma identidade completa e fluida. Não presuma que bissexualidade seja binária ou duogâmica por natureza: que temos “dois” lados ou que devemos nos envolver simultaneamente com ambos os gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não presuma que só existem dois gêneros. Não confunda nossa fluidez com confusão, irresponsabilidade, ou incapacidade de ter compromisso. Não iguale promiscuidade, infidelidade, ou comportamento sexual inseguro com bissexualidade. Esses são traços humanos que cruzam todas as orientações sexuais. Nada deveria ser presumido sobre a sexualidade de qualquer ume, incluindo a sua.

Nós nos zangamos com aquelus que se recusam a aceitar nossa existência; nossas questões; nossas contribuições; nossas alianças; nossa voz. É hora de a voz bissexual ser ouvida.

O texto foi publicado em 1990 numa revista da época direcionada ao público bissexual, a Anything That Moves (tradução: “Qualquer Coisa Que Se Mova”).

Percebe-se que o ativismo bi já encontrava suas dificuldades desde essa década, e que monossexismo já se manifestava desde sempre junto com moralismos e a estigmatização da não-monogamia .

Curiosidade: encontrei que “duogamia” se refere a quando uma pessoa bi tem simultaneamente dues parceires, homem e mulher.

Desde essa publicação instaurou-se oficialmente bi como um termo guarda-chuva para toda forma de atração por mais de um gênero, e ainda abrindo espaço para o uso de outros rótulos. Essa definição ampla esteve sendo resgatada por pessoas e grupos bi/multi engajades num ativismo mais inclusivo e unificador, visto que o senso comum e muitas fontes ainda espalham que bi é apenas atração exclusiva pelos gêneros binários.

Em meio a tantas brigas internas (como bi v.s. pan) e muitos discursos de policiamento e segregação, devemos resgatar essa consciência, pregada pela comunidade bi em seus primórdios, e promover acolhimento e empoderamento mútuos de todas as pessoas multi. Olhar para trás e saber a história da comunidade é uma forma de fazer isso. E por isso compartilhei esse registro histórico da comunidade bi, que desde sempre abriu espaço para muitas identidades e expressões e considerou a existência de gêneros não-binários.

Lembrando que esse mês, setembro, é o mês da visibilidade bi. Então nada mais apropriado do que contar uma parte da história da comunidade.

A bandeira de orgulho bi. Uma bandeira de três faixas horizontais, duas grandes e uma mais fina entre elas. De cima para baixo, as cores são magenta, roxa e azul.

Referências bibliográficas (em inglês):

https://bialogue-group.tumblr.com/post/17532147836/atm1990-bisexualmanifesto

https://muse.jhu.edu/article/575374/summary