Sobre ser queer no Brasil

Aviso de conteúdo: discursos anti-queer, assimilacionismo, respeitabilidade, contém links externos.

Este é um texto tanto pessoal quanto uma abordagem de um tema específico, que acredito que pode contemplar a realidade de outres queers brasileires. Vou falar sobre os argumentos contra a identidade queer no Brasil, e meus motivos para adotar essa identidade. E espero que isso possa validar outras pessoas queer por aqui.

Antes de tudo, vou ressaltar que aqui estou falando de queer enquanto uma identidade mesmo, não um termo guarda-chuva ou um descritor de qualquer pessoa fora da diciseteronorma.

Vou começar dizendo que reconheço que queer não tem aqui no Brasil a mesma popularidade que outras identidades, como gay, lésbica, bi, trans, etc. Porém, isso não é motivo para não usar, e nada realmente impede a existência de queers no país. E, com vou explicar mais pra frente, queer é mais do que uma simples identidade. Quem de repente já teve contato com o termo Teoria Queer, talvez tenha uma ideia da dimensão que queer consegue tomar por si só.

Quando há posicionamentos contra pessoas brasileiras se identificarem como queer, eles costumam girar em torno do fato de queer ser algo de fora. Assim, eu aceitaria essa argumentação de pessoas de identidades exclusivas do Brasil, ou ao menos cunhadas aqui. Porque com exceção de travesti, viado, bicha, sapatão, e talvez mais um ou outro termo, todo o resto foi importado de fora, em sua forma original ou traduzida/adaptada. Aliás, é simplesmente ridículo pessoas gays invalidando queer por vir de fora.

Eu aprecio e incentivo o pensamento de valorizarmos as identidades de nosso país. Não por patriotismo, longe disso; até porque as identidades daqui são subversivas, e nascidas da violência dessa tal “pátria amada”. Nosso contexto que é importante. Nossas perspectivas de gênero e sexualidade são importantes. Travesti é uma identidade de gênero nascida no Brasil e exclusiva da América Latina, por exemplo; tendo tanto valor quanto identidades de gênero exclusivas de outras culturas.

Minha questão aqui é que nada do que tem aqui me descreve ou contempla minhas experiências e perspectivas, nem mesmo a palavra viado, da qual já fui chamade algumas vezes. Até gosto de me dizer viade, às vezes. Mas não chega ao mesmo nível que queer e as demais identidades que uso.

Uma coisa que o ativismo dissidente do Brasil falhou em fazer foi justamente criar um termo guarda-chuva ou geral para todas as pessoas fora das normas. Não temos um equivalente de queer. Temos coisas próximas, como transviado. Mas até o que já tivemos de próximo acabou ganhando outros significados em outros contextos. Assim, se existisse real preocupação com um termo que definisse a pessoa apenas como dissidente, sem especificar mais nada, uma palavra coringa para alguém que não seja perissexo e/ou cis e/ou hétero, então haveria esforços para cunhar algo. E não há, apenas críticas e a ausência de uma solução.

Se amanhã mesmo cunhassem um equivalente brasileiro/lusófono/latinoamericano de queer, eu adotaria no mesmo dia (junto com queer, porque não vejo motivo pra largar). Enquanto não há isso, sigo usando queer.

Vocês podem encontrar por aí gente dizendo que queer “não tem materialidade no Brasil”. Essa palavra aí, materialidade, ganhou uma popularidade esquisita de uns tempos pra cá. Eu a vejo com frequência em discursos invalidando alguma coisa, em especial microcomunidades. Em vez das pessoas falarem “não concordo com o uso desse termo” ou “não acho que isso exista”, agora optaram por algo mais bonitinho e acadêmico: “não tem materialidade”. Isso significa basicamente que queer não faz sentido em nosso contexto, ou mesmo que não tem como existir no Brasil.

A questão é que… já existem pessoas queer no Brasil, sendo queer no contexto brasileiro. Cá estou eu, queer e brasileire, escrevendo um texto sobre isso!

O argumento da materialidade às vezes até parece fazer sentido, na verdade. Mas não faz tanto assim, e ainda menos nesse contexto atual de globalização. Queer já saiu há décadas do contexto estadunidense e até mesmo da academia. Já se espalhou pelo mundo. Como não tem e nunca teve pretensão de ser algo exclusivamente estadunidense ou anglófono, não está proibido de se usar fora dos EUA e da anglosfera. E a proposta de queer é justamente descrever qualquer pessoa minimamente deslocada das normas vigentes de gênero e sexualidade, indo mais além do que identidade de gênero e orientação. Queer não exclui; pelo contrário, inclui. Queer valida todo mundo contra essas normas. Queer pode ser apenas o sentimento de rejeição às imposições e regras.

Além disso, espaços queer, na minha experiência, são os mais diversos possíveis. São espaços com pessoas de gerações diferentes, corporalidades diferentes, etnias diferentes, e muito mais; não apenas um lugar pra quem não é perissexo e/ou cis e/ou hétero, e focado apenas nessas questões. São interseccionais, logo são abrangentes, repletos de muitas perspectivas e histórias e vivências. É uma diversidade linda, me faz bem, faz eu me sentir alguém no mundo. Como não amar isso? Como não querer isso pra mim? Como não me identificar com tal coisa?

Uma pena que aqui no Brasil não temos esse tipo de espaços. Mas existem propostas sendo construídas, sendo uma delas a própria instância Colorides da rede social Mastodon. Ainda tem pouquíssima gente na instância, e Mastodon ainda não fez a fama que merece no Brasil. Mas está aí. É um espaço queer brasileiro. Tem a proposta da mesma diversidade que vejo nos outros espaços. Existem pessoas tentando ao menos trazer esse mesmo espírito que queer traz, e acho que precisamos muito mais disso do que apenas adotar o termo de forma vazia ou mesmo cooptada (coisa que às vezes vejo por aí).

É um tanto deprimente perceber sentimentos anti-queer vindo de figuras públicas e ativistas da comunidade, ainda mais pessoas que galgaram seu caminho até espaços de poder, como a própria academia, e agora os usam para invalidações. E para quê? Para agradar a quem ou qual narrativa? Às vezes quero pensar que é ignorância em relação ao tema (por mais que essas pessoas devessem se informar antes de se pronunciar, né), mas fica cada vez mais difícil de não acreditar que isso não possa ser por assimilacionismo (e sendo contra uma identidade antiassimilacionista não é coincidência) e respeitabilidade (porque, bem, queer é totalmente antinorma e isso incomoda aquelus que querem um pouquinho de aceitação da sociedade). Já tive até contato com uma pessoinha aí de um partido que falou na minha cara que ela e outras pessoas trans binárias barram qualquer projeto de lei apenas por ter a palavra queer.

Infelizmente, muito do exclusionismo anti-queer também foi importado de fora, e incorporado com muitas falácias espalhadas por aí. Quem teve contato com muitas retóricas de feminismo radical ou de transmedicalismo, por exemplo, tem altas chances de ter visto queer sendo colocado como um monstro, um desserviço contra mulheres e “as verdadeiras pessoas trans”. Já comentei em outro texto gente até colocando queer junto com pedófiles.

Entendo que queer é uma palavra nova e desconhecida pra muita gente, que não está em nossas políticas públicas, e que existe ainda muita intolerância em torno dela, mas, até o momento, é o que me descreve bem enquanto um corpo dissidente. Não vejo sentido também em me apegar ao objetivo de fazer as pessoas entenderem do que estou falando, já que direto preciso explicar o que é não-binárie, polissexual, etc. Queer resume todas as minhas dissidências: meu gênero fora do binário, minha inconformidade de linguagem, minha atração por muitos gêneros, minha não-monogamia, meu fetichismo, minhas perspectivas de gênero e sexualidade, minha simples discordância a tudo pregado e sustentado pelo disciseterossexismo, e também minhas posições contra assimilacionismos e respeitabilidades.

Bem, claro que não preciso da identidade para ser o que sou e pensar da forma que penso. Mas às vezes é bom poder dizer tudo isso e mais um pouco com apenas uma palavra. E não importa quando não me apresento como queer em certos espaços. Porque eu carrego comigo sempre tudo que esse termo traz, e isso também é importante. Queer, para mim, não é apenas uma identidade, mas também filosofia e política. Espero que mais queers brasileires apareçam e possam se expressar, explorar essa palavra como querem, combiná-la com outras identidades (de fora ou não), e mostrar que estamos aqui e existimos.

A não-binaridade de bichas e sapatonas

Aviso de conteúdo: ciseterossexismo, desgenerização, termos pejorativos ressignificados, menciona assimilacionismo e colonialismo.

Muita gente deve ter na cabeça alguma ideia do que é bicha ou sapatão. O senso comum reconhece esses termos apenas como sinônimos (ainda pejorativos) de gay e lésbica.

Assim como ocorreu com queer nos Estados Unidos, corpos dissidentes com alguma consciência ou politizados o suficiente pegaram os termos para si e os ressignificaram; de ofensas a palavras que carregam orgulho e resistência.

Para algumas pessoas continuam sendo sinônimos do que já são; gays ou lésbicas. Contudo, há pessoas multi que também fazem uso dessas palavras, ampliando seu significado.

Para outras pessoas, essas palavras são mais do que isso: são identidades!

Enquanto há homens e mulheres se reafirmando gays/lésbicas ou multi, há outros corpos se reafirmando apenas como bichas e sapatonas. E só.

O que pode causar estranheza e atrair opiniões discordantes, visto que, em meio a esse turbilhão de novas informações e formulações de conceitos, muita gente dos movimentos sociais se empenhou muito em colocar gênero e orientação como aspectos separados, e não está disposta a aceitar identidades que os misturem.

Como tudo na vida, nada é absoluto. Nem todos os corpos desejam manter esse separatismo tão estrito; pois, para eles, não serve e não faz sentido.

Existem contextos sociais diferentes, recortes diferentes, experiências de vida diferentes. Não é por um acaso que essas identidades são tão presentes nas regiões periféricas; locais onde tanta informação e tão lindamente catalogada muitas vezes nem chega em sua totalidade, ou não consegue ter o mesmo valor e impacto.

Para muita gente desde sempre dissidente, desde sempre dando sinais de estar fora das (cis)(hetero)normas,” homem” e “mulher” devem ter perdido o sentido à medida que tais termos foram negados a esses corpos. Muitos desses corpos nunca foram tratados como homem ou mulher, apenas como “coisas”, como só bicha e sapatão. Muitos desses corpos não puderem se dizer homem ou mulher, apesar da designação de gênero.

Em meio a contextos em que concepções formuladas pela academia não chegam, e onde as pessoas não são nem permitidas de ser homem ou mulher, não é nada absurdo que os corpos procurem outras palavras para se nomear e assim ter uma posição na sociedade, no mundo; dar um sentido ao que são, a sua existência. E os nomes surgiram: bicha e sapatão.

E o que tudo isso tem a ver com a tal da não-binaridade de gênero? Bem, acredito que até aqui é um pouco evidente. Mas me explicarei melhor.

As identidades bicha e sapatão sempre estiveram mais próximas da não-binaridade do que do binômio de gênero. Afirmar-se homem ou mulher heterodissidente é diferente de ser bicha ou sapatão. Afirmar-se ainda homem e mulher fora da heteronorma têm suas lutas e demandas, com certeza; mas, ainda assim, estão se posicionando dentro de um binário imposto e vigente. E ser binárie tem seus privilégios.

Mas afirmar-se bicha e sapatão é negar até mesmo uma posição dentro desse binário. É colocar-se fora da própria cisnorma.

Existe uma força incrível e uma beleza incomparável numa identidade que combina gênero e orientação, que torna essas características unas; ambas unidas contra a cisnorma e a heteronorma (ou melhor, a ciseteronorma). É uma pena que assimilacionistas não percebam isso.

Muitas pessoas bichas e sapatonas avançaram com suas demandas e seus posicionamentos políticos dentro do território da não-binaridade sem nem saberem sobre esse conceito. E a não-binaridade sempre esteve e continua estando aqui para acolher e fortalecer esses corpos fora das caixinhas homem-mulher.

E eles não precisam tanto assim se encaixar numa das consagradas letrinhas de alguma sigla do movimento. Não é necessário outro B ou um S (que não é mais de simpatizante). O identitarismo dessas dissidências vai mais além disso, trazendo junto marcas fortes de raça e classe. Sua movimentação sempre seguiu por fora de movimentos convencionais. E assim continuará, se necessário (tem muita gente fora dos movimentos convencionais, acreditem).

Ainda faço uma ressalva especial aos corpos racializados que são bichas/sapatonas; que, mesmo sem saber, estão fazendo um resgate histórico; pois o binômio de gênero é um regime de origem eurocêntrica, e como tal foi imposto a todas as culturas ameríndias, asiáticas e africanas que aceitavam mais de dois gêneros ou outros gêneros além de homem e mulher (que também possuíam concepções diferentes das atuais).

Embora não tenhamos um equivalente próprio de queer no país, bichas e sapatonas têm muito de uma essência queer em si; desde a autoidentificação até suas ações.

Se queer for “gringo” demais e se espaços G e L falharem em incluir esses corpos, o meio não-binário ao menos estará sempre aqui para apoiá-los. No meio não-binário não somos e nunca seremos hétero; e muites de nós já somos (total ou parcialmente) ou um dia fomos apenas bichas e sapatões. Assim como também transviades, fanchas, travesti-macho, e mais.

E concluo dizendo que bichas e sapatonas e pessoas não-binárias num geral têm muito em comum e deveriam somar forças. E uma união assim é algo que podemos muito bem dizer que se compara ao que queer trouxe na anglosfera: uma filosofia antiassimilacionista e permanentemente contranormativa, indo na contracorrente até dos próprios movimentos convencionais com suas novas imposições de ser e agir.