Pedossexuais: uma ameaça real ou uma invenção?

Aviso de conteúdo: pedofilia, campanhas anti-LGBTQIAPN+, retóricas falaciosas contra a comunidade e grupos dela, exclusionismos, contém links externos.

De tempos em tempos as redes sociais se agitam diante da mesma coisa que surge e ressurge da terra das bizarrices inesquecíveis: pedossexuais. Esse é só um nome bonitinho para pedófiles, colocando a pedofilia como uma “orientação sexual” – logo como uma atração tão válida quanto qualquer outra.

Se você não conhece essa polêmica, sinta-se privilegiade. E, sinto dizer: agora você vai conhecer. Mas se você conhece, tenho duas perguntas:

  1. você sabe de onde veio isso?
  2. você acredita que seja mesmo possível pedófiles terem um espaço na comunidade?

Pra quem é mais politizade e engajade nas questões dissidentes, pode até achar de prontidão que pedossexuais é uma grande “zoeira” infeliz de trolls da Internet, ou uma mentira descarada de gente diciseterossexista pra manchar a comunidade.

Porém, muitas pessoas, mesmo aquelas que estão há anos em movimentos sociais, ainda ficam na dúvida sobre a legitimidade desse grupo. E uma onda de pessoas acaba acreditando nessa legitimidade, mesmo gente da comunidade e aliada. E é exatamente isso que mais me incomoda nessa polêmica toda.

Bem, se for necessário mesmo fazer esse esforço (até pra quem quer falar sobre isso, mas não tem argumentos concretos), eu vou explicar brevemente o motivo de pedofilia não ser uma orientação:

  1. é uma atração que envolve especificamente um grupo de indivíduos que são incapazes de consentir em tais relações.
  2. é uma condição mental que causa danos ao individuo e a outros indivíduos (com ênfase nas vítimas, as próprias crianças).
  3. seu conceito está totalmente fora das concepções atuais de orientação, que é atração por gêneros e/ou atração que depende de fatores ou situações específiques (como vínculo, personalidade, etc).

E antes que alguém venha com discursos exclusionistas por causa do item 3, não, orientações influenciadas por neurodivergências não são equiparáveis a esse distúrbio, e nem validam uma orientação “influenciada” por ele, pois as definições delas não justificam a busca por relações sem consentimento.

  • Pedossexuais, MAPs, e afins

Falando des pedossexuais, onde tudo isso começou? Ao que tudo indica, buscando em fontes de investigações, essa palavra foi vista numa imagem compartilhada no saite 4chan (lugar famoso por ter todo tipo de bizarrice feita contra grupos dissidentes). Não se sabe de onde ela é, mas não há registro nenhum de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento feito pela comunidade que tenha usado uma sigla incluindo um P para pedossexuais. Ao que tudo indica isso foi ou uma montagem ou uma fabricação real feita por uma campanha “anti-gay”, tentando associar homossexualidade com pedofilia (uma tática que existe há décadas). Por mais que essa campanha seja absurda e esteja desmentida, o fantasma dela continua aí até hoje. Infelizmente, as fontes que tenho estão em inglês, mas as deixarei no final do texto.

Outra campanha famosa que surge e ressurge das cinzas periodicamente é de um grupo chamado MAP, do inglês minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores”. Há também um outro grupo, NOMAP, do inglês non offensive minor attracted people; literalmente, “pessoas atraídas por menores não ofensivas”; que, aparentemente, define um grupo de pessoas com desejos pedófilos, mas que não querem contato com crianças. Não tenho informações suficientes sobre esse grupo pra determinar se é um grupo “inofensivo” ou não; porém, existem sim grupos de pedófiles que advogam contra a pornografia e abuso infantis.

Bem, “menores” é um grupo amplo e relativo que engloba adolescentes e crianças. Existem legislações diferentes pelo mundo que demarcam tanto a maioridade (18 anos, 21 anos, etc) quanto as idades de consentimento (aqui no Brasil, por exemplo, é 14). Fiz essa ressalva exatamente porque “atração por menores” inclui a pedofilia propriamente dita, mas também inclui atração por adolescentes, a qual não cabe no escopo do que a ciência e leis consideram como pedofilia ou abuso de criança (embora ainda seja um tópico controverso). Assim começa o problema com MAPs, pois relações com crianças seguem sendo classificadas como distúrbio mental (pela ciência) e crime (pela lei). Logo, conteúdos e grupos MAPs não são legítimos, não devem ser incentivados, e devem ser denunciados e levados à justiça. E o que acontece nessa terra de ninguém chamada Internet são campanhas nocivas de “positividade”, seja através de hashtags, de postagens incentivando ou defendendo, de montagens de “bandeiras de orgulho” para esse grupo, e outras atividades similares.

Eu diria que MAPs são apenas um subproduto do que se tornou a campanha de pedossexuais. Por isso achei pertinente essa menção, afinal, daqui a um tempo, provavelmente veremos mais citações escandalosas de MAPs no lugar de pedossexuais. No fim, é o mesmo lixo de sempre: ataques para manchar, desmoralizar e desarticular a comunidade.

Existem outros grupos por aí sem nomes específicos que “defendem” a pedofilia fazendo paralelos com discursos positivos a favor de relações dissidentes e teorias de gênero, dizendo coisas como “amor não tem idade”, ou que “idade é uma construção social”, enfim. E outras montagens que implicam que a comunidade aceita pedofilia. Mesma coisa pra tudo que eu disse sobre MAPs e pedossexuais.

  • Pedos na comunidade

Mas, afinal, o que me incomoda nessa polêmica toda? Exatamente as diversas reações que vejo de ativistas e outras pessoas da comunidade quando esse assunto bomba de repente nas redes sociais. Tem gente que acredita mesmo que tem pessoas da comunidade querendo aprovar a inclusão de pedos, tem gente que surta pra defender o quanto a comunidade não aprova isso e faz um esforço imenso para convencer es outres disso. E fico me perguntando como pessoas que estão há anos no movimento caem nisso, ou pra quem as pessoas estão se defendendo com tanta agitação?

Aqui estão explicações do por que pedossexuais ou MAPs (e qualquer outro nome que inventem) não têm como se infiltrar na comunidade e muito menos serem incluídes como um segmento próprio e legítimo:

Primeiro, qualquer apoio a desejos ou práticas de pedofilia vindo de qualquer pessoa, figura pública, grupo, coletivo, organização ou evento referentes à comunidade com certeza receberá uma resposta totalmente negativa de imediato. Não haverá diálogo, porque isso não está para debate. Abuso de criança não é um debate. Pedofilia não é uma mera discussão de “a favor ou contra”. Ninguém aceitará isso (com exceção de quem quer abusar de crianças, né), e existe toda forte rejeição pública e de instituições legais e científicas.

Segundo, pedófiles precisariam antes se organizar enquanto movimento político, e se consolidarem numa identidade política, para assim talvez se articular como parte também da comunidade. Isso não vai acontecer. Mesmo que haja movimentos na Internet, em nenhum lugar do mundo atual esse movimento será aceito como político. Esse movimento não terá como abrir discussões sociais, lutar por direitos e demandas, exigir políticas públicas, enfim. Nenhum governo ou país aceitará isso, e qualquer tentativa de algo assim (que duvido que ocorra) também receberá uma reação imediata negativa.

Já existiu um ativismo pedófilo mais forte e presente nas décadas passadas, mas, atualmente, com o avanço das legislações e por causa da opinião pública geral, o pouco “ativismo” que existe se limita a espaços e postagens execráveis na Internet.

  • As reações da comunidade

Afinal, precisamos tanto assim nos defender de quem? Quem está acreditando que a comunidade quer aprovar pedofilia? Quem estamos precisando convencer disso? Sinceramente, além daquelus que já odeiam a comunidade, quem acredita nisso tem que ser alguém ou muito alienade sobre a comunidade ou com tendências reacionárias contra ela. E, com tendências reacionárias, me refiro a pessoas da comunidade que absorveram ideias e discursos contra outros grupos dissidentes (pode ser o caso de pessoas queermísicas, exclusionistas de assexuais, quem é contra microcomunidades, etc).

O desespero das pessoas chega ao ponto de afirmar que “não existe gente pedófila na comunidade”. É uma tentativa fútil colocar a comunidade toda como seres puros e divinos e que não existe gente pedófila nela. Com certeza existe. E são esses casos, quando públicos, que serão usados por reaças como mantras para dizer que “tinham razão”. E não importa os dados que apontam que a grande maioria dos casos de pedofilia é de pessoas cis hétero e dentro de conjuntos familiares. Não importa os muitos casos de pedofilia dentro de igrejas, ou de gente declaradamente cristã. Nossa defesa não deveria ser “ninguém aqui é pedófile”, e sim “a comunidade não reconhece isso como parte dela”.

E vou dizer também que rechaçar pessoas pedófilas da comunidade como “uma vergonha”, como “aquelas que realmente estragam a comunidade”, ou qualquer outra coisa similar, é apenas um punitivismo que serve pra agradar, antes de tudo, nosses inimigues, o sistema. Es pedófiles da comunidade são tão “hereges” quanto pessoas da comunidade que já assassinaram alguém a sangue frio, que já agrediram uma pessoa vulnerável, que são supremacistas branques, que são reaças de direita, enfim. Não precisamos ou devemos fazer votos de perfeição aqui. A comunidade é feita por pessoas, pessoas são falhas, e seus atos devem ser respondidos pelo que são. Fazer essas coisas e ser da comunidade é um agravante só pra quem quer uma desculpa para odiá-la e generalizá-la.

Seria bom se acabasse por aí, porém, nesse saco são jogadas também as pessoas indesejáveis à parcela da comunidade que é higienizada e praticante das respeitabilidades (como fetichistas e não-monogâmiques), aquelas que não se submetem a assimilacionismos ou atendem a critérios des porteires da comunidade (microcomunidades num geral), e várias pessoas queers que são “dissidentes demais” para os movimentos popularzinhos. Já vi muitas vezes orientações mais específicas – tanto a-espectrais quanto indefinidas – serem acusadas de “darem abertura” para pedofilia/abuso. E já vi reacionáries da comunidade acusando MOGAI ou microcomunidades da existência de grupos nocivos, como MAPs ou trolls adultes se dizendo crianças porque “se identificam com tal idade e querem ser respeitades por isso”. Incrível como os discursos parecem tanto com aqueles de reaças de direita, dizendo coisas como “primeiro aprovam homem com homem e mulher com mulher, depois chegam nos bichos, e aí nas crianças”.

E esse grande saco, onde são jogadas as pessoas nocivas e problemáticas e as pessoas legítimas e inocentes, só serve para dizer aes de fora da comunidade que somos seres puros e divinos, que merecemos viver e ser “normais”, e que em troca do perdão do Deus Normativo oferecemos esses sacrifícios. E adivinhem: aquelus de fora não se importam, e vão continuar com suas mentiras e falácias e seus ataques, como fazem há décadas, como sempre fizeram. Já associavam corpos dissidentes à pedofilia muito antes da primeira notícia de um caso confirmado de pedofilia vindo de alguém da comunidade. Por isso também digo que esse apelo não serve pra nada.

  • O que a comunidade pode fazer?

A comunidade faz muito bem em se posicionar contra a pedofilia, e não deixa de ser uma pauta importante (tanto pelas difamações quanto pelas muitas crianças dissidentes que sofrem abuso). Contudo, deve estar preparada para campanhas difamatórias como essas, e que vão continuar não importa o que ela faça. E que sempre serão mais impulsionadas quando a comunidade tocar em assuntos sobre as crianças, como quando falam das crianças não-normativas, ou das crianças que desde sempre se entendem como trans, enfim. E não são assuntos que devem ser deixados de fora em prol de respeitabilidades, ou para evitar ou diminuir acusações infundadas. Crianças dissidentes existem, e uma parcela enorme da comunidade se percebe dissidente desde cedo.

Apesar de tudo que falei, pedófiles continuam sendo um grande problema, e os conteúdos dos quais falei continuam causando caos e medo. O que podemos fazer contra tudo isso, até então, é denunciar para as redes sociais e autoridades competentes e entidades, evitar dar engajamento a tais conteúdos e pessoas, e tomar as possíveis medidas de segurança (como privar perfis).

A mensagem final desse texto é apenas mais uma vez que as pessoas parem de acreditar em tudo que leem na Internet, e comecem a investigar melhor as coisas. Estão, novamente, mordendo isca de invenções conservadoras.

Enfim, depois de tudo isso, você agora não precisa mais se contorcer no chão e dar saltos para defender a comunidade, acreditando que pedos são um grupo político legítimo e que possuem um movimento capaz de adentrar na comunidade. Ao menos isso não é mais um problema. De nada.

Links adicionais:

‘LGBT’ Está Adicionando um ‘P’ para Pedossexuais?

Checagem de fato: A comunidade LGBTQ não está adicionando “P” em sua sigla

E-Farsas: Grupos querem inserir o “P” de “pedossexual” na sigla LGBT?

BuzzFeed: A história da pedofilia entrar para a sigla LGBT desenha como funcionam as fake news

Vamos falar dos direitos dos homens

Aviso de conteúdo: misoginia, menciona violências e suicídio, referências às realidades de muitos grupos marginalizados, contém links externos.

Homens têm direitos? Homens têm privilégios? Homens são oprimidos? Homens necessitam lutar por direitos?

Parecem perguntas ridículas. Ao menos para muitas feministas e pessoas de um ou mais grupos marginalizados. Mas peço que não as vejam dessa forma. Não existem perguntas ridículas, e são perguntas mais interessantes do que aparentam ser.

Faz um tempo que vi um vídeo de uma conversa entre uma feminista e um “ativista dos direitos dos homens”. Decidi ver o vídeo, achando que ele proporcionaria mais momentos de raiva ou escárnio que qualquer outra coisa. Bem, até teve isso. Mas decidi analisar com mais calma tudo aquilo. E então tive a ideia de escrever esse texto. Diretos dos homens.

Uma retrospectiva da História antes. Revolução Francesa, um período que durou de 1789 a 1799. Tendo inspirações no pensamento iluminista, formulou-se um documento que decretava os direitos individuais e coletivos “dos homens”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um marco importante na história dos direitos humanos. Inclusive, esse documento foi base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Muites dizem por aí que a palavra “homem” se referia ao ser humano como um todo. Mas, porém, entretanto, contudo… na prática, a Declaração apenas servia aos homens mesmo, enquanto as mulheres foram esquecidas dos ilustres princípios de liberdade, igualdade e brotheragem… ops, digo, fraternidade. Tanto que, um tempo depois, formulou-se a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; que foi rejeitada pela Convenção francesa. Mulheres exigindo os mesmos direitos que os homens ainda era algo inconcebível naquela época de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Na segunda onda do feminismo, década de 1960, surgiu o feminismo radical, que trouxe uma série de discussões sobre patriarcado e a origem da opressão das mulheres – que, segundo a vertente, está na existência do gênero dentro dos moldes patriarcais que conhecemos. Não vou discutir sobre o feminismo radical aqui. Vou puxar justamente a ideia do patriarcado.

A ideia de patriarcado surgiu para explicar, a princípio, como funciona a opressão dos homens sobre as mulheres. Os homens são um grupo antagônico e que possuem privilégios, enquanto mulheres são o grupo oprimido. E essa visão dicotômica já um pouco ultrapassada de “homem, privilégio; mulher, opressão” perdura até hoje.

Não é de se estranhar que vários homens, e aqui incluo reaças e antifeministas, já pontuaram várias vezes as “generalizações” que feministas fazem de homens. Não apenas discursos colocando homens como um grupo todo privilegiado, mas afirmações mais controversas como “todo homem é um estuprador em potencial”, e ideias que reafirmam alguma maldade inerente ao gênero homem.

Os feminismos trouxeram uma abertura importante para homens poderem falar de si também e dos efeitos negativos do patriarcado sobre eles. Por isso é possível encontrar grupos e espaços de homens feministas/pró-feminismo/antipatriarcado – e aqui acho válido citar o movimento Homens Libertem-Se e o saite Papo de Homem. Além disso, os feminismos trouxeram o que todo movimento social traz no mundo atual: reacionarismo. Principalmente de grupos alinhados ao direitismo e conservadorismo. Grupos antifeministas são sempre desse espectro político, muito embora antifeminismo possa existir até mesmo em grupos (ditos) progressistas e revolucionários.

Outro fenômeno que surgiu com tudo isso e o avanço da Internet foi o masculinismo, que possui diversos significados (às vezes positivos, às vezes negativos), mas aqui focarei num principal ponto: masculinistas são homens buscando lutar por “seus direitos”. Há grupos e grupos, como aqueles que reivindicam tópicos específicos – como a quebra de estereótipos nocivos ou a abolição do alistamento militar obrigatório, e aqueles que buscam “igualdade” com as mulheres em certas situações sem ter o mínimo de senso crítico ou mesmo atribuindo culpas às mulheres que as mesmas sequer têm. E, infelizmente, foram esses últimos grupos, essencialmente antifeministas, que culminaram nos ditos movimentos pelos direitos dos homens.

O que são os movimentos de direitos dos homens? Bem, são apenas isso. Movimentos pelos direitos dos homens. E o que os movimentos em prol dos direitos dos homens afirmam? Resumidamente que a classe homem tornou-se a mais oprimida ou negligenciada em detrimento da classe mulher, e que, por isso, busca reunir os homens para lutar contra isso. Os homens desses movimentos afirmam sofrer opressões, inclusive, das próprias mulheres e da sociedade atual (que agora “favorece mais as mulheres”).

Afinal, que opressões são essas que esses homens estão dizendo por aí que sofrem? Bem, num geral, são praticamente as mesmas pontuações misturadas com diversas falácias, dados falsos/duvidosos, e premissas equivocadas/distorcidas. Acredito que posso resumi-las em: cobranças sociais, taxas de expectativa de vida e suicídio, funções e direitos paternais, liberdade de expressão, e discursos generalistas negativos. Muito bem, vou falar de cada item.

As cobranças sociais. Sim, são um grande problema mesmo. E estão envolvidas nas taxas de violência e suicídio dos homens. Não é por um acaso que estão surgindo grupos de apoio de homens formados para discutir a masculinidade tóxica. Porque essas cobranças têm uma relação íntima com esse conceito. E para quem conhece a masculinidade tóxica sabe que ela é um produto do patriarcado. Mulheres podem ser sustentadoras disso tanto quanto qualquer outra pessoa, e isso não apaga o fato de que elas continuam presentes em estatísticas de violência doméstica, estupro, e feminicídio; e nem o fato de que o grupo atuante que predomina nessas estatísticas são homens.

Acontece que vejo tentativas desses movimentos em jogar a culpa das cobranças sociais na conta das mulheres, o que é, no mínimo, absurdamente desonesto. Até parece que foram as mulheres que sempre estiveram no comando da lei, religião e ciência, e criaram uma série de normas sobre ser homem e ser mulher.

As taxas. Sim, precisamos urgentemente falar delas. Realmente, homens morrem mais e se suicidam mais. Pois são outras consequências das cobranças sociais, da masculinidade tóxica, do molde nocivo que o patriarcado constrói e impõe aos homens. Apesar de ainda haver pouca visibilidade nessas questões, existem estudos e preocupações com esses fenômenos. Homens precisam urgentemente discutir sobre sentimentos e masculinidades. E isso precisa obrigatoriamente levar em conta fatores interseccionais, como raça e modalidade de gênero, visto que existem altos índices de suicídio entre homens negros e homens trans. E discutir essas questões indo nas verdadeiras raízes, nas reais causas das violências com homens e entre homens.

Não encontrei em minhas pesquisas quaisquer respostas ou ações efetivas dos tais movimentos dos homens sobre essas questões, que já são bem neglicenciadas.

Paternidade. Vamos lá, tópico polêmico. Nossa sociedade prega um modelo tradicional de família que coloca o pai como provedor e a mãe como cuidadora. Embora ambes possam participar na criação, é socialmente aceito, quase num acordo invisível, de que a criação des filhes é responsabilidade da mãe. Isso sobrecarrega qualquer pessoa, ainda mais num lar onde ambas figuras têm empregos. E com certeza deve influenciar em decisões jurídicas de guarda. Se existe uma preocupação legítima com a paternidade, os homens deveriam então focar em dividir as tarefas domésticas e de criação. Em relação aos direitos dos homens nessa questão da paternidade, já existem esses direitos (ao menos no Brasil). Não vou ficar pesquisando sobre os outros países do mundo, mas caso não haja esses direitos em algum país, esses homens precisam se mobilizar por isso sim. Sobre guarda, bom, cada caso é um caso, não sou especialista e nem juíze. Mas já existem mecanismos atuando em prol dos homens. Por isso, sim, exijam seus direitos, pois já são garantidos. E se ainda assim algum homem achar que a decisão jurídica não foi justa, ele deve proceder dentro do âmbito legal.

Agora, também pergunto aos tais movimentos dos homens: o que acham sobre os altos índices de abandono paterno e das milhares de crianças sem o nome do pai nos RGs? Também não achei opiniões e posicionamentos sobre isso, apenas acusações infundadas de que mulheres são “privilegiadas” por cuidarem des filhes e “sempre” ficarem com a guarda.

Em relação a tal liberdade de expressão, sinceramente, é difícil levar a sério. Porque aqui caímos naquela questão clássica de um grupo privilegiado de pessoas querendo fazer qualquer discurso nocivo contra um grupo marginalizado, e sentindo-se ameaçado conforme esse outro grupo ganha alguma visibilidade e voz para denunciar toda opressão que passa. Aquela falsa simetria básica, onde um grupo está lutando pela vida, enquanto o outro chora por não poder fazer mais aquelas “piadinhas” preconceituosas de sempre. E o que mais pesa aqui são declarações misóginas e retóricas sexistas.

Falando nos discursos generalistas, bem, eu vou ceder um pouquinho e dizer que eles têm um lado problemático e improdutivo. A raiz desses discursos é sem dúvida o feminismo radical, que muitas vezes coloca homens como indivíduos naturalmente ruins e opressivos. Já deveríamos ter superado isso, mesmo que seja em forma de meme ou piada. Esse tipo de atitude, mesmo sendo contra um grupo privilegiado, não ajuda e não acrescenta em nada. E, além disso, antagonizar homens é uma atitude extremamente irresponsável e mostra ignorância ou descaso com as possíveis intersecções que atravessam homens: raça, orientação, modalidade de gênero, classe, corporalidade, entre outras.

Se você acha ridícula a ideia de que é possível mulheres oprimirem homens ou fala de homens como se fossem toda uma categoria homogênea dotada de “todos os privilégios”, você precisa urgentemente rever se não está contaminade com retóricas radfem e mais do que nunca estudar interseccionalidades. Sim, mulher pode oprimir homem. E não, não é nenhum dos casos que os tais movimentos pró-homem falam por aí (até porque, nem intersecção de raça fazem).

Ah, interseccionalidades! Vamos falar sobre elas? Vamos falar sobre os muitos grupos de homens sujeitos a opressões específicas?

Homens negros e indígenas são alvos de muita violência do Estado. Homens trans ainda lutam por reconhecimento social e direitos básicos como moradia e saúde. Homens gays estão no topo das estatísticas de violência e morte por discriminação heterossexista. Homens bi/multi são invisibilizados até nas políticas públicas “LGBT”. Homens intersexo são vítimas de mutilação genital e falta de autonomia sobre seus próprios corpos. Homens gordos são patologizados e ridicularizados. Homens com deficiência possuem uma série de demandas pela inacessibilidade e são vistos como fardos. Homens da classe trabalhadora enfrentam exploração e têm seus direitos ameaçados constantemente. E eu poderia ficar aqui me estendendo com mais e mais exemplos, mas o resto e muito mais pode ser encontrado com uma pesquisa feita na boa vontade.

Não há como discutir realmente os direitos dos homens sem levar em conta toda construção patriarcal e ocidental de gênero, e sem incluir as pautas raciais, heterodissidentes, cisdissidentes, trabalhistas, das PCDs e des neurodivergentes, etc etc etc. Enquanto há questões inerentes ao patriarcado e que podem atingir homens em geral, há questões mais específicas de outras estruturas opressivas (que podem piorar as questões gerais).

Agora eu vos pergunto: esses tais movimentos a favor dos “direitos dos homens” estão falando dessas questões? Quantos estão abordando as questões gerais da maneira mais adequada, com olhar crítico, sem praticar falsas simetrias, sem tirar a culpa do patriarcado, e sem jogar alguma culpa desmedida em mulheres? Se as questões que atingem os homens não estão considerando o patriarcado e todas as possíveis interseccionalidades, afinal, o que exatamente esses grupos estão fazem em prol dos homens?

Se não há nada disso, a única coisa que podemos concluir é que esses grupos são apenas aglomerados de machistas sem práxis, articulação política, demandas válidas, nada que proponha mudanças sociais ou que seja capaz de realizá-las. Não apenas isso, como também são apenas mais uma forma do antifeminismo, e isso fica evidente considerando o quanto focam em atacar os movimentos feministas, se utilizando também de sexismo e misoginia, dados falsos ou inventados ou sem nenhuma fonte, e negação do gênero como um fator que incentiva violências específicas contra a mulher.

Por isso temos movimentos antifeministas como A Voice for Men (tradução literal: Uma Voz para Os Homens), que dizem lutar pelos “direitos dos homens”, mas acabam sendo apenas redutos sexistas que legitimam a imensa misoginia e as visões distorcidas do mundo de homens obscurantistas e negacionistas, que de bônus odeiam também outros grupos marginalizados. Basta analisar os discursos de seus membros e ver suas postagens e entrevistas.

Gênero é um assunto complexo e não pode ser resumido a “todos os homens têm privilégio e oprimem todas as mulheres.” É coerente dizer que o patriarcado por si só, a princípio, tende a conferir privilégios aos indivíduos homens. Mas vivemos numa sociedade que não é apenas patriarcal, mas também é racista, diciseterossexista, capacitista, entre outras opressões. Uma luta a favor dos homens deve ser uma luta a favor de todos os homens. Muitos direitos sociais estão garantidos, na teoria. Na prática, nota-se quais homens são mais privilegiados e quais são menos. Pra haver igualdade, estruturas hegemônicas de poder precisam ser derrubadas. E é esse comprometimento que se espera dos homens envolvidos em suas respectivas causas sociais, assim como os homens aliados dessas, e assim como os grupos de homens que estão se reinventando e buscando a verdadeira libertação do gênero homem.

Um movimento a favor dos direitos dos homens só faz sentido se for um movimento essencialmente antipatriarcal e interseccional. Somente assim, seguindo esses vieses, que podem ir até a raiz dos problemas, de tudo que falta aos homens, de toda opressão possível de atingir os homens. É esse movimento que podemos e devemos construir.

Links adicionais:

Documentário: The Mask You Live In (Legendado)

Colocamos uma feminista e um ativista dos direitos dos homens para conversar (sem que eles soubessem) (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Mulheres são privilegiadas. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Homens são privilegiados. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: essencialismo de gênero, argumentações liberais e religiosas, discursos antifeminismo.)