O que torna um termo válido?

Aviso de conteúdo: citações de ações e situações variadas que sejam opressivas, criminosas, perigosas, e similares; exemplos de discursos exclusionistas; contém links externos.

Este é um texto que busca explicar quais são os critérios usados para avaliar quais termos podem ser válidos ou minimamente aceitáveis, e quais podem ser nocivos ou irreais. Ainda assim, existe uma área cinza entre esses grupos, e outras nuances serão abordadas junto com ela. Os termos aos quais me refiro aqui são especificamente termos relacionados com a comunidade LGBTQIAPN+ e tópicos paralelos a ela.

Isso não é algo tão discutido na lusosfera, ainda mais no contexto brasileiro, mas na anglosfera, principalmente nos meios virtuais, existe uma cultura de cunhagem de inúmeros termos para descrever as mais variadas experiências. Isso é geralmente associado à sigla MOGAI, que era inicialmente uma alternativa a qualquer sigla identitária da comunidade, e, com o tempo tempo, acabou sendo associada a blogues e pessoas que cunham diversos termos (às vezes chamados de “microrrótulos” ou “microidentidades”).

Essa cultura de haver muitas palavras para “tanta coisa” ou “tudo” atrai muitas reações, de positivas a negativas. Enquanto isso deu a oportunidade para pessoas poderem nomear suas próprias experiências e validá-las, também trouxe reacionarismos de dentro da comunidade. Entre esses ataques temos discursos exclusionistas (ditando o que é e o que não é válido se baseando em ideias arbitrárias; e pode se misturar com coisas como assimilacionismo), e temos cunhagens feitas com o propósito evidente de zombar ou manchar a comunidade.

E exclusionismo e cunhagens ruins estão ganhando uma notoriedade crescente aqui na Internet brasileira, embora ainda possam ficar mais em certas bolhas (como nas “militâncias” do Twitter). E não é recente que muitas cunhagens já chegaram nas redes populares, mas como postagens de ódio e chacota em páginas de direita, por exemplo. Como não há discussões elaboradas sobre isso, e muita gente não tem senso crítico algum e acredita em tudo por aí, decidi fazer esse texto como uma tentativa de amenizar esses problemas oferecendo direcionamentos, e esses direcionamentos são para que pessoas comecem a separar melhor o que merece alguma credibilidade e o que não merece, assim como também ampliar mais suas perspectivas sobre experiências de sexo/gênero/orientação/etc.

Espero que depois desse texto saibam analisar com cuidado e bom senso o que encontram por aí na vastidão da Internet. E que possam mudar a perspectiva sobre conteúdos como as listas do saite Orientando (que tem um trabalho incrível e que deveria ser muito mais reconhecido), e entendam a importância de muitos termos. E que ajudem a criar espaços e conteúdos mais inclusivos.

Critérios sobre termos nocivos, perigosos, e opressivos

Se fosse para resumir quais os critérios usados para determinar a validade de um termo, eu diria que qualquer termo que não cometa alguma opressão ou traga problemas para qualquer pessoa ou grupo marginalizado/dissidente. Mas isso não é suficiente. É vago até para quem entende do assunto, e exclusionistas e gente alienada/desinformada podem encontrar nessa descrição opressões e problemas onde nem existem.

Então na lista a seguir terá itens, e se um termo atende a qualquer um deles, ele não é válido de jeito nenhum, podendo ser perigoso ou já sendo em si um ataque à integridade da comunidade.

  • algo que descreva qualquer experiência baseada em ódio ou aversão ou similares a algum grupo marginalizado/dissidente, ou que remeta a uma característica considerada marginalizada/dissidente.

Exemplos: um termo afetivo para “homens que amam homens enquanto desprezam todos os demais gêneros”, ou um gênero “baseado no ódio à feminilidade”.

Nota: existem termos baseados em oposição ou antítese a uma qualidade de gênero, e nada disso implica odiar aquela qualidade. Uma pessoa dizer que sua identidade de gênero não é feminina e que faz oposição ou antítese à feminilidade não é odiar a feminilidade, que é por si só um aspecto cobrado de mulheres e recriminado em outras pessoas.

  • algo que descreva atração e relações ou incentive atos afetivos com seres e indivíduos incapazes de consentir nesses atos.

Exemplos: qualquer orientação que seja direcionada a crianças, animais, pessoas falecidas, pessoas inconscientes, e pessoas em estados mentais alterados por qualquer fator.

Nota: cunhar algo como “atração por plantas” ou “atração por pedras” pode não ser algo inerentemente ruim ou envolver uma vítima, mas isso pode muito bem já existir sob a forma de um fetiche/uma parafilia.

  • algo que descreva atração e relações que objetifiquem ou excluam de alguma grupos marginalizados/dissidentes.

Exemplos: uma orientação para “atração apenas por pessoas racializadas”, ou um termo juvélico para “uma pessoa cis atraída por outras pessoas cis”.

Nota: termos centrados em afetividade entre grupos marginalizados/dissidentes podem ser interpretados dessa forma, mas é uma analogia sem fundamento. Por exemplo, pessoas trans em relações transcentradas, que priorizam relação apenas com outras pessoas trans, não estão objetificando o próprio grupo, e a exclusão de pessoas cis – um grupo privilegiado – pode sr justificada por causa de traumas e violências.

  • algo que descreva uma identificação pessoal em situações problemáticas ou onde a pessoa não tem consciência/plena capacidade de raciocínio.

Exemplos: uma identidade de gênero “sentida somente quando a pessoa é vítima de agressão”, qualquer orientação que existe sob efeito de bebidas e/ou drogas, e um termo para “pessoas que sentem não ter mais um sexo ou ter um sexo nulo quando estão dormindo”.

  • algo que se aproprie de experiências exclusivas de um determinado grupo.

Exemplos: um termo para “homens que são cis e ao mesmo tempo transmasculines“, um termo para “pessoas perissexo que se sentem intersexo por dentro”.

  • algo que procure ressignificar termos consagrados para algo que não condiz nem com a terminologia e nem com o consenso de comunidades e movimentos.

Exemplos: propor ressignificar a orientação bi para “atração por apenas dois gêneros”, propor ressignificar a orientação demi para “uma atração parcial por algum gênero”.

  • algo que seja absurdamente contraditório e entre em conflito com termos já existentes (geralmente consagrados também).

Exemplos: semibissexual (“uma pessoa bissexual, mas atraída por apenas um gênero”), um termo para “uma pessoa trans que se identifique apenas com o gênero designado”.

Apesar de não envolver nada do que foi citado acima, outros critérios de exclusão de termos pode envolver serem vagos demais, terem uma descrição difícil de se entender, ou a mesma descrição ser exatamente a mesma de algum outro termo.

Área cinza

Sim, existem termos que não se encaixam em nada do que foi descrito acima, mas podem ser termos sem propósito ou finalidade, e/ou que descrevem experiências que nem podem ser consideradas marginalizadas/dissidentes. Existem blogues no Tumblr que cunham praticamente qualquer termo por mais absurdo que seja, e algumas pessoas pela Internet também seguem essa linha (talvez por diversão, talvez por ingenuidade, não há como saber).

Aqui eu poderia citar como exemplos: uma orientação para quem tem atração por pessoas vegetarianas/veganas, uma identidade de gênero que existe somente quando a pessoa está viva, um termo afetivo para canhotes que amam outres canhotes, ou uma identidade para pessoas que sentem orgulho de seu genital.

Nada disso é realmente ruim de alguma forma, não deve ser considerado como motivo ou até justificativa para a comunidade receber ódio, e nem deveria ser atacado justamente por ser inofensivo, dispensável. Não gostou do termo? Achou esquisito? Achou zoado? Ignore. Simples.

Termos reapropriados ou ressignificados

Existem termos cunhados com a intenção de zombar da comunidade, mas que ou podem ser reapropriados e ressignificados, principalmente porque descrevem experiências que não são impossíveis de existir.

Alguns termos, em especial xenogêneros, já foram cunhados em blogues de trolls e ainda assim adotados por comunidades não-binárias porque, apesar da intenção inicial, não necessariamente descreviam uma experiência inválida por qualquer motivo. E a partir desses termos a comunidade pode criar outros derivados ou seguindo lógicas parecidas, porque a simples cunhagem de termos também pode ser política e uma resposta contra quem quer atacar a comunidade dessa forma.

Exemplo: um blogue troll cria uma identidade de gênero para pessoas cujo gênero só existe quando a pessoa está com determinadas cores de roupas. Então a comunidade pega isso e cria termos específicos para cada cor.

Termos controversos

Há termos que possuem alguma validade no que se propõem, mas que causam controvérsias por dois motivos:

  • por conter uma descrição problemática de uma experiência conhecida ou já relatada, ou que seja possível de existir.

Exemplo: uma orientação para pessoas que sentem atração pela inteligência de alguém. Enquanto inteligência é um conceito problemático, se a intenção do termo era falar da atração pela afinidade com pensamentos e ideias de alguém, e isso é possível e pode ser descrito dessa forma.

  • por terem condições absurdas, desnecessárias ou impositivas. Essas condições geralmente são um conjunto de linguagem que pessoas daquela identidade devem usar, ou um tipo de aparência ou estética que essas pessoas devem ter o tempo todo.

Exemplo: uma identidade de gênero influenciada por gates, e a pessoa deve ser tratada por miados no lugar de artigos, pronomes, e flexões de gênero. Uma identidade influenciada por um animal é possível (pode ser um exemplo de kingênero), mas ninguém exige esse tratamento.

Fora isso tudo, existem termos que geram discussões por causa de suas implicações mesmo quando descrevem uma experiência possível.

Por exemplo, um termo para pessoas que são cis e trans ao mesmo tempo. Sim, essa experiência é possível, e pode ser interpretada dessa forma por pessoas que: fluem entre o gênero designado e outro(s), ou que possuem o gênero designado junto com outro(s), ou cujo gênero designado muda de intensidade até ser ausente. O que pode gerar controvérsias é uma pessoa se declarando “cis e trans”, pois: a) o sistema não reconhece alguém cis e trans, nem parcialmente cis; e b) isso pode ser facilmente interpretado como um termo feito para atacar a comunidade, para desmoralizar a militância trans.

Nessas situações é recomendável um termo diferenciado que descreva melhor tal experiência, para que assim pessoas possam discutir melhor sobre si e se organizar.

Exclusionismos com termos válidos

Ainda falarei mais sobre exclusionismo. Aqui darei alguns exemplos interessantes e que acabam mostrando como retóricas exclusionistas funcionam.

Termos baseados em traumas são acusados de romantizar traumas, de colocar traumas como positivos, ou de colocar “experiências válidas” no mesmo patamar de doenças. Essas críticas arbitrárias partem da mesma premissa capacitista de quem critica orientações e identidades de gênero influenciadas por neurodivergências: de que experiências com orientação e gênero só podem existir ou ser relevantes dentro do que é considerado normal, saudável e racional – que é uma perspectiva totalmente neurotípica, e que desconsidera a possibilidade de traumas e neurodivergências das pessoas terem alguma relevância em como vivenciam orientação/gênero.

Termos baseados em condições clínicas que podem ser tratadas ou mesmo curadas são acusados de romantizar essas condições, de serem termos desnecessários, e de confundir experiências saudáveis e naturais com coisas que não são. De novo, interpretações unilaterais e um pouco de paternalismo de pessoas que acham que entendem as experiências e perspectivas da outra pessoa melhor que ela mesma, e que se recusam a aceitar que os efeitos daquelas condições pode sim fazer parte de como a pessoa lida e percebe sua atração/identidade de gênero/etc. E se for algo baseado em condições curáveis, então a pessoa deixará de usar aquele termo quando não fizer mais sentido.

Não é de agora que a orientação abro é atacada por meio de interpretações errôneas (intencionais ou não), de acusações de que pessoas fluidas são confusas ou ainda estão se descobrindo, ou por retórica de assimilacionismo bi. E eu já defendi essa orientação nessa postagem aqui.

E até mesmo a orientação poli, que pode ser considerada popular e uma das três orientações multi mais conhecidas (ao lado de bi e pan), é atacada por pessoas que partem de princípios reducionistas de gênero sobre como funcionam as atrações. Porque, segundo elas, todas as pessoas têm apenas duas leituras sociais e todo mundo se atrai por uma ou ambas, e, portanto, atrações só são por um gênero ou por todos os gêneros, e não existem atrações por qualquer quantidade intermediária de gêneros.

Esses podem ser bons exemplos de termos que não se encaixam naqueles itens do primeiro tópico, mas dos quais exclusionistas fazem suas próprias interpretações falaciosas, tendenciosas, ou limitadas, e colocam como termos inválidos por razões que, embora arbitrárias, podem parecer convincentes para pessoas por fora desses assuntos, que possuem conhecimento mínimo ou raso de como funcionam experiências e da diversidade. Cuidado.

No fim das contas, termos surgem e somem, são usados e se tornam obsoletos. Se um termo se tornar inutilizável, não for usado por ninguém, ou mostrar que não tem qualquer aplicação, ele será apenas esquecido. Não há por que recriminar uma cunhagem nessas condições, pois é natural que palavras apareçam e depois, por quaisquer motivos, não sejam necessárias.

Caso também algum termo cause dúvidas ou estranhamento, recomendo se comunicar com a pessoa, pois ela pode dar uma explicação melhor do que especulações alheias ou achismos. A própria pessoa sabe seus motivos para adotar determinado termo, entendam isso.

Espero que esse texto tenha ajudado. Validem experiências, não ataquem termos que nada agregam ou não fazem mal algum, e se posicionem contra os termos realmente problemáticos e que ferem outras pessoas.

Outerinidade

Aviso de conteúdo: contém links externos.

Este é outro conceito formulado por mim em meio a pesquisas e reflexões minhas sobre gênero. Isso foi em 2018, e a postagem onde citei o termo pela primeira vez é essa.

Dentro desse tema, existem quatro grandes projeções/arquétipos/essências/qualidades usades para explicar e/ou definir identidades de gênero, expressões de gênero, e experiências relacionadas a gênero. Elus são: feminine, masculine, neutre e andrógine. Ou seja, aqui temos quatro conceitos: feminilidade, masculinidade, neutralidade e androginidade. Além desses, podemos incluir a nulidade (a ausência de gênero) e a xeninidade (concepções de gênero totalmente fora de lógicas e ideias humanas ou convencionais).

Pois bem. Apesar disso tudo, dentro do que sei e entendo, percebi que faltava ainda mais um conceito, um conceito que pudesse englobar o que não era feminine, masculine, neutre, andrógine, mas que não era também nule, nem xenine.

Já existe na anglosfera esse mesmo conceito, mas com um nome derivado de duas identidades de gênero: maverique e aporagênero. Eu quis cunhar um novo nome e conceito por motivos de: não queria algo que remetesse a essas identidades específicas e suas definições, não queria algo que implicasse ter relação com identidades criadas num contexto ocidental, e queria uma palavra nova e mais abrangente sem controvérsias.

Pensei e pensei, e me veio outerine; consequentemente, o adjetivo outerinidade.

Antes de tudo, ressalto que outerine não é xenine, pois ainda é uma concepção que existe dentro de lógicas e ideias humanas e convencionais. É apenas tudo que preenche um vácuo deixado entre os quatro conceitos “principais”, e que também é algo presente (ou seja, não é nule). E não é apenas ume quinte (ou sétime) projeção/arquétipo/essência/qualidade. Outerine engloba tudo que ainda não tem um nome, e que não pode ser explicado apenas pelos conceitos que já existem.

Costumo fazer analogias com cores quando vou falar desses assuntos. Vou colocar dessa forma: se feminine é rosa, masculine é azul, neutre é cinza, andrógine é roxo, e nule é transparente, outerine seria amarelo, verde, laranja, etc. Poderia até ser as cores que humanes não conseguem ver, como infravermelho e ultravioleta. E xenine? Bem, pode até ter todas as cores possíveis, mas é um conceito que vai muito além disso.

Tudo isso é extremamente subjetivo, mas ainda coisas que podemos imaginar, mentalizar, experienciar, ou sentir de alguma forma. Portanto, outerinidade fará mais sentido para quem consegue se encaixar de alguma forma nesse conceito.

Enfim. Explicando com exemplos mais concretos, outerine pode ser algo:

  • totalmente único e sem relação nenhuma com os conceitos anteriores; ou
  • que, embora seja único, pode ainda ser comparado com os conceitos anteriores; ou
  • novo que surge de combinações entre dois ou todos os conceitos anteriores.

Vou dar exemplos de identidades que são ou podem ser outerinas e explicar cada um:

Maverique: dentro de seu conceito, outerine faz todo sentido.

Aporagênero: dentro de seu conceito, outerine faz sentido, embora pessoas não precisem se encaixar estritamente na definição.

Egogênero: um gênero único e exclusivo da própria pessoa pode ser outerino.

Antigênero: a “qualidade oposta” de um gênero pode ser outerina, visto que a ideia de oposto aqui não é algo como “feminine-masculine”.

Intergênero: um gênero influenciado por intersexualidade pode ser outerino, se qualquer outro conceito não se aplicar aqui.

Neurogênero: um gênero influenciado por neurodivergência pode ser outerino, se não for xenino e não puder ser explicado por nenhum outro conceito.

– Qualquer identidade indefinida/desconhecida/incompreensível: se nada do que já existe consegue descrevê-la, talvez outerine consiga ou possa servir.

– Qualquer identidade com definições muito amplas: alguém que se define apenas como não-binárie, ou genderqueer, ou homem não-binárie/mulher não-binárie, e etc pode talvez explicar sua identidade como outerina.

Identidades culturalmente restritas: se e somente se a pessoa acreditar que todos os conceitos já mencionados não se aplicam à sua identidade, e deseja um conceito para se descrever.

Com certeza poderia haver outros exemplos, mas acredito que até aqui está evidente quais identidades de gênero são ou podem ser outerinas por natureza.

Ressaltando que outerine não é algo apenas para identidades. Pessoas também podem definir sua expressão de gênero como outerina, ou dizer que seu gênero tem alguma conexão com outerinidade, enfim.

Ah, e só de curiosidade, um ano depois de eu formular esse conceito acabei descobrindo que o mesmo serve para descrever minha própria identidade de gênero. Coisas da vida, né?

Acredito que isso é tudo que eu poderia explicar sobre o conceito de outerinidade.