Binarismos

Aviso de conteúdo: colonialismo, racismo, diadismo, cissexismo, menciona genitálias.

Os binarismos estão em todo lugar. Contaminam nossas mentes e perspectivas de mundo, limitam nossas possibilidades, nos passam inverdades disfarçadas de realidade e ordem natural das coisas.

Não falo apenas dos binarismos como homem e mulher, ou pênis e vulva, etc etc etc.

Fomos/Somos colonizades por essa ideia arcaica de Bem | Mal. Pessoas são ou boas ou más. Coisas são ou boas ou más. Tudo é Preto | Branco, Positivo | Negativo, Quente | Frio, Esquerda | Direita, Cima | Baixo.

Cria-se oposições onde não existem. Cria-se contrários, inversões, antônimos, etc etc etc. E essas criações, mesmo quando absurdas, mesmo quando é evidente que não são suficientes, ainda influem em nossas vidas, relações, formas de agir e pensar.

(não é como se não soubéssemos que existem gradientes de cores, relativismos, várias temperaturas, diversos pontos cardeais, enfim… mas a gente esquece diretooo)

Os binarismos se sustentam ao máximo que podem, traçando uma grande e longa narrativa de que explicam o mundo, que sempre existiram e sempre existirão.

E quando não conseguem mais se sustentar com absolutismo, formulam suas armadilhas bizarras – e tanta tanta gente cai nelas.

O binarismo afirma que entre 1 e 2 existe o 1,5. E o que é esse número além um intermediário entre dois números inteiros (ênfase na palavra “inteiros”)?

O binarismo afirma que entre masculine e feminine existe neutre. E o que é neutre além de uma confirmação e reafirmação de que existem dois polos?

O binarismo afirma que entre Sim e Não existe Talvez. E o que é o talvez além de uma falta de certeza que continua nos apontando para apenas duas respostas?

O binarismo se contorna para afirmar que nunca existiram apenas duas opções igual a uma cobra que se enrola e morde a própria causa. Nos engana com falsas terceiras opções que nada mais são do que versões/derivações inferiores das únicas opções que são pregadas.

O binarismo procria também quando se faz necessário. Antes haviam es normais e es desviantes, até que surgiram os termos hétero e homo, deixando tanta gente que não é nem um ou outro num limbo.

O binarismo protege sua integridade sempre que pode. Antes haviam os marcadores sexuais de sexo masculino e sexo feminino, e agora temos, uau, o sexo X/indefinido/não-especificado (imagina só o binarismo dizendo que outros sexos são definidos ou específicos, né?).

O binarismo se segura ao máximo na simplificação. Antes haviam apenas dois gêneros, e então, para facilitar a compreensão das pobres pessoas do mundo civilizado com o sistema de gênero perfeito, jogaram toda e qualquer identidade dos povos incivilizados como “terceiro gênero”.

O binarismo também tem o poder de afirmar algo e agir diferente na prática. Nos dão tantas opções de “raças” além de branca, como preta, parda, amarela, etc, e ainda assim, só uma delas detém poder estrutural, só uma delas é vista como universal, enquanto as outras são As Outras.

Precisamos nos atentar às artimanhas dos binarismos. Elas existem. Elas estão aí. Por um lado, elas demonstram a fragilidade e o medo deles. Por outro lado, reduzem/apagam/esmagam a complexidade, a diversidade, a amplitude, tudo que ameaça os poderes binaristas.

Os binarismos vão a todo tempo nos intimidar, persuadir, nos convencer, ou tentar nos convencer, nos encurralar, prender, usar falácias, ter discursos bonitinhos, dizer que nos representam. Não caiam nisso!

Que es conformades fiquem às sombras dos binarismos, fingindo que estão sendo bem representades. Nós, comprometides com a inconformidade, não aceitamos migalhas, restos, subprodutos, entrelinhas ou notas de rodapé!

Não basta apontar para outras opções, ainda mais quando dadas pelos binarismos. Não basta criar apenas terceiras opções, ainda mais quando nossas referências são os binarismos.

A mera existência de duas e somente duas opções precisa ser destruída. Binarismos não podem e nem deveriam existir.

Sejamos todes, antes de tudo, anti-binarismos!

Vamos falar dos direitos dos homens

Aviso de conteúdo: misoginia, menciona violências e suicídio, referências às realidades de muitos grupos marginalizados, contém links externos.

Homens têm direitos? Homens têm privilégios? Homens são oprimidos? Homens necessitam lutar por direitos?

Parecem perguntas ridículas. Ao menos para muitas feministas e pessoas de um ou mais grupos marginalizados. Mas peço que não as vejam dessa forma. Não existem perguntas ridículas, e são perguntas mais interessantes do que aparentam ser.

Faz um tempo que vi um vídeo de uma conversa entre uma feminista e um “ativista dos direitos dos homens”. Decidi ver o vídeo, achando que ele proporcionaria mais momentos de raiva ou escárnio que qualquer outra coisa. Bem, até teve isso. Mas decidi analisar com mais calma tudo aquilo. E então tive a ideia de escrever esse texto. Diretos dos homens.

Uma retrospectiva da História antes. Revolução Francesa, um período que durou de 1789 a 1799. Tendo inspirações no pensamento iluminista, formulou-se um documento que decretava os direitos individuais e coletivos “dos homens”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um marco importante na história dos direitos humanos. Inclusive, esse documento foi base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Muites dizem por aí que a palavra “homem” se referia ao ser humano como um todo. Mas, porém, entretanto, contudo… na prática, a Declaração apenas servia aos homens mesmo, enquanto as mulheres foram esquecidas dos ilustres princípios de liberdade, igualdade e brotheragem… ops, digo, fraternidade. Tanto que, um tempo depois, formulou-se a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; que foi rejeitada pela Convenção francesa. Mulheres exigindo os mesmos direitos que os homens ainda era algo inconcebível naquela época de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Na segunda onda do feminismo, década de 1960, surgiu o feminismo radical, que trouxe uma série de discussões sobre patriarcado e a origem da opressão das mulheres – que, segundo a vertente, está na existência do gênero dentro dos moldes patriarcais que conhecemos. Não vou discutir sobre o feminismo radical aqui. Vou puxar justamente a ideia do patriarcado.

A ideia de patriarcado surgiu para explicar, a princípio, como funciona a opressão dos homens sobre as mulheres. Os homens são um grupo antagônico e que possuem privilégios, enquanto mulheres são o grupo oprimido. E essa visão dicotômica já um pouco ultrapassada de “homem, privilégio; mulher, opressão” perdura até hoje.

Não é de se estranhar que vários homens, e aqui incluo reaças e antifeministas, já pontuaram várias vezes as “generalizações” que feministas fazem de homens. Não apenas discursos colocando homens como um grupo todo privilegiado, mas afirmações mais controversas como “todo homem é um estuprador em potencial”, e ideias que reafirmam alguma maldade inerente ao gênero homem.

Os feminismos trouxeram uma abertura importante para homens poderem falar de si também e dos efeitos negativos do patriarcado sobre eles. Por isso é possível encontrar grupos e espaços de homens feministas/pró-feminismo/antipatriarcado – e aqui acho válido citar o movimento Homens Libertem-Se e o saite Papo de Homem. Além disso, os feminismos trouxeram o que todo movimento social traz no mundo atual: reacionarismo. Principalmente de grupos alinhados ao direitismo e conservadorismo. Grupos antifeministas são sempre desse espectro político, muito embora antifeminismo possa existir até mesmo em grupos (ditos) progressistas e revolucionários.

Outro fenômeno que surgiu com tudo isso e o avanço da Internet foi o masculinismo, que possui diversos significados (às vezes positivos, às vezes negativos), mas aqui focarei num principal ponto: masculinistas são homens buscando lutar por “seus direitos”. Há grupos e grupos, como aqueles que reivindicam tópicos específicos – como a quebra de estereótipos nocivos ou a abolição do alistamento militar obrigatório, e aqueles que buscam “igualdade” com as mulheres em certas situações sem ter o mínimo de senso crítico ou mesmo atribuindo culpas às mulheres que as mesmas sequer têm. E, infelizmente, foram esses últimos grupos, essencialmente antifeministas, que culminaram nos ditos movimentos pelos direitos dos homens.

O que são os movimentos de direitos dos homens? Bem, são apenas isso. Movimentos pelos direitos dos homens. E o que os movimentos em prol dos direitos dos homens afirmam? Resumidamente que a classe homem tornou-se a mais oprimida ou negligenciada em detrimento da classe mulher, e que, por isso, busca reunir os homens para lutar contra isso. Os homens desses movimentos afirmam sofrer opressões, inclusive, das próprias mulheres e da sociedade atual (que agora “favorece mais as mulheres”).

Afinal, que opressões são essas que esses homens estão dizendo por aí que sofrem? Bem, num geral, são praticamente as mesmas pontuações misturadas com diversas falácias, dados falsos/duvidosos, e premissas equivocadas/distorcidas. Acredito que posso resumi-las em: cobranças sociais, taxas de expectativa de vida e suicídio, funções e direitos paternais, liberdade de expressão, e discursos generalistas negativos. Muito bem, vou falar de cada item.

As cobranças sociais. Sim, são um grande problema mesmo. E estão envolvidas nas taxas de violência e suicídio dos homens. Não é por um acaso que estão surgindo grupos de apoio de homens formados para discutir a masculinidade tóxica. Porque essas cobranças têm uma relação íntima com esse conceito. E para quem conhece a masculinidade tóxica sabe que ela é um produto do patriarcado. Mulheres podem ser sustentadoras disso tanto quanto qualquer outra pessoa, e isso não apaga o fato de que elas continuam presentes em estatísticas de violência doméstica, estupro, e feminicídio; e nem o fato de que o grupo atuante que predomina nessas estatísticas são homens.

Acontece que vejo tentativas desses movimentos em jogar a culpa das cobranças sociais na conta das mulheres, o que é, no mínimo, absurdamente desonesto. Até parece que foram as mulheres que sempre estiveram no comando da lei, religião e ciência, e criaram uma série de normas sobre ser homem e ser mulher.

As taxas. Sim, precisamos urgentemente falar delas. Realmente, homens morrem mais e se suicidam mais. Pois são outras consequências das cobranças sociais, da masculinidade tóxica, do molde nocivo que o patriarcado constrói e impõe aos homens. Apesar de ainda haver pouca visibilidade nessas questões, existem estudos e preocupações com esses fenômenos. Homens precisam urgentemente discutir sobre sentimentos e masculinidades. E isso precisa obrigatoriamente levar em conta fatores interseccionais, como raça e modalidade de gênero, visto que existem altos índices de suicídio entre homens negros e homens trans. E discutir essas questões indo nas verdadeiras raízes, nas reais causas das violências com homens e entre homens.

Não encontrei em minhas pesquisas quaisquer respostas ou ações efetivas dos tais movimentos dos homens sobre essas questões, que já são bem neglicenciadas.

Paternidade. Vamos lá, tópico polêmico. Nossa sociedade prega um modelo tradicional de família que coloca o pai como provedor e a mãe como cuidadora. Embora ambes possam participar na criação, é socialmente aceito, quase num acordo invisível, de que a criação des filhes é responsabilidade da mãe. Isso sobrecarrega qualquer pessoa, ainda mais num lar onde ambas figuras têm empregos. E com certeza deve influenciar em decisões jurídicas de guarda. Se existe uma preocupação legítima com a paternidade, os homens deveriam então focar em dividir as tarefas domésticas e de criação. Em relação aos direitos dos homens nessa questão da paternidade, já existem esses direitos (ao menos no Brasil). Não vou ficar pesquisando sobre os outros países do mundo, mas caso não haja esses direitos em algum país, esses homens precisam se mobilizar por isso sim. Sobre guarda, bom, cada caso é um caso, não sou especialista e nem juíze. Mas já existem mecanismos atuando em prol dos homens. Por isso, sim, exijam seus direitos, pois já são garantidos. E se ainda assim algum homem achar que a decisão jurídica não foi justa, ele deve proceder dentro do âmbito legal.

Agora, também pergunto aos tais movimentos dos homens: o que acham sobre os altos índices de abandono paterno e das milhares de crianças sem o nome do pai nos RGs? Também não achei opiniões e posicionamentos sobre isso, apenas acusações infundadas de que mulheres são “privilegiadas” por cuidarem des filhes e “sempre” ficarem com a guarda.

Em relação a tal liberdade de expressão, sinceramente, é difícil levar a sério. Porque aqui caímos naquela questão clássica de um grupo privilegiado de pessoas querendo fazer qualquer discurso nocivo contra um grupo marginalizado, e sentindo-se ameaçado conforme esse outro grupo ganha alguma visibilidade e voz para denunciar toda opressão que passa. Aquela falsa simetria básica, onde um grupo está lutando pela vida, enquanto o outro chora por não poder fazer mais aquelas “piadinhas” preconceituosas de sempre. E o que mais pesa aqui são declarações misóginas e retóricas sexistas.

Falando nos discursos generalistas, bem, eu vou ceder um pouquinho e dizer que eles têm um lado problemático e improdutivo. A raiz desses discursos é sem dúvida o feminismo radical, que muitas vezes coloca homens como indivíduos naturalmente ruins e opressivos. Já deveríamos ter superado isso, mesmo que seja em forma de meme ou piada. Esse tipo de atitude, mesmo sendo contra um grupo privilegiado, não ajuda e não acrescenta em nada. E, além disso, antagonizar homens é uma atitude extremamente irresponsável e mostra ignorância ou descaso com as possíveis intersecções que atravessam homens: raça, orientação, modalidade de gênero, classe, corporalidade, entre outras.

Se você acha ridícula a ideia de que é possível mulheres oprimirem homens ou fala de homens como se fossem toda uma categoria homogênea dotada de “todos os privilégios”, você precisa urgentemente rever se não está contaminade com retóricas radfem e mais do que nunca estudar interseccionalidades. Sim, mulher pode oprimir homem. E não, não é nenhum dos casos que os tais movimentos pró-homem falam por aí (até porque, nem intersecção de raça fazem).

Ah, interseccionalidades! Vamos falar sobre elas? Vamos falar sobre os muitos grupos de homens sujeitos a opressões específicas?

Homens negros e indígenas são alvos de muita violência do Estado. Homens trans ainda lutam por reconhecimento social e direitos básicos como moradia e saúde. Homens gays estão no topo das estatísticas de violência e morte por discriminação heterossexista. Homens bi/multi são invisibilizados até nas políticas públicas “LGBT”. Homens intersexo são vítimas de mutilação genital e falta de autonomia sobre seus próprios corpos. Homens gordos são patologizados e ridicularizados. Homens com deficiência possuem uma série de demandas pela inacessibilidade e são vistos como fardos. Homens da classe trabalhadora enfrentam exploração e têm seus direitos ameaçados constantemente. E eu poderia ficar aqui me estendendo com mais e mais exemplos, mas o resto e muito mais pode ser encontrado com uma pesquisa feita na boa vontade.

Não há como discutir realmente os direitos dos homens sem levar em conta toda construção patriarcal e ocidental de gênero, e sem incluir as pautas raciais, heterodissidentes, cisdissidentes, trabalhistas, das PCDs e des neurodivergentes, etc etc etc. Enquanto há questões inerentes ao patriarcado e que podem atingir homens em geral, há questões mais específicas de outras estruturas opressivas (que podem piorar as questões gerais).

Agora eu vos pergunto: esses tais movimentos a favor dos “direitos dos homens” estão falando dessas questões? Quantos estão abordando as questões gerais da maneira mais adequada, com olhar crítico, sem praticar falsas simetrias, sem tirar a culpa do patriarcado, e sem jogar alguma culpa desmedida em mulheres? Se as questões que atingem os homens não estão considerando o patriarcado e todas as possíveis interseccionalidades, afinal, o que exatamente esses grupos estão fazem em prol dos homens?

Se não há nada disso, a única coisa que podemos concluir é que esses grupos são apenas aglomerados de machistas sem práxis, articulação política, demandas válidas, nada que proponha mudanças sociais ou que seja capaz de realizá-las. Não apenas isso, como também são apenas mais uma forma do antifeminismo, e isso fica evidente considerando o quanto focam em atacar os movimentos feministas, se utilizando também de sexismo e misoginia, dados falsos ou inventados ou sem nenhuma fonte, e negação do gênero como um fator que incentiva violências específicas contra a mulher.

Por isso temos movimentos antifeministas como A Voice for Men (tradução literal: Uma Voz para Os Homens), que dizem lutar pelos “direitos dos homens”, mas acabam sendo apenas redutos sexistas que legitimam a imensa misoginia e as visões distorcidas do mundo de homens obscurantistas e negacionistas, que de bônus odeiam também outros grupos marginalizados. Basta analisar os discursos de seus membros e ver suas postagens e entrevistas.

Gênero é um assunto complexo e não pode ser resumido a “todos os homens têm privilégio e oprimem todas as mulheres.” É coerente dizer que o patriarcado por si só, a princípio, tende a conferir privilégios aos indivíduos homens. Mas vivemos numa sociedade que não é apenas patriarcal, mas também é racista, diciseterossexista, capacitista, entre outras opressões. Uma luta a favor dos homens deve ser uma luta a favor de todos os homens. Muitos direitos sociais estão garantidos, na teoria. Na prática, nota-se quais homens são mais privilegiados e quais são menos. Pra haver igualdade, estruturas hegemônicas de poder precisam ser derrubadas. E é esse comprometimento que se espera dos homens envolvidos em suas respectivas causas sociais, assim como os homens aliados dessas, e assim como os grupos de homens que estão se reinventando e buscando a verdadeira libertação do gênero homem.

Um movimento a favor dos direitos dos homens só faz sentido se for um movimento essencialmente antipatriarcal e interseccional. Somente assim, seguindo esses vieses, que podem ir até a raiz dos problemas, de tudo que falta aos homens, de toda opressão possível de atingir os homens. É esse movimento que podemos e devemos construir.

Links adicionais:

Documentário: The Mask You Live In (Legendado)

Colocamos uma feminista e um ativista dos direitos dos homens para conversar (sem que eles soubessem) (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Mulheres são privilegiadas. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: discursos antifeminismo, misoginia.)

“Homens são privilegiados. Mude minha opinião.” (aviso de conteúdo: essencialismo de gênero, argumentações liberais e religiosas, discursos antifeminismo.)

Fetichismo: conceito, ideias, questionamentos

Aviso de conteúdo: sexualidade, referências sexuais, menções a fetiches, discriminação anti-fetichista, contém links externos.

Hoje o assunto é polêmico. Então, putinhes e puritanes, se preparem para uma jatada de rompimento de moralismos na cara.

Vocês sabem o que são fetiches? Bem, talvez saibam. Ou acham que sabem. Fetiches possuem uma visão muito negativa, e até hoje espalham por aí ideias equivocadas sobre isso, chamando muita coisa que sequer é fetiche de fetiche.

Pois bem, basicamente, fetiches são quando se atribui um valor sexual a partes corporais, objetos, situações e fantasias que, a princípio, não possuem nada de sexual. Aqui poderia citar então fetiche por pés, por roupas de couro, em transar numa floresta, ou em simular uma cena erótica.

Não faz sentido dizer ter fetiche por órgãos genitais, pois já são partes associadas com sexualidade. O mesmo pode ser dito sobre partes que nem são genitais, mas possuem valores sexuais atribuídos socialmente, como bunda e seios.

Dentro do que foi dito, pessoas em si não podem ser fetiche por terem determinadas características. Isso é algo que pesa muito para grupos marginalizados, pois essas atitudes refletem outras facetas de suas respectivas opressões. Não, mulheres não são fetiche, pessoas negras não são fetiche, pessoas trans não são fetiche, pessoas gordas não são fetiche, e por aí vai. Não são porque não podem ser. O que acontece com esses grupos pode ser chamado de objetificação ou hipersexualização (não sei se existem diferenças práticas entre esses termos).

“Ah, mas eu vi a pessoa dizendo que tinha fetiche por [insira grupo marginalizado]!”

Pois bem, essa pessoa não sabe do que está falando. Ela está apenas reproduzindo uma ideia equivocada e negativa que é espalhada em torno da palavra fetiche. E, aliás, fazer isso não apenas cai na objetificação ou hipersexualização, como também contribui com o ódio e o preconceito contra fetiches e fetichistas. Para facilitar, eu vou usar o termo “fetichização” pra falar dessa ação errônea de tornar alguém ou um grupo num fetiche.

Ninguém diz ter fetiche em pessoas cis ou brancas. Engraçado, né? Porque elas são mais que isso: são “preferências”, são exaltadas como objetivos de vida, são colocadas como padrão de beleza e desejo. Isso é bem mais problemático do que quando esses corpos são, de certo modo, sexualizados em propagandas, na mídia, enfim. Daí, entramos no tópico da compulsão sexual que passamos na sociedade, onde somos bombardeades frequentemente com imagens e mensagens sexuais, que só reforçam as narrativas de que sexo é fundamental e deve ser presente em nossas vidas. Isso é um grande problema, mas não algo que deve ser colocado na conta dos fetiches.

A única “fetichização” que conheço de um grupo privilegiado é aquela cometida por muitos homens cis gays com homens cis héteros. Não que isso afete esse grupo de alguma maneira. O mais problemático mesmo é que essa exaltação do hétero parte de premissas normativas, de que o homem que se relaciona com mulheres é “mais homem”, logo, mais atraente e sexualmente cobiçável. Às vezes isso até se estende para homens multissexuais pelo mesmo motivo. Às vezes, não – o que evidencia o monossexismo.

Isso foi apenas para exemplificar que grupos privilegiados ainda podem sair intactos de objetificação e hipersexualização, e essas atitudes ainda terem por base opressões que não os afetam.

“Ah, mas até que ponto é fetiche e não distúrbio ou transtorno?”

Hm, qual o limite do fetiche? Isso me lembra perguntas como “qual o limite da arte?”.

O limite é não ter limite, desde que exista dois grandes pilares fundamentais que sustentam essa porra: consentimento e prazer. Se todas as partes estão concordando e estão curtindo, é o que importa. E é pra isso que serve (ou deveria servir) o fetichismo. Explorar novas áreas da sexualidade. O que é sexualidade sem consentimento e prazer?

Sim, quando falo que tudo pode, é tudo mesmo. Incluindo aquelas coisas que muita gente acha nojenta ou problemática. Coisas que acho que não preciso citar. O que é feito entre quatro paredes e entre um conjunto (um casal, um trisal, um bacanal, etc) é problema dessas pessoas, e um grande espaço onde a imaginação se expande a favor delas, sem julgamentos ou moralismos. É um espaço onde a própria opressão pode ser subvertida e transformada num ato de prazer, ou onde aqueles desejos considerados errados pelas sociedades belas e recatas podem ser realizados dignamente.

E, só pra lubrificar as ideias aqui, o fetichismo não envolve parafilias com seres incapazes de consentir, como o trio pedo-necro-zoo. Além disso, e pra finalizar, se um desejo seu te faz algum mal e também causa mal aes outres, o fetichismo ou o meio fetichista não vão te ajudar. Busque ajuda psicológica.

“Ah, mas eu vi uma pessoa dizendo que gosta de ser objetificada/hipersexualizada.”

Bem, isso é uma questão controversa. Fiquei refletindo sobre isso por um bom tempo. Acabei, então, comparando essa situação com dois fetiches: exibicionismo e submissão. O exibicionismo consiste na pessoa em se mostrar, tendo prazer apenas com isso, ou, também, tendo prazer em despertar desejos alheios. Não seria isso uma forma dessa pessoa de estar sendo hipersexualizada? A submissão envolve jogos e fantasias, muitas vezes envolvendo a pessoa simular ser uma coisa que só existe para o prazer alheio. Isso não seria a pessoa estar consentindo em ser objetificada? Se ambos os fetiches estão errados, logo, alguém que diz gostar de ser objetificade/hipersexualizade está errade. Porém, se nesse mundo de imaginação tudo é permitido desde que haja consentimento e prazer mútuos, por que uma pessoa desejar isso deveria ser errado?

Caímos quase numa questão filosófica. Mas eu também não sei se deveria ser, pois não acho que temos o direito de medir por nossas réguas se o prazer da outra pessoa é problemático, isso quando o mesmo lhe faz bem e não está ferindo nem a ela nem ninguém.

“E pessoas do mesmo grupo marginalizado podem cometer essas coisas entre si?”

Sim, da mesma forma que pessoas marginalizadas podem reproduzir suas respectivas opressões. Acontece. E por isso precisamos espalhar informações e abrir diálogos, mesma coisa que fazemos com demais questões estruturais.

“E como sei que estou objetificando ou hipersexualizando alguém?”

Se uma pessoa ou um grupo te disserem que você está cometendo essas ações, no mínimo, você deve refletir sobre isso. Ninguém fica incomodade ou desconfortável sem motivo. E isso vale pra qualquer ume, incluindo ume parceire de longa data.

Caso não tenha ninguém para te dizer algo, pense nas seguintes questões:

– Estou reduzindo alguém a determinada(s) característica(s) visando apenas meu próprio prazer?

– Estou colocando meu prazer em primeiro lugar sem pensar na outra pessoa?

– Estou colocando expectativas sem fundamento naquele corpo apenas por ele ser o que é?

Se a resposta for sim pra qualquer uma dessas perguntas, sim, isso é uma fetichização, e você deve repensar sobre isso.

Se a resposta for não, e você demonstra uma admiração genuína por certos corpos marginalizados, isso não é um problema. Você pode amar corpos marginalizados sem cair em fetichização. Você pode apreciar a beleza de um corpo negro, trans, gordo, etc. Apenas não espere que pessoas desses grupos te correspondam, ou fique buscando afeto apenas desses grupos (isso vai parecer chasing).

“Relações centradas entre esses grupos não podem cair nessas coisas?”

Talvez. Depende do caso, depende da intenção.

Relações centradas são uma resposta a uma estrutura opressiva que limita ou mesmo anula as possibilidades afetivas de um grupo. Por isso o grupo reage ficando apenas entre si. Justo, não? Muita gente também, por causa de traumas e um longo histórico negativo, acabam preferindo o próprio grupo do que “arriscar” outras relações. É um direito delas.

Agora, antes de apostar nas relações centradas, se façam aquelas perguntinhas, em especial a pergunta sobre colocar expectativas. E, como já disse, pessoas de um grupo marginalizado podem reproduzir ações de objetificação e hipersexualização. Se for o caso, não é uma relação centrada, apenas reprodução de ações opressivas.

“Mas, afinal, o que fetichistas sofrem de discriminação?”

Historicamente, formas não-normativas de sexualidade foram perseguidas, tendo o aval das famigeradas instituições sociais que sempre sustentarem as estruturas opressivas: religião, ciência e lei (nessa ordem). Isso não se refere apenas à heterodissidência, mas também aos fetichismos (e outros comportamentos, como masturbação).

Essa marginalização acabou aproximando corpos dissidentes dos fetichismos. O meio fetichista nasceu entre pessoas gays, lésbicas, multissexuais, inconformes de gênero, trans, não-mono, etc. Tanto que, por isso, o segmento queer engloba também es fetichistas (sim, isso inclui as pessoas peri-cis-hétero, superem logo isso), muito embora existam movimentos fetichistas próprios; que acabam sendo primos de movimentos LGBTQIAPN+.

E, apesar disso, vocês acreditam que o sistema teve a pachorra de se apropriar dos fetichismos, transformando-os num “luxo” para homens cis hétero brancos? Se quando você pensa em fetiche te vem a imagem clássica de uma dominatrix toda padrão que está lá para servir a um homem, parabéns, sua ideia de fetiche foi cooptada e distorcida com sucesso.

Apesar dos avanços sociais, fetichismos seguem sendo tabus na sociedade num geral. Discursos de ódio são bem comuns, sempre os associando a crimes e transtornos e similares; frequentemente, isso acompanha também outras ações opressivas (capacitismo, heterossexismo, cissexismo, misoginia, etc). É comum pessoas esconderem seus fetiches por causa de julgamentos, moralismos, reações de escárnio, nojo, enfim. A discriminação chega a atingir relações familiares e amorosas, podendo acabar em divórcios. Consultórios clínicos ainda tratam fetiches dentro de visões arcaicas patologizantes, apesar de BDSM ter saído do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em 2013. Recentemente foi lançado um manual sobre fetiches para profissionais da saúde, e deixarei uma versão traduzida no fim do texto.

Exatamente por tudo isso que existe o termo fetichemisia (cunhado por mim, mas na verdade é apenas uma adaptação de kinkphobia). Embora haja controvérsias sobre “fetichista” ser ou não uma identidade política, ainda é um descritor de um grupo, e de um grupo sujeito a opressões oriundas de normas sexuais. Aliás, existe uma grande conexão entre fetichemisia e heteronormatividade.

Fetichismo já tem uma imagem negativa, e a mídia também não coopera para melhorar isso. Temos o exemplo clássico daquele livro que tem um personagem fetichista, mas muito problemático, e muita gente combinou críticas a sua personalidade com o fetichismo presente na história. Entendam de uma vez: pessoas podem ser abusivas, sendo fetichistas ou não. Isso está relacionado ao caráter, não à sexualidade. Esse tipo de generalização é desonesta e praticamente a mesma coisa que conservadories fazem com pessoas heterodissidentes.

Enfim, acredito que isso era tudo que eu podia falar do assunto, e falar sem tabus e visando elucidar um tema ainda obscuro e cercado de preconceitos.

Se estamos falando tanto de liberdade sexual, deveríamos incluir também os fetiches. Se não deveríamos ter vergonha de uma orientação sexual, o mesmo deveria valer para os fetiches. Precisamos de mais positividade aes fetichistas, e menos julgamentos e discriminações.

Saibam do que estão falando, cuidado para não caírem em objetificações e hipersexualizações, e curtam suas sexualidades de maneira saudável e explorando os horizontes que quiserem.

Créditos a Fernanda Fedatto pela tradução.

Nota: juro pra vocês, descobri hoje mesmo que hoje, por uma grande coincidência, é o Dia Internacional do BDSM! Parece até uma piada do Universo com minha cara haha. Enfim, bom saber que estou postando esse texto num dia tão propício!

Links adicionais:

Como o BDSM pode te ajudar em seu relacionamento

O que é parafilia e fetichismo?

O discurso dos perversos: praticantes de BDSM em busca de legitimação (aviso de conteúdo: discurso médico patologizante contra fetiches e heterodissidência)

O Lado Ruim do BDSM (aviso de conteúdo: abuso, misoginia)