Os argumentos contra a neolinguagem

Aviso de conteúdo: discursos anti-neolinguagem, cissexismo e exorsexismo, elitismo, capacitismo, contém ironias, contém links externos.

O título é uma pegadinha. Vocês jamais me verão argumentando contra a neolinguagem. Não. O que postarei aqui são respostas para os supostos argumentos contrários a ela.

Praticamente todas as vezes em que vi esse assunto bombando e tendo repercussão foram por postagens de pessoas contrárias a ele (principalmente e quase sempre feministas radicais) (pois elas parecem ser muito desocupadas). E os “argumentos” são sempre os mesmos.

Caso não tenha ficado evidente, esse texto é direcionado para pessoas a favor da neolinguagem e que desejam embasar melhor sua defesa do tema, pessoas que gostariam de entender melhor os motivos da existência dela e por que ela é válida, ou pessoas que até então estão contra ou resistentes a ela mas abertas a entender “o outro lado da história”.

Colocarei aqui os principais “contra-argumentos” à neolinguagem que, como falei, são sempre repetidos por opositories, e explicarei por que cada um deles não tem validade. Focarei em argumentações mais elaboradas, não em opiniões simplórias como “isso não vai pegar” ou “apenas acho desnecessário”.

Para ler sobre neolinguagem, clique aqui.

Para ver listas de termos usados no texto, clique aqui e aqui.

  • Inacessibilidade

É nesse momento que um monte de gente na Internet decide se preocupar com populações periféricas, com o analfabetismo, e com as necessidades de PCDs e neurodivergentes.

E nesse monte de gente vamos encontrar pessoas que: escrevem palavras abreviadas, palavras estrangeiras, usam caracteres especiais, não pontuam postagens, não descrevem qualquer imagem que postam, entre muitas outras ações que tornam a Internet um lugar excludente, difícil ou intolerável para qualquer um desses grupos.

Muito bem, hipocrisias à parte, vamos focar na ideia: “A neolinguagem é inacessível para essas pessoas, portanto é elitista e capacitista. Ela não chega na periferia, não pode ser aplicada num país com tanta gente analfabeta, não pode ser adaptada para pessoas cegas ou surdas, e não consegue ser aprendida ou entendida por quem tem dislexia ou autismo.” É tudo isso que é dito e repetido pela oposição.

Instrumentalizar pessoas periféricas, analfabetas, com deficiência e neurodivergentes tem apenas dois nomes: elitismo e capacitismo. E não se surpreendam ao reparar que a grande maioria das pessoas que invoca esses grupos na contra-argumentação sequer pertence a um ou mais desses grupos; e aqui temos um agravante, que é o roubo do local de fala.

Tratar pessoas periféricas como incapazes de aprender novas informações, julgar o que é ou não é necessário nas periferias, e tratar as periferias como uma grande entidade homogênea (tanto que falam sempre no singular, “a periferia”) é elitismo.

Utilizar-se de um problema estrutural na educação para justificar não haver mudanças válidas na linguagem é hipócrita, contraditório e elitista também.

Essa preocupação falsa ou superficial com pessoas cegas e surdas, além de condescendente e ridículo, é capacitista. O braile pode ser facilmente adaptado e libras é uma língua em que marcadores de gênero são mais opcionais que inevitáveis (na maior parte sequer existem).

Usar as pessoas disléxicas e autistas é subestimar as capacidades dessas pessoas e ignora que as mesmas barreiras e dificuldades que elas poderiam ter com o assunto podem ter com muitos outros assuntos (como a própria língua padrão, matemática, etc); ou seja, capacitismo de novo, além da homogeneização desses grupos.

Felizmente, muitas pessoas de regiões periféricas e neurodivergentes se pronunciaram contra esses posicionamentos e a instrumentalização cometida contra elas (embora nem todas fossem totalmente a favor da neolinguagem). E são elas que deveriam estar mesmo opinando sobre esses aspectos de acessibilidade.

Uma coisa cômica nesses argumentos é a insistência dessas pessoas (quase sempre cis) de que ainda há gente propondo o uso de xis e arroba (de fato, inacessíveis). Se é para contra-argumentar, ao menos se atualizem; já faz anos que muitas pessoas trans/n-b estão falando contra o uso desses caracteres e tentando difundir uma neolinguagem mais acessível e possível de ser aderida (que, no caso, é exatamente essa que utilizo aqui no blogue).

Há gente que afirmou que até mesmo a flexão –e não é reconhecida por leitores de tela. Ou isso é uma mentira deliberada, ou é apenas desinformação. A preocupação com leitores de tela é pertinente, pois precisariam ser configurados para ler corretamente palavras modificadas e neologismos. É um problema simples de se resolver. Mas, sim, leitores de tela já são capazes de entender muitas palavras flexionadas com –e.

Gente querendo usar braile, libras e leitores de tela num argumento, mas evidentemente sem nem conhecer a fundo como essas coisas funcionam… Preciso mesmo levar isso a sério?

“Mas o analfabetismo não é um problema para tudo isso?”

Com certeza traz dificuldades, mas pessoas não apenas leem e escrevem como também falam. E mais, se uma nova linguagem não pode existir por causa desse problema estrutural, então que cancelemos novos acordos ortográficos, a própria norma culta da língua, ou mesmo dialetos como o pajubá e regionalismos. Ou melhor, vamos cancelar todos os ativismos sociais devido ao tanto de gente ignorante ou sem contato com eles.

Ah, e mais coisa: se recusar a respeitar a linguagem de gênero de alguém porque há pessoas ignorantes sobre ela não faz sentido e só comprova seu preconceito.

  • Morfologia

“O latim perdeu o gênero neutro, que se assimilou ao gênero masculino; ‘o’ indica a ausência de gênero, portanto o masculino já é neutro.”

Quem usa a morfologia do gênero gramatical como defesa é tão incoerente quanto quem justifica significados literais de certas palavras por causa de prefixos e sufixos (como quem defende que atração bi deve se referir a apenas dois gêneros por causa do prefixo bi). A sociedade faz a linguagem. A linguagem reflete uma realidade; ela não existe antes para então moldar a realidade.

Primeiro de tudo, ninguém está desconsiderando o processo da transformação do latim para o português atual. Inclusive, esse processo foi e está sendo considerado em estudos acadêmicos sobre neolinguagem. É um tanto cômico ver isso sendo usado contra a proposta, pois vejo esse fato como mais um ponto favorável à existência de um gênero gramatical neutro.

Agora, existe uma coisinha chamada sociolinguística. É uma área que estuda a relação entre uma língua com a sociedade. Isso é o que estudos feministas e de gênero estão discutindo há muito tempo. A morfologia é a morfologia, e só gente com um acesso amplo à informação saberá disso. Mas ninguém ensina essa morfologia à sociedade num geral.

Desconsiderar a influência de uma língua numa sociedade ou é muita alienação ou é uma falácia descarada. De repente a sociedade se desconstruiu e parou de associar a linguagem o/ele/o com homens, exclusiva ou primariamente? Quando isso aconteceu?

E não me venham com “a língua não precisa ser inclusiva” ou “a língua não é opressiva”. São as línguas que devem se adequar aos indivíduos, e não o contrário. E se a língua não pudesse ser opressiva, termos pejorativos ou segregacionistas não existiriam.

Estamos falando de uma estrutura que parte de três princípios: que o gênero masculino é universal e padrão, que só podem existir dois gêneros, e que gênero e sexo são a mesma coisa. Temos aqui um combo de machismo e cissexismo-exorsexismo. E a neolinguagem procura romper exatamente com tudo isso; o que é inevitável, pois está tudo junto e misturado.

Mesmo se a linguagem o/ele/o fosse mantida como neutra universal e uma terceira opção gramatical fosse inclusa, não faria sentido usá-la para se referir a um grupo de pessoas que usam a/ela/a e essa terceira opção (ex: ela + elu = eles?).

Haverá mais elaboração disso no próximo tópico, pois é quase uma continuação das ideias.

  • Gênero ≠ Sexo

“Gênero gramatical não tem a ver com sexo. É só como a língua se estruturou.” E, de repente, a língua deixou de ter qualquer influência sobre o meio social! Que milagre, né?

Ora, se gênero gramatical não tem absolutamente nenhuma relação com sexos, então por que não criamos todas as pessoas com qualquer linguagem de gênero? Por que insistimos em tratar animais machos por o/ele/o e animais fêmeas por a/ela/a?

Ninguém cria bebês de qualquer sexo por o/ele/o por ser “o bebê”, ninguém trata uma pessoa barbuda e musculosa por a/ela/a por ser “a pessoa”. Não sei que sociedade desconstruída é essa, mas com certeza não é a nossa.

E esse argumento absurdamente furado desconsidera também a sociolinguística, como já foi explicado no tópico anterior.

Já que os gêneros gramaticais nunca foram impostos a pessoas (e seres) por seus sexos, então que todas as pessoas adotem e sejam desde sempre criadas e tratadas por qualquer linguagem de gênero. Isso é o mais coerente de ser feito, não? Por que isso nunca foi feito?

Não, vamos dar um passinho para trás e voltar à questão da neutralidade padrão. Supondo então que não há nada de errado com a norma de se referir a todos os gêneros por o/ele/o. Por que então não falamos “os gestantes”, já que homens trans existem e há aqueles que engravidam? Por que não fazemos propagandas de conscientização ao câncer de mama e convocamos a “todos” para fazer o exame, já que homens trans existem e há aqueles que possuem seios?

Com exceção dos objetos, há uma estrutura que associa gênero gramatical com sexo, sim. Se chama cissexismo, e não é novidade para pessoas cisdissidentes. E ainda é uma estrutura exorsexista, pois, caso não fosse, haveria um gênero gramatical para pessoas intersexo (ao menos aquelas com genitálias atípicas) ou para seres hermafroditas e assexuados. Esse argumento todo deveria ganhar um prêmio de “negação absurda e arbitrária da realidade”.

Bônus: feministas radicais adoram falar numa abolição de gênero, mas não aceitam ser referidas por o/ele/o (neutralidade padrão) e nem aceitam a proposta de um gênero neutro universal pela neolinguagem. Lógica? Não existe.

  • Estrangeirismo

Muito bem, esse pseudoargumento tem um pontinho de justificativa para existir. E isso, infelizmente, é culpa da comunidade trans/não-binária brasileira. Porque a comunidade importou, literalmente e de forma impensada, o modelo de linguagem anglófono.

Na língua inglesa, a linguagem pessoal se resume a pronomes (e adjetivos possessivos). Na língua inglesa, faz sentido alguém descrever sua linguagem como, por exemplo; pronome pessoal, pronome de objeto e pronome possessivo.

Na língua portuguesa, não. Porque na língua portuguesa existem os artigos e as flexões de gênero, pronomes são uma parte da linguagem, e, com todo respeito, descrever sua linguagem como “pronome pessoal/contração do pronome com a preposição de” é ridiculamente redundante nesse idioma (curiosidade: dele, dela, delu, etc nem são pronomes de acordo com a gramática). A importação foi tão forte que muitíssima gente reduz linguagem pessoal a “pronomes”; isso, gramaticalmente, é muito errado e sem sentido.

Mas, continuando, a merda está feita e percebo que ainda vai demorar que haja aderência ao modelo APF (artigo/pronome/flexão). Mesmo assim, isso não sustenta o argumento em si. A importação da linguagem foi feita de maneira ruim, mas os motivos por trás disso são legítimos; afinal não existe pessoas não-binárias e/ou não-conformistas de linguagem apenas na anglosfera.

Não duvido que os pronomes neutros do inglês tenham sido inspiração para a formulação e implementação da neolinguagem. Podem até ter sido o estopim (não tenho informação suficiente para afirmar ou negar isso).

Só que, independentemente da resposta, o pensamento de que “isso não é válido porque veio de fora” é muito ridículo de tão simplista e raso. Mais ridículo que isso é acusar a neolinguagem de estar impondo um estrangeirismo à língua portuguesa, sendo que ela está sendo construída totalmente dentro da gramática do idioma e se adequando a suas particularidades.

E, como já falei, línguas que devem se adequar ao indivíduo. E a língua padrão atual é incapaz de se adequar a pessoas de outros países que utilizam uma linguagem pessoal que não seja associada aos gêneros binários. Não é justo com elas. Nem justo com outras pessoas daqui, da lusosfera, que existem e que também são excluídas da própria língua, e agora estão tendo voz para falar e demandar que sua individualidade seja respeitada. E foda-se que se inspiraram em algo de fora, se isso as fez enxergar possibilidades melhores.

“Estrangeirizar” a língua seria, no máximo, utilizar palavras de outras línguas de forma indiscriminada, coisa que ainda fazemos muito e deveríamos parar quando possível. Entendo que há palavras muito difíceis de traduzir ou adaptar, mas termos como “deadname” (nome morto) ou “misgender” (maldenominação) possuem tradução e adaptação possíveis.

Ah, é até possível que palavras modificadas ou novas acabem ficando muito parecidas ou idênticas com palavras de outras línguas latinas, o que também pode parecer estrangeirismo. Porém, não vejo por que isso deveria ser um problema, pois as línguas latinas são muito próximas e não é absurdo línguas diferentes terem palavras iguais.

Se o problema aqui é importar, vamos então criticar outras importações? Muito raramente alguém adapta a palavra gay para algo mais “aportugueisado” (guei). As identidades lésbica, bissexual e transexual/transgênero são traduções de palavras cunhadas na anglosfera. Que tal devolvermos essas palavras à língua original e cunharmos nossas próprias ou usarmos o que já existe aqui (viado, bicha, sapatão, etc)? Que tal usarmos uma sigla cunhada aqui mesmo? Porque usar isso só contra neolinguagem ou termos como queer é bem desonesto e hipócrita.

Conclusão:

Todas essas argumentações não são e nunca foram fundamentadas em análises críticas ou preocupações reais. Acredito que existe um fortíssimo viés exorsexista por trás disso, mas também deve incluir uns conformismos (preguiça de aprender uma linguagem nova) e um sexismo básico (não querer que “o masculino” perca seu posto de universal e padrão).

Outras constatações furadas incluem gente afirmando que “as pessoas não-binárias querem obrigar todo mundo a usar neolinguagem”, que “querem que isso seja aprendido de um dia pro outro”, e que “idoses não vão entender”. Tudo isso é mais exageros e invenções descaradas que fazem para reforçar a oposição.

Pessoas não-binárias não têm qualquer mínimo poder de obrigar alguém a usar uma linguagem diferente, ninguém com bom senso espera que a língua vai se modificar em tão pouco tempo (nunca nem vi alguém achando isso), e, por fim, instrumentalizar idoses se chama etarismo (além de que ninguém necessita da validação de um grupo etário).

Enfim. Continuo aguardando argumentos legítimos contra a neolinguagem.

Links adicionais:

Em defesa da neolinguagem

Neolinguagem: um futuro inclusivo e contra o cistema

O “X” DA QUESTÃO: GÊNERO NA ESCRITA | PAPO DE LINGUISTA | JANA VISCARDI (aviso de conteúdo: contém palavras capacitistas.)

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