Atração por pessoas não-binárias: perspectivas e possibilidades para além do binário

Aviso de conteúdo: exorsexismo, cissexismo, colonialismo, capacitismo, exclusionismo baseado em reducionismo de gênero, exclusionismo contra microcomunidades, menções a corporalidades, contém ironias, links externos.

Recado: algumas das terminologias usadas ao longo do texto podem ser encontradas aqui e aqui, e podem facilitar o entendimento.

Este é um assunto inusitado, complexo, controverso, e extenso, sem uma única resposta simples, e uma discussão que ainda está sendo construída. Tenha tudo isso em mente ao ler esse texto.

Apesar disso, acredito que eu possa trazer aqui um conteúdo que ofereça mais reflexões e entendimentos do que mais dúvidas, respostas medíocres, ou perguntas sem qualquer resposta.

Atração por pessoas não-binárias existe? Ela é possível? As pessoas se atraem por uma identidade de gênero não-binária? As pessoas não se atraem apenas por “leituras sociais”? Toda orientação inclui pessoas não-binárias? Essa atração é totalmente diferente de atração por pessoas binárias? Todas essas questões e outros tópicos relacionados serão abordades aqui.

Como esse é um tema ainda novo, esse texto não vai trazer apenas informações prontas, mas também vai acabar tendo que desenvolver, quase como um “pioneirismo”. E, não, não sou da academia, e se querem tanto assim referências, sugiro que façam suas próprias pesquisas ou aguardem alguém fazê-las. Não precisamos de aval acadêmico para produzir, criar, desenvolver tópicos relacionados a qualquer grupo marginalizado. Aqui, trarei conhecimentos de comunidades, pensamentos e vivências de outras pessoas, e também minhas próprias vivências e perspectivas. Não estou inventando nada. E também terei algumas referências de estudos queer, pois, apesar de não haver (ainda) nada mais específico, estudos de sexualidade apontam sua complexidade, e isso será utilizado no conteúdo.

O texto é muito longo, já aviso. Então, leia no seu tempo. E leia até o fim. Valorize meus esforços com esse conteúdo. Aproveite.

Conceitos de atração e orientação

Por mais que se pesquise sobre “atração não-binária”, o conteúdo relacionado a isso é muito escasso e quase nunca desenvolve além de positividade (ex: “atração por n-b é válida!”) e afirmações breves (ex: “você pode se atrair apenas por não-bináries”). Nada disso é suficiente, devo admitir, para nos aprofundarmos no que é ou não é, ou o que pode ou não pode ser uma atração por pessoas não-binárias.

E antes de falarmos sobre atração por n-b, acho que deveríamos falar primeiramente sobre o que é atração.

Aqui não preciso me estender. Atração é basicamente todo interesse espontâneo ou vontade involuntária de ter alguma interação com alguém ou algo, e essa interação se desenvolve em algum tipo de relação. E relações podem ser sexuais, românticas, platônicas, alternativas, e etc. Orientações e outras identidades de atração são apenas descrições que pessoas necessitam por vários motivos. Não são e nem precisam ser descrições tão literais e restritas. Até porque, e isso é consenso de várias comunidades politizadas e de estudos de diversidade, palavras nunca serão suficientes para explicar todas as complexidades e subjetividades das pessoas. Atração é algo muito pessoal. Atrações são o que são.

Sobre orientações, um conceito utilizado até hoje é se baseando em “atração por gênero”. Isso é suficiente? Não. Mas essa descrição é o que funciona para o momento atual. Um conceito mais amplo de orientação é “as condições para que ocorra atração”. Isso é até melhor, pois inclui orientações que não são baseadas em gênero, que é o caso de orientações a-espectrais num geral.

Uma explicação conflituosa: “leitura social” x reducionismo de gênero

As atrações por pessoas não-binárias são discussões um tanto recentes ainda. Porém, mesmo assim, já existem respostas “prontas” sendo defendidas por aí. E vou falar da “principal”, a que mais vejo na Internet.

Tem gente que afirma que o mundo inteiro se atrai por uma “leitura social” (ou seja, se a pessoa é lida como homem ou como mulher), e isso nem é novidade: isso é literalmente o senso comum de qualquer sociedade colonizada, que tenha apenas como referências de gênero homens e mulheres, e que são distinguíveis seguindo lógicas cisnormativas (no corpo, na aparência, nos comportamentos, etc).

Aliás, gostaria de deixar muito bem registrado aqui o quanto essa premissa é tão errada, nociva, problemática, um imenso desserviço a qualquer luta contra as hegemonias de gênero e atração, e apenas mais uma forma de sustentá-las e se assimilar a uma sociedade binarista. E, como toda premissa assim, dá abertura a todo tipo de ataque e invalidação de microcomunidades e qualquer outra identidade que, para esses “novos” padrões – que são apenas os velhos padrões com outra embalagem, não serve aos interesses daquelus que querem apenas um pequeno espaço na normalidade.

Essa premissa de que todes somos apenas uma “leitura social” desconsidera totalmente as experiências de pessoas atraídas independentemente de gênero, de pessoas a-espectrais, de pessoas fluidas ou indefinidas, e de qualquer cultura não-ocidental com mais de dois gêneros. É principalmente colonialista, pois o binário de gênero e tudo que o acompanha (incluindo essa ideia) é uma invenção colonial. E também acredito que vale pontuar o quanto é uma perspectiva capacitista, partindo sempre de corpos capazes de ver. Não é por um acaso que as defesas dessa premissa quase sempre vêm com exemplos envolvendo gente “que vemos” na rua, na balada, no Instagram, enfim.

Só um adendo, isso também me fez refletir se “leitura social” é realmente uma terminologia adequada e precisa, pois leitura remete a algo que se vê, e além de pessoas cegas existirem, o gênero das pessoas não é apenas presumido por aparência, mas também por voz, toques, e até mesmo o modo como a pessoa escreve ou age num bate-papo. Enfim, voltando ao assunto…

Além disso, a ideia de que todes podem ser reduzides a uma leitura social joga toda luta contra a cisnorma no lixo, pois se pessoas podem ser reduzidas assim no campo afetivo, nada impede de ocorrer o mesmo em outros campos. Então pessoas serão privilegiadas ou oprimidas de acordo com a leitura – e aqui damos total razão ao que o feminismo radical prega. E, consequentemente, outras lutas perdem sentido. Se leitura é o que importa, o que fazer com “as falhas” como pessoas intersexo? Devemos agora dar razão ao transmedicalismo e desejar que toda pessoa trans faça uma transição física completa, tudo dentro da conformidade de gênero? Pessoas inconformes de gênero são as novas subversivas da ordem e pureza?

Resumindo: a premissa de atração pela presunção de um gênero (sendo pessoas presumidas sempre como ou homem ou mulher) é uma perspectiva colonialista (portanto, cissexista), capacitista, e monossexista (e alossexista). Isso que estou resumindo, pois há mais coisas que eu poderia citar.

Talvez atração por expressão? Atração por um gênero presumido é errada?

Contudo, apesar de todas as críticas feitas, acho que posso trazer uma nova interpretação e possível solução. Talvez as pessoas que afirmam e reafirmam essa premissa sejam na verdade atraídas por expressões de gênero. Isso é diferente sim de “leitura social”, pois “leituras” falham muito e são incapazes de “acertar” o sexo ou ao menos a designação de gênero das pessoas. Sexo é um espectro, corpos são diversos demais, nossas noções dos gêneros binários são muito enviesadas, e nossas ideias de expressão de gênero precisam ser mais ampliadas. Portanto, “leitura social” é um parâmetro nada confiável de tão furado.

Existem masculinidades e feminilidades, tanto partindo das referências sociais que temos quanto de ressignificações feitas por pessoas ou comunidades. Se isso atrai as pessoas, tudo bem. Não há problema. Existem orientações que descrevem atração por expressões, e se atrair por expressões masculinas e/ou femininas não muda o fato de que essas expressões estarão em pessoas tanto binárias quanto fora do binário, e tais atrações não invalidam suas identidades de gênero. Aliás, li uma postagem dizendo que se você é alguém que se atrai por pessoas “femininas”, sabendo que elas podem ser de qualquer identidade de gênero, você pode ser ume pan com essa preferência de expressão.

Entendo perfeitamente que a ideia de atração por identidades de gênero não-binárias pode parecer impossível exatamente por nossas maiores referências sociais serem as hegemônicas. Ainda somos criades com essas referências, as quais internalizamos e influenciam demais em nosso desenvolvimento. Mas quando questionamos essas referências, quando as desconstruímos, podemos encontrar novas possibilidades e perspectivas de gênero, consequentemente, também de atração, e de como orientações e identidades podem funcionar para nós.

Sim, muitas vezes a maioria das pessoas presume um gênero, e dentro das lógicas cisnormativas. A presunção de gênero pode ser o que orienta as atrações dessas pessoas. E… isso é problema delas. Presunção vem de expectativas. Expectativas são problema de quem as tem. As expectativas de alguém ser de tal gênero binário são tão relevantes quanto quaisquer outras expectativas que se faz, como afinidades, gostos, traços de personalidade, etc. Até expressão de gênero costuma ser presumida erroneamente, o que é mais fácil de acontecer quando conhecemos pessoas através de redes sociais. Mesma coisa com gênero.

Mas, bem, atração é atração. Não curto a ideia de dizer que existem atrações erradas. Existem, sim, atrações partindo de premissas problemáticas, como quando se presume determinada genitália porque a pessoa parece ser de tal gênero. Porém, atração continua sendo atração, ela é involuntária, mas ela não é também desculpa para discriminar pessoas que não corresponderam a certas expectativas. Se alguém não corresponde a expectativas de corpo e/ou expressão, o melhor a se fazer é dizer que não tem interesse. Pronto. Não precisa se justificar.

Ah, algo importante de se pontuar é que embora expressões sejam resumidas a masculinas, femininas, e andróginas/neutras, isso não significa também que pessoas n-b com essas expressões se consideram pessoas “essencialmente” assim e/ou alinhadas com essas qualidades. Novamente, ninguém tem obrigação de corresponder expectativas, e isso vale também para a leitura que se faz das expressões.

Entre como ocorre atração e como descrever atração

Com base na minha experiência e em tudo que já pesquisei, posso afirmar que atrações podem ocorrer, em termos gerais, das seguintes formas:

– atração imediata (geralmente chamada de atração primária).

– atração desenvolvida (geralmente chamada de secundária) após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que já é potencialmente atraente.

– atração desenvolvida após aproximação, interação ou convívio com uma pessoa que antes não era potencialmente atraente.

– atração por uma presunção de gênero, e que permanece mesmo após haver confirmação de estar errada.

– atração por parceire de longa data que permanece mesmo quando elu se revela de outra identidade de gênero.

Sim, estou “validando” atração por uma presunção de gênero, unicamente porque isso é uma realidade no contexto atual. Porém, isso não é um destino, não é inalterável, e não é inquestionável. Inclusive, acredito que precisamos trazer essas discussões para que pessoas possam se conhecer melhor, e também para evitar mais gente não-binária sendo alvo de reducionismos alheios.

A desconstrução pode fazer diferença para certas pessoas. Há pessoas que podem descobrir ter atração por pessoas n-b por autorreflexão, acesso à informação, e/ou experiências com pessoas n-b. Da mesma forma, a desconstrução pode não fazer diferença. Algumas pessoas não se importam também, e querem se manter numa perspectiva binarista de mundo.

E tudo bem também para pessoas que até então se atraíram apenas por gente que correspondia a um gênero binário presumido, e que, por um acaso, eram mesmo desse gênero. São circunstâncias possíveis. Para algumas pessoas, um grupo é mais acessível a elas, e tudo bem se esse grupo for unicamente pessoas cis/binárias. Isso não é a mesma coisa que gente que busca somente relações com pessoas de um gênero presumido específico, não se importando mesmo quando são não-binárias. Uma pessoa já me disse que acha que pessoas assim poderiam ainda adotar rótulos que incluam n-b. Não discordo, mas particularmente acho que essas pessoas deveriam apenas evitar relações com gente n-b. Inclusive, esse é o meu posicionamento com pessoas hétero, e falei sobre isso nesse texto aqui.

Mesmo que a atração seja por um gênero presumido, pessoas ainda deveriam refletir se não deveriam considerar relações com pessoas n-b como relevantes, e procurar uma maneira saudável de incluí-las, que pode ser adotando outra(s) identidade(s) (como bi, poli, etc) ou ressignificando dentro do possível as existentes (como no caso das orientações gay e lésbique). Depende de cada caso, não existe uma resposta universal.

A ressignificação de orientações mono, em especial gay e lésbique, pode até ser defendida por reducionistas de gênero, porém, ela pode fazer sentido para muita gente n-b. E acho que vale pontuar também o quanto várias pessoas aceitam as premissas do reducionismo de gênero porque são carentes de afeto, por suas opções de relacionamento serem escassas, então aceitam serem reduzidas a gêneros binários para ter alguma coisa, por mais mínima que seja.

Há pessoas que consideram a validação da atração por pessoas n-b importante mesmo quando a atração surgiu pela presunção binária. E sei disso porque já aconteceu comigo: um menino gay chegou em mim, mostrou interesse, falei que eu era não-binárie, e então ele se questionou se continuava “sendo gay”. Muito embora ele tenha se atraído por uma presunção, e eu também nem acho que faria sentido ele mudar sua identidade por causa de uma atração pontual, aquela situação foi relevante suficiente para ele questionar se a identidade gay podia descrever aquela experiência. Talvez aquilo o tenha feito considerar atração por n-b uma possibilidade maior, e/ou tenha mostrado uma nova possibilidade que até então nem havia sido considerada.

Explorando a atração por pessoas não-binárias

Li uma vez uma postagem dizendo que alguém afirmar não ter atração por pessoas não-binárias não tem fundamento, porque não existe qualquer padrão ou referências sobre o que é uma pessoa não-binária, que pessoas não-binárias podem ser literalmente de qualquer jeito assim como pessoas binárias, e que com certeza em algum momento da vida todo mundo se atraiu por uma pessoa n-b sem saber disso. Eu… não discordo disso.

Significa então que toda pessoa é atraída por pessoas n-b? Hm… vamos nos aprofundar nisso.

A afirmação que qualquer pessoa de qualquer identidade de gênero pode ser de qualquer forma faz todo sentido, e não há o que discordar aqui. O problema é quando isso é colocado como a realidade total de todas as pessoas, sem considerar qualquer contexto social, as dinâmicas, e como os sistemas opressivos operam. Bem, se todes são atraídes por qualquer identidade de gênero, então significa que enfim rompemos com o cissexismo? Rompemos também com parte do heterossexismo, já que héteros nem existem? Rompemos com o monossexismo, já que todo mundo é multi?

Não é assim que funcionam as coisas, ainda mais quando fenômenos como privilégio hétero e multimisia continuam existindo e beneficiando certas pessoas.

Com tudo que foi dito até aqui, lembrando também das situações que citei sobre como atração ocorre, não acho impossível existir situações em que alguém perde atração pela pessoa se dizer não-binária. É exatamente a mesma coisa que já acontece com gente com atração por bináries. Se é errado não se atrair e não querer relações com n-b, bom, então vamos agora acusar váries homens gays e mulheres hétero de misoginia por não quererem nada com mulheres, ou admitir que existe misandria da parte de váries mulheres lésbiques e homens héteros? Talvez o que não tenha de atraente na não-binaridade é a mesma coisa com pessoas que apenas se atraem e se relacionam com um gênero binário específico. O que podemos fazer? Vamos policiar a atração e relação alheias, e assim criar um novo regime opressivo em cima do heteronormativo?

No fim das contas, pessoas também podem buscar relações com apenas um grupo de gênero específico por quaisquer outras razões além de atração, principalmente por afinidades e facilidade de relação. E as dinâmicas com pessoas não-binárias tendem a ser muito diferentes de pessoas cis e binárias num geral, o que leva gente n-b muitas vezes a encontrar relações melhores com pessoas multi e/ou outras não-binárias.

Não acho que deveríamos focar em provar que pessoas podem ser entendidas como não-binárias sem nenhuma informação prévia e que a atração imediata por isso é o que realmente se configuraria numa atração por n-b real e possível. Caímos num paradoxo, pois a mesma coisa poderia ser afirmada de pessoas binárias. Acho que deveríamos ir por outras abordagens, e deixar cada ume se atrair e se relacionar com quem quiser e ponto final.

Termos de atração que incluem n-b, relações diamóricas

Afirmo com certeza que não é impossível ou sem sentido orientações que incluem ou podem incluir atração por n-b, como toren e trixen ou poli. Mesma coisa sobre pessoas que se dizem atraídas exclusivamente por gente n-b. Vindo de pessoas binárias, isso gera controvérsias. Mas vindo de outras pessoas n-b, essa possibilidade existe, pois elas podem não ter atração por gente binária por causa de opressão e experiências negativas. E, da mesma forma, também podem perder alguma atração prévia. Na prática, convenhamos, não é diferente de relações centradas entre grupos marginalizados (como as transcentradas, ou afrocentradas, enfim), e se homens aquileanes e mulheres sáfiques podem escolher se relacionar apenas com o mesmo gênero, a mesma opção deve existir para pessoas n-b também.

Porém, muitas pessoas admitem que atração exclusiva por gente n-b pode ser confusa ou pouco frequente, e por isso difícil de entender, pois ainda vivemos num mundo onde não existe ainda um número significativo de pessoas não-binárias evidentes, e ainda tem toda aquela questão que expliquei das referências sociais impostas. Mesmo assim, há pessoas afirmando que sentem atração exclusiva por pessoas n-b, e não há razões para não acreditar nisso.

E como alguém pode se atrair “desde sempre” por pessoas n-b apesar das referências? Não sei. Particularmente, imagino que talvez essas atrações poderiam se manifestar como interesse por androginia, inconformidades de gênero, corpos que poderiam ser considerados intersexo ou transicionados, corpos e aspectos improváveis de existir “naturalmente”, e/ou até mesmo seres humanoides fictícios. Isso até a pessoa se desenvolver e aprender que sexo não define gênero, que pessoas não-binárias existem, e que elas podem ter qualquer aparência e corpo. E digo tudo isso porque o que faria mais sentido para uma “atração não-binária” é criar suas referências por fora das referências binárias.

Identidades que descrevem atração não precisam ser tão restritas assim, nem tão literais. E nenhuma exige qualquer tipo de relação. Na teoria, pessoas podem ter relação com qualquer ume. Mas ter determinada identidade não implica que você deva se relacionar com tal pessoa ou grupo.

Por isso mesmo é válido adotar certas identidades pensando não apenas em atração como também em suas relações, querer expressar por meio desses termos que você tem relações com pessoas de tal identidade/grupo. Uma pessoa cetero, por exemplo, não precisa ser alguém que passou a vida toda tendo atração imediata unicamente por pessoas n-b, mas pode muito bem ser alguém cuja atração por pessoas n-b é a única relevante e que busca relações somente com essas pessoas. Aliás, pessoas já adotam orientações por outras razões além da descrição geral, podendo ser afinidade com uma comunidade (ex: alguns casos de pessoas [mono] [multi]), ou pela facilidade em explicar para as pessoas em geral (ex: uma pessoa que usa pan em vez de bi devido à interpretação binária do senso comum).

Acho muito admirável o trabalho que as comunidades virtuais na anglosfera tem feito há anos. Há registros de cunhagens de rótulos falando de atração por n-b já desde o início da década passada. Isso comprova o quanto essas comunidades estavam muito avançadas, trazendo perspectivas de inclusão e validação não-binária que estão até hoje sendo debatidas de uma forma tão rasa e infeliz (especialmente na lusosfera). E já faz anos que pessoas têm tocado em assuntos como pessoas hétero se atraindo por n-b, ou se todo mundo é realmente atraído por n-b, ou se ter uma atração pontual por pessoas n-b tem o mesmo peso que relações com elas.

Essas cunhagens são muito importantes para experiências de pessoas não-binárias, e de atrações e relações envolvendo pessoas não-binárias, ainda mais num mundo ainda regido por um sistema binário de gênero que não considera sequer identidades ou atrações e relações assim como reais, possíveis, ou legítimas.

Mesmo assim, entendo que haja pessoas na dúvida sobre a importância de evidenciar relações diamóricas, ainda mais quando o assunto são as dinâmicas de opressão e discriminação na sociedade. Atração por n-b é discriminada? Minha resposta é: sim. Com certeza não da mesma forma que relações entendidas como “homoafetivas” (num contexto binário típico, né). Também me questiono o quanto um homem cis hétero todo padrão declarando atração por uma pessoa com toda uma “passabilidade de mulher cis”, mesmo após essa pessoa se declarar não-binária, teria sua atração discriminada da mesma forma se a situação fosse com alguém de barba e peito reto. Porém, apagamento também é uma faceta da opressão. Considero essa discussão no mesmo patamar de pessoas trans binárias sem passabilidade sendo maldenominadas.

E, além disso tudo, por mais apagadas que sejam as relações diamóricas, pessoas não-binárias ainda estão sujeitas a relações abusivas com pessoas binárias que não consideram sua não-binaridade (olá, prazer, sobrevivente de uma relação assim falando aqui). Violências assim e em outros campos também causam danos, o que não deixa de ser parte do exorsexismo.

Por tudo isso que a validação de pessoas não-binárias é tão necessária, e isso inclui terminologias que descrevam atrações e relações específicas com e entre pessoas n-b.

E um breve adendo: em outras culturas não-ocidentais existem termos que descrevem relações entre homens e mulheres com pessoas de identidades de gênero restritas dessas culturas. Menciono isso apenas como um paralelo, para mostrar que termos que descrevem relações entre gêneros “diferentes”, num contexto fora do binário, são históricos e considerados relevantes por tais culturas.

“Todo mundo se atrai por n-b, toda orientação inclui n-b”

Então podemos afirmar com toda confiança de que todo mundo é potencialmente atraído por pessoas não-binárias? Minha resposta é: depende.

Tente imaginar ou compreender a seguinte situação: uma pessoa que passou a vida toda achando que só existiam dois gêneros, e se atraiu e se relacionou unicamente com pessoas que se apresentavam como um desses gêneros. Eu, uma pessoa de outra geração, de outro contexto, com toda informação que tenho, posso chegar nela e dizer que a atração dela não é por apenas esse gênero, e que ela na verdade se atrai sim por pessoas de um grupo o qual ela nem sabia que existia? Posso fazer isso? Podemos fazer isso? Como exigir de alguém se atrair pelo que elu desconhece?

Antes de ficarmos repetindo como mantra que todo mundo se atrai por n-b, deveríamos pensar nessa nuance e nas outras abordadas anteriormente.

E, sobre a questão de toda orientação incluir ou não n-b, proponho as seguintes perguntas:

“Toda pessoa está interessada em incluir n-b em sua orientação?”

“Toda pessoa n-b faz questão de ser incluída na orientação de todes?”

Como a resposta para ambas é não, então, não há sentido em jogar pessoas não-binárias para quem não as quer e para quem não querem, e isso apenas com o intuito de validá-las, sendo que outras formas melhores disso existem e foram apresentadas. Gente exorsexista nem deveria estar entrando nessa discussão toda.

Apesar de tudo que foi dito até agora, muita gente “convencida” pode ainda achar que atração por toda não-binaridade é o que faz mais sentido, ou atração apenas por espectros de gênero – que vão de masculino e feminino, tendo andrógino/neutro no meio. Então isso levanta umas perguntinhas, por exemplo:

“Como é possível então se atrair exclusivamente por pessoas agênero?”

“Como assim atração maior por xenogêneros?”

“Como ter preferência por identidades distantes do binário, como aporagênero e maverique?”

Pra mim as respostas para perguntas assim são tão subjetivas quanto responder o por que nos atraímos por homens, mulheres, expressões masculinas, expressões femininas, e expressões andróginas/neutras. Nada disso precisa de justificativa para existir. Mas se vamos agora exigir explicações, que sejam então de todo mundo. Justo, né?

Da mesma forma que não me interessa tentar entender quem se atrai por tudo que mencionei, não me interessa também quem se atrai por novos arquétipos, ou novas projeções, ou grupos e/ou identidades em particular. Se alguém diz se atrair de tal forma por tal coisa, eu não tenho o que contrariar ou discordar, o que posso fazer é apenas acreditar, pois nem tenho motivo para desacreditar.

Talvez, para algumas pessoas, faça sentido se atrair por ausências de gênero, ou por gêneros que não podem ser explicados com concepções comuns e humanas, ou por todas as identidades definidas por não estar de qualquer forma dentro ou próximo do binário. Talvez o que exista de tão atraente em masculinidades e feminilidades também exista em androginidades/neutralidades, e também em nulidades, xeninidades, outerinidades, entre outras possíveis qualidades de gênero. Talvez seja a mesmíssima coisa com as qualidades que existem em outras culturas e só fazem sentido dentro des entendimentos e dinâmicas de gênero delas. Novas ideias estão sendo descobertas, ou criadas, ou (re)formuladas, e, a partir delas, possibilidades surgem ou mesmo ressurgem. É assim que entendo essa questão toda.

Eu adoraria que houvesse estudos sobre isso, pois gosto de estudos sobre diversidade. Mas se for para existir estudos sobre atração por identidades não-binárias, que haja também sobre atração pelos gêneros binários. A última coisa que precisamos é exotificação científica, assim como já foi praticada com homossexualidade e transexualidade.

Sinceramente? Nós não entendemos nada de nada ainda. O que entendemos até agora sobre essas questões de atração e gênero ainda estão em construção. E o que entendemos até o momento é muito enviesado: são muitas perspectivas normativas, tendenciosas, ocidentais, e que fazem mais sentido na atualidade. E as perspectivas de muitos corpos, em especial com deficiência e neurodivergentes, sequer estão tendo a consideração que merecem. Não temos todas as respostas. E, mesmo quando há uma resposta, ela pode mudar daqui a uns anos. Talvez jamais tenhamos todas as respostas. Então precisamos tanto assim ficar disputando por respostas definitivas e absolutas? Pra que, afinal? Por nós? Por nosso grupo, ou nossas bolhas? Pela sociedade? Pelo planeta todo? Precisamos pensar mais nisso.

Enfim, acho que posso concluir o texto assim: atração por pessoas não-binárias, por mais subjetiva que seja, por mais que seja uma discussão ainda sendo construída conforme as discussões não-binárias avançam, é tão real e possível quanto atração por pessoas binárias, pode ter vários significados e contextos, pode ou não estar inclusa em qualquer orientação, pode ou não ser relevante nas relações de alguém, abre uma gama de possibilidades que transcendem concepções binárias, e desafiam as concepções atuais que ainda temos de atração e orientação e identidades.

Precisamos parar com tantos esforços inúteis e danosos de tentar simplificar a diversidade. Afinal, isso apenas nos joga de volta às margens das normatividades. Se formos analisar bem, as normatividades são exatamente isso: simplificações. E o que podemos fazer até lá? Bom, continuar vivendo e aprendendo, nos relacionando com quem quisermos, adotando os rótulos que quisermos, nos politizar, e contribuir para mudanças radicais, para derrubar as hegemonias vigentes. E podemos começar isso apenas parando de reforçar tais hegemonias. Nunca faremos parte delas. E ainda bem.

Links adicionais:

Instagram – Qualidades de gênero

Instagram – Atrações

Valprehension – “Se você está afim de mim, então você não é hétero” (em inglês)

Todo Mundo Sente Atração Por Pessoas Não-Binárias (em inglês, tem legenda em pt-br)

Tumblr: uma postagem sobre discursos sobre atração não-binária (em inglês)

Tumblr: uma postagem sobre argumentos reducionistas de gênero (em inglês)

Medium – Passando como Transfem e Transmasc (Ao Mesmo Tempo) (em inglês)

A orientação hétero inclui pessoas não-binárias?

Aviso de conteúdo: exorsexismo e genitalismo, heterossexismo e derivações, contém links externos.

Esta questão aparece ocasionalmente por aí nas redes sociais, seguida de respostas duvidosas ou mesmo absurdas.

Já vi pessoas definindo hétero como “atração por diferentes gêneros”. Faz até sentido se formos pela raiz do termo. Porém, temos inúmeras palavras aí, e isso inclui a orientação bi, pra mostrar que muitas vezes existe um abismo entre raízes e o contexto social das palavras.

Já vi pessoas não-binárias se dizendo hétero, seguindo uma lógica de que “foram designadas de tal gênero binário, e se atraem apenas por pessoas do outro gênero binário”. Isso é praticamente o mesmo que “sou de tal sexo e me atraio por tal sexo”, e definir orientações por atração por sexo é muito problemático.

E, por fim, a parte mais polêmica desse artigo e o que me motivou a escrevê-lo: já vi pessoas por aí afirmando que hétero inclui pessoas não-binárias, porque “pessoas não-binárias podem ser alinhadas ao masculino ou feminino”.

Quem conhece o conceito de alinhamento de gênero pode ver sentido nisso. O problema é que quem espalha essa explicação tem outro conceito de alinhamento, e vou explorar isso mais abaixo.

Eu poderia ter começado o texto dando a resposta da pergunta. Mas acredito que possa ser mais produtivo analisar camada por camada antes disso, embora eu já tenha rebatido algumas ideias.

Primeiro de tudo, o que define nossa orientação?

Precisamos separar, antes de tudo, nossa identidade e de nossa atração. Cada pessoa no mundo tem sua própria atração, pois não há como alguém ter exatamente as mesmas experiências por toda a vida que outra pessoa.

Agora, o mundo atual exige que coloquemos um rótulo (isso não é uma crítica) em nossas atrações. Muitas delas conseguem ser encaixadas em certos rótulos, que são descritores de experiências e também da posição social das pessoas. Vivemos num mundo onde pessoas são ou privilegiadas ou oprimidas por isso, e esses rótulos demonstram bem isso.

O único rótulo de atração privilegiado até então é a orientação hétero. Nenhuma pessoa é oprimida pelo simples fato de ser hétero. E aqui ainda devemos fazer os devidos recortes, pois a dinâmica de pessoas cis e hétero* é bem diferente de pessoas trans/intersexo/a-espectrais e hétero.

*Obs: e aqui eu falo de pessoas que podem ser descritas apenas como hétero, que com certeza são heterossexuais e heterorromânticas, e demonstram qualquer outro tipo de atração de acordo com a ideia de hétero.

Quero fazer uma ressalva sobre pessoas hétero da comunidade LGBTQIAPN+ antes de continuar: existe uma carência enorme de conteúdo (teoria, relatos, etc) de como é a dinâmica dessas pessoas com a heteronorma e sociedade. É uma questão importante e que deveria ser mais considerada, pois esses grupos têm suas particularidades (ex: a validação da orientação de pessoas trans binárias depende da validação de seus gêneros).

Continuando, a identidade que adotamos para descrever nossa atração nem sempre é algo tão estrito quanto parece ser. Um exemplo mais prático: dois homens que se atraíram a vida toda por mulheres. Um teve uma atração exclusiva, o outro apenas uma vez na vida se atraiu por outro homem. Ambos vão se identificar como héteros. Um por se encaixar estritamente no que se entende por hétero, e o outro por não considerar uma única experiência momentânea como algo que lhe tira totalmente do que se entende por hétero. Atrações diferentes, orientações iguais. Assim funcionam as identidades, ao menos no contexto atual.

Segundo, o que se entende por hétero?

Bem, hétero é uma identidade como as demais. Porém, ao contrário delas, hétero é uma norma. Hétero é um ideal, um status de poder, e serve sistematicamente como um molde para o que seria uma orientação correta, aceitável, e possível de existir. Há pessoas que se encaixam nessa norma, e tudo bem. Isso não invalida suas experiências de vida.

E o que essa norma sempre pregou desde sua fundação? Que para ser hétero, você precisa ser homem ou mulher, deve se atrair unicamente pelo outro gênero binário, e deve ter uma atração frequente e constante.

A partir daí formou-se o molde de uma orientação normal. Ou seja, esse molde não inclui e nunca incluiu: pessoas não-binárias ou atração por pessoas não-binárias, e nem atração exclusiva pelo mesmo gênero binário, atração por mais de um gênero, atração fluida ou indefinida, e nem atração ausente/parcial/condicional/circunstancial.

Heterossexismo engloba toda discriminação contra orientações não-hétero e pessoas heterodissidentes. Por isso que monossexismo e alossexismo, embora sejam sistemas próprios, ainda estão dentro do heterossexismo e são outras facetas dele. Por isso que toda discriminação contra qualquer orientação não-hétero devido a alguma característica legítima (uma atração exclusiva por um gênero não-binário, uma atração por personalidade, uma atração influenciada por neurodivergência, etc) são apenas reproduções de heterossexismo (e possivelmente outras opressões), mesmo quando não se está pregando a orientação hétero como normal.

Vamos retomar o conceito de alinhamento de gênero. Esse conceito foi formulado na anglosfera para se falar de uma proximidade de pessoas não-binárias com determinado gênero, sem que elas sejam desse gênero. Essa proximidade se refere a experiências. É muito comum haver pessoas não-binárias alinhadas a um ou ambos gêneros binários; afinal, para muita gente, são as maiores referências (lembrem-se que vivemos num mundo binarista). Ser alinhade a homem e/ou mulher não é ser desses gêneros, e não necessariamente ser: de uma identidade próxima ou relacionada, e/ou ter uma aparência social típica desses gêneros. Ponto.

E o que pessoas no meio virtual brasileiro estão entendendo por “alinhade a homem/mulher ou masculino/feminino” (não sei até que ponto foi desinformação ou uma distorção proposital do conceito) é “pessoa lida como homem/mulher”. E, dentro desse pensamento, é totalmente aceitável ler todas as pessoas não-binárias como de um gênero binário que te atrai, continuar com determinada identidade, e se relacionar com essas pessoas. O nome disso é reducionismo de gênero, aliás.

Você se atrair pelo que leu da pessoa não é a mesma coisa que se atrair se baseando na identidade de gênero dela. Sinceramente, é muito bizarro como essa ideia de “atração por leitura” (que, aliás, é retórica de feminismo radical) se espalhou na comunidade não-binária brasileira com tanta tranquilidade. Até então muita gente estava pregando que é errado pessoas hétero, gays e lésbicas se atraírem por pessoas trans binárias por as lerem como do gênero designado (e isso inclui pessoas pré-transição ou que não desejam transicionar), ou se relacionar com elas por esse motivo e permanecerem nessas identidades. Por que a mesma lógica não é aplicada para pessoas não-binárias? Dois pesos, duas medidas?

Numa sociedade dominada por um sistema ocidental de sexo-gênero, somos ensinades desde sempre a separar as pessoas apenas em ou homens ou mulheres, e se baseando em aparências ou genitálias. Isso é extremamente nocivo para toda pessoa cisdissidente. Devemos combater esse sistema, desconstruir o que nos foi imposto como realidade, e ampliarmos nossas perspectivas e ideias de atração. Vamos mesmo jogar no lixo um ativismo de anos e anos em prol das pessoas trans e voltar a aceitar atração por aparências/genitálias?

Contudo, há de se considerar que a não-binaridade é muito ampla e cheia de nuances. Pensando nisso, temos uma questão particular com as identidades gay e lésbica.

As orientações gay e lésbica incluem pessoas não-binárias?

Sim, atualmente essas identidades foram flexibilizadas para tanto serem adotadas por pessoas não-binárias quanto incluir atração por gêneros não-binários similares aos binários. Ou seja, a identidade gay pode incluir gêneros similares a homem, a identidade lésbica pode incluir gêneros similares a mulher.

Essas identidades já estão fora da norma, então podem ser maleáveis. E essas identidades têm uma longa história, portanto são muito importantes para muita gente que se firmou nelas desde sempre.

A não-binaridade é muito diversa, como já foi dito. Pessoas não-binárias podem ser: parcialmente homem/mulher, periodicamente homem/mulher, de gêneros próximos ou relacionados a homem/mulher, ou mesmo de qualquer identidade e alinhadas aos gêneros binários. Portanto, dependendo do caso, há pessoas dentro dessas condições que podem ver sentido nas identidades gay e lésbica, até então pensadas para pessoas binárias. E, da mesma forma, também ver sentido em serem inclusas nessas orientações.

O que é necessário se fazer aqui, se tratando de pessoas binárias com pessoas não-binárias, é conversar e analisar a situação toda. A atração de uma parte pode incluir a outra? A outra parte se sente contemplada por tal identidade? Mesmo pessoas nas condições mencionadas anteriormente podem querer priorizar sua não-binaridade, e quem é gay ou lésbica precisa respeitar isso.

Lembrando que nem toda pessoa gay ou lésbica pode se atrair por gêneros não-binários. E não há problema nisso, pois nenhuma orientação que não inclua determinado gênero é problemática (se fosse assim, qualquer orientação mono ou a-espectral seria errada). Ou seja, ainda existem gays com atração exclusiva por homens e lésbicas com atração exclusiva por mulheres.

Ah, e mesmo gays e lésbicas com atração por pessoas não-binárias podem adotar junto outras identidades, como min e fin. Ou, dependendo da ocasião e se considerarem ideal, podem mudar para essas identidades. Cada caso é um caso, e não há uma resposta definitiva para todos os casos.

Afinal, hétero inclui ou não pessoas não-binárias?

A resposta é não. Definitivamente, não.

Hétero não é apenas uma identidade. É uma norma. Não há como flexibilizar uma norma; caso contrário, ela deixa de ser norma. Da mesma forma que não há pessoas “parcialmente cis”. Da mesma forma que não há pessoas “meio perissexo”.

Dentro de tudo que já foi dito, mesmo com toda a diversidade de pessoas não-binárias, a heteronorma não considera ou valida atrações e relações diamóricas.

Se há pessoas hétero se atraindo e se relacionando com pessoas não-binárias porque está as lendo como de tal gênero binário, isso é exorsexismo. Se hétero é o que faz sentido para elas, bom, que tenham a decência de não se relacionarem com pessoas não-binárias. Agora, se uma pessoa que até então se diz hétero tem uma atração de longa data por pessoas não-binárias, e a tem estando ciente da não-binaridade delas, essa pessoa deveria considerar que está fora da norma e que deveria assumir sua dissidência e adotar outra identidade. Não lhe faltam opções, e aqui posso citar como exemplos bi, poli, penúlti, toren e trixen.

Afinal, por que tem gente defendendo essa flexibilização? Existem razões legítimas, algum sentido nisso? Ou é apenas por conveniência (ex: a pessoa não quer terminar o namoro com hétero) e exorsexismo internalizado (“tudo bem pessoas não-binárias serem resumidas a homem/mulher”)? Não acreditem em tudo que é falado por aí. Não é porque uma pessoa não-binária está defendendo tal ideia que ela esteja certa. E as comunidades trans e não-binária estão muito impregnadas de ideias cissexistas (incluindo retórica radfem).

E outra coisa, essa ideia entra numa grande e perigosa contradição. Até então muita gente da comunidade LGBTQIAPN+ defende que pessoas perissexo-cisgênero-hétero* não fazem parte dela, e que podem ser apenas aliadas. Muito bem, faz sentido. Agora, se insistirmos em incluir pessoas não-binárias nessa orientação, caímos no seguinte abismo lógico: ou assumimos que hétero ainda é uma identidade privilegiada e com isso dizemos que atração não-binária não tem relevância alguma, ou que então essus héteros atraídes por pessoas não-binárias também podem ser alvo de discriminação e portanto têm lugar na comunidade. E aí? Como fica essa questão? Quem está disposte a admitir que é exorsexista ou aceitar héteros* como parte da comunidade?

Creio que está na hora de pararmos de tentar se encaixar na norma ou fazer malabarismos nocivos pra chamar a norma de nossa, e começarmos a nos posicionarmos contra ela. Afinal, a norma nunca esteve e nunca estará ao nosso favor.

Os argumentos contra a neolinguagem

Aviso de conteúdo: discursos antineolinguagem, cissexismo e exorsexismo, elitismo, capacitismo, contém ironias, contém links externos.

O título é uma pegadinha. Vocês jamais me verão argumentando contra a neolinguagem. Não. O que postarei aqui são respostas para os supostos argumentos contrários a ela.

Praticamente todas as vezes em que vi esse assunto bombando e tendo repercussão foram por postagens de pessoas contrárias a ele (principalmente e quase sempre feministas radicais) (pois elas parecem ser muito desocupadas). E os “argumentos” são sempre os mesmos.

Caso não tenha ficado evidente, esse texto é direcionado para pessoas a favor da neolinguagem e que desejam embasar melhor sua defesa do tema, pessoas que gostariam de entender melhor os motivos da existência dela e por que ela é válida, ou pessoas que até então estão contra ou resistentes a ela mas abertas a entender “o outro lado da história”.

Colocarei aqui os principais “contra-argumentos” à neolinguagem que, como falei, são sempre repetidos por opositories, e explicarei por que cada um deles não tem validade. Focarei em argumentações mais elaboradas, não em opiniões simplórias como “isso não vai pegar” ou “apenas acho desnecessário”.

Para ler sobre neolinguagem, clique aqui.

Para ver listas de termos usados no texto, clique aqui e aqui.

  • Inacessibilidade

É nesse momento que um monte de gente na Internet decide se preocupar com populações periféricas, com o analfabetismo, e com as necessidades de PCDs e neurodivergentes.

E nesse monte de gente vamos encontrar pessoas que: escrevem palavras abreviadas, palavras estrangeiras, usam caracteres especiais, não pontuam postagens, não descrevem qualquer imagem que postam, entre muitas outras ações que tornam a Internet um lugar excludente, difícil ou intolerável para qualquer um desses grupos.

Muito bem, hipocrisias à parte, vamos focar na ideia: “A neolinguagem é inacessível para essas pessoas, portanto é elitista e capacitista. Ela não chega na periferia, não pode ser aplicada num país com tanta gente analfabeta, não pode ser adaptada para pessoas cegas ou surdas, e não consegue ser aprendida ou entendida por quem tem dislexia ou autismo.” É tudo isso que é dito e repetido pela oposição.

Instrumentalizar pessoas periféricas, analfabetas, com deficiência e neurodivergentes tem apenas dois nomes: elitismo e capacitismo. E não se surpreendam ao reparar que a grande maioria das pessoas que invoca esses grupos na contra-argumentação sequer pertence a um ou mais desses grupos; e aqui temos um agravante, que é o roubo do local de fala.

Tratar pessoas periféricas como incapazes de aprender novas informações, julgar o que é ou não é necessário nas periferias, e tratar as periferias como uma grande entidade homogênea (tanto que falam sempre no singular, “a periferia”) é elitismo.

Utilizar-se de um problema estrutural na educação para justificar não haver mudanças válidas na linguagem é hipócrita, contraditório e elitista também.

Essa preocupação falsa ou superficial com pessoas cegas e surdas, além de condescendente e ridículo, é capacitista. O braile pode ser facilmente adaptado e libras é uma língua em que marcadores de gênero são mais opcionais que inevitáveis (na maior parte sequer existem).

Usar as pessoas disléxicas e autistas é subestimar as capacidades dessas pessoas e ignora que as mesmas barreiras e dificuldades que elas poderiam ter com o assunto podem ter com muitos outros assuntos (como a própria língua padrão, matemática, etc); ou seja, capacitismo de novo, além da homogeneização desses grupos.

Felizmente, muitas pessoas de regiões periféricas e neurodivergentes se pronunciaram contra esses posicionamentos e a instrumentalização cometida contra elas (embora nem todas fossem totalmente a favor da neolinguagem). E são elas que deveriam estar mesmo opinando sobre esses aspectos de acessibilidade.

Uma coisa cômica nesses argumentos é a insistência dessas pessoas (quase sempre cis) de que ainda há gente propondo o uso de xis e arroba (de fato, inacessíveis). Se é para contra-argumentar, ao menos se atualizem; já faz anos que muitas pessoas trans/n-b estão falando contra o uso desses caracteres e tentando difundir uma neolinguagem mais acessível e possível de ser aderida (que, no caso, é exatamente essa que utilizo aqui no blogue).

Há gente que afirmou que até mesmo a flexão –e não é reconhecida por leitores de tela. Ou isso é uma mentira deliberada, ou é apenas desinformação. A preocupação com leitores de tela é pertinente, pois precisariam ser configurados para ler corretamente palavras modificadas e neologismos. É um problema simples de se resolver. Mas, sim, leitores de tela já são capazes de entender muitas palavras flexionadas com –e.

Gente querendo usar braile, libras e leitores de tela num argumento, mas evidentemente sem nem conhecer a fundo como essas coisas funcionam… Preciso mesmo levar isso a sério?

“Mas o analfabetismo não é um problema para tudo isso?”

Com certeza traz dificuldades, mas pessoas não apenas leem e escrevem como também falam. E mais, se uma nova linguagem não pode existir por causa desse problema estrutural, então que cancelemos novos acordos ortográficos, a própria norma culta da língua, ou mesmo dialetos como o pajubá e regionalismos. Ou melhor, vamos cancelar todos os ativismos sociais devido ao tanto de gente ignorante ou sem contato com eles.

Ah, e mais coisa: se recusar a respeitar a linguagem de gênero de alguém porque há pessoas ignorantes sobre ela não faz sentido e só comprova seu preconceito.

  • Morfologia

“O latim perdeu o gênero neutro, que se assimilou ao gênero masculino; ‘o’ indica a ausência de gênero, portanto o masculino já é neutro.”

Quem usa a morfologia do gênero gramatical como defesa é tão incoerente quanto quem justifica significados literais de certas palavras por causa de prefixos e sufixos (como quem defende que atração bi deve se referir a apenas dois gêneros por causa do prefixo bi). A sociedade faz a linguagem. A linguagem reflete uma realidade; ela não existe antes para então moldar a realidade.

Primeiro de tudo, ninguém está desconsiderando o processo da transformação do latim para o português atual. Inclusive, esse processo foi e está sendo considerado em estudos acadêmicos sobre neolinguagem. É um tanto cômico ver isso sendo usado contra a proposta, pois vejo esse fato como mais um ponto favorável à existência de um gênero gramatical neutro.

Agora, existe uma coisinha chamada sociolinguística. É uma área que estuda a relação entre uma língua com a sociedade. Isso é o que estudos feministas e de gênero estão discutindo há muito tempo. A morfologia é a morfologia, e só gente com um acesso amplo à informação saberá disso. Mas ninguém ensina essa morfologia à sociedade num geral.

Desconsiderar a influência de uma língua numa sociedade ou é muita alienação ou é uma falácia descarada. De repente a sociedade se desconstruiu e parou de associar a linguagem o/ele/o com homens, exclusiva ou primariamente? Quando isso aconteceu?

E não me venham com “a língua não precisa ser inclusiva” ou “a língua não é opressiva”. São as línguas que devem se adequar aos indivíduos, e não o contrário. E se a língua não pudesse ser opressiva, termos pejorativos ou segregacionistas não existiriam.

Estamos falando de uma estrutura que parte de três princípios: que o gênero masculino é universal e padrão, que só podem existir dois gêneros, e que gênero e sexo são a mesma coisa. Temos aqui um combo de machismo e cissexismo-exorsexismo. E a neolinguagem procura romper exatamente com tudo isso; o que é inevitável, pois está tudo junto e misturado.

Mesmo se a linguagem o/ele/o fosse mantida como neutra universal e uma terceira opção gramatical fosse inclusa, não faria sentido usá-la para se referir a um grupo de pessoas que usam a/ela/a e essa terceira opção (ex: ela + elu = eles?).

Haverá mais elaboração disso no próximo tópico, pois é quase uma continuação das ideias.

  • Gênero ≠ Sexo

“Gênero gramatical não tem a ver com sexo. É só como a língua se estruturou.” E, de repente, a língua deixou de ter qualquer influência sobre o meio social! Que milagre, né?

Ora, se gênero gramatical não tem absolutamente nenhuma relação com sexos, então por que não criamos todas as pessoas com qualquer linguagem de gênero? Por que insistimos em tratar animais machos por o/ele/o e animais fêmeas por a/ela/a?

Ninguém cria bebês de qualquer sexo por o/ele/o por ser “o bebê”, ninguém trata uma pessoa barbuda e musculosa por a/ela/a por ser “a pessoa”. Não sei que sociedade desconstruída é essa, mas com certeza não é a nossa.

E esse argumento absurdamente furado desconsidera também a sociolinguística, como já foi explicado no tópico anterior.

Já que os gêneros gramaticais nunca foram impostos a pessoas (e seres) por seus sexos, então que todas as pessoas adotem e sejam desde sempre criadas e tratadas por qualquer linguagem de gênero. Isso é o mais coerente de ser feito, não? Por que isso nunca foi feito?

Não, vamos dar um passinho para trás e voltar à questão da neutralidade padrão. Supondo então que não há nada de errado com a norma de se referir a todos os gêneros por o/ele/o. Por que então não falamos “os gestantes”, já que homens trans existem e há aqueles que engravidam? Por que não fazemos propagandas de conscientização ao câncer de mama e convocamos a “todos” para fazer o exame, já que homens trans existem e há aqueles que possuem seios?

Com exceção dos objetos, há uma estrutura que associa gênero gramatical com sexo, sim. Se chama cissexismo, e não é novidade para pessoas cisdissidentes. E ainda é uma estrutura exorsexista, pois, caso não fosse, haveria um gênero gramatical para pessoas intersexo (ao menos aquelas com genitálias atípicas) ou para seres hermafroditas e assexuados. Esse argumento todo deveria ganhar um prêmio de “negação absurda e arbitrária da realidade”.

Bônus: feministas radicais adoram falar numa abolição de gênero, mas não aceitam ser referidas por o/ele/o (neutralidade padrão) e nem aceitam a proposta de um gênero neutro universal pela neolinguagem. Lógica? Não existe.

  • Estrangeirismo

Muito bem, esse pseudoargumento tem um pontinho de justificativa para existir. E isso, infelizmente, é culpa da comunidade trans/não-binária brasileira. Porque a comunidade importou, literalmente e de forma impensada, o modelo de linguagem anglófono.

Na língua inglesa, a linguagem pessoal se resume a pronomes (e adjetivos possessivos). Na língua inglesa, faz sentido alguém descrever sua linguagem como, por exemplo; pronome pessoal, pronome de objeto e pronome possessivo.

Na língua portuguesa, não. Porque na língua portuguesa existem os artigos e as flexões de gênero, pronomes são uma parte da linguagem, e, com todo respeito, descrever sua linguagem como “pronome pessoal/contração do pronome com a preposição de” é ridiculamente redundante nesse idioma (curiosidade: dele, dela, delu, etc nem são pronomes de acordo com a gramática). A importação foi tão forte que muitíssima gente reduz linguagem pessoal a “pronomes”; isso, gramaticalmente, é muito errado e sem sentido.

Mas, continuando, a merda está feita e percebo que ainda vai demorar que haja aderência ao sistema APF (artigo/pronome/flexão). Mesmo assim, isso não sustenta o argumento em si. A importação da linguagem foi feita de maneira ruim, mas os motivos por trás disso são legítimos; afinal não existe pessoas não-binárias e/ou não-conformistas de linguagem apenas na anglosfera.

Não duvido que os pronomes neutros do inglês tenham sido inspiração para a formulação e implementação da neolinguagem. Podem até ter sido o estopim (não tenho informação suficiente para afirmar ou negar isso).

Só que, independentemente da resposta, o pensamento de que “isso não é válido porque veio de fora” é muito ridículo de tão simplista e raso. Mais ridículo que isso é acusar a neolinguagem de estar impondo um estrangeirismo à língua portuguesa, sendo que ela está sendo construída totalmente dentro da gramática do idioma e se adequando a suas particularidades.

E, como já falei, línguas que devem se adequar ao indivíduo. E a língua padrão atual é incapaz de se adequar a pessoas de outros países que utilizam uma linguagem pessoal que não seja associada aos gêneros binários. Não é justo com elas. Nem justo com outras pessoas daqui, da lusosfera, que existem e que também são excluídas da própria língua, e agora estão tendo voz para falar e demandar que sua individualidade seja respeitada. E foda-se que se inspiraram em algo de fora, se isso as fez enxergar possibilidades melhores.

“Estrangeirizar” a língua seria, no máximo, utilizar palavras de outras línguas de forma indiscriminada, coisa que ainda fazemos muito e deveríamos parar quando possível. Entendo que há palavras muito difíceis de traduzir ou adaptar, mas termos como “deadname” (nome morto) ou “misgender” (maldenominação) possuem tradução e adaptação possíveis.

Ah, é até possível que palavras modificadas ou novas acabem ficando muito parecidas ou idênticas com palavras de outras línguas latinas, o que também pode parecer estrangeirismo. Porém, não vejo por que isso deveria ser um problema, pois as línguas latinas são muito próximas e não é absurdo línguas diferentes terem palavras iguais.

Se o problema aqui é importar, vamos então criticar outras importações? Muito raramente alguém adapta a palavra gay para algo mais “aportugueisado” (guei). As identidades lésbica, bissexual e transexual/transgênero são traduções de palavras cunhadas na anglosfera. Que tal devolvermos essas palavras à língua original e cunharmos nossas próprias ou usarmos o que já existe aqui (viado, bicha, sapatão, etc)? Que tal usarmos uma sigla cunhada aqui mesmo? Porque usar isso só contra neolinguagem ou termos como queer é bem desonesto e hipócrita.

Conclusão:

Todas essas argumentações não são e nunca foram fundamentadas em análises críticas ou preocupações reais. Acredito que existe um fortíssimo viés exorsexista por trás disso, mas também deve incluir uns conformismos (preguiça de aprender uma linguagem nova) e um sexismo básico (não querer que “o masculino” perca seu posto de universal e padrão).

Outras constatações furadas incluem gente afirmando que “as pessoas não-binárias querem obrigar todo mundo a usar neolinguagem”, que “querem que isso seja aprendido de um dia pro outro”, e que “idoses não vão entender”. Tudo isso é mais exageros e invenções descaradas que fazem para reforçar a oposição.

Pessoas não-binárias não têm qualquer mínimo poder de obrigar alguém a usar uma linguagem diferente, ninguém com bom senso espera que a língua vai se modificar em tão pouco tempo (nunca nem vi alguém achando isso), e, por fim, instrumentalizar idoses se chama etarismo (além de que ninguém necessita da validação de um grupo etário).

Enfim. Continuo aguardando argumentos legítimos contra a neolinguagem.

Links adicionais:

Em defesa da neolinguagem

Neolinguagem: um futuro inclusivo e contra o cistema

O “X” da questão: gênero na escrita | Papo de linguista | Jana Viscardi (aviso de conteúdo: contém palavras capacitistas.)

Linguagem neutra: principais críticas

8 polêmicas sobre gênero neutro na língua | Jana Viscardi

A não-binaridade de bichas e sapatonas

Aviso de conteúdo: ciseterossexismo, desgenerização, termos pejorativos ressignificados, menciona assimilacionismo e colonialismo.

Muita gente deve ter na cabeça alguma ideia do que é bicha ou sapatão. O senso comum reconhece esses termos apenas como sinônimos (ainda pejorativos) de gay e lésbica.

Assim como ocorreu com queer nos Estados Unidos, corpos dissidentes com alguma consciência ou politizados o suficiente pegaram os termos para si e os ressignificaram; de ofensas a palavras que carregam orgulho e resistência.

Para algumas pessoas continuam sendo sinônimos do que já são; gays ou lésbicas. Contudo, há pessoas multi que também fazem uso dessas palavras, ampliando seu significado.

Para outras pessoas, essas palavras são mais do que isso: são identidades!

Enquanto há homens e mulheres se reafirmando gays/lésbicas ou multi, há outros corpos se reafirmando apenas como bichas e sapatonas. E só.

O que pode causar estranheza e atrair opiniões discordantes, visto que, em meio a esse turbilhão de novas informações e formulações de conceitos, muita gente dos movimentos sociais se empenhou muito em colocar gênero e orientação como aspectos separados, e não está disposta a aceitar identidades que os misturem.

Como tudo na vida, nada é absoluto. Nem todos os corpos desejam manter esse separatismo tão estrito; pois, para eles, não serve e não faz sentido.

Existem contextos sociais diferentes, recortes diferentes, experiências de vida diferentes. Não é por um acaso que essas identidades são tão presentes nas regiões periféricas; locais onde tanta informação e tão lindamente catalogada muitas vezes nem chega em sua totalidade, ou não consegue ter o mesmo valor e impacto.

Para muita gente desde sempre dissidente, desde sempre dando sinais de estar fora das (cis)(hetero)normas,” homem” e “mulher” devem ter perdido o sentido à medida que tais termos foram negados a esses corpos. Muitos desses corpos nunca foram tratados como homem ou mulher, apenas como “coisas”, como só bicha e sapatão. Muitos desses corpos não puderem se dizer homem ou mulher, apesar da designação de gênero.

Em meio a contextos em que concepções formuladas pela academia não chegam, e onde as pessoas não são nem permitidas de ser homem ou mulher, não é nada absurdo que os corpos procurem outras palavras para se nomear e assim ter uma posição na sociedade, no mundo; dar um sentido ao que são, a sua existência. E os nomes surgiram: bicha e sapatão.

E o que tudo isso tem a ver com a tal da não-binaridade de gênero? Bem, acredito que até aqui é um pouco evidente. Mas me explicarei melhor.

As identidades bicha e sapatão sempre estiveram mais próximas da não-binaridade do que do binômio de gênero. Afirmar-se homem ou mulher heterodissidente é diferente de ser bicha ou sapatão. Afirmar-se ainda homem e mulher fora da heteronorma têm suas lutas e demandas, com certeza; mas, ainda assim, estão se posicionando dentro de um binário imposto e vigente. E ser binárie tem seus privilégios.

Mas afirmar-se bicha e sapatão é negar até mesmo uma posição dentro desse binário. É colocar-se fora da própria cisnorma.

Existe uma força incrível e uma beleza incomparável numa identidade que combina gênero e orientação, que torna essas características unas; ambas unidas contra a cisnorma e a heteronorma (ou melhor, a ciseteronorma). É uma pena que assimilacionistas não percebam isso.

Muitas pessoas bichas e sapatonas avançaram com suas demandas e seus posicionamentos políticos dentro do território da não-binaridade sem nem saberem sobre esse conceito. E a não-binaridade sempre esteve e continua estando aqui para acolher e fortalecer esses corpos fora das caixinhas homem-mulher.

E eles não precisam tanto assim se encaixar numa das consagradas letrinhas de alguma sigla do movimento. Não é necessário outro B ou um S (que não é mais de simpatizante). O identitarismo dessas dissidências vai mais além disso, trazendo junto marcas fortes de raça e classe. Sua movimentação sempre seguiu por fora de movimentos convencionais. E assim continuará, se necessário (tem muita gente fora dos movimentos convencionais, acreditem).

Ainda faço uma ressalva especial aos corpos racializados que são bichas/sapatonas; que, mesmo sem saber, estão fazendo um resgate histórico; pois o binômio de gênero é um regime de origem eurocêntrica, e como tal foi imposto a todas as culturas ameríndias, asiáticas e africanas que aceitavam mais de dois gêneros ou outros gêneros além de homem e mulher (que também possuíam concepções diferentes das atuais).

Embora não tenhamos um equivalente próprio de queer no país, bichas e sapatonas têm muito de uma essência queer em si; desde a autoidentificação até suas ações.

Se queer for “gringo” demais e se espaços G e L falharem em incluir esses corpos, o meio não-binário ao menos estará sempre aqui para apoiá-los. No meio não-binário não somos e nunca seremos hétero; e muites de nós já somos (total ou parcialmente) ou um dia fomos apenas bichas e sapatões. Assim como também transviades, fanchas, travesti-macho, e mais.

E concluo dizendo que bichas e sapatonas e pessoas não-binárias num geral têm muito em comum e deveriam somar forças. E uma união assim é algo que podemos muito bem dizer que se compara ao que queer trouxe na anglosfera: uma filosofia antiassimilacionista e permanentemente contranormativa, indo na contracorrente até dos próprios movimentos convencionais com suas novas imposições de ser e agir.