Identidades controversas, reacionarismos, e atrações múltiplas

Aviso de conteúdo: monossexismo (internalizado e reproduzido), assimilacionismo, policiamento de identidades e experiências, exclusionismo.

Pra quem não gosta de surpresa e talvez queira “poupar seu tempo”, já vou estragar: sim, esse texto vai defender heteroflexível e lésbica bi.

Bem, as orientações flexíveis são conhecidas há muito, enquanto gays/lésbicas multi é um fenômeno que ganhou atenção recentemente na anglosfera, mas que já chegou aqui no Brasil (junto com discursos contrários e um ódio importado também). Aqui, gostaria de explicar e discutir sobre essas identidades, e outras identidades fluidas, explorando mais sobre nossas ideias e concepções do que é a multiatratividade.

Acho que são discussões necessárias devido a muitas pessoas e comunidades multi estarem vendo uma ameaça que não existe nessas identidades, e no quanto essas ações podem afetar negativamente as comunidades e muitas pessoas multi. Senso crítico é importante, mas precisamos começar a separá-lo de nossos reacionarismos com o que não entendemos ou interpretamos de forma negativa.

Vamos pensar mais nessas coisas antes de ficar pulando e exaltando com arco-íris e flores a tal da diversidade humana.

  • Orientações flexíveis

O conceito ainda obsoleto de pessoas homoflexíveis e heteroflexíveis é que são pessoas atraídas por determinado gênero binário, mas ocasionalmente se atraem pelo outro gênero binário – isso, claro, num contexto binário. É o que ainda se espalha por aí.

Embora sejam as orientações mais “famosas”, o sufixo -flexível acompanha qualquer orientação que descreva atração por um gênero ou que não descreva atração por todos os gêneros. Logo, não há apenas homoflexível e heteroflexível. Francamente, não sei o quanto orientações como virflexível ou trixenflexível ou neuflexível são também alvos de ataques e críticas assim como essas duas. Mas o que deve justificar isso é o fato de ambas estarem tanto “deturpando” uma identidade consagrada (homo – gay/lésbica) e “dando abertura” pra invasão de opressories (héteros), enquanto as outras citadas foram cunhadas fora do contexto LG.

O conceito mais atual de uma orientação flexível é atração por um gênero ou determinados gêneros, mas que possui exceções na atração. Essas exceções costumam ser fracas e/ou raras e/ou aleatórias. Pessoas flexíveis costumam relatar que possuem uma atração fixa e definida por longos períodos, e então percebem exceções em certas ocasiões. Essa é uma característica importante que faz com que muitas delas não sintam que faz sentido assumir identidades multi (como bi, poli, toren, trixen, etc), ou sintam que não se encaixam (totalmente) nessas comunidades. Porém, já existe um consenso em espaços mais inclusivos e comunidades flexíveis que elas estão dentro do guarda-chuva da multiatração – e isso é muito importante.

Sim, pessoas flexíveis são multi, assim como pessoas bi, poli, pan, oni, paro, toren, trixen, etc. Pessoas flexíveis se reconhecem assim, podem ser alvos de monossexismo também.

O ponto que gera controvérsias entre homoflexível e heteroflexível com pessoas multi, com ênfase nas pessoas bi, é que existe um histórico de pessoas mono usando essas identidades para zombar das atrações multi e querer invalidá-las. Questão complicada? Sim. Porém, não acho que pessoas flexíveis legítimas devam pagar por isso, quando pessoas nocivas assim sequer vão frequentar espaços multi e construir algo pelas comunidades multi, e muito menos se firmar nessas identidades.

Agora também pergunto: quantos espaços multi, com ênfase em espaços bi, realmente sabem lidar criticamente com essa questão quando aparece uma pessoa que se diz flexível? Quantos desses espaços focam num diálogo e acolhimento em vez de cair em zoeiras e/ou acusações? Quantos se prestam a explicar seu ponto de vista sobre orientações flexíveis sem ataques e constrangimentos e fazer a pessoa se sentir mal?

Acho válido o esforço de um diálogo para apontar se aquela identidade é a mais adequada, ou se de repente a pessoa se encaixa melhor numa orientação multi como bi, poli, etc. Mas quantas pessoas fazem isso? Na hora de fazer piada e chacota com orientações flexíveis, várias pessoas multi se juntam com pessoas mono. Talvez até por isso também que aparece pessoas “sem rótulos” por aí, que na verdade são flexíveis, mas preferem esconder isso por medo e receio.

Também percebo que discursos contra orientações flexíveis caem numa imensa contradição, pois é fácil acusar de monossexismo identidades que descrevem, a princípio, atração por apenas um gênero. E identidades que descrevem atração por um número de gêneros? Por que essas exceções podem ou não ter um nome? Estariam elas “manchando” também as pessoas multi? São pessoas pan com panmisia internalizada (ignorando que mesmo a exceção pode não englobar todos os gêneros)? Nunca vi esses discursos, embora eu consiga imaginá-los.

Aliás, podemos até fazer um paralelo nessa questão das exceções com atrações a-espectrais, visto que nesses espectros existem também atrações que podem ser fracas e/ou raras, que podem ser condicionais ou circunstanciais. Invalidar essas exceções não seria algo paralelamente alossexista? Não sei responder. Mas é muito contraditório invalidá-las enquanto valida experiências a-espectrais.

Acredito que posso resumir meus pontos a: orientações flexíveis são válidas porque são multi, são alvo de monossexismo, podem ser experiências tanto de pessoas (a princípio) mono quanto de outras pessoas multi, são experiências paralelas a outros tipos de orientações, e pessoas que as adotam legitimamente não têm o que ganhar com isso sistematicamente nem com as próprias comunidades multi em geral.

Afinal, espaços multi deveriam se fechar assim para pessoas flexíveis, quando as mesmas também possuem experiências negativas como vácuo identitário, policiamento de sua atração, e hostilidade de pessoas mono quando relatam atração/relação com pessoas de determinado(s) gênero(s)? Espaços multi deveriam dar toda essa importância a essas identificações quando nesses espaços se prega tanto que não importa como ocorre a atração, a frequência dela, com quais e quantas pessoas de determinado(s) gênero(s) a pessoa se relacionou? Fica aí a reflexão.

  • Gays/Lésbicas multi

Aqui focarei em gays/lésbicas multi, embora haja possibilidade desse “cruzamento” de identidades também com outras orientações mono (hétero, vir, femina, etc). Existem também contextos específicos, exclusivos das identidades gay e lésbica, que justificam a presença e difusão de gays multi e lésbicas multi e não de outras possibilidades.

Vou começar colocando aqui as principais razões que levam pessoas a se identificarem assim:

  1. pessoas multi com preferência por homens/mulheres;
  2. pessoas multi que sentem atração por homens/mulheres;
  3. pessoas multi que sentem atração por um gênero binário e pessoas não-binárias;
  4. pessoas multi atraídas por pessoas binárias e não-binárias, e querem dar ênfase nas não-binárias;
  5. pessoas multi resgatando gay/lésbica como termos guarda-chuva;
  6. pessoas variorientadas que são multi numa atração e gay/lésbica em outra;
  7. pessoas atraídas por um gênero, mas não descartam se relacionar com outro(s).

Falando de uma perspectiva histórica, lesbianismo inicialmente não definia uma orientação específica, e sim um comportamento, que englobava toda mulher sáfica. Muitas mulheres bi se firmaram (também) na identidade lésbica, até haver a influência das feministas radicais e o separatismo lésbico. Algumas mulheres que tiveram essa vivência seguiram usando, enquanto há outras pessoas que querem resgatar pra si esse uso mais amplo. Então, mulheres se afirmando lésbica e bi não é um fenômeno recente, advindo com a Internet. Isso acontece há décadas.

Sobre gays multi, achei pouquíssima coisa, mas acredito que haja sim pessoas querendo resgatar pra si um uso mais amplo de gay, dependendo de suas experiências, de sua geração, enfim.

Li muitas postagens contrárias a essas identidades e, embora algumas parecessem convincentes nos argumentos, percebi que quase todas pareciam ter interpretado gay/lésbica multi como quisessem (sem nem ler as razões de pessoas se identificarem), e focavam no quanto esses grupos iriam “confundir as definições” e dar aval para ataques de grupos nocivos (assediadories, gente lesbomísica/bísimica, etc). Isso me soa aquela tática clássica de reacionáries de culpar um grupo por fenômenos que já existem e vão continuar existindo com ou sem esse grupo. E ninguém também está impondo o uso dessas identidades, pois elas servem a quem vê sentido nelas.

Acusar gays e lésbicas multi disso e de desrespeitar ou manchar as comunidades multi faz tanto sentido quanto dizer o mesmo de: pessoas que primeiro se assumiram gay/lésbica e depois se assumiram multi, pessoas que primeiro se assumiram multi e depois se assumiram mono, e pessoas fluidas que transitam entre identidades mono e multi (e o discurso pode até se estender para identidades como abro ou duo).

Esse ódio todo a gays e lésbicas multi chegou a ponto de haver mobilizações contra e criadore da bandeira pan por elu ter apoiado esses grupos, e ter listas de bloqueios de pessoas gays/lésbicas multi e apoiadories, para terem ideia da dimensão que chegou.

E gays e lésbicas multi são o que, afinal? Bem, antes de tudo, são multi. São pessoas atraídas por mais de um gênero, em qualquer uma das possíveis situações, e que podem acessar comunidades das identidades que usam. São tão multi quanto qualquer outra pessoa multi, e que também merecem um espaço em comunidades gays/lésbicas.

A própria ideia de pessoas gays e lésbicas serem multi nem é realmente absurda ou longe da realidade, considerando que:

  1. enquanto há aquelus atraídes apenas pelos gêneros binários, existem aquelus atraídes pelos binários e gêneros similares. Dependendo da experiência e perspectiva, a pessoa pode se considerar atraída por mais de um gênero, mesmo que sejam gêneros dentro de um mesmo espectro (masculino/feminino).
  2. existem pessoas atraídas sexualmente por um gênero e romanticamente por outro (ex: gay heterorromântico), e isso, tecnicamente, as coloca como multi devido a suas experiências se cruzarem com de outras pessoas multi (mas é possível que nem todas se considerem multi mesmo assim).

Nossa própria ideia do que é ser multi precisa sair de caixinhas.

Entendo que a informação aqui na lusosfera, ainda mais no Brasil, é precária, muitas dessas discussões não chegam aqui, mas acredito que criaram um monstro desproporcional em cima de gays e lésbicas multi, sendo que: pessoas variorientadas nem são tão desconhecidas assim, os termos gay e lésbica têm um histórico conhecido de terem sido amplos, e parece que nem houve esforços pra entender esses grupos ou dialogar.

Muito desse reacionarismo todo remete a valores assimilacionistas e essencialistas criados para “unificar e proteger” as comunidades. Isso é um grande problema, pois caímos em policiamento de identidades e experiências alheias, coerção (“se identifique assim, ou você é inválide”), e afastamento de pessoas de espaços seguros e ativismos. Onde isso tudo ajuda pessoas multiatraídas?

  • Identidades fluidas

Se fôssemos separar orientações em categorias específicas, além de mono e multi teríamos a categoria fluida. Apesar de ser uma categoria mais próxima de multi do que das demais, pessoas fluidas possuem experiências que podem transitar entre experiências tipicamente multi e mono e também a-espectrais.

É tragicômico ver o tanto gente da comunidade e (supostes) aliades que repetem o mantra da “sexualidade é fluida” e o quanto fluidez é muitas vezes colocada como parte das atrações multi, mas, porém, contudo, pessoas de todos os lugares, sejam mono ou multi, aparecem para vomitar ódio em cima de qualquer orientação fluida. Aliás, esse tipo de coisa já me fez escrever um texto de defesa da orientação abro, e eu recomendo essa leitura porque as ideias necessárias já estão nele.

Eu acredito que esse posicionamento contra identidades fluidas, quando vem de pessoas multi, é mais por reacionarismo e assimilacionismo (“é melhor usar tal identidade”, “vamos todes nos dizer apenas bi”, etc) do que puro monossexismo. Muitos dos discursos que já vi em ondas de ataque focavam no quanto pessoas fluidas eram apenas bi (ou multi) que não queriam assumir isso e tinham monossexismo internalizado. E, de novo, vejo nas redes sociais mais esforços pra condenar alguém do que acolher – o que me faz temer por qualquer pessoa de microcomunidades que queira se expressar ou buscar solidariedade nas redes populares.

Sobre pessoas fluidas, muitas se consideram multi, e existe consenso em discussões sobre monossexismo de que essa opressão também atinge pessoas fluidas. A própria fluidez coloca a pessoa numa posição simultânea de “pessoa que não se atrai por apenas um gênero o tempo todo” e “pessoa atraída por mais de um gênero”, e tal pessoa não é poupada mesmo que haja um período em que sua atração possa ser descrita como hétero (caso alguém já pense em soltar essa pérola). Isso me lembra aquela mesma velha “discussão” de que pessoas a-espectrais hétero (assexuais heterorromântiques, heterossexuais arromântiques, etc) são ou não são beneficiadas pelo heterossexismo (e não, não são).

Agora pergunto novamente sobre como espaços multi lidam com pessoas fluidas. Suas definições de bi, poli, etc – que, aliás, já são muito abertas – conseguem englobar experiências fluidas? Podemos apenas jogar pessoas fluidas numa dessas identidades, contudo e apesar de tudo? Podemos fazer isso com: uma pessoa ora atraída apenas por homens, ora atraída apenas por mulheres; ou uma pessoa que num período se atrai por muitos gêneros, e em outro se atrai por apenas um; ou uma pessoa que muda constantemente entre atração por um gênero, poucos gêneros, muitos gêneros, todos os gêneros, e nenhum gênero?

Sinceramente? Passou do momento de perceber que pessoas fluidas estão lado a lado com pessoas multi, ainda mais na luta contra o monossexismo, e que esse monte de policiamento e ataques faz de tudo, menos unir ou ajudar alguém. E nem é incomum pessoas fluidas adotarem também identidades multi. Espero que pessoas fluidas possam se organizar melhor e produzir seus conteúdos, para assim trazer mais visibilidade a essas questões.

Outras orientações fluidas que podem ser citadas: duo, acefluide, bifluxo, novo, onique, adfectu, morfe.

  • Então… tudo é válido?

Tudo que foi citado acima são identidades válidas, experiências reais, e que precisam ser melhor consideradas. Mas, claro, nem tudo que aparece por aí é válido. Isso parece frase de reaça, porém não deixa de ser verdade.

Contudo e apesar de tudo, precisamos ainda manter um senso crítico com certas coisas que são divulgadas por aí. Isso inclui identidades como semibissexual, que é obviamente falsa e criada pra zoar (sim, vou usar a palavra obviamente, porque se você acreditou nisso, você tem o mesmo senso crítico de quem acredita em fake news absurdas). E pra quem não sabe, semibissexual é “uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”. Sim, essa é a definição. Sim, teve gente que levou a sério.

Adendo: essa identidade também pode atingir pessoas a-espectrais que usam alguma orientação com prefixo semi- e que também são bi, e que podem se apresentar como “semibi”, por exemplo. Cuidado com essa confusão!

Outro grupo muito problemático que teve atenção há uns anos são os goys (pra quem não sabe, são homens que se dizem héteros, mas se relacionam sexualmente com outros homens – sem serem passivos – e não se apaixonam por eles). Na prática, vejo goys como homens bi/multissexuais heterorromânticos. O problema com esse grupo são os princípios que giram em torno deles, que são basicamente misóginos, fememísicos, e (ironicamente) heterossexistas.

Nada do que foi defendido nos outros tópicos pode ser comparado a uma identidade troll e um grupo muito problemático sem credibilidade. E nem com outras coisas que aparecem ocasionalmente, como highsexuais (que acho mais problemático pela circunstância do que pela definição), ou qualquer outro grupo que mostra comportamento multissexual e não usa qualquer termo que remeta a isso.

Monossexismo é estrutural, e tudo isso não deixa de ser manifestações dele. Porém, precisamos tomar cuidado para não cair em reacionarismos e colocar grupos legítimos junto com esses mencionados agora. E, principalmente, ampliar o que entendemos por multiatratividade, para também não cairmos em críticas alheias que, no fim, também possuem raízes monossexistas.

Links adicionais:

Lésbica Bi (conteúdo em inglês)

O Que Heteroflexível Significa E Como Saber Se Se Aplica A Você (conteúdo em inglês) (aviso de conteúdo: definição obsoleta, linguagem exorsexista)