Neolinguagem

(Atualização em 29 de junho de 2021)


Aqui explicarei em detalhes sobre como usar a neolinguagem e outros tópicos relacionados com linguagem. Em certas partes apresentarei conceitos usados na gramática, como artigo definido e classes de pronomes. Isso pode não ser tão interessante, mas peço que mantenha o foco, pois toda informação aqui é relevante. É uma postagem longa, por isso recomendo que leia com calma e dentro do seu tempo.

O que é?

A neolinguagem é uma proposta de criar e implementar uma alternativa linguística de natureza neutra ou sem associação com gêneros para assim incluir mulheres e pessoas não-binárias/cisdissidentes, assim como também incluir mais possibilidades e opções de linguagens pessoais e de palavras e denominações próprias.

Existem raríssimos registros de postagens na Internet utilizando @ (arroba) e X antes da década de 2010 para neutralizar palavras. Até existiram propostas incluindo outros elementos, como a letra æ, e dando ideias de pronúncias (arroba como ó, e æ como é). Essa proposta se consolidou mais a partir da década de 2010, começando com a popularização de palavras neutralizadas com arroba ou xis em páginas e espaços de justiça social ou que ao menos mostravam apoio às pautas identitárias. O xis já tinha uma premissa de incluir pessoas não-binárias, embora muita gente nem sabia sobre elas e pensava apenas na inclusão de mulheres. Frequentemente, o arroba é pensado apenas nos gêneros binários, sendo associado a uma mistura de O e A. Atualmente a proposta se atualizou e se expandiu, saindo do “nicho” virtual e aparecendo em comercial, numa caixa de suco, até em instituição de ensino e em projetos de lei (embora contrários). Uma proposta de um novo gênero gramatical, um “neutro”, está em desenvolvimento.

A língua portuguesa, assim como outras, possui em sua estruturação reflexos do patriarcado; o gênero gramatical masculino é usado como neutro ou indefinido e para pluralidade de todos os gêneros. Um exemplo clássico: dois homens são eles, duas mulheres são elas, um homem e uma mulher são eles. Isso se deve ao processo histórico de transformação do latim para a língua atual, onde o gênero gramatical “neutro” do latim acabou sendo em sua maior parte assimilado ao gênero gramatical “masculino”. Alguns resquícios desse gênero podem ser encontrados em palavras como isto, isso, aquilo.

Na própria estruturação da língua (e isso é característico de muitas outras línguas) existe um binarismo forte que separa tudo que existe em apenas dois gêneros gramaticais: feminino e masculino. Morfologicamente, o gênero “masculino” é entendido como ausência de gênero, enquanto o gênero “feminino” é o único gênero marcado.

A questão do gênero gramatical “masculino” sendo genérico não é um problema morfológico, e sim um problema sociolinguístico. Quando a língua se mistura à sociedade, ela cria e molda conscientes e inconscientes, e a língua não está isenta de refletir premissas políticas e ideológicas. Colocar o gênero “masculino” na posição de gênero padrão e universal nos mostra como a construção da língua teve um viés patriarcal, centralizado na figura do homem.

Com certeza a neolinguagem não é a solução definitiva e nem uma grande solução às questões de misoginia e exorsexismo. Aliás, ninguém está defendendo isso. Ainda assim, é muito melhor ao menos propor uma alternativa linguística que contemple dois grupos marginalizados dentro do próprio idioma do que não fazer nada, como se fosse possível ignorar que a língua também pode ser um instrumento de opressão.

Considerando que o objetivo principal de uma língua é a comunicação, devemos nos preocupar com questões de exclusão e desigualdade; pois idiomas não estão acima das pessoas, e não existimos em função deles. E também com questões éticas, já que existe um vácuo entre nossa língua e línguas com pronomes gramaticalmente neutros; e tal vácuo deveria ser preenchido com uma proposta que vise respeitar a individualidade daquelus que usam para si pronomes gramaticalmente neutros.

Fazendo uma grande ressalva antes de prosseguir: a proposta foi feita pensando em pessoas da espécie homo sapiens. Não há intenção de alterar os gêneros gramaticais já definidos de coisas e objetos. A mesa continua sendo a mesa, o som continua sendo o som, e assim por diante. Porém, a proposta se estenderá coerentemente para outras espécies diferenciadas por sexo/gênero pela mesma lógica aplicada aes homo sapiens, e para coisas e objetos somente em circunstâncias em que as normas gramaticais de gênero também lhe são aplicadas.

Essa proposta não é perfeita e ainda está em construção. Há muitas nuances que precisam ser amplamente discutidas, e que necessitam tanto de perspectivas de estudioses da língua quanto da população geral. Portanto, informações aqui podem mudar ou ser atualizadas a qualquer momento. Pessoas dispostas a ajudar e com ideias que acrescentem são sempre bem-vindas. A neolinguagem não é monopólio de ninguém e todes podem contribuir, especialmente com palavras novas.

Linguagem Neutra ou Linguagem Não-binária?

Não é coerente ou adequado chamar neolinguagem apenas de “linguagem neutra” ou “linguagem não-binária”, duas terminologias que são usadas por certas pessoas e fontes para explicar a neolinguagem. Isso porque:

A) a proposta não é apenas criar uma alternativa gramatical neutra, mas também incluir outras linguagens e possibilidades, como vários pronomes. Mesmo havendo a proposta de um pronome neutro universal, não há qualquer intenção de impor apenas três gêneros gramaticais a todas as pessoas. Além disso, dizer só “linguagem neutra” é vago e pode se referir à sintaxe neutra ou outra proposta de linguagem “inclusiva” (como, por exemplo, o uso de ambos gêneros gramaticais normativos, algo comum em meios progressistas).

B) a proposta não diz respeito apenas a pessoas não-binárias, mas também a mulheres e qualquer outro grupo inconforme com o sistema binário de sexo-gênero. E chamar a nova linguagem de não-binária pode passar a ideia de que só pessoas não-binárias podem acessá-la, sendo que qualquer pessoa pode adotar a linguagem que quiser – e isso inclui pessoas binárias usando neolinguagem pra si. Porém, ainda é possível que se use esse termo para falar de toda linguagem que não associe uma binaridade de gênero às pessoas, o que pode até incluir a própria sintaxe neutra.

É até compreensível usar tais definições para facilitar a explicação para pessoas mais leigas. Mas é sempre importante divulgar termos mais precisos. Faz parte do processo de educação.

Como neolinguagem é um descritor que faz sentido no contexto atual, onde é uma linguagem nova, o termo cairá em desuso futuramente ou precisará ser modificado.

Feminino Universal

Há pessoas que propõem o uso do “Feminino Universal” como uma linguagem fora da norma. Então, em vez de usar o gênero gramatical masculino como neutro, usaria-se o feminino; um grupo de homens e mulheres seria referido como elas, por exemplo.

Proposta válida como um ataque ao patriarcado e uma crítica à estruturação atual da língua portuguesa. Mas não engloba pessoas não-binárias que não utilizam o conjunto de linguagem a/ela/a. E não resolve o problema da estrutura binária da língua que limita as possibilidades de pronomes, flexões, marcadores de gênero, etc.

Sintaxe neutra

Existe a possibilidade de uma linguagem mais inclusiva dentro da própria língua padrão. Eu prefiro chamar essa via de sintaxe neutra. Através dela formamos enunciados que não denotem diretamente o gênero de alguém (pelo menos não de uma forma exorsexista), ou que utilizem palavras mais inclusivas e abrangentes que contornem a norma de usar o gênero masculino como padrão/geral (pessoa, indivíduo, juventude, corpo docente, etc).

Ainda há desconhecimento sobre isso, mesmo que as pessoas usem ocasionalmente a sintaxe neutra sem perceber. Linguagem neutra é um termo vago. Dentro da norma, o gênero gramatical masculino é usado como neutro. Há pessoas que usam ambos gêneros gramaticais numa tentativa (falha) de serem inclusivas (eles/elas, todas e todos, menino/as). Por isso é importante explicar melhor sobre a sintaxe neutra.

Porém, a sintaxe neutra não deve ser usada para desconsiderar a neolinguagem; pois, além de não desconsiderar, também pode conviver com ela e complementar a inclusão de pessoas. Apenas ela não resolve todo o problema gerado pela limitação da estrutura binária, e continua impossibilitando a existência de mais opções de linguagem pessoal. É muita ingenuidade ou puro descaso achar que pessoas que não desejam usar nem o/ele/o ou a/ela/a devem se conformar com estar sempre reformulando frases e evitando marcadores, assim permanecendo numa eterna indefinição de gênero (o que é estigmatizante para a própria não-binaridade).

A sintaxe neutra ainda é bem válida e incentivo muito seu uso também. Inclusive a utilizo junto com a neolinguagem. E pensando em pessoas que usam o conjunto de linguagem -/-/- (ou seja, sem nenhum elemento de linguagem), ela se torna a opção de linguagem dessas pessoas. Estudar e praticar a sintaxe neutra é importante e deixo um manual sobre ela aqui.

Sistema APF

Antes de tudo devo creditar Aster, administradore do site Orientando, por ter elaborado esse modelo de linguagem considerando os aspectos linguísticos do português.

Os conjuntos de linguagem, tanto individuais quanto o universal, serão descritos seguindo o que podemos chamar de sistema APF; que significa artigo, pronome e flexão (ou final de palavra). Esses são os três elementos principais de uma linguagem.

Artigo: falando do artigo definido, como assim é chamado gramaticalmente, é o elemento que vem antes de um nome ou substantivo/adjetivo. Exemplos: o João, a menina. Os artigos definidos impostos pela língua padrão são o e a.

— E aqui também se inclui as contrações dos artigos com certas preposições: a (ao/à), de (do/da), em (no/na), para (pro/pra), e por (pelo/pela).

Pronome: falando de pronome pessoal reto da terceira pessoa, como assim é classificado, é a palavra usada para se referir a alguém ou algo sem repetir nomes ou denominações. Exemplo: “Mario estava andando na rua, até que ele parou para descansar”. Os pronomes pessoais impostos pela língua padrão são ele e ela.

— A partir dos pronomes pessoais se formam contrações e alguns pronomes demonstrativos. As contrações com as preposições de e em formam, respectivamente; dele, dela e nele, nela. E os pronomes demonstrativos são aquele e aquela (e possuem as mesmas contrações).

Flexão: é o final de toda palavra – substantivos e adjetivos – que denota um “gênero gramatical”. A língua padrão impõe apenas duas flexões, “masculina” e “feminina”. Na maioria das palavras são as flexões –o e –a (exemplos: menino e menina, lindo e linda), mas há outras flexões binárias, como nos casos de professor, professora e presidente, presidenta.

Fazendo um adendo sobre os pronomes pessoais oblíquos átonos – me, te, se, o, a, lhe etc –, os pronomes o(s) e a(s) nesse caso seguem a mesma lógica de flexões. E verbos terminados em -r, -s e -z, quando flexionados com –lo e –la (que são derivados dos pronomes pessoais), também seguem essa mesma a lógica. Mesma coisa com –no e –na, que acompanham verbos conjugados que terminam em som nasal (viram, tem, etc). Exemplos: “eu e convidei”, “convide-e”, “vou convidá-le”, “convidaram-ne”.

Resumindo, os conjuntos validados pela língua padrão são o/ele/-o e a/ela/-a, que são impostos como linguagem masculina/de homem e linguagem feminina/de mulher e de acordo com o gênero designado (ou fenótipo sexual cientificamente falando). Junto com esses conjuntos vêm uma série de marcadores de gênero correspondentes.

Socialmente, no cotidiano, muitas pessoas pressupõem as linguagens alheias pelo “sexo” que identificam ou pela aparência (que separam em masculina ou feminina). Ou seja, são atitudes que perpetuam cissexismo num geral e essencialmente o exorsexismo.

No inglês só existem pronomes e alguns títulos. Pessoas não usam artigos definidos e não existem flexões. Por isso as pessoas descrevem seus conjuntos de linguagem como he/him, she/her/hers, etc. Muitas pessoas trans e não-binárias do Brasil (e talvez outros países lusófonos) usam uma tradução imprecisa disso, colocando como conjuntos ele/dele, ela/dela, elu/delu, etc (sendo que o segundo elemento geralmente nem é o pronome possessivo). Na nossa língua isso se torna redundante e desnecessário, pois toda contração de pronome pessoal com de é d + (pronome). O sistema APF é mais específico e adequado, por desconstruir a ideia de que os pronomes ele e ela possuem artigos e flexões pré-determinades e óbvies, e por ampliar as possibilidades de linguagens pessoais.

Outro ponto importante e que ainda é recorrente nas comunidades trans e não-binária é categorizar todos os conjuntos de linguagem em masculinos, femininos ou neutros. Em consideração às pessoas não-binárias é mais adequado não ficar classificando os conjuntos da língua padrão de masculino ou feminino, e nem chamar todos os conjuntos de neolinguagem de neutros. Conjuntos de linguagem são conjuntos de linguagem. Isso parte do mesmo princípio de desconstruir que existem objetos e roupas para homens ou mulheres, assim como que existem sexos masculino e feminino. Sem contar que essas classificações perdem o sentido com conjuntos que misturam elementos da língua padrão e neologismos, como a/ila/a ou -/ele/e.

Falando no inglês e demais línguas que incluem uma terceira opção ou opção neutra de linguagem, o conjunto e/elu/-e será adotado sempre como adaptação dessas opções. Por exemplo, se eu for me referir a uma pessoa de um país anglófono que usa o conjunto they, utilizarei esse conjunto para ela. Usarei esse mesmo conjunto para pessoas de um idioma com apenas um pronome/uma opção de linguagem pessoal.

Também tenho uma tradução oficial para pessoas que usam it/it/its: i/ilo/-i. Cheguei nessa proposta extraindo o pronome “ilo” das palavras aquilo e isto/isso, e usando um artigo e uma flexão incomuns, assim como it é incomum como pronome para pessoas.

Traduções de conjuntos de neopronomes (como ze, ve, ey…) é uma discussão que ainda não foi feita. Até pela complexidade, pois não basta apenas ter uma tradução do pronome, mas pensar nos outros elementos gramaticais que o acompanham.

As linguagens o/ele/-o e a/ela/-a

Essas duas linguagens possuem uma carga social forte e pesada de serem associadas aos gêneros binários. Não são apenas gêneros restritos ao âmbito da gramática sem qualquer influência na realidade social. Elas são impostas às pessoas pelo sexo designado, junto com o gênero. Nem os animais são poupados disso. E por essa razão muitas pessoas não-binárias sentem desconfortos e até disforias pelo tratamento social. Propor mais que essas opções de linguagem é uma forma de tentar amenizar essas questões.

Mesmo assim, muitas pessoas não-binárias acabam optando por um ou ambos conjuntos padrão, mesmo que tenham identidades de gênero nada relacionadas aos gêneros binários. Pode ser por motivos pessoais, por conveniência, ou até por desconhecimento da neolinguagem. Há pessoas não-binárias que a conhecem e ainda mantém suas escolhas, ou por preferência, ou mesmo por serem contra a neolinguagem.

Também há pessoas que tentam utilizar mais a sintaxe neutra para si, assim tentando se afastar das cargas sociais da língua padrão e sem necessitar na neolinguagem.

Ainda é possível que se use as linguagens padrão de uma maneira “neutra”. Como a norma usa o gênero gramatical masculino como neutro, teoricamente, o conjunto o/ele/-o pode ser neutro por si só. E tem gente que associa o conjunto a/ela/-a com a palavra pessoa, assim mantendo todas as frases em sintonia com o gênero gramatical da palavra; uma solução muito próxima da sintaxe neutra.

Junto com a proposta da neolinguagem vem uma filosofia queer de se reapropriar de toda imposição de gênero; e isso inclui as linguagens. Em outras palavras, aqui se defende que todes usem a linguagem que quiser. Sim, aqui se defende que homens usem a/ela/-a e mulheres usem o/ele/-o (e isso já é realidade há muito tempo), ou que usem ambas as linguagens, e/ou que usem conjuntos de neolinguagem.

Quantos conjuntos de linguagem podem existir?

Teoricamente, incontáveis. Teoricamente, tudo pode ser artigo, pronome e flexão. Portanto, não apenas os elementos, mas as combinações entre eles abrem infinitas possibilidades. Mesmo assim não creio que, na prática, haverá tantas pessoas usando dezenas de conjuntos.

As pessoas devem ter em mente a comunicação, as modificações consequentes dependendo da escolha de pronome e flexão, e de possíveis limitações de um conjunto.

Escolher o pronome ilu implica no uso das variações dilu, nilu e aquilu. Então é uma escolha viável. No entanto isso seria complicado se alguém escolhesse, por exemplo, loi como pronome (dloi, nloi, aquloi).

Escolher como flexão elementos que sejam vogais, ou sílabas que comecem com vogais, ou consoantes lidas como vogais facilita a mudança de gênero no final das palavras. Isso se torna inviável se alguém quiser, por exemplo, ba como flexão (meninba, lindba).

Outras possibilidades implicam em mudanças de pronúncias e acentuações nas palavras, como nos exemplos de garoto e garotu (aqui a sílaba tônica é tu) e farmacêutique e farmaceutiqui (o acento muda, pois agora a sílaba tônica é qui).

E lembrando que a linguagem pessoal não se resume aos conjuntos! Também há outros elementos, como os pronomes demonstrativos e outros marcadores de gênero preferíveis. O sistema APF é ainda uma simplificação. Para descrever tudo que você usa ou prefere, bem, uma descrição completa é a solução, mesmo que seja longa.

Não é difícil encontrar textos e pessoas que falam contra o uso de X ou @ (arroba). Sim, há conjuntos de linguagem mais viáveis e aceitáveis como neutro universal; pois essas duas opções não têm pronúncia evidente, não são reconhecidas em todos os leitores de tela, atrapalham a leitura de pessoas disléxicas, e não promovem uma real mudança estrutural na língua (pois se limitam à parte escrita). Muites usaram arroba com a intenção de parecer as vogais o e a ao mesmo tempo (o que não é nada inclusivo).

No entanto, não deveria ser proibido alguém usar pessoalmente conjuntos com esses elementos. A pessoa precisa ter em mente a questão da inclusão e guardar esses conjuntos para espaços virtuais mais restritos. O mesmo vale para aquelus que utilizam emojis e outros símbolos como linguagens.

Por fim, algumas dicas de descrição de conjuntos de linguagem:

  • Se você não usa nada em algum elemento do conjunto, descreva usando – (traço).
  • Se você usa ou aceita qualquer possibilidade de algum elemento, descreva usando alguma abreviação de qualquer – q, qlq, etc – em parênteses, ou colchetes, ou chaves.
  • Se você usa mais de um conjunto, mas só há algumas mudanças entre um ou mais elementos, descreva usando parênteses ou colchetes e dentro deles o que você usa. Exemplos: (o, a)/(ele, ela)/(o, a); [-/(elu, éli, elz)/-e].

Manual de mudanças gramaticais e neologismos

O conjunto universal que adoto para criar uma linguagem neutra/sem associação de gênero é e/elu/-e. Junto com o conjunto virão modificações que seguem lógicas dentro das próprias estruturas da língua portuguesa e neologismos, para assim criar uma linguagem consistente e compreensível. Todas as alterações foram pensadas considerando todos os aspectos principais da língua, como escrita, pronúncia, etc. E, também, serão empregadas palavras novas como alternativas para os vocábulos heterônimos (como pai e mãe).

Utilizo esse conjunto por ser algo mais aderido dentro e fora da Internet; e, aparentemente, será o sistema mais usado no futuro, talvez sendo oficializado como um sistema unificado de “gênero neutro” na língua padrão. O pronome elu existe há muito tempo. A flexão -e é reconhecível (há palavras terminadas em e na língua padrão) e pronunciável. A questão do artigo definido ainda não tem uma resposta.

E, apesar de muites protestarem, farei uso do artigo definido e pelos seguintes motivos: a) para combinar com a nova flexão proposta; b) por ser a única vogal que pode servir como neutra sem parecer “estranha” (a vogal i como flexão é muito incomum, além de que e terá som de i em muitas situações); e c) quero insistir na ideia de normalizar seu uso como artigo além de ser uma conjunção aditiva, afinal temos outras palavras com mais de uma função na nossa língua (a é artigo, preposição e pronome oblíquo átono).

Pode haver outras pessoas e fontes que usem outros sistemas; por exemplo, artigo le e pronome ile. Elas não estão erradas. Nenhum sistema de neolinguagem está errado. Mas aqui manterei o conjunto que falei.

Obs: embora aqui nesse sistema e/elu/-e seja um conjunto neutro, pessoas que usam esse conjunto para si podem querer usá-lo por outros motivos e nem considerá-lo um conjunto neutro. Portanto, recomendo não resumir esse conjunto a algo unicamente neutro.

1- Começando pelo próprio conjunto, e/elu/-e:

E será usado como artigo neutro ao lado de o e a.

Nota: sobre a pronúncia do artigo no plural, es, pode ser recomendado falar como “is”, para assim não confundir com “ex” usado em certos termos (como “ex-estudante”).

— aqui também se inclui todas as possíveis contrações com o artigo: ae (a + e), de (de + e), ne (em + e), pre (para + e), e pele (por + e).

– O pronome elu (e suas variações) será usado para situações em que:

— elementos de gêneros gramaticais diferentes estão juntos.

— o gênero ou conjunto de linguagem de alguém não é conhecido.

— há pessoas de diferentes pronomes juntas (ele e ela, ela e ile, elu e ilo, etc). Aqui só há exceção quando os pronomes das pessoas são os mesmos.

Nota: a pronúncia de elu gera dúvidas até hoje. Porém, tecnicamente, de acordo com a gramática tradicional, essa palavra seria pronunciada como e-lú.

– Palavras flexionadas com –o e –a (e outras variações) serão também flexionadas com –e, trazendo ou não possíveis mudanças estruturais de acordo com a gramática tradicional.
Exemplos: menine, linde, amade, tie, primes, todes, nosses, tantes.

— Isso valerá também para palavras cuja forma gramatical “masculina” termina numa consoante, e a forma gramatical “feminina” termina em a.
Exemplos: ume (um/uma), professore (professor/professora), inglese (inglês/inglesa).

— Isso valerá também para as formas derivadas dos pronomes pessoais explicadas anteriormente: pronome oblíquo e, flexões de verbo –le e –ne.
Exemplos: “eu e convidei”, “vou convidá-le”, “convidaram-ne”.

2- Sobre as modificações possíveis:

– Quando numa frase há dois ou mais elementos de gêneros gramaticais diferentes, serão referidos com a flexão –e e neologismos desse sistema. E vale ressaltar aqui que a coerência gramatical deve ser mantida, da mesma forma que é mantida com ambos gêneros gramaticais normativos.

Exemplos: “muites sites e pessoas usam esse termo”, “minha mesa e meu armário foram comprades na mesma loja”, “sues livros e canetas estão largades na cama”.

– Palavras terminadas em -go e -ga terão como alternativa –gue.
Exemplos: amigue, psicólogues.

– Palavras terminadas em -co e -ca terão como alternativa –que.
Exemplos: simpátique, médiques.

– Palavras terminadas em -ão e -ã terão como alternativa –ane.
Exemplos: irmane, guardianes.

– Palavras terminadas em -ão e -oa/-ona terão como alternativa –one.
Exemplos: leone, patrones.

– Palavras terminadas em -eo e -ea terão como alternativa –ie.
Exemplos: conterrânie, gêmies.

– Palavras terminadas no plural em -es e -as terão como alternativa –ies.
Exemplos: trabalhadories, chinesies.

– Palavras terminadas em -e e -a terão como alternativa –ie, e o plural também será –ies.
Exemplos: presidentie, parenties.

*Obs: uma parte da população continua usando a terminação -e para qualquer gênero, então essa mudança acaba sendo opcional.

– Palavras terminadas em -eu e -eia terão como alternativa –ie.
Exemplos: atie, europie.

– Palavras com terminações variadas e -esa/-essa/-isa terão como alternativa –ixe.
Exemplos: sacerdotixe, duquixe.

– Para as palavras terminadas em -dor e -triz a alternativa será –ter.
Exemplos: imperater, embaixateres.

*Obs: pode ser que o prefixo -triz caia em desuso, o que tornaria esse novo não utilizável.

3- Sobre os neologismos propostos:

– Para os pronomes possessivos seu, sua e teu, tua as alternativas serão sue e tue.

– Para os pronomes possessivos meu e minha a alternativa será mi.

– Para os pronomes demonstrativos este, esta e esse, essa as alternativas serão estu e essu.

– Para os numerais dois e duas a alternativa será dues.

– Para as palavras bom, boa e mau, má as alternativas serão bone e male.

– Para as palavras pai e mãe, a alternativa preferencial minha será nam. Para avô e avó, minha alternativa será avu.

– Para as palavras paternidade e maternidade, a alternativa será naternidade.

Outros neologismos podem aparecer ocasionalmente, mas até então essas são as alternativas que serão aplicadas oficialmente.

Obs: aqui não estão todos os neologismos possíveis e já formulados. Para uma lista maior, clique aqui.

Com toda essa proposta apresentada, pode haver a seguinte dúvida: deve-se aplicar então a neolinguagem com palavras de gênero invariável, como os pronomes isso, isto e aquilo, pois são acompanhados pelo “masculino genérico” também? Não há resposta para isso. Há pessoas que usam e/elu/-e com esses termos, e há pessoas que permanecem com as normas.

Por fim, um tópico que gera controvérsias é o uso de neolinguagem para animais. Não há nenhum real motivo para não ser usada com eles. Animais cujos nomes possuem flexão, como gato e gata, entram nas regras normalmente. Sobre usar uma neolinguagem com um animal específico, como um conjunto de linguagem pessoal pra ele, de novo, não há motivo para não fazer esse uso; além disso, linguagens são impostas a animais de acordo com o sexo, e isso remete a mesma lógica de sexo = gênero. Deveríamos romper com isso. Eu, pelo menos, incentivo o uso de linguagens diferentes para animais.

Ressaltando que essas são as regras adotadas pelo sistema daqui do blogue. Outres lugares e pessoas podem usar minhe em vez de mi, su em vez de sue, boe em vez de bone, essie em vez de essu, etc. E, além disso, as linguagens pessoais devem ser respeitadas sempre; isso inclui as preferências por palavras e modificações!

Enfim, acredito que aqui está tudo que precisava ser falado sobre os princípios e conceitos da neolinguagem, e sobre o sistema aplicado no blogue. Haverá mais conteúdo posteriormente desenvolvendo mais sobre o tema.

Dúvidas? Pergunte.

Links adicionais:

Orientando – O que é neolinguagem

Orientando – Guia pró-neolinguagem de linguagem neutra universal

Introdução A – Introdução à Neolinguagem | Lune & Aster Sant’anna

Medium Ophelia Cassiano – Guia para “Linguagem Neutra” (PT-BR)

Wikipédia – Linguagem neutra de gêneros gramaticais

Blog do Crato – A proposta do Português com Inclusão de Gênero

Medium T. – Em defesa de uma multiplicidade de pronomes

Medium T. – Como criar um pronome?

Tumblr Exorsexismo – porque separar linguagem entre “masculina”, “feminina” e “neutra” não é legal

Ume Garote Alternative – Em defesa da neolinguagem

Medium TODXS – Neolinguagem: um futuro inclusivo e contra o cistema

Amplifi.casa – Como exemplificar seu conjunto de linguagem

Amplifi.casa – Artigo, pronome, final de palavra

Amplifi.casa – Motivos para não usar “pronome/d[pronome]” como indicação de conjuntos de linguagem

Amplifi.casa – Uma postagem sobre conjuntos e neolinguagem inspirada por respostas erradas

Amplifi.casa – Guia para o uso de i/il/i como linguagem neutra

Revista Movimento – O papel e a função da linguagem não binária ou neutral no contexto das redes online (contém algumas concepções equivocadas/reducionistas do tema e linguagem problemática [cissexista e exorsexista])

Wiki Identidades – Linguagem não-binária ou neutra (tem muita coisa obsoleta)

Medium Oltiel – Manual sobre a linguagem de pessoas não-binárias em mídias traduzidas

Medium Oltiel – Adaptação de pronomes usando neolinguagem

Tumblr NBH Brasil – Os pronomes além de ‘ele’ e ‘ela’ sob o aspecto histórico da língua portuguesa

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